Gêneros Musicais – Eletrônica

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Tio Ge explica – Gêneros Musicais 5 – Eletrônica

Dando continuidade à série de textos sobre o tema, hoje eu falo de eletrônica. Ao contrário dos outros gêneros, esse também tem trocentos subgêneros e vertentes, mas sem aquele monte de progressões harmônicas distintas pra ficar maluco. Aliás, os únicos subgêneros que vão ter certa atenção à progressão harmônica e encadeamentos harmônicos e melódicos é a dance music dos anos 1990, que bebe bastante no clichê pop que já conhecemos, e o trance. Mas calma que a gente chega lá.

Assim como os outros gêneros, existe uma história da música eletrônica a ser contada, que começa já lá no século XVIII, mas vou tentar ser sucinto. Entretanto, é válido dizer que a música eletrônica acompanha a evolução da tecnologia em seus mais variados aspectos (eletrônica, microeletrônica, elétrica, eletroacústica, matemática, física, computação…) e que os trocentos subgêneros existentes são uma coisa relativamente nova; surgiram a partir dos anos 1970 pra cá, e alguns são realmente difíceis de delimitar ou categorizar: às vezes, basta uma simples mudança de timbre ou de ritmo aqui e ali para surgir um novo subgênero dentro de outro já existente. Um exemplo bem básico é na house music que inclui o deep house e o acid house como subgêneros e que muda apenas o timbre de baixo no segundo.

Estima-se que o primeiro instrumento musical eletrônico que existiu foi o Denis D’Or, por volta de 1730, de autoria de Prokop Divis, um teólogo, cônego e cientista tcheco, do século XVIII. O nome vem possivelmente da junção de Divis com “Dionisius”, que por sua vez deriva o nome Denis. A proposta do instrumento era bem simples: cordas de piano excitadas por eletroímãs e que vibravam (produziam determinada frequência) a partir de uma carga elétrica aplicada em determinado momento e em determinado ponto da corda. Só que naquela época, as coisas ainda eram muito precárias, e a relação entre eletricidade e eletromagnetismo só veio a ser melhor esclarecida alguns anos depois. Para piorar, ainda havia o problema estrutural propriamente dito, sobre como armazenar uma determinada carga elétrica temporária (naquela época não existia essa pecinha chamada capacitor!) e liberá-la no momento certo para produzir o timbre certo.

No século XIX a coisa muda, surge o gramofone, de um lado, inventado por Berliner, e que vai ser pai do disco de vinil; e de outro o fonógrafo, inventado por Thomas Edison, que utilizava cilindros de carbono para gravação. Nesse meio também surge Thaddeus Cahill com o telarmónio, outro instrumento musical eletrônico que consistia num trambolho enorme que ocupava uma sala inteira e pesava toneladas, e funcionava basicamente com um dínamo elétrico gerando corrente contínua, ligado a indutores eletromagnéticos capazes de produzir diferentes frequências e parciais harmônicos dessas frequências. Essa tecnologia foi aprimorada no século seguinte, e daí surgiu o órgão Hammond.

No século XX, por sua vez, a coisa deslancha de vez: surgem os magnetofones (pai da fita k7), os discos de vinil, e logo mais o cd, surge o computador, surgem partes eletrônicas e circuitos elétricos, chips, novos instrumentos, novas descobertas na eletroacústica e na física a respeito de como lidar e manipular ondas, entre tantas outras coisas. Breve parênteses aqui para dizer que a música eletrônica, em seu primórdio, flertava com o erudito. Maurice Martenot, Luigi Russolo, Pierre Schaeffer, Paul Boisselet e Stockhausen são nomes significativos aqui, bem como todo pessoal da “Elektronische Musik”.

A música eletrônica surge no século XX e vem inovar, pra não dizer, também, quebrar conceitos estabelecidos na música tradicional. Agora, onde era timbre passa a virar ritmo, e onde era ritmo passa a ser timbre. Explico brevemente: imagine que há uma gravação de uma voz dizendo “ahhh”, e que essa gravação tem 4 segundos. Pois bem, eu posso dividir essa gravação (papo técnico: sample, que significa amostra) em quatro gravações de um segundo, ou duas de dois segundos, ou oito de meio segundo, enfim, posso fazer quantas divisões eu quiser, e pô-las para repetir. Cada “pedaço” desse “sample” que eu coloco pra repetir se chama “loop”.

Dá também pra eu colocar duas gravações tocando ao mesmo tempo, um de cada lado da caixa de som. Dá pra colocar 4, 8, 16, 32, quantas eu quiser tocando ao mesmo tempo, ou tocando em tempos diferentes, em velocidades diferentes. Dá ainda pra eu alterar a altura (frequência) dessa gravação e mudar a tonalidade. Imagine que essa gravação esteja em 440hz; dá pra dobrar uma oitava, colocando-a em 880hz, ou diminuir uma oitava, deixando-a em 220hz, dá pra aumentar uma quinta (relação de 3/2 da frequência original) e chegar a 532hz, e por aí vai…

Enfim, dá pra fazer toda uma bagunça colocando várias gravações tocando em tempos diferentes, tonalidades diferentes, de frente pra trás, de trás pra frente, e ainda dá pra colocar um loop de 1 segundo para ser repetido 140x por minuto, aumentar essa velocidade, diminuir… as possibilidades são inesgotáveis!

É aqui que eu queria chegar pra explicar o que disse anteriormente: antes uma simples gravação de “ahhh” que era considerado timbre, agora vira ritmo pela repetição incessante. Dá pra fazer ritmo, “loopear” com qualquer coisa, qualquer som que tu encontra por aí. Um timbre de piano ou mesmo de violão passa a virar ritmo pela simples repetição. Da mesma forma, dá pra simplesmente pegar um som de bumbo da bateria – que anteriormente era considerado apenas elemento de ritmo-, e alterar a frequência, dividi-las em vários tons diferentes e construir uma melodia em cima disso.

A partir disso já dá pra comentar sobre os instrumentos eletrônicos comumente utilizados, que são bem diferentes dos instrumentos acústicos utilizados nos outros gêneros. Basicamente, o que existe é o teclado sintetizador, o teclado sampleador, o sequenciador, a caixa de ritmos (bateria eletrônica) e a pick-up. O teclado sintetizador é um teclado que tem um processadorzinho poderoso lá dentro capaz de gerar ondas, isto é, sinal sonoro. A partir disso eu posso criar formas de ondas diferentes – quais sejam, onda quadrada, triangular (dente de serra), e a curvada (senoidal/cossenoidal) -, e manipular o som que eu quiser a partir de um simples sinal. Existem várias formas de síntese sonora (dá pra mudar frequência, amplitude, ressonância, comprimento de onda, dá pra juntar duas ou mais ondas e formar uma terceira, ou dá pra aplicar filtros pra diminuir uma onda…), e algumas delas bem complexas e que envolvem cálculos pesados. Vou pular isso aqui porque não vem ao caso.

Hoje a maioria dos teclados sintetizadores é digital, isto é, tem um processador com quatro ou mais núcleos dentro, e a síntese é totalmente digital e eletrônica, feita via hardware. Há também aqueles teclados que o processador não produz sinal sonoro, mas apenas manipulam as amostras de som que já vem dentro de uma memória interna. Nesse caso, com os samples pré-gravados, o instrumentista joga num “software” próprio do teclado e os manipula da maneira que desejar. Hoje tudo é digital, mas nem sempre foi assim. Nos primórdios do século XX, o que havia disponível eram válvulas elétricas e um dínamo, e, bem resumidamente, a partir de uma diferença de sinal elétrico havia a produção de ruído eletroacústico, e daí esse ruído era amplificado e reproduzido em caixas de som. Era extremamente difícil mexer nesse tipo de coisa, além de não usual. De um lado, está o órgão Hammond, de outro, o piano Rhodes como precursores dos sintetizadores.

O teclado sampleador, por sua vez, realiza aquilo que dei exemplo logo acima: ele pega um sample, uma amostra, e, bem grosseiramente, clona-a e subdivide em diferentes frequências a partir de seus harmônicos. Trata-se de uma inovação, mas nem sempre funciona perfeitamente, já que alguns timbres extremamente complexos e ricos em harmônicos perdem sua qualidade quando clonados ou quando alterados substancialmente em frequência. O sequenciador, que geralmente vem já embutido em um sintetizador, tem a simples função de memorizar algumas sequências de notas. Dessas sequências de notas que ficam disponíveis lá apenas apertando um botão, eu posso combinar várias sequências distintas e construir toda uma melodia em cima disso.

A caixa de ritmos (drum beat) é parecida com o sequenciador: é um negócio que tem vários botões e uma memória interna em que tu pode colocar um sample em cada “casinha” e a partir disso brincar com os botões do jeito que quiser. Há brinquedinhos desses bem poderosos por aí até hoje, e a mais famosa na história é a Roland TR-808. Confiram os vários vídeos no youtube sobre o que ela pode fazer. Ela dá origem, algum tempo depois, à bateria eletrônica que tem o mesmo princípio de funcionamento: vários pratos dispostos para serem tocados e, em cada um, um sample diferente pré-gravado.

A pick up certamente vocês já devem conhecer, é aquele negócio onde o DJ coloca o disco (que pode ser vinil ou cd) e gira. Só que o legal desse brinquedinho é que dá pra fazer girar ao contrário, mexer rapidamente o disco a fim de produzir ruídos no meio da música (o famoso stratch). Ela ainda oferece ferramentas de cortes de loops e samples, dá pra memorizar a música em determinado ponto e voltar exatamente lá depois de algum tempo, ou dá pra cortar um pequeno pedaço e produzir um novo loop, e ainda tem outras ferramentas legais como os spins que é pra fazer parar bruscamente o disco, ou mesmo produzir um break, uma parada brusca. Além disso, algumas picku ps também contam com alguns poucos efeitos de processamento de sinal, como flange, delay e chorus. Existem também softwares que simulam uma pick up, o mais famoso por aí e bem intuitivo é o virtual DJ. É válido dizer aqui que nem sempre o DJ trabalha só com a pick up, geralmente ele sempre tem um sampleador ou sintetizador ao lado dele, além de uma drum beat pra completar o pacote.

Agora que já comentei sobre os instrumentos mais comuns que são utilizados, já dá pra falar sobre a estruturação do gênero. Diferentemente dos outros gêneros, aqui não há bem uma estruturação rígida que elenca harmonia, melodia e ritmo, nem mesmo um esquema verso-refrão-verso. De maneira geral, embora isso não seja regra, a música eletrônica se estrutura da seguinte forma: intro, break, build up, drop e outro.

Na intro são apresentados ao ouvinte alguns poucos elementos, como uma linha de baixo e a percussão. Progressivamente vão entrando outros elementos de percussão, riffs, vocais e tudo mais, daí temos o break, que é a música em si. Após isso, há um crescendo na música, geralmente mexendo com mudança de tonalidade e/ou ritmo, esse é o momento do build up, que se estende até o drop – que é o momento de tensão máxima da música – e que vem acompanhado de uma quebra e de uma queda, geralmente de ritmo, ou de silêncio; e faz retornar para o break, até que é apresentado outro build up e assim vai. O momento “outro” é quando a música vai perdendo, paulatinamente, seus elementos, até sobrar só a linha de baixo e os elementos percussivos, para assim a música se finalizar completamente. Sim, via de regra, música eletrônica é longa, não menos que quatro minutos.

Agora que já deu pra ter uma noção, vamos aos subgêneros: saliento que não dá pra falar de todos aqui, se não vira um texto interminável, então vou tentar agrupá-los nas principais vertentes. Começo falando da dance music que é o gênero que mais aprecio desde pequeno. Aprecio não só em termos de escuta, mas também de composição, porque ela dispõe de poucos elementos e tem uma estrutura simples, mas dá pra fazer algo bem rico com esses poucos elementos. E talvez, o melhor jeito de explicá-la mesmo seria apontando pra algumas músicas ou partes delas.

A dance music explode mesmo nos anos 1990, e novamente, é difícil determinar com precisão, já que ela sofre influência direta do house music e da disco music na década anterior. Precursores desse gênero já se encontram lá em Bee Gees e Abba, com “gimme gimme gimme”, mas há quem diga que a primeira música de dance teria sido mesmo “I fell Love” de Donna Summer.

Dance music é feito para dançar, para mexer no nível mais basal das pessoas, isto é, a ideia é comunicar não tanto através da letra ou da melodia, mas sim através do ritmo. Uma boa faixa de dance music não é marcada pelo som rebuscado, ou pela complexidade harmônica, mas sim pela exploração dos elementos mais básicos da música, qual seja, o ritmo. E por falar em ritmo, falemos também do andamento: geralmente varia entre 120 a 130 bpm (batidas por minuto), não mais que isso. Quem gosta de 140bpm é a turminha do progressive e trance.

Quanto aos elementos de percussão, ao contrário de outras vertentes, esse não passa do conjunto bumbo-caixa e pratos. Só que é tudo muito enfatizado: o bumbo bem marcado, ritmo incessante, sem alterar em nenhum momento a velocidade, pratos bem marcados e abertos, som claro, bem do tipo tuts-tss-taff-tuts-tss-taff. A ênfase se dá nesse som de tsss do prato de condução.

Quanto às linhas de baixo, elas são bem simples, geralmente progredindo em 3as até formar um acorde de sétima. Explico: vejamos a música “what is Love” de Haddaway, lá o baixo simplesmente toca sol-sol-sol-sol/si-si-si-si/ré-ré-ré-ré/fá-fá-fá-fá até que volta pra sol e tudo se repete. Reparem que entre sol e si eu tenho um intervalo de 3ª, entre si e ré idem, entre ré e fá idem. Reparem também que o conjunto sol-si-ré-fá forma o acorde de sol maior, com sétima. A mesma coisa acontece em “the rythm of the night” de Corona, só que com as notas lá bemol, dó, si bemol e fá.

Já os vocais, eles são quase sempre altos, pra cima, vibrantes, tons altos e, não raro, podem aparecer alguns gritos e berros no meio do arranjo. Vejamos como exemplo, ainda em “the rythm of the night” aquele momento da música depois do 2º refrão em que a cantora grita: this is the rythm of the niiiiiiighhtt! Ohhh ohh yeahhh… O mesmo acontece com a referida “what is Love”, “rythm is a dancer” de Snap, “be my lover” de La Bouche, entre tantas outras.

Pra completar o pacote, adicione aí um riffzinho qualquer que se repetirá durante toda música, feito obviamente com timbre eletrônico sintetizado, e um string, que faz o papel da harmonia, repetindo quatro acordes que se combinam com as quatro notas da linha de baixo e está feito. Vejamos isso novamente com o arranjo de “the rythm of the night”: temos os acordes lá bemol menor, dó menor, si bemol menor e fá maior nos strings, junto com o riff sib/réb-fá-ré-solb/sol-fá-sol-réb/sib. Sim, é clichê pop, mas é bom, é bem construído e organizado.

É válido dizer também que a dance music ganha novas roupagens no decorrer dos anos 1990: antes, no início, era só isso apresentado acima, mas daí a coisa começa a se espalhar pelo mundo afora e ganha novos elementos. Na dance latina, por exemplo, começam a aparecer novos elementos de percussão com aquela “pegada” do ritmo latino.

Já na Europa, há a vertente chamada eurodance e italodance: no primeiro caso temos a sutil diferença de não utilização de quatro acordes, mas sim de apenas três. Exemplo para ser citado são 2 unlimited com “get ready for this” e La Bouche com “be my lover”: reparem que nessas músicas se repetem incessantemente sol-dó-ré, ou fá-sol-dó. O ritmo é quase sempre desenvolvido com o baixo em tercinas, que são basicamente três notinhas juntas num só tempo da contagem, bem do tipo ta-ra-ra/ta-ra-ra/ ta-ra-ra/ta-ra-ra…

A italodance, por sua vez, é desenvolvida na Itália, e tem uma pegada revival da disco music, e o essencial se resume no abuso de percussão e baixos. Essa vertente começa nos anos 1990 e sobrevive bem até meados dos anos 2 mil. Lembram de Magic Box, com aquele hit icônico, “If you”? Pois é, aquilo é ítalodance.

É válido dizer também que do meio dos anos 1990 pra frente foram surgindo uma penca de artistas da eurodance, e que misturavam um pouco da italodance e também do Techno, daí a coisa começa a ficar complicada pra definir. Exemplos são DJ Ross, DJ Otzy, Ace of Base, Culture Beat, Eiffel 65, Gabry Ponte, Vengaboys, Gigi d’Agostino, Dr. Alban, Double You, Cascada, Lasgo… São muitos!

Aliás, breve comentário sobre o cenário da dance music nos anos 2 mil: no lado oriental aparecem alguns artistas que fizeram algum estouro nos idos de 2003, um exemplo é a banda romena O-zone, que traz um revival disco dos anos 1980 e ao mesmo tempo elementos da dance music. Estouraram com aquele hit “dragostea-din-tei”, mesma música que Latino, aqui no Brasil, fez um plágio descarado com “festa no apê” e também hitou no verão seguinte. Aliás, aqui no Brasil, por volta de 2005, havia um projeto brasileiro liderado por Ian Duarte (produtor musical) e Fabianno Almeida, além de Fher Kassini, da Building Records. O projeto tinha dois artistas em alta: Ramada e Kasino. O segundo emplacou mundialmente o hit “can’t get over”, lá por 2006. Depois, por falta de engajamento dos produtores, logo caíram em esquecimento. Mas o projeto tinha tino para dar certo e ser sucesso por mais alguns anos.

Um gênero que muita gente conhece por aí e que sempre confunde com a dance music é a house music. Sabe aquelas músicas animadinhas que tocam em loja de boutique de shopping? Pois é, aquilo é house music. Ela é realmente parecida com a dance music, mas a diferença sutil reside no fato de ter mais elementos percussivos que essa. A dance music é sempre marcada e crua, a house music apresenta outros elementos que vão além do conjunto bumbo-caixa-pratos. Além disso, ela contém outros elementos, mais riffs, loops de passagens e preenchimentos com leads, vocais e backs vocais, etc.

A coisa começa lá nos anos 1970, em Chicago, e logo se espalha pelo mundo inteiro: Nova York, Londres, Europa em geral. O nome também é autoexplicativo: “house” significa casa, eram justamente músicas que eram tocadas em festas feitas em casa (house party) tão comum nos EUA. E, como as coisas no início eram precárias, feita por gente amadora, somente uma pick-up e uma caixa de samples bastavam pra dar conta do recado.

Dentre as várias vertentes, as mais conhecidas são: a deep house, que tem o andamento mais lento, em torno de 110 a 120 bpm – um exemplo disso é aquela “D deep” de Deep House, ou mesmo bring it on” de T.J, e “something about us” de Hayden James – ; e tem aquela mais rápida, pra dançar, como o progressive house e o acid house, geralmente na casa dos 130 a 140 bpm. Mas, para além do andamento mais rápido, o que há de diferente aqui é o timbre de baixo, geralmente sintetizado com uma dente de serra e uma onda quadrada, ou então feito com baixo acústico e pedais de fuzzy e overdrive. A ideia era representar justamente, musicalmente, o som de ácido borbulhando, ou algo fritando.

Um gênero análogo da house music e que todo mundo também confunde é o electro. É chamado também como “electro house”, porque, em princípio, ele surge da estrutura do house music, mas aqui o que conta mesmo é o som “eletrificado”, imitando algo como uma corrente elétrica. Há também o uso do baixo fritado, mas os sons de riffs e leads também tem essa característica, ao contrário do acid house que usava-o só no baixo. Vejamos um exemplo com esse sample aqui:

E um gênero que a galera cofunde com o electro é o Techno. A diferença sutil aqui é que ele pode ou não ter esse baixo fritado do electro, mas essa não é a característica principal. O nome Techno se refere a tecnologia, então é comum encontrar apenas sons sintetizados, por vezes robóticos e de inspiração futurística, bem como vozes sintetizadas e robóticas. O legal aqui é que são utilizadas notas sequenciadas, ou seja, um conjunto de notas que, como dito anteriormente, fica lá pré-gravado e armazenado em uma memória temporária do teclado, e armazenado em um botão, e o sujeito pode organizar várias sequências distintas da maneira que quiser.

Exemplos disso tu encontra em Anti Funky (embora esse flerte com o house), Eiffel 65 (com grande pegada dance music), e Daft Punk. Mas eu prefiro ilustrar o Techno com esse excerto aqui:

Reparem que, apesar de ter uma complexidade futurística, são só algumas poucas notas. Acordes sol, ré, lá arpejados em três oitavas (ou seja, toca-se sol-si-ré mas não exatamente uma nota ao lado da outra, e sim um sol no baixo, ré na oitava acima e si na outra oitava), e tocados com esse timbre que nada mais é que uma forma de onda sintetizada combinando uma senoide e uma parcial de dente de serra.

Um gênero que é, digamos, primo do Techno, e derivado do acid house, é o trance. É comumente conhecido por aí como psytrance, diminutivo de “trance psicodélico”. A ideia é bem essa mesmo: uma música que produza certo estado de transe no ouvinte. E, para isso, nada melhor que um ritmo extremamente acelerado (acima de 140bpm, às vezes até 170bpm!), linhas de baixo bem marcadas, uso de algumas progressões harmônicas mais complexas como o ciclo de quintas encadeadas por sétimas (exemplo: acordes I-V-II-VII-III-VII com sétimas diminutas e aumentadas entre eles), e, além de riffs melódicos e sequências de acordes arpejados, há o uso de pads pra fazer uma ambientação que beira ao sobrenatural. Dash Berlin, ATB e meia dúzia de alemães estão aí pra ninguém botar defeito.

Virando o disco, isto é, do outro lado do oceano, mais especificamente na Inglaterra, surgiu lá no final dos anos 1990 o gênero UK garage. Ele, na verdade, é um conceito que engloba o grime, o dubstep e o bassline. E no dubstep ainda há a subdivisão entre wooble bass, bass drop e brostep. Sim, são muitos, às vezes até eu me perco, então vamos por partes.

A ideia aqui, primordialmente, é algo cru, somente uma linha de baixo e percussão. O dubstep é isso e só. Um exemplo tu encontra nesse vídeo. Reparem que ali só há linhas de baixo, com algumas poucas notas, mas o compositor abusa dos filtros passa banda e passa alta, além de cutoff (que, bem resumidamente, corta determinado espectro de frequência dos agudos, na casa dos 4 aos 16khz), dando a sensação de que às vezes abre e fecha o som.

O wooble bass é uma versão mais agressiva disso, que usa sintetizadores que mexem com os LFO (oscilação de baixa frequência), daí dá aquela sensação de som de woob woob. O bass drop avança no subgênero introduzindo um ou mais drops, ou seja, quebras e quedas bruscas seguidas de silêncio ou de som descendente, em alguma parte da música. É bem aquela coisa de a música estar tocando e, de repente, ter um som de sirene ou de algo caindo e daí recomeçar a linha de baixo novamente. Por sua vez, o brostep aposta nessa mesma característica de som marcado com várias oscilações de frequência e ritmo quebradiço, mas dando atenção mais às frequências médias e altas, ao contrário das frequências de baixo. Um bom exemplo disso é Skillrex.

O grime tem mais a ver com o hip-hop, sofre em partes influência deste. A ideia aqui continua sendo linhas de baixo e percussão, mas dessa vez mais quebradiça, fora do tempo, e com alguns vocais e versos de mc’s. Um bom exemplo disso para ouvir é JME. Por fim, o bassline é bem parecido com o dubstep, só que mais rápido do que esse, na casa dos 140bpm ou mais. Por ser rápido, e a linha de baixo se repetir incessantemente, dá a leve impressão de que é algo contínuo, como uma linha só. Daí o nome “bassline”.

Ainda em termos de baixo e percussão, existe outro gênero que também nasceu na Inglaterra nos anos 1980 chamado drum and bass, ou d’n’b. Como subgêneros incluem-se o jumpstyle, jazzstep, hardstyle, dubwise, drum’n’bossa, entre tantos outros. Diferentemente do UK garage, aqui o baixo não é tão marcado e quadradinho com uma só linha, mas sim mais variado, pode até haver, em alguns casos, algumas improvisações e grooves no meio. A percussão também é outro elemento interessante aqui, já que fica mais livre e agrega outros elementos que vem do samba, da bossa, da música latina, do jazz etc. Um bom exemplo dessa vertente que temos aqui no país é dj Patife.

Um gênero que eu acredito que seja mais ou menos conhecido por aí, ou antes, se popularizou faz pouco tempo, é o downtempo. Aqui incluem-se as vertentes chill out, new age e lounge music. A ideia aqui é fazer uma música mais lenta (down), feita para relaxar. Então é comum ter sons de strings, pads para completar a ambiência, e mesmo sons que imitam sinteticamente sons da natureza como raios, trovões, gotas, vento, cosmos, céu, etc.

A coisa começa lá nos anos 1970, sob forte influência do easy listening, do new age e do soul. Só que lá pelos anos 1990, surgiu a ideia de colocar músicas mais lentas para serem tocadas em baladas, no meio de toda aquela agitação eletrônica, a fim de que as pessoas possam descansar e relaxar. A ideia vingou e hoje esse tipo de música é utilizado em vários ambientes ditos relaxantes. O chill out tende a ser a versão mais relaxante possível, apenas sons, sem vocais, e andamento bem lento. O lounge é uma versão um pouco mais rápida – mas nada na casa dos 120 bpm como na dance music, é bem menos que isso -, e com alguns poucos vocais. Já o new age não é bem eletrônico em sua essência, está mais relacionado a um conceito que reúne várias crenças espiritualistas, e que utilizam músicas com vocais bem reverberados e uma puta ambiência de strings para fazer algo relaxante e medidativo. Enya e Era são exemplos disso.

Por fim, acho que dá pra comentar rapidinho sobre esses gêneros “estranhos até demais” e que raramente alguém conhece. Cito dois: EBM e noise. O segundo, também conhecido como japanoise, noisecore, tem a ver com “noise”, barulho em inglês. É geralmente feito com samples de coisas irritantes e que ninguém usaria, como por exemplo, o som de uma serra elétrica serrando algo, ou o som de um vidro se quebrando, de um apito ou sirene, enfim. Isso vem lá do experimentalismo das vertentes eruditas, como John Cage, Stockhausen, Schaeffer, passa por certa influência do minimalismo na década de 1960 e ainda se junta com o rock nos anos 1970.

EBM significa “eletronic body music” e aqui se incluem o future pop, o harsh EBM, e o Anhalt EBM. Bem grosso modo, EBM é o resultado da junção do synthpop lá dos anos 1980 com a música industrial dos anos 1990. Harsh EBM (conhecido também como agrotech) é a versão mais pesada dessa vertente, com muita síntese sonora, vocais pesados, letras agressivas e tudo mais. Von Richthofen e Suicide Comando são bons exemplos disso.

Já o future pop é uma mistura bem maluca de synthpop com o trance. S.P.O.C.K, VNV Nation e Colony 5 são bons exemplos disso. O Anhalt EBM também é algo louco que surge lá no final dos anos 1970 sob forte influência do stereopunk e mistura eletrônico com guitarras distorcidas do punk.

Bem, é isso. Espero que tenha ajudado a conhecer um pouco melhor os tantos gêneros que compõem o universo da música eletrônica que, de fato, são muitos, e por vezes desconhecidos.

Por: Ge

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Comentários (11)

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    Wellington Alves

    Dance 90 é o melhor.
    Lembro da primeira música que me fisgou para o gênero. Embora já tivesse ouvido outras anteriormente, como a famosa poperô, sempre tinham passado despercebidas por mim, mas quando ouvi what is love do Haddaway, aos 13 anos, fiquei encantado! Até hoje, quando me deparo com ela acidentalmente, paro para ouvir até o final . Aquela entrada com what is love ecuando, seguida daquele rif e baixo, é simplesmente uma das introduções mais matadoras da dance músic 90.
    Aliás, essa é uma das músicas que melhor envelheceram. Por não ter abusado de efeitos eletrônicos da época, o som é perfeitamente aceitável para os dias de hoje. Não a toa, mesmo sendo uma das precursoras, está entre as top 3 na minha opinião.

  • Eu não enchi esse texto de samples, mas vamos lá: exemplo com the rythm of the night no piano.

    Melodia: https://drive.google.com/open?id=1P4sgqoBXSTntjK3UDaKbgaqKzX6B6KVo
    Harmonia/strings: https://drive.google.com/open?id=1IiRPJg7DJiG1_8mCd_fKdFtMeyS1crab
    Baixo: https://drive.google.com/open?id=1IVh415YoSKBsuifX9UYN7M-CM6Ti44Ph
    Riff: https://drive.google.com/open?id=1DBabD0y1ulUzvdPHrL2tImwd3RQfeOf0

    Juntando tudo: https://drive.google.com/file/d/1BpVlthmJ6GF-2V4ZRvCY–6xVJc9JHkG/view

    Como eu disse no texto, a dance music é só isso! É pop clichê, mas sabendo fazer fica um arranjo rico e interessante!

    • Ahh com certeza! Teclado eletromecânico com fitas magnéticas com som pré-gravado, com certeza é um instrumento pra música eletrônica.

  • Não imaginava que as origens da música eletrônica remontavam ao século XVIII! Sempre achei que fosse bem mais recente, nascendo só depois do domínio científico das propriedades da eletricidade e da criação de toda a aparelhagem eletro-eletrônica na segunda metade do séc. XX com a qual convivemos até há bem pouco tempo. Pois é, vivendo e aprendendo…

    • Sim, é isso mesmo, não diria aportuguesamento, mas sim uma gíria que caiu no gosto do povo. A propósito, adoro Technotronic! hehe

      • Falando nisso, “Rhythm Of The Night” virou “Jesus Humilha Satanás” em uma paródia. Teve até clipe e tudo: https://www.youtube.com/watch?v=M_5hdZ58eE4

        E mais: descobri “What Is Love”, do Haddaway virou tema de um quadro do Saturday Night Live chamado “Roxbury Guys”, em que celebridades participavam mostrando seu remelexo. Vejam um trecho com ninguém menos que Sylvester Stallone! Taí: https://www.youtube.com/watch?v=khyyayLdUug

        Outra: “Rythm Is A Dancer”, do Snap! não era tema de um tal “Clube das Mulheres” de uma novela da Globo, em que uns caras metidos a gogo boys faziam strip-tease?

        • Jesus humilha os satanás já ouvi essa pérola de uma vizinha crente… Oh vida! Triste fim da dance music! rs
          Rythm is a dancer é outro hit icônico dos anos 90 com um riff muito legal!

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    Innen Wahrheit

    Oi Gê,

    Muito interessante o texto. Conheço vários dos gêneros e artistas citados, e achei bacana vê-los associados ao contexto que você descreveu.

    O que você diria sobre o Kraftwerk e seu papel na evolução da música eletrônica?

    • Acho Krafwert geniais! Eles conseguem explorar bem o que a música eletrônica oferece “de melhor” numa época em que as coisas ainda eram um tanto precárias. Lembremos que nos anos 1970, embora já tenhamos sintetizadores, sampleadores, vocoders, a coisa ainda era muito simples, quase que minimalista. Naquela época também não existia o computador pessoal com processadores poderosos como temos hoje, então… considerando tudo isso, há que se dizer que o grupo alemão fazia milagre com o pouco que tinham em mãos. Aliás, dá pra notar certa influência, ou flerte, com o noise core, com o synth pop e com o electro neles.

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