Dilma vaiada.

O humorista Gustavo Mendes, conhecido por interpretar a ex-presidente Dilma Rousseff no YouTube, teve o seu stand up “Di Uma Vez Por Todas” interrompido após fazer críticas à Bolsonaro, nesta sexta-feira, em Teofilo Otoni, município do interior de Minas Gerais. Parte do público saiu do teatro no meio do espetáculo e reivindicou o dinheiro do ingresso. LINK


Nunca foi sobre a orientação política, é sobre ter merda na cabeça mesmo. Não gosta? Não vá assistir. Não gostaram do que você falou? Não é censura. Faz tudo isso seguidas vezes? Desfavor da semana.

SALLY

Desde 2009 repetimos o mesmo mantra aqui: Não gosta? Não leia. Tem uma infinidade de conteúdo de todos os tipos disponível por aí, procure o que você goste, o que te acrescente, o que te faça bem. Vale para o Desfavor e vale para todo o resto.

Mas não. As pessoas chegaram em um ponto de incapacidade de lidar com diferenças que se sentem no direito de demandar que seja dito o que elas querem. É uma expectativa irreal que só leva à frustração e ao vexame. Se eu não gosto, não posso apenas me afastar e seguir com a minha vida, eu tenho que ir cobrar da pessoa que mude, que faça ou diga o que quer que seja, de acordo com a forma que eu julgo correta. Não pode existir alguém que não me agrade, que me ofenda, que eu discorde sem que eu deixe bem claro isso para o mundo.

A coisa fica ainda mais ridícula quando você vai até um local onde notoriamente há um posicionamento definido, esperando ver um posicionamento oposto. A pessoa não foi pega desprevenida, ela foi a um local onde sabia que não encontraria o posicionamento procurado, e ainda resolve criar problemas. A pessoa realmente não tem noção da sua insignificância e acha que sua opinião é importantíssima e deve ser escutada por todos. Imagina quão fodida da cabeça uma pessoa assim deve ser.

Foi o que aconteceu no show do humorista Gustavo Mendes. Um grupo criou confusão quando, em um show, o humorista teceu críticas a Bolsonaro. Gustavo ficou conhecido por imitações de Dilma. É bem óbvio o que você vai encontrar no show de um artista com este perfil, certo?

Após críticas ao governo Bolsonaro, parte dos espectadores se emputeceram dizendo que estavam ali para escutar piada e não discurso político. Começou um barraco do público com o humorista. Muita gente saiu, chamaram até a polícia. Francamente, se você não gosta, levanta e vai embora. Que megalomania é essa de achar que você tem o direito de botar o dedo na cara do artista e gritar que VOCÊ, O Ser Importante, não gostou? Foda-se se você gostou ou não gostou. Levanta e vai embora em silêncio, cretino!

É uma crítica de cunho geral. Pode ser sobre humorista de esquerda, de direita, de Marte, do fundo do mar. Interromper um show para berrar que você não gostou não é aceitável, não é educado, não é um comportamento saudável. Você simplesmente não é tão importante. Se você não gostou, vai embora, não consome, não compra, não escuta, não lê. Tem quem goste e essas pessoas têm o direito de usufruir daquilo. Levanta calado, discretamente e sai sem prejudicar o resto das pessoas, que o mundo não gira ao seu redor, que as coisas não são criadas pensando em agradar à sua pessoa.

Que porra de mania doentia de ser “resistência”, como se resistência adiantasse de alguma merda. Resistência é caralho, estão sendo mimados, pirracentos, mal-educados e passando vergonha. Vale para todos, para cada babaca que barraqueia em standup do Danilo Gentili quando ele faz piada sobre o PT e para cada babaca que barraqueia quando humorista critica o Bolsonaro. Liberdade de expressão não é apenas poder falar o que quer, é também ser obrigado a tolerar que os outros falem coisas que você discorda.

A triste conclusão é a de que o brasileiro não tem preparo emocional, maturidade nem educação para usufruir de Liberdade de Expressão. Independe de posicionamento político, de “lado”, é o povo em si, sem educação, sem noção. Tem que meter limites nesse povo merda, sem noção e megalomaníaco. Barraqueiros de bosta, tumultuando o entorno quando são contrariados. Na boa? Liberdade de Expressão para brasileiro não dá, não sabem usar.

Por sua vez, Gustavo Mendes também fez seu papelão. Ele não soube como se portar.

O humorista fez do evento um show de vitimização. Disse que ele foi vítima de “censura”. Queridão, vai dar meia hora de cu. Censura é estatal, ocorre quando te proíbem de fazer ou falar algo que está permitido em lei. Quando o público berra que seu trabalho é uma merda, é apenas um evento desagradável, não é censura não, sua anta.

Censura sofre o Leo Lins, que em sua turnê “Bullying Arte” sempre faz uma abertura fazendo piada sobre os políticos de cada cidade que se apresenta. Em muitos locais do Brasil ele foi PROIBIDO de se apresentar, pois o prefeitinho local não queria que soubessem que ele era travequeiro ou que seus filhos eram viciados, assuntos que fatalmente eram tema das piadas de Leo. Alguém aqui já viu o Leo Lins com cara de cachorro cagando na chuva dizendo que foi censurado?

Teatro lacrado, polícia na porta impedindo ele de entrar por ordem do coroné da cidade e o que ele faz? Vai para praça pública e faz seu espetáculo DE GRAÇA para o povo todo da cidade. Com isso ele alcançou plateias gigantescas. E, mesmo assim, tentaram impedir isso também. Ameaça, polícia, condução à delegacia e até prisão estão no rol de eventos de sua turnê. Mas Leo Lins não é vítima, não é cuzão, não é chorão. Ele é forte, podem perseguir à vontade, ninguém vai pará-lo. Ele não se faz de vítima, ele faz do limão uma limonada. Por isso só cresce, enquanto Gustavo Who Mendes é um coitado inexpressivo em seu meio.

Gustavo Mendes é um merda tão merda quanto os que o vaiaram. Só tem algoz se existir uma vítima. Só depende de você, do seu posicionamento, ser vítima ou não.

Em resumo:

Para quem é público: não gosta, não consuma. Não gosta, retire-se em silêncio, pois sua opinião é irrelevante para o mundo. Não gosta, cale a boca e se afaste sem atrapalhar pois outras pessoas gostam e tem o direito de usufruir. Não gosta? Siga sua vida, “lutar contra”, falar mal, reclamar… tudo isso só promove aquilo que você não gosta, só divulga, só atrai mais gente. Não seja otário de divulgar o que você desgosta.

Para quem está com o microfone na mão: se alguém não gostou do seu trabalho, as pessoas têm o sagrado direito de desgostar, quem escolheu lidar com o público está exposto a isso. Desgostar, criticar, chamar a polícia ou vaiar não é censura, censura é um ente estatal fechar o teatro e te impedir de se apresentar. Não seja vítima, rejeição, ainda que mal-educada, faz parte do pacote de trabalhar com público, se não sabe lidar, vai fazer outra coisa para ganhar a vida.

Para dizer que cada vez mais o Desfavor da Semana é sobre casos onde todo mundo tá errado, para dizer que tem que mudar o nome da personagem para Dilma Vaiada ou ainda para dizer que você é sim importante para sempre berrar sua opinião: sally@desfavor.com

SOMIR

Se a definição da loucura realmente é fazer sempre as mesmas as coisas e esperar resultados diferentes, enfrentamos uma pandemia global de insanidade. Impressionante como no final das contas, não importa sua orientação política, sexual, ou mesmo lugar na pirâmide social, as pessoas tendem aos mesmos comportamentos diante de situações de contrariedade. Somos bilhões de ditadores potenciais, esperando pela oportunidade de exercer qualquer poder para tentar moldar o mundo à nossa imagem.

Não que seja uma coisa ruim tentar influenciar o comportamento alheio. Não deixa de ser o que fazemos aqui, dia após dia, mas há uma diferença considerável entre oferecer seu ponto de vista e tentar impô-lo. Exercitamos o sagrado direito de não gostarem do nosso conteúdo há mais de uma década: se não gosta do que escrevemos, basta não vir ler. E para manter uma lógica de comportamento, se não gostamos de algo que outra pessoa diz ou escreve, não vamos atrás dela para encher o saco.

Então é realmente difícil de entender qual a dificuldade de não ir assistir um stand up de um comediante que só é famoso por passar pano para o PT se você não tolera que falem mal do Bolsonaro. O que essas pessoas esperavam? Pode-se argumentar que esse cidadão não é famoso o suficiente para ter esse grau de reconhecimento do brasileiro médio, e que muitos sequer sabiam de seu histórico imitando a Dilma Mesmo assim, não é muito razoável achar que qualquer comediante vá perder a oportunidade de falar de um presidente como o que temos atualmente. Difícil é não fazer piada com quem dá uma declaração mais bizarra que a outra, dia sim, dia também.

Mas vá lá. Vamos perdoar até isso. A pessoa não sabia direito quem era o comediante e não está prestando atenção no noticiário político. Ela foi ver um comediante porque era melhor do que ficar em casa no dia. Mesmo assim, o comportamento é bizarro: ao invés de perceber que cometeu um engano e foi ver alguém que faz piadas e critica coisas que você gosta e defende, sente-se atacado! O comediante não entra na sua casa e te força a ouvir o que ele tem a dizer, a pessoa vai lá e consome esse material por conta própria. Às vezes você erra e vai ver algo que não gosta. Faz parte.

Eu lembro que um ou dois anos atrás, uma comediante americana decidiu fazer um “stand up sem piadas”, resolvendo passar uma hora e meia criticando a sociedade em geral e falando de questões importantes para ela como direitos LGBT. Eu achei uma babaquice? Eu achei uma babaquice. Fui assistir para depois ir reclamar? Claro que não. Posso ser contra basicamente todas as escolhas que ela fez para criar esse especial, mas a culpa por ver e não gostar seria totalmente minha naquele ponto. Faz parte do que configura liberdade de expressão: tem gente que vai falar coisas que não gostamos, e desde que você seja livre para escolher as mídias que vai consumir, está tudo certo.

O mundo é feito de pessoas pensando diferente, interesses conflitantes e disputa por poder. Nossa sociedade toda é montada ao redor de encontrar a melhor forma de manter alguma coesão entre todas essas desavenças. Atualmente estamos muito focados na divisão entre capitalismo e socialismo, conservadorismo e renovação cultural, com Direita e Esquerda lutando pelas mentes das pessoas. O que começou a ficar escondido no meio dessa cortina de fumaça de guerra cultural foi uma disputa ainda mais importante entre visões de mundo: a luta entre visões autoritárias e libertárias de funcionamento social.

E o que parece estar acontecendo é que no meio dessa confusão toda, os que defendem capitalismo cristão e os que defendem socialismo inclusivo acabaram concordando em algo: serem autoritários. A “turma do lacre” e a “turma do mito” já se decidiu: não dá tempo de argumentar. Tem que forçar todo mundo a seguir suas ideias, ou a sociedade vai desabar. A ideia de deixar as pessoas livres e tentar influenciá-las saiu de moda, o século XXI vê o renascimento do autoritarismo não de cima para baixo com reis e ditadores, como de costume, mas de baixo para cima. O povo está clamando por alguém que force seus desafetos a concordar com eles. E praticando o que pregam no dia a dia.

Você deve perder seu emprego se disser algo errado sobre transexuais. Você deve ter seu trabalho confiscado se desenhar dois gays se beijando. O tempo da conversa passou, o “moderno” é forçar o outro a se adaptar ao que você acredita ser certo, não importa o custo. De ambos os lados, liberdade de expressão vai saindo de moda, um direito negociável para evitar ouvir o que não gosta. Todos regimes autoritários que começam com apoio popular bebem dessa mesma fonte: primeiro entregam a liberdade de expressão pelo conforto da conformidade, e logo depois o de ir e vir em troca de segurança. A verdade é que o ser humano tem um histórico de vender muito barato sua liberdade.

E esse comportamento não se importa se você se diz de direita ou esquerda, ele parece fazer parte da nossa genética. A verdadeira batalha é entre quem quer forçar os outros a se conformarem e quem quer ver esse mundo se arriscando com cada vez mais liberdade, mas todas as benesses que podem vir com ela. A verdadeira guerra cultural do momento não é entre conservadores e lacradores, eles estão unidos no amor pelo autoritarismo, e nós, que ainda acreditamos em liberdade pessoal… nós somos os inimigos deles. E sinto informar: estamos apanhando feio nessa batalha…

Para dizer que eu sempre fico megalomaníaco no final do texto, para dizer que não se importa porque não gosta do comediante, ou mesmo para dizer que a única coisa garantida nessa vida é a derrota: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • As vezes me pergunto se as pessoas são realmente muito burras ou se fazem isso por mal caratismo mesmo. Confundir censura com boicote/rejeição é demais pra minha cabeça. Sem condições.

    E esse tal “comediante” aí ainda teve a chance de tentar se defender no Pânico, mas se queimou mais ainda. O descontrole emocional dessa criatura foi um troço digno de vergonha alheia na entrevista.

  • Sally, só um toque, a Dilma Bolada é um perfil de Twitter criado por um publicitário chamado Jefferson, não tem nada a ver com o Gustavo.

    O Gustavo satirizava a fama da Dilma de histriônica e estúpida

  • Ah… nada como Caga-Regras incoerentes tecendo loas à liberdade de expressão enquanto praticam censura cotidiana de comentários…

    • Nós não somos o Estado. Você falhou na premissa básica do seu argumento, portanto, não poderei continuar este atendimento.

      Tenha um bom dia.

      • E daí? Isso não desconstitui a desonestidade intelectual de selecionar arbitrariamente quem pode ter sua discordância publicada, especialmente quando se afirma que “eles estão unidos no amor pelo autoritarismo, e nós, que ainda acreditamos em liberdade pessoal… nós somos os inimigos deles”. Na verdade, são hipócritas o suficiente para disfarçar a incoerência.

        • E onde fica minha liberdade pessoal de escolher quais interações humanas me interessam? É mais ou menos como dizer que quem acredita em liberdade de expressão é obrigado a conversar com qualquer pessoa que o interpele na rua, por exemplo. Se eu ignoro uma pessoa que quer passar as próximas 4 horas me falando sobre Jesus numa viagem de ônibus, eu estou praticando censura, ou mesmo agindo de forma autoritária?

          A entidade Desfavor é privada, criada e mantida por indivíduos. A possibilidade de comentários é mera liberalidade, não direito, afinal, de uma certa forma você ainda está dentro da minha propriedade. Ou seja, não é censura porque eu não querer falar com você não fere sua liberdade de expressão, afinal, ela não é baseada na minha atenção como indivíduo; e também não configura autoritarismo, afinal, ao invés de exigir que o Estado cerceie sua liberdade de mandar comentários para cá, eu simplesmente não os aprovo, o que, convenhamos, é uma solução bem libertária.

          Estado e indivíduo são seres bem diferentes de um ponto de vista lógico. O conceito de hipocrisia falha diante dessas diferenças fundamentais.

          Se você não se repetir mais uma vez, ficarei feliz em continuar a discussão. Se não… sinto muito, mas eu vou preferir colocar meu fone de ouvido no resto dessa viagem.

  • Sally, você não está confundindo o Gustavo Mendes com a Dilma Bolada, do Jefferson Monteiro? Esse sim era o cara que recebia dinheiro pela agência de publicidade para fazer humor a favor da Dilma.

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