Macacos armados.

Ao redor do mundo, vemos mais e mais tiroteios. Pessoas que pegam armas e saem atirando em lugares públicos com o único objetivo de matar o máximo de pessoas possíveis. Mas mesmo vendo exemplos na Nova Zelândia e até mesmo no Brasil, a maior parte das ocorrências ainda acontece nos Estados Unidos. Em quem colocamos a culpa disso? É para ser culpa de alguém, certo? Certo?

Quando o famoso caso de Columbine aconteceu, a culpa era de jogos e músicas violentas. Mais e mais casos aconteceram nos anos seguintes, e a narrativa de culpar Doom e Marilyn Manson foi perdendo a força. Começou a era de culpar as armas. Mas os dados não eram exatamente conclusivos… o tema continuou polêmico até perder um pouco da força, a correlação entre número de armas legais e tiroteios só fica realmente estranha nos EUA. Nos últimos anos, a narrativa mudou mais uma vez para acomodar um novo culpado: racistas de internet. Ainda estamos na crista da onda, mas eu posso prever com um considerável grau de confiança que ainda não acertaram esse suposto culpado pelos tiroteios.

E aqui, segue uma teoria que eu tenho: não existe um culpado pelos tiroteios. Não existe um só elemento que se modificado em nossa sociedade poderia evitar o acontecimento deles. Pra variar, a realidade trabalha com muito mais variáveis do que as costumamos ter capacidade de entender. Desconfie muito de quem tentar te vender uma solução simples para problemas como esses. Denota que a pessoa não tem uma compreensão muito apurada do mundo ao seu redor.

Mas eu não vou escrever mais um texto falando sobre como as coisas são muito complicadas. Vamos pensar friamente no que está acontecendo, porque antes de qualquer resposta, precisamos de uma pergunta. Desde os anos 90 todos parecem se perguntar “quem é o culpado pelos tiroteios?” e não “por que os tiroteios acontecem?”. Parece a mesma coisa, mas não é. A primeira pergunta tira o poder de decisão das pessoas que cometem esses crimes e os tornam marionetes de algum sistema perverso que temos na sociedade. A segunda evita presumir tanta coisa e olha para os fatos.

Então… por que os tiroteios acontecem? Essa é simples: os tiroteios acontecem porque pelo menos uma pessoa queria puxar o gatilho. Parece quase uma piada de mau gosto dar essa resposta, mas pare para pensar: é literalmente isso o que acontece. São as ações, quase sempre premeditadas, de uma ou mais pessoas. Pessoas fazem coisas horríveis que as ferem e ferem pessoas próximas há milênios. Algumas tem um grau considerável de consciência de suas ações, outras nem tanto. O resultado, contanto, é o mesmo: o animal mais perigoso para o ser humano ainda é outro ser humano.

Numa outra obviedade: tiroteios acontecem porque armas foram inventadas. As pessoas eram violentas antes das armas de fogo, é claro, mas não podiam agir dessa forma específica. Evidente que uma grande oferta de pistolas e fuzis no mercado contribui para a execução dos tiroteios, mas isso só responde o “como”, não o “porquê”. Desarmar a população provavelmente diminuiria o número de tiroteios como vemos atualmente. Lembrando que boa parte desses atiradores teria dificuldade de lidar com o mercado ilegal, por falta de habilidades sociais básicas. Comprar uma arma num supermercado ou pegar uma que já estava em casa é consideravelmente mais simples do que encontrar revendedores ilegais e não ser trapaceado por eles. Se você olhar o layout da maioria, percebe que eles seriam comidos vivos por bandidos mais tradicionais.

Mas ao mesmo tempo, vivemos em tempos de internet e o mercado se adapta rapidamente. Mesmo com as armas ilegais, surgiria uma forma de comprá-las online, o que nos colocaria de volta à estaca zero. Especialmente se contarmos que quase todos os atiradores passam um bom tempo planejando o ato. Não são crimes passionais que dependem de oportunidade momentânea, são pessoas que vão lentamente se convencendo e racionalizando essa atitude até finalmente agir. Eu apostaria em alguma redução do número de tiroteios caso armas fossem tornadas ilegais, mas de forma alguma veríamos o fim deles.

Porque até agora ainda não estamos lidando com o motivo desses tiroteios, apenas com sua mecânica. E quando falamos de motivações, normalmente o tema se envereda pelo caminho de influências negativas, o que novamente não lida com o problema. Uma pessoa pode racionalizar o que bem entender antes ou depois de cometer um crime, quase todo mundo faz, mesmo em pequenas desobediências do dia a dia. Você passa o sinal vermelho porque não tinha ninguém à vista, joga lixo no chão porque todo mundo está jogando… saber que um ato é errado não bloqueia a mente. Na maior parte das vezes, é até um incentivo para a criatividade: quem nunca ficou chocado com o grau de insanidade que alguém pego fazendo algo errado usou para se justificar?

Quando a conversa se volta para o lado de games violentos, fóruns racistas de internet e tudo o mais que acreditam estar criando esses atiradores, a conversa está totalmente invertida. Se vocês já leram os manifestos desses assassinos, vai perceber que não trazem nada de novo, só repetem discursos básicos sobre questões que estamos todos vendo. Em Columbine reclamavam do bullying, ultimamente estão falando da queda da civilização ocidental… mas o mecanismo de ação é o mesmo. Será que foi o problema mencionado no manifesto que gerou o desejo assassino ou será que esses temas são apenas mais uma das racionalizações tão típicas do ser humano? Já sentiu uma vontade irresistível de matar pessoas de verdade depois de jogar um jogo de tiro? Porque eu nunca senti e não conheço pessoas que tenham sentido.

Falamos de mecânica dos tiroteios, falamos de racionalização dos tiroteios, mas o porquê deles continua perdido na bagunça ideológica. E a minha teoria é também muito simples: ninguém gosta de ser lembrado que não temos controle ou sequer acesso ao que está dentro da cabeça do outro. Que mesmo a confiança absoluta em outro ser humano só existe porque sufocamos a parte da nossa mente que nos diz que na prática, a outra pessoa pode estar pensando ou planejando qualquer coisa a qualquer momento, e raramente somos treinados para reduzir esse grau de dificuldade prestando atenção em outros seres humanos.

Tem gente nesse mundo que simplesmente tem vontade e “coragem” de pegar uma arma e atirar em estranhos. Elas podem estar em qualquer lugar. Se a pessoa não tem nenhuma válvula de escape para isso em atividades que pelo menos entendemos como guerra, crime e combate ao crime, ela pode estourar dessa forma aparentemente imprevisível. Quer que eu deixe isso pior? É muito provável que o número de pessoas com a capacidade de fazer isso, que chamamos comumente de psicopatas, seja extremamente maior do que o número de casos violentos como esses.

A minha teoria é que em países como os EUA, a capacidade de “esconder” os psicopatas no meio da multidão seja menor que em lugares como o Brasil, por exemplo. Se você olhar os números de mortes violentas ao redor do globo, especialmente em países subdesenvolvidos, vai perceber que violência urbana e guerras civis escondem essas pessoas em estatísticas gerais. O psicopata criado numa favela pode passar facilmente por alguém que foi obrigado a entrar para o tráfico e tem que matar para não morrer.

E no outro extremo, em países com culturas mais pacíficas, os psicopatas ainda existem, mas existem barreiras mais difíceis de atravessar para agir dessa forma. Lembrando também que o psicopata não é só alguém que tem uma vontade incontrolável de matar, é quem não tem os freios internos para fazer isso caso a oportunidade se apresente. Existem psicopatas no Japão, é claro, mas a repressão social é tão grande que o caminho do tiroteio não é tão natural. E provavelmente algo na criação deles é mais eficiente para controlar esse tipo de impulso.

Existe uma teoria que a maioria dos grandes executivos do mundo são psicopatas que apontaram sua energia em outra direção, mas que tem a mesma falta de freios internos para conseguirem o que querem. É muito possível que durante as décadas de bonança e crescimento exponencial da riqueza nos EUA, havia mercado suficiente para absorver a maioria desses psicopatas e “reprimi-los” em outra direção. Mas hoje em dia as coisas estão um pouco mais complicadas. O crescimento é menor, as oportunidades de cargos de alto nível em grandes empresas estão mais reduzidas pela consolidação de grandes oligopólios, é cada vez mais difícil para jovens entrarem no mercado de trabalho, há uma preferência por contratações “políticas”…

Não sei se fica claro o tamanho do que estamos discutindo aqui: não é que a sociedade moderna está produzindo mais pessoas capazes de cometer esse tipo de crime, é que não tem mais espaço para escondê-los em outras estatísticas. Apesar de tudo, os índices de crimes continuam em queda ao redor do mundo. Os psicopatas só estão ficando mais visíveis, e possivelmente, mais encurralados por causa disso. Os atiradores modernos são fruto de seus meios, mas não por causa de uma motivação gerada pelo meio, e sim porque o mundo moderno (em especial nos EUA) aumenta sua visibilidade depois que cometem seus crimes.

Estamos até hoje falando de Columbine. Todos nós, psicopatas ou não, ficamos sabendo disso. Entendemos o mecanismo, entendemos a racionalização… nada mais óbvio que outros macacos pelados igualmente incapazes de ter freios internos para o comportamento o imitassem. O mundo não tem um problema de armas ou de cultura, tem um problema de psicopatas. E esse é muito mais antigo do que qualquer explicação furada que tentam enfiar goela abaixo de todos nós. O que é até compreensível: porque eu tenho certeza que logo logo o que eu escrevi aqui vai sumir da sua mente, de tão incômoda que a ideia é.

Mas é. Uma parcela considerável da humanidade não tem capacidade de entender por que matar é errado a não ser que exista alguma outra força externa que a coaja ou que a distraia. E eu honestamente não sei se tem alguma solução para isso.

Para dizer que prefere acreditar que eu errei em algum lugar da argumentação, para me explicar onde porque eu também quero estar errado, ou mesmo para dizer que a culpa é dos outros: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Desfavores relacionados:

Etiquetas: , ,

Comentários (13)

  • Isso tudo é a adormecida Rússia querendo envergonhar o nosso alinhamento idealista. Produz e ensina a produzir, treinar e persuadir o resto do mundo contra o nosso continente. Não tem nada de patologias.

  • do ponto de vista biologico a teoria faz todo o sentido. sobre uma possível solução genética tenho minhas duvidas, ja a causa provavelmente nao é meramente genética.

    • Nunca é só genética. Seres humanos não existem no vácuo… a turma da eugenia sempre esquece dessas coisas, ou finge que esquece.

  • Este texto traz à tona exatamente aquilo que deveríamos nos perguntar quando acontecem esses tiroteios: como acontece, e com o quê, a gente já sabe. A grande pergunta é o POR QUÊ?.

    E eis o problema: será que as pessoas sabem que o motivo é assim tão incontrolável como a psicopatia e vivem em permanente estado de negação, ou elas simplesmente ainda não compreenderam esse componente humano dos ataques?

    • Não existe capital político ou mesmo sensação de “lutar contra os nazistas na internet” se você olhar para essa realidade. Mais fácil e lucrativo tapar o sol com a peneira.

  • Interessante sua colocação Somir. Me lembrou do caso de uma jovem americana que matou várias crianças que estavam a caminho da escola com um rifle de longo alcance. Ela simplesmente disse que estava com vontade de atirar naquele dia e que poderia ser “legal” matar as crianças. A pessoa tem plena consciência do que faz.

    • Essas pessoas estão por aí… e na cabeça delas, essas coisas fazem sentido. Enquanto acharem que esse tipo de mentalidade pode ser “influenciada” por videogames e fóruns de internet, vamos continuar ignorando a realidade.

  • Essa teoria de que a maioria dos grandes empresários e políticos são psicopatas faz muito sentido, ninguém normal iria segurar o rojão de estar responsável por tanta coisa, por tanta gente e ser intensamente cobrado por isso, mesmo que a posição dê dinheiro e status. Outra teoria: Angela Merkel é uma das exceções e está há anos vivendo à base de ansiolíticos, mas agora o corpo está cobrando o preço, começando por aqueles tremores (ou ela está sendo assombrada pelas almas dos europeus mortos por crimes de imigrantes, vai saber). Uma boa aposta pro bolão do ano que vem.

    Uma solução seria usar o transhumanismo pra cortar a psicopatia do gene pool humano, o que por sua vez geraria outros problemas… é pior ser comandado por psicopatas ou por gentalha superemotiva?

    • Se você não tiver algo para desligar um pouco que seja da sua humanidade, uma estrutura empresarial grande te come vivo. É muita gente com interesses conflitantes. Essa da Merkel pode muito bem ser verdade. A minha grande dúvida sobre ela é se esse sofrimento todo ajudou ou atrapalhou a Europa. Veremos nas próximas décadas.

      E a sua dúvida sobre o que aconteceria com o mundo sem psicopatas é de dar nó no cérebro mesmo. Talvez a gente dependa muito mais deles do que imagina…

    • Teoria interessante essa sobre a Angela Merkel. E eu acho que é pior ficarmos na mão de “gentalha superemotiva”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: