Dia de Sísifo.

Talvez muitos de vocês não conheçam a história de Sísifo, vinda da mitologia grega, que dá o nome ao feriado nacional da República Impopular do Desfavor que estamos comemorando esta semana. É uma história que vale a pena ser contada, pois, retirando as alegorias, ainda é muito atual e, quem sabe, possa ajudar algumas pessoas a refletir.

Na mitologia grega, Sísifo era considerado o mais esperto de todos os mortais, graças a algumas malandragens que fez para burlar as regras do jogo, malandragens estas que, ao final, lhe custaram caro demais.

Ele era fundador o rei de Éfira (também conhecida como Corinto) e, segundo a lenda, estava sempre procurando formas de fazer as coisas do seu jeito. Sísifo não tinha muita tolerância à frustração e não fazia o que tinha que ser feito ou o que queria o certo, fazia o que era melhor para ele. Deu certo durante um tempo, mas depois…

Um dia, ele viu Zeus sequestrando a filha de outro rei grego. Em princípio, ficou calado, mas quando o pai da moça perguntou se ele tinha notícias de sua filha, Sísifo pediu um agrado em troca da informação: disse que uma fonte de água para sua cidade poderia refrescar sua memória. Percebam: ele topou se indispor com um Deus e ao mesmo tempo chantageou um pai aflito negociando informações sobre o paradeiro de sua filha.

Desesperado, o pai da moça deu à cidade uma fonte de água e Sísifo fez o X-9 e dedurou Zeus. Como vocês podem imaginar, Zeus achou um desaforo essa afronta vinda de um humano e bateu um papo com Tânatos para que vá atrás de Sísifo. Tânatos seria ninguém mais, ninguém menos, do que a morte.

Mas Sísifo não era considerado o mais esperto dos mortais à toa. Além de conseguir fugir da morte, ele ainda a aprisionou. Por causa dessa gracinha, durante um bom tempo mais ninguém morreu, até que o pessoal da alta cúpula se deu conta e foi reclamar com Zeus. Hades, o Senhor do Reino dos Mortos foi até Zeus perguntar que bagunça era essa, afinal, seres humanos não deveriam ser imortais. Cobrou providências e foi atendido: Zeus libertou Tânatos.

Quando Sísifo percebeu que Tânatos estava livre era tarde demais: acabou capturado e levado ao Reino dos Mortos. Porém, mesmo morto, continuava esperto: antes de morrer havia ordenado à sua esposa que ela não faça nem permitam que façam as homenagens fúnebres a seu corpo. Sem esta cerimônia, Sísifo não poderia ser recebido no Reino dos Mortos.

Parado na porta sem poder entrar, ele bateu um papo com Hades. Sísifo desenrolou uma conversinha dizendo um “olha que sacanagem o que a minha mulher fez comigo, rapaz!” e sugeriu que ele o deixe voltar ao mundo dos vivos para resolver esse problema e castigar devidamente a esposa que havia cometido esse erro imperdoável. Hades acreditou nesse “vou ali fazer uma cerimônia fúnebre e volto já” e permitiu que Sísifo retorne ao reino dos vivos. Obviamente Sísifo não cumpriu sua palavra.

Sísifo viveu muitos e muitos anos, até uma idade avançada. Chegou um ponto onde a morte por velhice era inevitável. Lá foi ele novamente para o reino dos mortos, encontrar Hades, que estava putaço por ter sido feito de idiota. Para não perder a mortal e não encorajar outras pessoas a fazer o mesmo que Sísifo fez, Hades resolveu dar um castigo exemplar para o malandro.

A vida após morte de Sísifo consistiria no seguinte: ele teria que passar seus dias rolando uma grande e pesada pedra até o alto de uma montanha, mas sempre que a pedra chegava no cume, ela invariavelmente rolava e caía, obrigando-o a recomeçar a cansativa tarefa.

Por isso quando falamos de alguma tarefa inútil, falamos da história de Sísifo. O infeliz se viu obrigado a uma eternidade repetindo uma mesma tarefa que ao final não obtinha qualquer resultado útil. E, se a gente parar para pensar com calma, todos nós em algum momento da vida somos Sísifo: gastamos tempo e energia com algo completamente inútil onde sempre obtemos o mesmo resultado desfavorável.

Só que é pior: Sísifo não tinha opção, ele era obrigado a isso. Nós temos, mas continuamos rolando uma pedra pesada morro acima, mesmo vendo que sucessivas vezes ela rola morro abaixo novamente. Por medo, comodismo ou qualquer outro fator, não abortamos de vez essa missão e continuamos fazendo um grande esforço inútil.

Pode ser insistindo em manter um relacionamento falido com aquela desculpa esfarrapadíssima de “mas ninguém é perfeito”, pode ser acomodados em um trabalho frustrante com colegas de trabalho escrotos que não te valorizam com o pretexto de “mas trabalho tá difícil hoje em dia”, pode ser o que for. O importante é identificar: “Opa, estou sendo Sísifo” e virar a chave, apesar do medo, apesar do trabalho que vai dar, apesar de tudo, e sair disso.

Sempre que se mexe com a zona de conforto de alguém a pessoa cospe a fatídica frase na sua cara: “Ah, mas você pensa que é fácil?”. Não, não penso que seja fácil, penso que seja possível. E, mesmo sendo difícil, veja só, penso que você tem potencial de sobra para fazê-lo. Olha que lindo, parece que eu confio mais em você do que você mesmo! É aquela velha frase que sempre repetimos: não há crescimento na zona de conforto, não há conforto na zona de crescimento.

Quando estamos em uma situação assim, tendemos a ver as coisas piores do que são. O discernimento fica meio comprometido, como um mecanismo para te manter na merda. Acredite, as coisas não serão tão difíceis nem tão terríveis quanto parecem. Ninguém vai morrer, ninguém vai passar fome, ninguém vai ser despejado. É sua mente te induzindo a erro.

Além disso, não é para chegar amanhã na sala do seu chefe chutando a porta e gritando “CHEGA DESSA MERDA!”. Dá para fazer mudanças significativas na sua vida de forma gradual. Você começa a executar um Plano B e, quando esse Plano B estiver estruturado e suprir suas necessidades básicas, aí sim você migra para ele.

O importante é não ficar apenas enxugando gelo, não ficar parado. Está acima do peso e está infeliz com isso? Em vez de ficar apenas infeliz, triste ou reclamando, faça uma dieta e se exercite. Está em um relacionamento onde não consegue sair por depender financeiramente da outra pessoa? Monetize algo que você saiba fazer até conseguir se sustentar. Para tudo existe um jeito, você só precisa de coragem, criatividade e perseverança para encontrá-lo.

Pode ser que você não o encontre de primeira, e tá tudo bem. Eu também não encontrei a saída de primeira todas as vezes que tive que recomeçar, que tive que me reinventar. No Brasil (ao contrário de em outros países), o erro é visto como um fracasso, uma vergonha, um motivo para desistência. Ora, meus queridos, como já dizia o Romário: só perde quem bate.

Tudo depende do ponto de vista pelo qual você decide olhar. Erro também é aprendizado. Uma pessoa que errou, quebrou a cara, aprendeu algo com isso e provavelmente não cometerá mais esse erro. Portanto, uma pessoa que errou muito está menos propensa a errar do que uma pessoa que não arriscou e quase nunca quebrou a cara na vida.

Não tenham medo do erro. Só tem medo de cair quem não consegue levantar. Todos vocês que chegaram até aqui tem total condições de se levantar, caso contrário não teriam lido estas três páginas. Caiu? Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Errar não é vergonha, não é desgraça, não é irreversível, é aprendizado. Errou por 20 anos seguidos? Não faz mal, amanhã é um novo dia e uma nova oportunidade de fazer diferente. O problema é se acomodar no erro. A derrota é temporária, a desistência é para sempre. Vergonha não é errar, vergonha é ser um eterno Sísifo empurrando ladeira acima uma pedra que sempre rola ladeira abaixo.

Aproveitem este texto para fazer uma análise de suas vidas: onde vocês estão gastando tempo e energia de forma inútil, sem conseguir os resultados desejados? Onde está a pedra que sempre tola morro abaixo? Identificou todas as suas pedras? Bacana, pode parecer desesperador, mas é o passo mais importante de todos. Acredite, isso já te coloca à frente de boa parte da humanidade.

“Mas Sally, não consigo sair desse círculo vicioso”. Consegue sim. Se preciso for, procure ajuda: de amigos, de profissionais, leia a respeito, procure. Quando o aluno está pronto, o mestre aparece. Não tem a menor ideia do que fazer? Bem, faça apenas diferente do que vinha fazendo até agora, afinal, se a forma como você fazia não estava dando certo, obviamente a solução está em fazer diferente. Nem que seja por tentativa e erro, você chega lá.

Não tem nenhum Deus enfurecido te prendendo, te obrigando a empurrar uma pedra que sempre cai. É você quem está fazendo isso consigo mesmo e sempre dá tempo de mudar. Se você começar hoje, provavelmente nesta mesma data no ano que vem, estará muito melhor do que está hoje e me agradecerá por ter feito este texto.

Não seja Sísifo.

Para dizer que este texto é inútil, para dizer que este feriado é inútil ou ainda para dizer que este blog é inútil: sally@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Se vc fosse psicóloga ficaria muito feliz de ser sua cliente. Vc tem o dom da comunicação. Leio sempre seus textos na esperança de pegar um pouquinho dessa sua qualidade.

    • Obrigada, Felícia. Espero que os textos ajudem muitas pessoas. Não fiz filho, não plantei uma árvore, mas deixei pro mundo material gratuito que, acredito, possa ajudar algumas pessoas…

      • Teve um texto , ou dois q vc incentivava a escrever. E eu terminei um . Se eu enviar um pra vc tem algum tempo pra me dar um feedback ?

  • Quando comecei a ler esse texto achei que a mitologia tinha a ver com vocês falando do jeitinho brasileiro, porque Sísifo era um malandrão que exercitava bem a chamada lei de Gerson, que fazia de tudo pra se dar bem. Mas achei interessante os rumos que o texto teve e bem pertinente também.

  • Já espalhei o link daqui pros meus contatos. Só espero agora que pelo menos um se dê ao trabalho de ler, entender e, quem sabe, refletir.

  • Acompanho o blog diariamente há uns 4 anos, mas sou tímida pra comentar hahahah
    Hoje foi diferente. Preciso te parabenizar pelo ótimo texto, Sally !
    Foi um baita tapa na minha cara nesse momento (estou dando uma de Sísifo em um ”relacionamento” com uma pessoa que escreve “nada haver” e “sargitário” e ainda é escroto). Ô fase…
    Obrigada, obrigada e obrigada !

    • Que bom que o texto fez você olhar para essa questão! Toma o seu tempo e, quando estiver pronta, para de rolar a pedra montanha acima…

  • “Mostre-me um homem sem vícios e mostro-te um homem sem virtudes.” Não lembro a exata forma que a frase foi traduzida, mas o ponto permanece: quem não erra não evolui. Não importa quantas vezes caia e ache que piorou, é possível entender o que ocorreu e adotar mecanismos para melhorar-se.

    Lógico, pode se ter uma visão errônea do melhor curso de ação no momento (como diriam os ianques, “hindsight is always 20/20”), mas com o tempo sempre temos novas perspectivas sobre o ocorrido.

  • O que você escreveu hoje é tudo menos inútil, Sally. Este texto, na verdade, é mais uma daquelas “sacudidas” que você nos dá de vez em quando e que são mesmo necessárias. Ninguém disse que mudar é fácil, mas não mudar é ainda mais difícil. Preciso mostrar isto pra umas pessoas. Posso?

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