Memórias – Parte 1

Os últimos raios de sol levavam consigo o calor infernal do dia, tingindo o céu de vermelho no horizonte e acalmando a violenta tempestade de areia. Bar’hai aproveita o momento para sair da carcaça de um velho caminhão, parcialmente enterrada numa das infinitas dunas do Deserto Vermelho, abandonada há sabe-se lá quanto tempo pelos Antigos. Foram meses de uma árdua jornada até ali, mas as ruínas de Omega, a última cidade, já podiam ser vistas.

O local era defendido por uma tribo especialmente selvagem, até para os padrões cada vez mais baixos de seu mundo. Os Calados rejeitaram quase tudo o que os Antigos criaram, inclusive a língua. Literalmente. Suas crianças tinham a língua cortada na mais tenra infância, e a escrita tornada num crime tão severo que sua punição era a morte. Seguiam uma religião própria, amálgama de crenças do passado adaptada numa espécie de culto à regressão tecnológica. Mesmo assim, os amplos recursos do que restou de Omega eram suficientes para torná-los viáveis como civilização, até mesmo cercados de um terreno tão inclemente.

Bar’hai não negaria uma refeição desidratada de um dos abrigos nucleares da área, mas seu interesse ia bem além disso. Antes da tomada da região pelos Calados, Omega abrigou os últimos cientistas e historiadores humanos. E deles fluía o resto do conhecimento acumulado pela espécie nos milênios anteriores. Uma parcela disso estava em sua mochila naquele exato momento: um caderno de anotações na Língua Complexa, entendida por cada vez menos sobreviventes. E talvez mais importante do que tudo: um pequeno pedaço de plástico e circuitos, uma Memória.

Memórias se tornavam mais e mais raras com o passar das décadas, a maioria degradada pela exposição aos elementos e a ignorância daqueles que as herdavam. Bar’hai aprendeu diferente. Sua mãe explicara que nas Memórias existia o caminho de volta para a vida dos Antigos, e que por gerações a família jurou proteger essa relíquia. O caderno de anotações era reescrito por cada um deles, evitando que o tempo devorasse as páginas. Antes de começar a jornada, foi sua vez. Reescrever em páginas limpas ajudava a memorizar o conteúdo, e em uma delas, o motivo de sua viagem:

“O Terror veio para todos, em terras áridas e em terras férteis. Fez com que as criações do homem cuspissem fogo, mas não as derrubou. Isso foi culpa do abandono. Os Antigos não estavam mais lá para cuidar delas. O Terror viu o Sol nascer, mas não se pôr. Em Omega, meus antepassados juntaram todas as memórias do Terror em suas criações, mas o Terror se lembrou deles primeiro.”

Bar’hai tinha a esperança de encontrar mais memórias em Omega, e talvez uma das criações que lhe permitissem olhar para elas. Entrar no território dos Calados era sentença de morte para qualquer desavisado, a tribo defendia suas terras com uma ferocidade impressionante, especialmente as ruínas da grande cidade. Mas o dia não poderia ser melhor para a missão, a cada 256 dias, a torre central da cidade se iluminava por alguns minutos no início da madrugada. Ninguém entendia o motivo, mas era o suficiente para que os Calados se afastassem da região e fizessem uma espécie de festival religioso nas areias do Deserto Vermelho ao redor.

Para qualquer invasor, uma concentração tão grande de Calados não seria uma boa ideia, mas se esse invasor conseguisse entrar na área antes deles se aglomerarem ao redor das ruínas, poderia ter o centro da cidade virtualmente vazio para exploração. Com a chegada da noite, podia ver o começo da evacuação do centro: famílias inteiras de Calados seguiam em direção às areias, iluminando seu caminho com tochas e lampiões. Normalmente os Calados vestiam os restos das roupas encontradas em Omega, mas durante este evento, ficavam praticamente nus, com os corpos cobertos de listras vermelhas, provavelmente pintadas com o sangue dos inúmeros sacrifícios realizados durante o dia. Exceção feita a crianças e idosos, que provavelmente não resistiriam ao frio da noite no deserto sem alguma forma de proteção.

Bar’hai encontra uma brecha entre dois grupos de Calados e dispara em direção a um prédio aparentemente abandonado. A areia engolira o primeiro andar, e do terceiro para cima, apenas escombros. Ele entra por uma das janelas quebradas após usar uma das dunas como rampa. Toma extremo cuidado para não pisar em falso ou deslocar os restos de vidro ainda na moldura. A escuridão quase que total é útil, mas o silêncio mais ainda: poucos ouvidos são tão apurados quanto os deles. E a falta de comunicação faz com que apenas o som do vento esconda seus movimentos.

Mesmo em ruínas, Omega não deixava de ser impressionante. Apesar de tudo, estava num estado de conservação muito melhor do que qualquer outra das cidades dos Antigos que visitara até então. No seu caderno de anotações, uma das primeiras páginas fala sobre como antes da chegada do Terror, as cidades dos Antigos ocupavam os céus e escondiam o Sol. A torre central de Omega o fazia entender melhor essa imagem: como a maior estrutura conhecida pelos sobreviventes, sua altura era tão imensa que por vezes a própria Lua desaparecia por detrás de sua estrutura. Diferentemente do resto das construções, ela parecia íntegra. Um tom mais escura que os escombros cinzas, e mais refletiva.

Mas não havia muito tempo para admirar a paisagem. Ele estava onde desejava. O movimento dos Calados começava a diminuir drasticamente enquanto a Lua deslizava para o topo do céu. Se ele quisesse estar próximo da torre central na hora das luzes, precisava se movimentar imediatamente. Sincronizado com os ventos para mascarar o som de seus passos, Bar’hai vai ganhando território de forma lenta e consistente. Quase todas as construções ainda de pé parecem abrigar alguma família de Calados, mas todas parecem vazias. Quaisquer palavras e números espalhados pelo local foram retiradas, raspadas ou pintadas por eles. Nem mesmo as roupas que deixavam para trás continham qualquer forma de escrita ou numeração. Em contrapartida, o local era coberto de desenhos dos mais diferentes graus de habilidade.

Um deles chama sua atenção: numa grande parede cinza, um enorme mural mostrando uma espécie de monstro nos céus cuspindo fogo sobre uma série de pessoas. Provavelmente a versão deles do Terror. No seu vilarejo, era mais comum representá-lo como uma fera cheia de olhos devorando pessoas e animais. Bar’hai olha para o céu, a Lua ainda não estava no lugar certo. Havia tempo para coletar mais uma pista. Cuidadosamente, abre sua mochila e pega o caderno de anotações. Estava na hora dele preencher suas páginas. Faz um comentário sobre o mito de destruição dos Calados e começa a desenhar a imagem à sua frente. A ponta do lápis se quebra, e ele busca pela sua faca para apontá-lo novamente. Distraído com a tarefa, não faz contato suficiente com o cabo da faca, que cai diretamente sobre uma pedra no chão. O som metálico ocorre ao mesmo tempo em que o vento se cala.

Primeiro, ouve um grunhido abafado. O som de passos rápidos vem quase que ao mesmo tempo que uma das esquinas ao seu redor começa a ser banhada por uma luz alaranjada. Os Calados notaram algo. Bar’hai considera entrar num dos prédios, mas rapidamente percebe que seria encurralado ali. A Lua estava quase no topo do céu. Só havia uma alternativa: correr até a torre central. Deixou a faca ali mesmo e disparou como se sua vida dependesse disso. Porque realmente dependia.

Os grunhidos aumentam em intensidade, e logo ele se vê perseguido por uns 4 ou 5 Calados armados com lanças e tochas. A vida recente de andarilho construiu pernas velozes e pulmões resistentes, mas os Calados eram muito mais fortes e bem nutridos do que a maioria dos outros sobreviventes. Era apenas questão de tempo para ser alcançado. A torre central ficava mais próxima quando sente o primeiro zunido de uma lança, passando a poucos centímetros de seu ombro direito. Logo se seguem outras, e pedras, muitas pedras. Ele muda o padrão de corrida para um zigue-zague, tornando-o um alvo mais difícil, mas isso o torna perigosamente lento.

Logo diante da torre central há uma praça com vários monumentos que adoraria catalogar não fosse sua situação atual. O maior deles é uma mão cerrada feita de metal maciço, sobre um pilar de pedra. Na frente do pilar, há um tecido precariamente preso por cordas, escorrido por sobre a face do pilar. Bar’hai segue em direção ao tecido, e mesmo sob uma chuva de pedras de uma multidão que parece cada vez maior em seu encalço, consegue agarrar uma das cordas e desvendar o que havia por trás. Uma placa metálica arranhada com dizeres na Língua Complexa:

“A Vontade ilumina o Terror.”

Ao revelar a placa, o som dos passos de seus perseguidores diminui até cessar completamente. Bar’hai não pode ficar apreciando a cena, mas enquanto continua sua corrida até a torre, consegue virar o rosto e perceber os Calados tapando os olhos e tentando se afastar da área. Alguns recomeçam a perseguição de olhos fechados, a maioria perdendo a direção e tropeçando em grandes escombros. Os poucos que passam pela escultura retomam a corrida. Bar’hai já consegue notar a luz distante das tochas vindas do outro lado da torre, está ficando encurralado.

Logo está diante da enorme construção. De perto, fica ainda mais evidente como ela não se integra ao estilo de construção do resto da cidade. Suas paredes externas são feitas de uma pedra mais escura, adornada por linhas e círculos de um metal negro que formam padrões parecidos com o dos circuitos das Memórias que carrega. Não existem janelas à vista, apenas uma grande porta sem maçanetas ou qualquer outra forma de interação. Seria o fim da jornada caso Bar’hai não tivesse escolhido justamente esse dia. Ao mesmo tempo que as pedras e lanças começam a ficar perigosamente próximas, a Lua se alinha com o topo pontiagudo da torre, e as linhas de metal escuro começam a emitir luz. Muita luz.

As faces dos Calados mais próximos embranquecem, parte pela iluminação, parte pela palidez causada por medo súbito. Os mais distantes correm desesperados para longe, os que estavam a poucos metros dali desabam no chão, tapando os olhos e recolhendo-se em posição fetal. Os grunhidos desesperados dos selvagens quase mascaram o som da porta, que se abre atrás dele. Bar’hai não vacila um segundo, e adentra a torre. A porta se fecha imediatamente após sua entrada.

Lá dentro, um grande salão muito bem iluminado. Uma luz branca e constante, que não dançava feito o fogo. O teto, muito alto, é apinhado de pontos luminosos, de um tom de branco inconcebível para ele até ali. Diversas mesas de metal e plástico preenchem o ambiente, e sobre elas, criações que vira antes em desenhos, fotos carcomidas e escombros. Mas essas parecem inteiras, novas. Ele se desvia do corredor central formado pelas mesas e senta-se numa cadeira próxima, diante da tela de uma criação funcional. O investimento no aprendizado da Língua Complexa se paga imediatamente: reconhece o pedido dela de inserir uma Memória.

Busca em sua mochila o tesouro guardado por gerações, e instintivamente presume que o encaixe logo abaixo da tela serviria para o encaixe. A criação modifica sua exibição, com duas pequenas fotos centralizadas na tela. Bar’hai toca numa delas. A foto aumenta para ocupar a tela toda, e para sua imensa surpresa, começa a se mover.

Uma mulher pálida vestindo linda roupas novas segura nervosamente uma criança gorda no colo. A criança ri despreocupada enquanto a mulher começa a falar sobre discos voadores. Uma voz masculina está presente, fazendo pouco das ideias da mulher. O homem ausente diz ninguém atravessaria algo chamado galacsia para atacar macacos. Ela não parece concordar. A foto de move novamente, apontando para os céus. Eles estão acinzentados, apesar das outras cores parecerem corretas. Vários pontos de luz dançam no firmamento, num belo espetáculo.

Logo em seguida, raios de luz descendem dos pontos, e há fogo no horizonte. O fogo cresce, mas a foto fica tremida antes de cair e apontar para o chão. A foto continua na tela por mais alguns minutos antes de desaparecer, mostrando as duas pequenas fotos novamente. Bar’hai toca na outra. É a mesma mulher, mas a criança parece mais nova. Estão todos numa sala diante de outra criação, bem maior que a diante dele. O bebê engatinha pelo chão enquanto o homem, de novo fora da foto, fala sobre como a criança nunca mais vai ter que pagar uma conta. Bar’hai fica confuso. Os Antigos na foto falavam muito rápido e usavam várias palavras que ele desconhecia. Mesmo assim, ele acabava de provar que as Memórias eram reais e saber muito mais sobre os Antigos que qualquer outra pessoa viva. Ele resolve ver novamente a primeira foto, assim que a segunda se fecha sozinha.

Mas logo na primeira frase da mulher, a foto desaparece e uma mensagem toma seu lugar:

“Nós te encontramos. Espere pelo resgate. Os mantimentos estão no subsolo.”

Em poucos segundos, a tela desliga, assim como todas as outras luzes. Elas ainda pulsam com menos intensidade nos próximos minutos, mas logo tudo volta à escuridão. Os grunhidos lá fora recomeçam, e logo se tornam em batidas na pesada porta da torre.

Continua…

Para dizer que sempre tem medo de “continua”, para dizer que quando ele achar o Facebook vai pirar, ou mesmo para dizer que já sabe o final (não é o destino, é a jornada): somir@desfavor.com

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