Chamado da natureza.

De tempos em tempos, acreditamos que é importante relembrar a posição do Desfavor como bastião da intelectualidade na internet brasileira, e como tratamos de temas realmente relevantes para a sociedade moderna.

Tema de hoje: o que é pior, se cagar ou se mijar em público?

SOMIR

Para encontrarmos a verdadeira resposta para essa questão, temos que pensar fora da caixa, ou… da calça. Eu sei que o instinto natural é achar que não tem nada pior do que se cagar em público, mas se você realmente analisar a situação, se mijar tem os elementos necessários para tornar a experiência ainda mais vergonhosa. Quer dizer que eu preferiria me cagar em público? Eu não preferia nada aqui, mas se formos considerar a situação como um todo, se cagar tem o menor potencial de dano à sua reputação.

Vamos separar a análise em três atos: antes, durante e depois de derramar sua dignidade nas roupas.

Apesar de algumas falhas de design no modelo feminino (ninguém mandou colocar visual à frente de funcionalidade), a capacidade de uma pessoa controlar sua bexiga é consideravelmente maior que controlar o intestino. Tanto em homens como em mulheres, a uretra é um canal muito estreito razoavelmente protegido por músculos que travam o canal, e não só o ponto de saída, como no caso do sistema digestivo. Mesmo que mulheres sejam muito mais propensas a se mijar, ainda sim estamos falando de um grau de controle muito mais elevado e “granular”: você pode se mijar só um pouco e rapidamente retomar o controle. O ânus joga mais sujo (há), pois trabalha naturalmente com um ponto de não-retorno. Se você perder o controle por uma fração de segundos, tem muito mais músculos para retomar sua forma original.

O que eu quero dizer com isso é que para você chegar ao ponto de se mijar em público, salvo um problema físico de incontinência, cometeu algum erro de julgamento: ou encheu sua bexiga muito além da capacidade, ou está completamente bêbado(a). No primeiro caso, o de deixar a urina se acumular, já encontramos um problema sério: seres humanos não costumam ter vergonha de anunciar aos quatro ventos que precisam mijar. Eu acho selvageria mencionar isso em público, mas sei que sou minoria: a maioria das pessoas vai chamar atenção para o fato, não só falando sobre sua necessidade atual, como dando vários sinais visuais que alertar todos os presentes sobre o fato. E se ele realmente ocorre, você garantiu uma plateia e eliminou qualquer senso de privacidade. Já no caso de ter enchido a cara, você está bêbado(a) e com o julgamento pra lá de intoxicado: é capaz de se mijar e achar que é muito engraçado.

Já quando sabe que o problema é mais sólido, o instinto não é de anunciar. Uma pessoa prestes a se cagar fica mais quieta, afinal, controlar um esfíncter prestes a se rebelar exige muito mais esforço. É provável até que você “desapareça” aos olhos alheios pelo seu silêncio. Ao contrário do caso do mijo, a chance de alguém estar com o celular pronto para te filmar na hora do desastre é bem pequena. E como a vontade de se cagar é muito mais aterrorizante na mente do ser humano médio, é muito mais provável que você se coloque numa posição mais vantajosa, se aproximando de banheiros ou mesmo buscando uma forma de voltar para casa o mais rápido possível. No caso de hoje não dá para escapar do acidente, mas quanto tempo você lida com ele pode ser mitigado com uma boa preparação.

Vamos agora para o durante: pelos motivos citados anteriormente, se você se mijou, tem a atenção de muitas pessoas e possivelmente pouco discernimento para proteger sua dignidade. Mas não acaba aí: agora falamos de sólidos e líquidos. Urina sempre vem na forma líquida, e líquidos não dão a mínima para barreiras de tecido. Ninguém se mija um pouco, é tudo ou nada. Porque o líquido vai escorrer por toda a roupa que você tiver abaixo do ponto de vazamento. É evidente, inegável. Ninguém “desconfia” que alguém se mijou, é fato notório. Agora, cagar é uma situação com mais nuances: você pode sim se cagar um pouco. Pode ser um peido molhado, uma bolinha de coelho, um bombom macabro, um tolete completo, um monte de barro ou mesmo a famosa mijada anal. Todos contam como se cagar, mas só em um dos casos você está lidando com líquidos. E isso conta ao seu favor.

Nos primeiros casos, é muito provável que você consiga esconder a situação dos presentes. Depois do primeiro vazamento anal, seu corpo entra em modo de pânico, um instinto natural poderoso. E como tecidos protegem contra vazamentos de sólidos, você tem tempo de correr até um banheiro ou um local suficientemente privativo para lidar com a situação. Muitas cuecas, calcinhas e até meias morreram heroicamente em situações assim, protegendo a dignidade de seus donos, enterradas ali mesmo no lixo do banheiro. Precisa de uma cagada bem líquida para te entregar nessa hora. Por sorte, elas são muito mais raras (ou você realmente precisa melhorar sua alimentação).

E agora, no pós-mijada ou cagada, voltamos ao elemento social: muito embora ambos os casos possam ser engraçados para terceiros, estamos muito mais à vontade para sacanear alguém que se mijou. Aprendemos a nos controlar mais quando sentimos cheiro de merda e desconfiamos que um adulto ao nosso redor seja o culpado. As pessoas vão fingir que não estão notando a não ser que você tenha pintado tudo de marrom do seu cu para baixo. Isso te dá tempo de se afastar e provavelmente te permite não ser questionado sobre a situação no futuro. É uma regra implícita da sociedade humana fingir que não percebeu quando alguém se cagou, desde que a pessoa cagada tome atitudes para se afastar rapidamente, é claro.

Eu sei que parece pior se cagar, mas antes, durante e depois da situação, o seu potencial de escapar de grandes repercussões por causa disso é surpreendentemente maior. Não estamos falando do que é pior para o seu senso pessoal de higiene, afinal, nem teria discussão. Mas como “em público” faz parte da questão aqui, a resposta menos óbvia é na verdade a mais segura. A não ser que seja uma diarreia explosiva, mas aí, francamente, é basicamente se mijar por outro buraco. E eu realmente espero que você não saia de casa quando estiver com uma diarreia explosiva, seu animal selvagem…

Para dizer que meu argumento é ótimo, mas que seu senso de nojo pessoal passa por cima de toda a lógica (é comum), ou mesmo para dizer que é preocupante que eu seja tão bem articulado sobre o tema (você se surpreenderia com a quantidade de coisas horrendas sobre as quais eu consigo falar nesse mesmo tom): somir@desfavor.com

SALLY

Tema profundo e relevante: se mijar em público é mais ou menos humilhante do que se cagar em público?

Menos. O estrago é menor, sob diversos pontos de vista, como discorrerei nas duas fascinantes páginas que se seguem.

Ambos são um horror, porém, me parece mais “socialmente aceito” se mijar em público. Parece ser um evento mais recorrente: bêbados, grávidas, pessoas que tem ataques de riso, terceira idade… existem alguns grupos de risco que eventualmente estão sujeitos a uma auto-urinada. Desagradável, porém não é tão incomum.

Já se cagar… Se cagar é um degrau a mais na escala de humilhação. É um evento, é constrangedor, não é motivo para risos. Já vi gente fazendo piada que “se mijou de rir” ou que iria fazer xixi nas calças pois não conseguiria chegar a tempo ao banheiro, mas nunca vi ninguém falar com naturalidade sobre estar se cagando nas calças ou achar graça nisso.

Tecendo uma teoria retirada totalmente da minha cabeça, sem qualquer fonte ou credibilidade, tenho para mim que o estrago social é menor quando a pessoa se mija em público. O estigma é mais leve. A reprovação é mais amena.

Salvo alguma infecção urinária, o xixi não tem um cheiro muito forte. A pessoa que se mija fica um pouco molhada e, se não for em grande quantidade, pode até ser imperceptível. Uma roupa escura e absorvente (Deus abençoe a calça de moletom preta!), um anteparo que cubra a região como uma mesa ou uma escrivaninha e/ou um pouco de paciência para esperar o xixi secar e a desgraça pode passar desapercebida.

Já se cagas nas calças… Pode ser uma gosta que o cheiro empesteia o ambiente e mais três andares acima e abaixo. Cheiro de merda é demoníaco, toma o ambiente e não sai. Em questão de milésimos de segundo depois que a merda sai, o odor tomou todo o ambiente. Não tem como disfarçar, não tem com sair impune.

E, convenhamos, geralmente quando alguém se caga não estamos falando de um tolete duro. Toletes duros podem ser retidos. O maior índice de incidência deste tipo de humilhação envolve diarreia, merda líquida. É aquele peido mal calculado que vem com um desagradável brinde molhado junto. Entre um líquido claro com cheiro não tão forte e um líquido escuro com cheiro mortal, qual vocês preferem?

Um xixi vazado pode ser corrigido com alguma habilidade: lavando e deixando secar é possível manter um mínimo de dignidade. Merda não, você vai ter que jogar fora a roupa. Tentar lavar merda em uma pia qualquer é o mesmo que tentar limpar lama com água: tudo que você consegue é criar mais lama.

Não tem como se limpar, não tem como disfarçar, não tem mais nada a fazer do que pegar um taxi e voltar para casa humilhado para tomar um banho. Sim, táxi, pois se você subir no seu carro, terá que jogar fora o veículo, pois o cheiro de merda nunca mais vai sair dele.

Posso estar enganada, mas tenho a sensação que a sociedade cobra mais de você que consiga segurar sua merda do que seu mijo. É possível ler histórias engraçadas de celebridades que contam ocasiões onde fizeram xixi nas calças, mas duvido que você me aponte uma atriz glamurosa narrando como se cagou em público.

Quando você se urina, se houver cooperação do grupo à sua volta, pode ser (eu disse PODE) que, em um pacto silencioso de compaixão todos façam de conta que nada aconteceu e você saia menos queimado do evento.

Porém, não há como fingir que não percebeu cheiro de merda no ar. Não há como fingir que não percebeu uma mancha marrom na roupa da pessoa. Não há o que dizer, não há o que fazer a não ser se jogar no chão e fingir um infarto, para ser retirado do local em uma ambulância e, logo depois, mudar de cidade, trocar o nome e tingir o cabelo para nunca mais ser reconhecido pelas pessoas que presenciaram o evento.

Uma mijadinha nas calças permite manobras. Você pode, por exemplo, derramar em si mesmo de forma propositada (mas fingindo ser sem querer) um jarro ou garrafa com algum líquido. Ninguém nunca saberá que no meio daquela imensa mancha molhada de refrigerante ou de suco tem urina por baixo. Merda não permite nenhum recurso, nem se você tomar banho em um perfume Jequiti o cheiro será abafado. Nem que você jogue petróleo nas suas calças as manchas marrons ficarão invisíveis.

No geral, as mulheres são as mais incomodadas com esse tipo de evento anti-higiênico e humilhante, certo? Duvido muito que uma mulher consiga chegar à vida adulta sem que nunca tenha passado por um incidente menstrual, ou seja, que em algum dia de sua vida tenha vazado sangue de sua menstruação para sua roupa, de modo visível e ostensivo.

Portanto, é algo que nós, mulheres, de alguma forma sabemos lidar: amarra um casaco na cintura, corre para comprar outra roupa, etc. Sabem por qual motivo isso é possível? Sangue não fede como merda. Se ficar na posição certa, se cobrir a região certa com um sobretudo, dá para sair impune de sangue e de mijo. Porém, se você se caga, o cheiro é tal que você só sai impune se assassinar todos os presentes antes que eles possam contar a alguém o que aconteceu. E em tempos de whatsapp, você terá que ser muito rápido!

Fora que é muito menos nojento entrar em contato com a própria urina do que com a própria merda, né? Ao menos foi o que aprendi com vocês, queridos leitores, quando, anos atrás, fizemos um Ele Disse, Ela Disse perguntando se era reprovável mijar no chuveiro, quando vai tomar banho.

Todo mundo achou ok. Suponho que vocês não caguem no banho, não é mesmo? Nem mesmo quando a merda está totalmente líquida e pode escorrer sem dificuldades pelo ralo. Por óbvio, suponho que vocês considerem urina menos nojenta.

Não tem muito mais o que argumentar, peço apenas que você se imagine em ambas as situações e me diga em qual se sentiria mais humilhado.

Para reclamar que estava comendo, para reclamar que o tema não te acrescentou em nada ou ainda para dizer que ambos são igualmente humilhantes: sally@desfavor.com

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Comentários (16)

  • Pior é se cagar com certeza! Eu mesma fui soltar aquele peidinho inocente, toda feliz, e quando menos se espera o peido sai com aquela diarreia. Bate o desespero e o constrangimento, pois mesmo que não dê pra ver dá pra sentir o cheiro. Nunca mais peidei em paz fora de casa. Foi um trauma na minha vida.

  • Eu já me mijei em público, maa foi pouco e deu pra disfarçar, depois cheguei no banheiro e limpei a calça. Depois disse que sentei no banco molhado e ninguém percebeu! Cagar não teria esse jeito, seria catástrofe geral

  • Sem sombra de dúvidas é menos pior se mijar. Se isso acontecer e você não puder trocar de roupa, encontre um banheiro vazio, tire suas calças, molhe-a bem numa pia – a calça toda – e tente remover o máximo possível da urina, molhando e torcendo a roupa o máximo possível. A calça vai ficar toda úmida e você vai vesti-la assim, mas vai tirar o odor forte da urina e acabar secando no seu corpo. Só espero que você não fique em lugar com ar condicionado senão vai passar um frio do cão. Se bem que nesse calor, não seria tão mau assim.

  • É muito mais fácil administrar xixi nas calças do que bosta. Tem menos cheiro e dependendo da roupa que se está usando, nem dá pra perceber que a pessoa se mijou.

    (Eu já mijei nas calças, depois de adulta, em público, em duas ocasiões diferentes. Eu não estava bêbada em nenhuma das duas)

  • solução: depois da cagada, pegue a bosta e jogue nas testemunhas fazendo sons de macaco, assim a vergonha é compartilhada e como as pessoas provavelmente vão achar que você é doente mental, vão perdoar com mais facilidade, pega mal criticar doente mental hoje em dia. se for no ambiente de trabalho, melhor ainda, você pode ser aposentado mais cedo.

  • Oba, o Desfavor voltou a falar de escatologia! \o/
    Acho que vai chegar num ponto em que a evasão de privacidade vai estar tão banalizada (sobretudo se o sistema de vigilância chinês virar realidade por aqui), que todo mundo terá um vídeo fazendo algo constrangedor (RIP puxada de calcinha). O triste é que o constrangedor pode virar a norma e a humanidade sofrer um retrocesso nas regras de etiqueta.

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