Memórias – Parte 3

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“Confuso, Bar’hai solta a metralhadora e se afasta alguns passos.

O outro soldado corre para ocupar seu lugar. Ele aperta o gatilho, disparando uma barragem de tiros algumas ruas a frente. Vários dos soldados desabam ali mesmo, numa nuvem de poeira, destroços e sangue. O grupo se separa, fazendo com o que o atirador balance a arma de um lado para o outro, metralhando a área indiscriminadamente. O barulho é tanto que Bar’hai tapa os ouvidos, encolhendo-se num canto.

O som dos balas cessa ao mesmo tempo que o soldado a sua frente desaba. Bar’hai olha para trás, um soldado com uniforme diferente está apontando um rifle para o corpo desfalecido em frente à metralhadora. O soldado se volta para Bar’hai, e a última coisa que vê é o brilho do disparo em sua direção. Tudo fica escuro.

– Você tinha que me proteger quando eu estava na metralhadora! Porra!”

Ele acorda, instintivamente tateando o próprio corpo em busca de ferimentos. Não encontra nenhum. Os sonhos dentro da torre são bem mais realistas que lá fora. Olha para o monitor principal da contagem regressiva:

182 dias, 04 horas, 30 minutos, 26 segundos.

Aproveita o dia comendo mais das refeições desidratadas e avançando na leitura de mais alguns dos livros. O contador de tempo parece manter o padrão de acelerar imensamente enquanto ele se distrai, e quando o sono retorna, sonha mais uma vez com o campo de batalha em Omega. Dessa vez, resolve ser mais proativo: imediatamente começa a correr pelas ruas da cidade, atirando nos soldados de uniforme diferente. Morre numa esquina para um inimigo escondido atrás de uma carcaça de carro.

A cada dia, o contador corre e a pilha de livros para ler diminui. A cada noite, aprende um pouco mais sobre a guerra que trava, aprendendo padrões de comportamento de aliados e adversários por observação e às vezes, até conversando com seus companheiros de exército. Nas primeiras vezes as palavras saem estranhas da boca, mas eventualmente consegue acertar a pronúncia o suficiente para coordenar ações, avisar sobre perigos e pedir por ajuda. Ele começa a perder a conta de quantas vezes tem esse sonho, mas a cada iteração, ele dura mais tempo antes de morrer.

Quando junta coragem para uma pergunta mais complexa sobre a motivação daquela guerra, sobre seu exército ou do adversário, é respondido com escárnio. Eventualmente desiste dessa curiosidade, concentrando-se em ser mais e mais eficiente na tarefa de matar o inimigo. Isso sim gera respostas encorajadoras de seus pares. Bar’hai vai se tornando cada vez melhor na sua tarefa, inclusive pegando o hábito comum entre seus homens de ofender e criticar pesadamente os soldados menos habilidosos. Ele sente que isso funciona: a cada sonho, não só ele está melhor, como seus companheiros também.

14 dias, 10 horas, 47 minutos, 13 segundos.

Bar’hai decide falar de novo com o grande monitor, algo que tentava há vários dias, sempre esbarrando na sua pronúncia da Língua Complexa, por mais que a dica de palavra-chave continuasse aparecendo, vez após vez.

– Bar’hai é bom soldado, deseja livre.

O pedido de palavra-chave reaparece. E mais uma vez, uma palavra surge num dos monitores auxiliares: espelhamento.

– Es… pela… espe… lha… mento.

Pela primeira vez até ali, a tela mostra algo diferente. Uma enormidade de informações espalhadas por diversos gráficos, com números e porcentagens que parecem se modificar a cada segundo.

– Bar’hai quer livre.

A tela responde com os dizeres “comando não reconhecido”.

– Bar’hai quer casa, levar comida e livros para vila.

A mesma resposta.

No monitor inferior, o que sempre mostrava a palavra-chave, algo chama sua atenção: os números dão lugar à estática, que por sua vez se transformam na imagem de um ser muito estranho. As formas lembram a de uma pessoa, mas a pele é azulada, os olhos são pequenos e amarelos. Não há sinal de cabelo, sobrancelha ou nada mais. No topo da cabeça, algo parecido com uma placa de ossos dá um contorno curioso à pele. Esse ser fala:

– Você é Bar’hai?

Bar’hai fica em silêncio, tentando fazer senso da situação.

– Você tem que sair daí o mais rápido possível. Eles estão chegando!

– Quem é você?

– Não temos tempo! Eu quero te ajudar, Bar’hai! Diga para o sistema abrir a porta S0112B! Rápido!

Bar’hai obedece, repetindo as letras e os números com alguma dificuldade. Pode ouvir na sequência um som vindo de trás da barricada que colocou na porta. Ele olha para o monitor principal mais uma vez:

00 dias, 02 horas, 02 minutos, 56 segundos.

O ser azulado fala mais uma vez:

– Eles têm que desligar a aceleração temporal para entrarem no seu planeta. Isso vai te dar tempo de agir. Se a planta que eu tenho da sua torre está correta, você vai encontrar uma escada para os níveis superiores no salão principal. Suba para o décimo andar e me encontre no terminal 128.

– Bar’hai só quer ir pra casa.

– Não vai ter mais casa se você não me obedecer! Décimo andar, terminal 128! Rápido, saia daí!

A transmissão desliga em mais um surto de estática. O monitor volta a mostrar os gráficos e números de antes. Bar’hai vacila um pouco, mas a contagem regressiva o compele à ação. Coloca alguns livros e refeições na sua mochila antes de desmontar suficientemente a barreira que colocara na frente da única porta do salão. Antes de esgueirar-se pela abertura na barricada, observa a contagem mais uma vez:

00 dias, 01 horas, 35 minutos, 08 segundos.

Ele sobe as escadas de volta ao salão principal, tudo escuro. Tateando seu caminho, encontra a entrada de outra escadaria. Segue-a vários andares acima, testando se alguma das portas no final de cada lance cediam às suas tentativas. Todas trancadas. Seus olhos voltam a se acostumar com a escuridão a tempo de enxergar a placa na parede anunciando o décimo andar. A porta pode ser aberta. Mais uma vez, depara-se com um salão que ocupa praticamente todo o andar. Não há nenhuma luz acesa, mas fica claro que todo o ambiente é cercado por janelas. É noite, e a luz da lua consegue invadir o ambiente, mostrando vários racks lotados de armas, uma área com uniformes e equipamentos militares dos mais variados. Bar’hai reconhece aquilo tudo dos seus sonhos.

Tomado por um súbito senso de propósito, coloca sua mochila no chão e começa a se equipar. Uniforme, o capacete de visão noturna, comunicador, granadas, faca de combate, botas… e um poderoso rifle. Tudo vem fácil à sua mente, havia treinado para usar tudo aquilo noite após noite. Ele se aproxima da janela, e lá fora está Omega. Não a de seus sonhos, mas a completamente arruinada que conhecera durante a vida. No horizonte, percebe as grandes fogueiras dos Calados, e o rio humano abandonando a cidade para mais um de seus rituais. É sua chance de escapar dali e voltar para casa.

Mas as palavras do ser azul ainda estão em sua memória. Com o auxílio da visão noturna, consegue encontrar diversas criações nas paredes. Numa delas, o número 128 está destacado. Ele se aproxima.

– Soldado Bar’hai em posição!

A tela se acende, e o estranho de antes aparece novamente.

– Você já está equipado! Excelente!

– Você é capitão de Bar’hai?

– Sim… pode se dizer que sim. Meu nome é Zekutron, do planeta Armad. Meu povo foi destruído por aqueles que estão se aproximando de vocês agora. Eu não posso mais salvar meu mundo, mas posso te ajudar a salvar o seu!

– Exército inimigo está chegando?

– Pior. Quando o exército deles falha, como falhou no meu mundo, eles mandam seus deuses. Seres terríveis, feitos de energia. Destroem tudo o que enxergam, não podem ser derrotados por arma nenhuma.

– O Terror está voltando?

– Eles já estiveram aí?

– Bar’hai ouviu desde pequeno sobre o Terror. Mãe de Bar’hai ouviu desde pequena. Avô também. Choveu fogo por um dia inteiro, todas as cidades caíram, os animais queimaram, as plantas viraram cinzas. Os Antigos de Bar’hai fortes, mas maioria morre.

– Não temos muito tempo, então me escuta: os deuses deles não conseguem chegar no seu mundo sozinhos. Eles sempre mandam soldados antes, para controlar a torre do mundo e ativar o sinal. Eu preciso que você os impeça, senão o Terror vai voltar!

– Bar’hai melhor soldado! Bar’hai defende torre.

– Eles estão chegando! Rápido, suba para o último andar, o 70! Não deixe que eles chamem seus deuses, você vai precisar destruir um…

Estática.

Bar’hai chama pelo ser azul, sem sucesso. As luzes do ambiente se acendem. O chão começa a tremer, e uma luz azulada parece iluminar a cidade vista pela janela.

Continua…

Para dizer que sabia que eram aliens, para dizer que sabia que não eram aliens, ou mesmo para dizer que o verdadeiro Terror é eu não terminar essa história: somir@desfavor.com

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