Publicidade básica.

Seguindo um pedido de alguns impopulares, hoje eu falo sobre o mínimo que você precisa saber para lidar com decisões sobre comunicação de uma empresa. Meu foco vai ser em pequenos negócios, mas não duvide: muitas grandes empresas não tem a menor noção nem mesmo desse mínimo.

Pra começo de conversa, temos que entender uma regra geral: cada elemento da comunicação existe por um motivo. Um logo, uma embalagem, uma propaganda numa revista, uma postagem na rede social… seja lá o que você estiver fazendo ou aprovando, tenha em mente que não é só questão de ser bonito ou “chamativo”, tem que cumprir a sua função. Eu costumo dizer que designers são artistas da praticidade, e isso quer dizer que diferentemente de um pintor ou escultor que trabalha puramente por inspiração, expressando o que sente, a pessoa que cria para a publicidade tem sempre que ter em mente que está fazendo algo que outras pessoas vão usar. É mais próximo de alguém que cria sofás confortáveis do que alguém que faz uma instalação artística num museu.

Ou seja: não é sobre você, é sobre quem vai consumir o material. Por isso nunca esqueça desse mantra: você não é o seu público-alvo. É um dos erros mais comuns de profissionais em início de carreira achar que só porque eles gostam ou entendem uma peça publicitária ou de identidade visual que ela já está boa para ser lançada no mercado. Comunicação é complicada, ninguém é obrigado a entender as mesmas coisas que você, ninguém é obrigado a ter o mesmo gosto que o seu. Seja o mais abrangente possível, simplifique tudo o que puder e jamais se esqueça do porquê daquele material.

Vamos explicar isso de forma mais prática, usando os elementos mais comuns de uma comunicação publicitária:

Logo: produzir um logo para uma empresa é uma das tarefas mais complexas desse ramo. A quantidade de variáveis é enorme e cada pequeno elemento dele pode influenciar como as pessoas enxergam uma empresa. Por isso, a primeira dica aqui é: se você pode pagar para um profissional cuidar disso, pague. Mas, às vezes não é possível, especialmente se você está começando (ou é um pão-duro). Nesses casos, vamos entender algumas coisas básicas: logos tem que ser simples. Imensamente simples. Eu só considero um logo pronto quando eu não consigo tirar absolutamente mais nada dele sem perder o significado. E por que ele tem que ser simples? Porque as pessoas têm que reconhecer você rapidamente não importa quão longe estiverem do seu logo, e hoje em dia, quão pequeno ele estiver numa tela.

É melhor um logo escrito numa fonte simples em preto num fundo branco do que a maioria das aberrações que eu vejo em pequenas empresas por aí: um festival de cores, símbolos e fontes que vira um amontoado de informações na cabeça dos seus clientes potenciais e impedem que eles se lembrem de você no futuro. Evidente que é mais complicado do que isso, mas para resumir, você tem que escolher uma ou duas cores que tenham contraste entre elas, uma fonte fácil de ler, e se fizer questão, um símbolo tão simples quanto um ícone de aplicativo de celular. Mais do que isso é quase certeza que vai te atrapalhar mais do que ajudar.

Veja o seu logo de longe, veja o seu logo minúsculo numa tela de celular. Se você ainda consegue reconhecer o nome ou o símbolo da sua empresa, é um ótimo começo. Não faça logos para ficarem bonitos numa grande fachada ou no papel de parede do seu computador, faça algo que seja fácil de reconhecer em qualquer lugar. Use fontes que pareçam com letras normais, nada daquelas fontes rebuscadas de tatuagem e convite de casamento. Ninguém consegue ler isso direito. Não abuse das cores, uma ou duas já resolvem. Cada cor tem um significado, mas na prática isso não é tão importante assim, muito dessa teoria que diz que verde significa esperança, azul significa modernidade e coisas do tipo não funciona da forma como se espera, porque não são reações conscientes das pessoas. Na média, considere que cores quentes (mais próximas do vermelho) são mais tradicionais e humanas, e as frias (mais próximas do azul) mais modernas e tecnológicas. Tons pastéis (vulgo cores mais desbotadas) são mais infantis e “família”. E mesmo assim, são regras que podem ser quebradas numa boa. Não sofra por cores. Olhe os logos de empresas grandes de áreas parecidas com a sua para ter a noção de quais as cores mais combinam com o mercado.

Ah, no logo vai o nome da sua empresa e basicamente nada a mais. Eu sugiro que em casos onde o nome não é descritivo sobre o que você faz, não custa nada colocar uma ou duas palavras que expliquem isso junto. Especialmente quando você está começando e ninguém tem a menor ideia de quem você é no mercado. Se você vende brigadeiros, é bom que sua empresa se chame “NOME Brigadeiros”; se você faz depilação, “NOME Depilação” e assim por diante… estou entrando um pouco em teoria de nomenclatura de negócios, mas são conceitos básicos que acabam influenciando no logo. E por fim, depois que decidir um logo, siga com ele, sempre o mesmo em todas as peças. Não pode mudar cor, formato, fonte e nada mais. Sempre o mesmo, ok?

Papelaria e embalagens: por papelaria eu quero dizer cartão de visita, bloco de anotações, papel timbrado (o papel oficial da empresa) e tudo mais que você usa no dia a dia da sua empresa e acaba na mão de clientes e fornecedores. De forma simples, basta lembrar que você criou uma obrigação com o seu logo: as cores e o estilo dele vão ter que estar representadas nesse material. Nada de fazer um logo supermoderno e colocar num cartão com textura de madeira envelhecida, ok? A partir do seu logo você cria uma identidade para a empresa, e essa identidade tem que fazer parte de tudo o que você mostra para os seus clientes. Se seu logo é fofinho, o resto do seu material tem que ser igualmente fofinho.

As cores que você escolheu para o logo devem ditar o resto desse material. Não precisa ser sempre as mesmas cores, mas devem combinar e seguir o mesmo estilo. Na dúvida, branco combina com quase tudo. De novo, todo esse material deve ser baseado na função dele: um cartão tem que mostrar bem as formas de te contatar, um orçamento ainda deve explicar claramente o serviço e o preço… nunca deixe a vontade de fazer algo mais “design” entrar na frente da função da peça. Até porque, como eu disse, design não é sinônimo de arte, design é sobre facilitar a vida das pessoas. Não sabe o que fazer? Deixa tudo branco com texto escuro e dá destaque para seu logo e as informações úteis do material. Melhor ser simples do que ser confuso. Confusão te faz perder negócios.

Se você trabalha com embalagens, função é ainda mais importante: tem que funcionar perfeitamente para a finalidade dela, e só depois tem que ser bonita e memorável. Use embalagens padronizadas que você só personaliza com seu logo caso não tenha um especialista trabalhando com isso. Não economize em nada que tenha a ver com qualidade e função da embalagem, isso vai deixar seus clientes irritados, uma arte simples não vai. Faz o simples direito.

Redes Sociais: hoje em dia elas são muito importantes, mas não se deslumbre, acabou a era inocente da internet. Você vai ter muita concorrência e as pessoas sabem mais ou menos o que esperar de propagandas e comunicação empresarial no meio. Não é mágica, é trabalho e consistência. E possível alcançar um público decente sem pagar para aparecer, mas a não ser que você esteja mostrando mulheres seminuas de forma consistente nos seus perfis, prepare-se para trabalhar bastante antes de ver resultados.

Abra sua conta no Facebook, no Instagram, no Linkedin, onde quer que seu público esteja. Não adianta vender salgados no Linkedin, não é muito indicado vender consultoria empresarial no Instagram… cada rede tem uma lógica de funcionamento. Não quebre o fluxo de conteúdo do seu cliente na rede social: uma pessoa que está no Instagram para ver gatos, comida e celebridades tende a não dar nenhuma chance para conteúdos diferentes disso. Conheça o lugar onde está e foque numa rede social que você já usa para começar.

E mais importante: saiba o que você está fazendo lá. Ninguém ganha dinheiro com curtidas. Grandes coisas fazer um post com cem mil curtidas se isso for alcançado com algo que não faz as pessoas lembrarem da sua marca, produtos ou serviços. Ter um milhão de seguidores é inútil se esses seguidores só te seguem porque você os seguiu, ou porque você comprou esse número. Isso mais te atrapalha, inclusive: para vender anúncios, as redes sociais reduzem a quantidade dos seus seguidores que veem seu material, então quanto mais seguidores inúteis, menor a chance de pessoas que realmente podem te dar dinheiro de ver o seu material. Siga quem te interessa e deixe que sigam você aqueles que realmente estão interessados.

E para isso, você tem que entregar conteúdo relevante para esses seguidores: não precisa postar meme e corrente para encher linguiça, precisa postar coisas que tem a ver com o seu mercado, e coisas que vendam o que você quer vender. Se você vende comida, tire fotos caprichadas delas, poste receitas, fale sobre ingredientes… não saia da sua área, porque você não vai saber do que está falando e vai parecer menos interessante para quem te seguiu por causa da sua proposta original. Fale sobre o seu tema, e aprenda a falar de forma cada vez mais interessante. Não precisa reinventar a roda: os influencers mais eficientes são aqueles que fazem… o básico bem feito. Se você quer ter esse tipo de poder, não falhe na sua única obrigação: saber do que fala e fazer coisas caprichadas na sua área.

Pare de focar em curtidas e seguidores, isso não dá dinheiro para empresa nenhuma por si só. Um perfil com 100 seguidores que realmente gostam do seu produto rende mais dinheiro do que um perfil com 10.000 que só estão lá porque você segue eles também. Um perfil lucrativo demora para ser estabelecido e precisa ser alimentado com novos materiais constantemente. Se você aguentar postar várias vezes por dia com conteúdo interessante, faça. Se você só conseguir uma vez por semana, melhor do que nada. Se você não conseguir nem isso, repense se rede social é para você agora, ou contrate alguém que dê conta do recado.

Propaganda em geral: se você quer fazer um folheto, um banner na internet, uma propaganda em revista ou jornal (tem gente que ainda lê, ainda mais se pessoas mais velhas compram seu produto) ou qualquer outra forma de propaganda mais barata, lembre-se das mesmas regras da papelaria. Simples e objetivo. Saiba o motivo pelo qual você está fazendo aquilo: quer que as pessoas achem seu site? Que visitem sua loja? Que comprem uma promoção? Escolha um objetivo e siga com ele. É tentador querer colocar tudo isso na mesma peça, mas isso só vai atrapalhar: quando tem muita coisa numa propaganda, a tendência é que as pessoas nem tentem prestar atenção nela porque vai dar muito trabalho.

Contrate alguém para montar a peça, se você precisa desse guia, não consegue fazer uma arte sozinho. Dá para economizar com gráficas rápidas, mas você vai entrar numa loteria: talvez a pessoa que esteja lá fazendo as artes seja muito boa (agências contratam essas pessoas quando as descobrem, então boa sorte achando), mas talvez seja alguém que não tem a menor ideia de como fazer isso. Se o dinheiro está apertado, dá para arriscar. Mas você recebe o que você paga. Se você passar um objetivo bem simples e pedir para a pessoa deixar a arte mais clean, tende a ter resultados melhores. Não deixe a pessoa inventar muito, porque quem sabe inventar moda e fazer funcionar cobra muito caro. Simples bem feito, essa é a regra da vida para quem vai fazer publicidade sem suporte de profissionais.

Tem mais? Tem muito mais. Mas acho que isso cobre o básico para você não atrapalhar sua empresa. Enquanto você não tiver como ter o suporte de uma boa agência de publicidade, vai no básico, vai na simplicidade e na objetividade. Concentre-se em fazer o seu produto ou serviço serem muito bons, porque não tem propaganda no mundo que substitua isso. Com o tempo e uma boa noção de finanças, a maioria das empresas que trabalham com qualidade e conhecem seus clientes conseguem ir para a frente. Propaganda é a alma de um negócio que está saudável.

Para dizer que continua não entendendo nada, para dizer que é só apertar um botão no computador para fazer esse trabalho, ou mesmo para dizer que agora entendeu que nada é de graça nessa vida: somir@desfavor.com

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Comentários (14)

    • Deus me livre se ter que voltar a fazer o que eu era pressionada a fazer quando trabalhava no funcionalismo público. Deus me livre de trabalhar engessada, sem poder criar, sem poder inovar, sem poder fazer nada fora da burocracia. E Deus me livre de perder mais anos da vida estudando e fazendo dezenas de concursos até passar. Não almeje isso.

    • Concurso público é uma verdadeira merda! São trocentos mil candidatos pra uma mixaria de vagas, fora as vagas reservadas pro esqueminha ou pra quem comprou o gabarito, marcam local de prova lá pra puta que pariu. Ah… vá idealizando concurso público, vá! Perda de tempo e de dinheiro.

  • O lance das redes sociais é que me quebra… não tenho saco pra ficar atualizando um perfil, mesmo que só 1 vez por semana, nem entendo como outros conseguem criar tanto material pra postar com frequência, esse jeito infinito que as redes sociais possuem me deixa meio confuso/intimidado.

        • É bem sério. Manda um email para a gente explicando suas necessidades e objetivos, que conversamos com calma.

          Só me avisa aqui quando enviar, pois nem sempre conseguimos abrir os emails do desfavor.

          • Que top. Estou gerenciando um projeto na empresa de geração distribuída e tudo encaminha pro desmembramento e a criação de um novo negócio, porquê o ramo de atividade principal hj é o agro.

            Se tudo encaminhar bem e a tendência é um crescimento exponencial do mercado eu procuro vcs pra ver essa parte.

  • Texto muito bacana, Somir. Já repassei o link daqui pra uma porção de gente e acho que daqui pode até surgir uma série de posts sobre este tema. E eu acho que, a começar do logo, o mais difícil é criar algo que, apesar de ser extremamente simples, diga tudo o que precisa ser dito e ao mesmo tempo também torne a empresa visualmente distinguível das concorrentes.

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