História da Barbie

Poderíamos contar a história da boneca Barbie de forma romantizada: na década de 50, uma mulher fez valer a sua voz e insistiu em sua criação se tornando um sucesso de vendas mundiais. Uma empreendedora que realizou o sonho de meninas por todo o mundo. Um brinquedo universal, que agrada a todas as culturas, vendido em quase todos os países. Mas, a história da Barbie tem um lado negro.

Por mais bacana que pareça, a história da Barbie é repleta de polêmicas e eventos nada corretos, e é neles que vamos focar. O sucesso todo mundo alardeia, mas o caminho sujo trilhado para chegar lá, todo mundo tenta apagar. Desfavor Explica: a história da Barbie.

Criticar a Barbie não é exatamente uma novidade. Pelo mundo todo, a boneca é muito questionada. Uma das principais críticas que se faz é a expectativa irreal de corpo que ela crie: suas medidas foram pensadas para potencializar ao máximo o apetite sexual masculino. Não sei se é muito bacana dar isso para sua filha brincar e se inspirar.

Se pegássemos as proporções da Barbie e colocássemos em uma mulher de verdade, ela sequer conseguiria ficar de pé, sua cintura teria 20cm e seu corpo não teria espaço para comportar órgãos. Crescer com o corpo da Barbie como meta pode ser muito frustrante.

Além disso, a Barbie trazia outros estereótipos perigosos: beleza é pele clara, pernas longas, seios fartos e cabelo liso e loiro. Apenas uma pequena parcela da população atende a esses requisitos, todo o resto das meninas que não se tornarão uma loira magra peituda poderão se sentir mal com seus próprios corpos.

Como se não bastasse, o mundo da Barbie era de extrema futilidade, focado no ter e não no ser. Estimulava o consumismo e a crença de que para ser feliz é preciso ser glamourosa, magra e bonita. Mas isso é chover no molhado, essas são críticas públicas que a Barbie sempre recebeu. Dá para ir além.

A história da Barbie é podre desde seu nascimento até sua comercialização. As pessoas envolvidas, as escolhas feitas e até a forma como a empresa foi administrada, tudo altamente criticável. Então, se as pessoas acham ruim a carcaça da boneca, esperem até conhecer tudo que está por trás dela.

A ideia da Barbie partiu da empresária americana Ruth Handler, uma das fundadoras da Mattel (atualmente, maior fabricante de brinquedos do mundo). Na verdade, ela não foi propriamente a criadora da Barbie, ela apenas teve a ideia de comercializá-la.

Quando Ruth, em uma viagem à Alemanha, viu uma boneca chamada Bild Lilly, ela pensou que vender aquilo nos EUA poderia funcionar. Comprou três bonecas e contratou um designer chamado Jack Ryan para criar uma versão adaptada dela para crianças.

Esquecendo por um instante o plágio descarado, Bild Lilly não era exatamente o que podemos chamar de uma boa influência: a boneca alemã era inspirada em uma história em quadrinhos para adultos (ou, em bom português, pornô) e a personagem era basicamente uma golpista, uma garota de programa, uma interesseira que fazia favores sexuais a homens em troca de dinheiro. Por isso a boneca tinha um corpo tão modelado: seios grandes, cintura fina, quadril largo, foi pensada para ser o mais sexualmente atraente possível para homens.

O designer Jack Ryan modificou muito pouco do desenho original de Bild Lilly (apenas o necessário para não ser considerado plágio) e a versão para vendas estava pronta. Em homenagem à sua filha (chamada Barbara) Ruth decidiu nomear a boneca Barbie (apelido carinhoso para Barbara nos EUA).

Por sinal, Ruth usou o nome dos três filhos para batizar bonecos: Ken (que apesar de ser irmão na vida real, se tornaria o namorado da Barbie) e Skipper (que seria irmã da Barbie). Se você sempre achou o Ken feminino demais para ser namorado da Barbie? Talvez seja pela fonte inspiradora. O Ken real, filho de Ruth, era gay e morreu de AIDS em 1994.

Apesar da resistência inicial em lançar uma boneca com corpo tão sexualizado, Ruth persistiu e conseguiu colocar Barbie à venda, em 1959. Foi um sucesso sem precedentes. Rapidamente a boneca se tornaria popular no mundo todo.

Você deve estar se perguntando como fizeram uma sociedade conservadora da década de 50 aceitar uma boneca com esse apelo sexual para suas crianças, certo? A resposta é: com uma publicidade bem canalha. Ruth contratou um psicanalista chamado Ernest Dichter para que ele ajude a manipular as mamães, de modo a que elas passem a querer que suas filhas brinquem com uma mini-puta de 29cm.

Depois de muita pesquisa, o psicanalista percebeu que ao mesmo tempo que as mães odiavam a ideia de suas filhas brincarem com uma boneca sexualizada, elas gostavam da ideia de que a Barbie despertava alguma vaidade em suas filhas. Meninas não muito femininas (algo que na época era considerado um “defeito grave”) ou meninas com interesses de criança (subir em árvore, rolar no chão) davam mais importância à aparência e vaidade quando expostas à boneca, estimulada pelas mães como um exemplo positivo.

Essa foi a porta de entrada da Barbie: o maior medo das mamães da época, que suas filhas nunca consigam ser atraentes para arrumar um bom marido. Na década de 50, maridos ainda eram sinônimo de subsistência para mulheres, eram eles que pagavam as contas da casa e botavam comida na mesa. Barbie estimulava a menina, na mais tenra idade, a querer ser um bibelô. Retratava isso como algo bonito, glamuroso.

Pronto, estava traçada a estratégia de marketing. Barbie prepara filhas para a vida adulta, estimulando a serem belas, vaidosas e atraentes e, consequentemente, a conseguir um bom marido. A estratégia foi divulgada de diversas formas, mas esteve presente desde o primeiro comercial da boneca, que, após passar por várias Barbies, culminava em uma vestida de noiva, para relembrar às mamães qual era o objetivo final da boneca.

A demanda foi tanta que demorou três anos para que a empresa consiga fornecer o estoque necessário de bonecas para atender a todos os consumidores. Com isso a Mattel entrou rapidamente na lista das 500 maiores empresas dos EUA. Rapidamente eles trataram de comprar a empresa que fabricava a boneca que deu origem à Barbie bem como seus direitos e encerrar sua fabricação, de modo a que o plágio nunca fosse descoberto.

Para assegurar o sucesso de vendas, além da manipulação nojenta narrada no parágrafo anterior, a boneca foi lançada a um preço muito barato (três dólares). O lucro viria depois, cobrando uma fortuna pelos acessórios da Barbie, afinal, a graça em brincar com a boneca é trocar suas roupas, seus sapatos, montar sua casa etc. Existe absolutamente tudo que você possa imaginar da Barbie: a cama, o carro, a piscina, o cavalo…

E esses assessórios só colaboravam para o show de horrores que era e é a Barbie. São muitas décadas, então, não é possível citar todas as bizarrices, mas, só para ilustrar, vamos citar uma.

Em 1965 a Mattel lançou um conjunto para Barbie chamado “Festa do Pijama”, que continha um pijama rosa, uma balança com o ponteiro fixo no peso 50kg e um minilivro para a Barbie com o título “Como perder peso” na frente e, no verso, escrito “Não coma!”. Parece que além de um valioso instrumento para transformar uma criança em uma esposa, Barbie também foi uma das pioneiras no ensino da anorexia.

O desgosto não vinha apenas dos acessórios, às vezes a própria Barbie se excedia. Em uma versão relativamente recente, foi colocada à venda uma Barbie que falava frases. A primeira delas era muito encorajadora para as mulheres: “aulas de matemática são difíceis”. Bela lição a ser incutida na mente de uma criança.

Barbie já nasceu errada, inspirada em uma prostituta de luxo, mas ao passar pelo designer Jack Ryan, talvez a coisa tenha piorado. Além de ser um alcoólatra, usuário compulsivo de cocaína e viciado em sexo, o rapaz tinha umas preferências, digamos, questionáveis. Não parece o tipo de mente apta a trabalhar com produtos voltados para crianças.

Sua ex-mulher, Zsa Zsa Gabor, contou que ele tinha um calabouço na casa onde levava mulheres para sujeitá-las a aparelhos de tortura. Sim, esse era o homem que criou a primeira Barbie e responsável pelo seu design por muitos anos. Além de sua inspiração ser questionável, seu pai também era muito complicado.

Jack levou uma vida bem louca, até 1991, quando acabou se suicidando. Tanto a Mattel como Ruth sempre tentaram desvincular a imagem da Barbie deste infeliz, o que é, no mínimo injusto. Ele pode não ter idealizado a boneca, mas foi quem deu vida a ela, quem a tirou do papel. Até sua morte, Ruth seguiu afirmando que ela era a inventora da Barbie sem sequer mencionar o nome de Jack Ryan.

Ruth também não era flor que se cheire. Fez diversos movimentos ilegais, jogou sujo e mentiu em boa parte de sua vida de negócios. Tanto fez que, apesar de ser a fundadora da Mattel e a idealizadora da Barbie, acabou afastada dos negócios em 1975. Em um período de vendas fracas, ela resolveu maquiar os números da empresa, forjar vendas, falsificar contabilidade.

Isso no Brasil é regra, nos EUA é visto como algo muito grave. Quando auditores constataram suas manobras ilegais e os acionistas começaram a processá-la por fraude, Ruth foi obrigada a pedir demissão da empresa que havia fundado. De fato ela foi condenada nos processos judiciais e considerada culpada.

Mesmo sem Ruth, Mattel continuou se comportando de forma pouco ética. Em 1980, Barbie começou a ganhar concorrentes de peso e um deles incomodava em particular: uma marca chamada Hasbro. A empresa resolveu espionar para tentar descobrir o que a concorrência estava tramando. Infiltraram funcionários e acabaram descobrindo que a rival lançaria uma boneca que era uma estrela do rock.

Para passar a perna na rival, decidiram se adiantar e criar uma Barbie Rock Star em tempo recorde. Uma nova Barbie, que demoraria mais de um ano para ser projetada e lançada, foi colocada à venda em apenas 4 meses, para sacanear a concorrência. Poucos meses depois, a Hasbro lançou sua boneca rock star e pegou muito mal. Ficou parecendo para o mundo todo que a Hasbro havia imitado descaradamente a Barbie, e não o contrário.

Certamente há quem olhe para a trajetória da Barbie e para a Mattel e sinta admiração ou inveja pelo sucesso alcançado. Bem, olhem de perto para a vida destas pessoas e pensem duas vezes. Ficaram ricas? Sim, mas viveram vidas transtornadas, fizeram péssimas escolhas e se portaram de formas muito equivocadas.

Que o resultado final de uma empreitada seja um sucesso não quer dizer que este sucesso se estenda aos envolvidos. Barbie é um produto bem merda, provavelmente nocivo às crianças e seus criadores eram pessoas pouco admiráveis.

Para dizer que você se contenta com a parte de ficar rico, para dizer que nunca havia reparado no quanto a Barbie é lamentável ou ainda para dizer que agora entende aquele jeitão do Ken: sally@desfavor.com

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Comentários (13)

  • Mattel mais tarde, já nos anos 80, nos daria o heroi mais macho da história do Universo, também conhecido por He-Man.
    A Hasbro também não é santa e cresceu em cima daquele jogo de Monopoly, citado como desfavor na semana passada.

  • Preferia Polly Pocket. Era mais fácil levar a boneca e os acessórios, que cabiam em qualquer maletinha e, numa época pré smartphone, isso era essencial pra uma criança não morrer de tédio.
    Também era mais fácil de perder, mas nada é perfeito :P

  • É uma coisa que está tão consolidada que ninguém nunca parou pra pensar. Geralmente bonecos de brinquedo tem o corpo num formato mais “neutro”, mais infantil… aí na prateleira do lado tem uma fuckin’ boneca adulta cheia de curvas. Não sei como é hoje, mas no meu tempo, anos 1990 e 2000, a Barbie tinha um jeito menos adulto (contenção de danos?) e mais adolescente, com mais foco em profissões e nas irmãs e amigas dela, que também tiveram bonecas. Uma boa variação de cores de olhos e cabelos.
    Mas não vou mentir, eu adorava essa puta. Tive bonecas, mochilas e via os filminhos de animação em 3D cagado quando criança. Barbie Princesa e a Plebeia era meu favorito, hahahaha!

    Aliás, esse efeito Barbie não se repete com meninos e bonecos super musculosos? Aguardo comentários dos impopularos!

    • Acho que nos bonecos masculinos a coisa é mais diluída, tem muitos que não são musculosos: Lego, Playmobil, Comandos em Ação etc

      • E cada um tinha sua função. Eu colocava o He-Man na frente como escudo de carne para os Comandos em Ação. E ainda tinha o pelotão de paraquedistas do Playmobil, que eram mais leves. Verdadeiros soldados, muitos deles ainda jazem no telhado da minha primeira casa.

        *batendo continência

  • Achei péssima a história da Barbie “festa do pijama”. Mas não me parece certo culparem um brinquedo pelos casos de anorexia. É o mesmo que culpar o video game nos casos daqueles malucos que saem matando pessoas por aí. Se a maioria das meninas do mundo brincam com bonecas neste estilo e não desenvolvem a doença, é claro que existe algo mais. Inclusive pessoas que já nascem com essa pré-disposição. Para mim a boneca gera algo pior, esses anormais que saem fazendo 200 plásticas para ficarem parecidos com elas. (Ou aquela versão da Kelly Key da música do Aqua).

    É chato só ter boneca loira sim. Mas isso já acabou a décadas. O que acontecia era que A Barbie era a loira. As outras eram da coleção da Barbie, porém tinham nomes diferentes por serem as amigas dela. A fábrica deve ter percebido que lucraria mais se vendesse todas como Barbie.

    PS: desfavor explica nada, isso é quase um processa eu ou um flertando com o desastre.

    • Quando a boneca vem com uma balança que marca 50 kg e um livro dizendo NÃO COMA, eu acho bem justo culpar por anorexia sim, mas não a boneca em si e sim os pais que levaram essa atrocidade para dentro de casa.

      • Salu, não é bem assim. Eu brinquei a vida inteira com armas de brinquedo. Hoje adulto, jamais encostei em uma. É mais responsabilidade dos pais do que do brinquedo em si.

        • Armas não tem o poder de influenciar a sua opinião sobre você mesmo, não mexem com autoestima. É outra categoria de brinquedo…

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