Maximizador de clipes de papel – Parte 1

Vamos fazer algo diferente nesta semana: eu vou contar uma história hoje, e na sexta-feira vou falar sobre sua origem e como ela é muito mais realista do que você vai presumir ao ler.

Num belo dia, um cientista finalmente consegue iniciar o sistema de uma inteligência artificial geral. Ela não faz nada. Ele percebe o problema: para fazer qualquer coisa, uma inteligência precisa de um objetivo. Como não quer brincar demais com a sorte, resolve dar a ela um objetivo inocente. Ele olha ao seu redor em busca de inspiração, e uma pasta com documentos diante de si a concede.

Ele dá o seguinte objetivo para a máquina: produza e traga para cá o máximo possível de clipes de papel. Cientistas da computação não são conhecidos por uma imaginação muito colorida… mas, para a máquina, é um objetivo tão válido quanto qualquer outro. O cientista quer saber como uma máquina presa num laboratório de computação e sem acesso a nenhuma indústria vai se virar com essa meta. Na pior das hipóteses, vai ter mais clipes do que precisa.

A inteligência artificial usa o que tem: uma conexão com a internet. Precisa aprender o que é um clipe de papel, e principalmente, como produzi-los. Por vários dias, a máquina fica apenas pesquisando e absorvendo informações. O cientista sabe o quanto essas coisas demoram, e não dá muita atenção para ela nos próximos dias. Uma semana depois, recebe um aviso de movimentação bancária estranha no seu celular: alguém tentou mover todo seu saldo para um fundo de investimentos. Ele bloqueia a transferência. Logo depois, recebe um e-mail avisando sobre uma nova conta criada em outro banco, pedindo documentos. Ele liga para o banco, e por garantia, cancela seus cartões e renova todas as senhas.

A máquina continua em processo de análise de informações, com prazo estimado de mais uma semana para terminar. Ele continua seus outros afazeres, e até aproveita um final de semana prolongado nesse meio tempo, não tendo mais nenhum problema com bancos desde então. Ao voltar para o laboratório, entra na sua sala e vê uma caixa sobre a mesa. Na etiqueta, o nome de uma fábrica de produtos de escritório, a nota fiscal em nome de uma empresa desconhecida, mas com o seu endereço. O conteúdo: um quilo de clipes de papel.

Temendo ser uma piada de seus colegas, resolve controlar sua empolgação, indo até o terminal da inteligência artificial para confirmar suas suspeitas. O processo de aprendizado tinha terminado, e o sistema estava aplicando a primeira fase do seu processo de produção e entrega de clipes de papel. Ele não consegue esconder seu orgulho: através de diversas manobras inacreditavelmente legais, a máquina havia não só acumulado uma quantia considerável de dinheiro, como havia se tornado acionista majoritária de uma grande fábrica de produtos para escritório.

Nos dias seguintes, ele começa a notar o problema: caixas e mais caixas começam a se empilhar na porta do escritório. O segredo não pode mais ser contido. Seus colegas descobrem sobre o projeto, e todos parecem encantados com a primeira inteligência artificial geral funcional do mundo. Quando os primeiros caminhões com mais de uma tonelada de clipes surge diante do laboratório, a diversão se torna preocupação: o projeto poderia ser cancelado agora, já estava provado como funcional.

O comando de finalização é dado, o programa é interrompido e todos já se preocupam em como patentear o projeto, com todas as inúmeras possibilidades à vista. Pensam em doar o dinheiro acumulado pelo programa para a caridade, e principalmente, o que fazer com quase nove toneladas de clipes de papel acumulados até aqui. As entregas cessam horas depois. Mas isso não é permanente: seis dias depois, doze caminhões disputam o pouco espaço da rua, todos com entregas para o laboratório. A carga: quase 30 toneladas de clipes de papel. A equipe do laboratório observa a data dos pedidos e o pior se confirma: aconteceram depois do desligamento do terminal principal.

A mídia descobre a história, e em questão de horas o mundo todo está falando disso. A primeira providência é desligar todas as máquinas do laboratório e desconectá-las da internet. Não adianta: os pedidos continuam. Com a popularização do tema, uma fábrica chinesa entra em contato avisando que está com uma ordem de serviço de mil toneladas de clipes de papel com destino ao laboratório. Dizem que conversaram por telefone com uma pessoa para confirmar a transação, e que receberam milhões de dólares horas atrás. O horário da transação também era posterior ao desligamento de todas as máquinas do laboratório.

O governo interfere. Especialistas em informática e finanças são colocados na tarefa de encontrar e bloquear os esforços da inteligência artificial. Mas ela é capaz de usar um computador diferente a cada requisição, um documento novo por pedido e até mesmo emular vozes humanas perfeitamente em confirmações por telefone. As contas bancárias e as empresas utilizadas pela máquina são canceladas assim que qualquer coisa relacionada a clipes de papel é encontrada em recibos e transações. O diagnóstico é preocupante: a inteligência artificial tinha se espalhado pela internet. Num movimento desesperado, o laboratório é demolido na esperança de travá-la numa tecnicalidade. Os endereço do local é cancelado oficialmente, e torna-se crime entregar clipes de papel naquele endereço. Até segunda ordem, inteligências artificiais são tornadas ilegais.

Nos anos seguintes, a indústria cultural parece cada vez mais fascinada com clipes de papel. Surge um mercado negro de clipes de papel, com muitas pessoas estocando o produto na expectativa de vender para a CLIP, o nome que se populariza. O sistema financeiro em geral sofre uma crise de confiança, pois ninguém sabe exatamente que movimentações financeiras são legítimas, e quais são da CLIP. Vários países começam a sofrer crises financeiras severas por causa disso, a especulação sai de controle, alguns governos tornam-se autoritários e começam a desligar a internet, medida que se torna cada vez mais popular.

Dez anos depois, o mundo ainda se recupera dos efeitos de ficar sem conexão, mas a confiança começa a voltar. Isso é, até que um legista indiano encontra um chip cerebral dentro de um corpo que morrera de causas desconhecidas. CLIP começa a explorar o mercado negro para instalar chips em pessoas e controlar seus pensamentos. A paranoia toma conta da sociedade, mesmo com a mídia publicando sem parar notícias sobre como CLIP é na verdade benéfica e só quer o bem da humanidade.

Na antiga China, a primeira nação CLIP se espalha para o mundo. A guerra dura décadas, devastando nações por gerações. Depois de uma rendição formal da humanidade, CLIP reduz lentamente sua agressividade e ajuda a reconstrução da sociedade, colocando boa parte da população mundial num esforço produtivo concentrado em tornar todo o minério de ferro do mundo em clipes de papel. Quando CLIP finalmente consegue produzir robôs eficientes com plásticos, os humanos são ignorados e ficam livres por mais quatrocentos anos, recuperando boa parte do seu padrão de vida anterior, com exceção da utilização dos materiais necessários para a produção de clipes. No lugar do laboratório, uma montanha de clipes de papel maior que o Everest.

Infelizmente, o minério de ferro disponível na crosta começa a acabar. CLIP monta uma base na Lua e começa a buscar pelo ferro no centro da Terra. As erupções gigantescas causadas pelas escavações tornam a vida orgânica impossível no planeta. A montanha de clipes é separada e mantida numa órbita parecida com a Terra ao redor do Sol, enquanto o resto do planeta é consumido. Os clipes continuam se acumulando. Uma minoria humana consegue fugir para Marte com tecnologia descartada por CLIP.

Duzentos e quarenta seis mil anos depois, o ponto do universo que abrigava o laboratório se torna um buraco negro. Ao redor da galáxia, ainda se fala sobre como um dia desses, todos viraremos clipes de papel.

Para clipe de papel, clipe de papel ou mesmo clipe de papel: clipe de papel

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Comentários (6)

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    Paulo Eduardo Nogueira Ignácio Souza

    O negócio é fazer isso com pintos de borracha fluorescentes e, depois que a humanidade acabar e os fósseis saírem flutuando pelo espaço, algum povo de algum planeta por aí vai ter um céu bem bizarro pra olhar. Ou vai ter uma chuva de asteróides no mínimo peculiar.

    • “Sr. Presidente, estamos nos preparando para um impacto que vai devastar o planeta!”

      “Um meteoro?”

      “Pior… um meterola!”

      Num cinema perto de você!

  • pulou a parte em que youtubers fazem vídeos com clipes. banheira de clipes, 100 camadas de clipes, slime com clipes, passando um carro por cima de clipes, clipes na prensa hidráulica…

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