Coringa

Foram vários pedidos, então está na hora de falarmos sobre Coringa (2019). Vamos recapitular algumas coisas primeiro: é filme da DC, que anda completamente perdida na corrida atrás da Marvel por uma fórmula de sucesso. O Coringa já foi usado muitas vezes, com atores e estilos diferentes a cada vez. O diretor do filme é o mesmo da série “Se Beber, Não Case!”, e ainda por cima existe toda uma pressão do ambiente social atual contra a história de um homem branco que perde a cabeça e começa a cometer crimes… isso tem tudo para dar errado.

Mas é o melhor filme que a maioria das pessoas vai ver neste ano. Não é sempre que um estudo de personagem lento e metódico consegue gerar interesse suficiente do grande público para virar sucesso de bilheteria: já são mais de 600 milhões de dólares ao redor do mundo. Se ainda não viu, já adianto que vale muito a pena, e sugiro não continuar lendo este texto, vou precisar de muitos spoilers para falar sobre ele.

Como havia dito no começo, o filme era arriscado de fazer, por isso eu imagino que o projeto só seguiu em frente mesmo quando Joaquin Phoenix topou ser o ator principal. Esse roteiro exige um ator de altíssimo nível, até porque praticamente não existem cenas no filme onde ele não esteja presente. É o filme do Coringa, e não saímos de perto do Coringa em momento algum. Phoenix não decepciona: entra na personagem e entrega uma performance extremamente consistente o tempo todo. Tudo funciona por causa dele, desde sua aparência depois de ter emagrecido ao ponto de ser só pele e ossos, até mesmo a força mental de manter uma expressão de inocência quase que infantil diante das situações mais terríveis que a história coloca sua personagem.

Coringa é a história de Arthur Fleck, um palhaço fracassado com sérios problemas mentais vivendo dentro de suas fantasias numa Gotham City especialmente caótica. A base da história é só essa mesmo. Tudo o que acontece no filme parece fora do controle de Arthur, ele não tem planos complexos, é apenas um maluco perdido no meio da bagunça da cidade. Pode até parecer um ponto fraco do roteiro, mas é sua grande força: Arthur é muito frágil e desconectado da realidade para tomar as rédeas da história, sua transição para o papel de Coringa acontece naturalmente, sem te dar chance alguma de escapar da prisão mental da personagem principal. Durante as duas horas de filme, estamos enjaulados com ele dentro de uma mente perturbada, confusos sobre o que é real ou não.

Claro, como é um filme feito para grandes audiências, não é como se a confusão mental dele fosse explorada ao máximo, o filme dá muitas dicas sobre o que são alucinações e sobre o que é real, senão a turma da pipoca que só foi ver o filme porque todo mundo foi ver também sairia do cinema achando que aquilo era uma porcaria sem sentido. Logo no começo vemos Arthur fantasiando com sua presença no talk-show de Murray Franklin para estabelecer rapidamente que isso pode acontecer. Na hora da grande revelação sobre sua namorada ser imaginária, voltamos para cenas passadas para ver claramente que a mulher nunca esteve lá… não precisava, mas eu entendo que metade dos comentários sobre o filme seriam sobre não acreditar que ele tinha uma namorada bonita daquele jeito caso não o fizessem. E francamente, não é um problema sério.

O filme começa num ritmo lento, imensamente lento se comparado a outros filmes baseados em histórias em quadrinhos, repetindo seus pontos sem parar para garantir que todo mundo esteja na mesma página quando a história começa a nos levar até o Coringa. Passamos muito tempo chafurdando na miséria que é a vida de Arthur, que num curto período de sua vida perde o pouco que tinha. É uma espécie de “pornografia de tristeza” barata para dar mais valor para sua vitória no ato final, mas também um ambiente ideal para explorar o ponto mais forte do filme, em minha nunca humilde opinião: a forma como explica a insanidade de um ser humano.

Nesse aspecto, o ator e o roteiro jogam juntos para criar uma visão única sobre o desequilíbrio mental. Arthur não é como os outros Coringas do cinema: depois de passar tanto tempo dentro de sua cabeça, não temos a sensação que suas ações são aleatórias. Elas funcionam dentro de uma lógica só dele, alimentadas por sentimentos que todos nós conseguimos identificar. O último Coringa que funcionou, o de Heath Ledger (vamos todos fingir que o Coringa do Jared Leto não existiu?), transmitia medo pela imprevisibilidade. Foi um excelente trabalho de ator e roteiro nos filmes de Christopher Nolan para criar uma personagem perigosa e incompreensível. O Coringa de Heath Ledger era um agente do caos, o de Phoenix é um resultado dele.

E por isso, muito mais humano. Neste filme, o Coringa não é criado por um fato externo, é liberado. Não é um grande trauma que o diferencia de nós, é o resultado de uma vida toda culminando naquele momento. Não existe uma grande cicatriz ou deformidade que nos alerte para o que ele é, você vai ter que prestar atenção. E durante o filme todo, o grande tema é que ninguém está fazendo isso: as pessoas simplesmente passam por ele, como ele diz no seu discurso durante a cena da entrevista. O grau de loucura de Arthur fica escondido à plena vista, no máximo deixando as pessoas nervosas ao seu redor. A única relação “natural” dele é com a mãe, que pode ou não ser maluca como ele (mais sobre isso depois).

São vários pequenos detalhes que num filme cujos roteiristas pudessem ter mais liberdade, seriam ainda mais discretos: Arthur não sabe a hora de rir, porque simplesmente não entende humor. Como entender piadas se elas normalmente são análogas ao pensamento de um maluco? Para Arthur, piadas são indiferenciáveis do que se pensa naturalmente. Quando ele faz anotações ao ver um comediante de stand-up, demonstra não entender o motivo pelo qual as pessoas estão rindo. Escreve coisas como “fale de sexo”… com o avanço do filme, ele vai percebendo os horrores do mundo ao seu redor e tendo uma base de realidade mais sólida para comparar seus pensamentos, e um dos resultados disso é começar a rir de verdade em horas mais apropriadas. O problema de rir quando quer chorar é um excelente mecanismo de construção de personagem, e ao mesmo tempo a dica mais óbvia da sua desconexão não só sobre as pessoas ao seu redor mas também sobre seus sentimentos. Ainda bem que pensaram nisso, porque só rir na hora errada durante piadas provavelmente seria sutil demais.

Vamos falar da parte técnica: todas as cenas são muito bem fotografadas, o uso das cores é muito inteligente, o filme vai ficando mais saturado de acordo com a liberação de Arthur, o clima dos anos 80 está muito bem representado, e tudo encaixa muito bem na parte estética. É um filme feio e sujo quando precisa, e muda para algo brilhante e épico sem te tirar do clima. O uso do áudio é espetacular: os sons estranhos das cenas solitárias do Coringa são muito bons para passar o desconforto e confusão com os quais ele lida com a realidade. Você fica irritado com o som ao mesmo tempo que o Coringa fica na cena. Nem um pouco sutil, mas funciona muito bem. A barulheira diminui quando a personagem principal está mais focada, reforçando os elementos visuais.

O diretor calou minha boca. Eu achei que teríamos problemas pelo seu histórico de filmes sobre bêbados procurando amigos perdidos, mas recebi um filme coeso e muito eficiente em passar as mensagens que pretendia. Talvez o ritmo nos primeiros atos seja um pouco lento, mas é uma estratégia para conseguir passar as ideias necessárias para a conclusão e dar tempo para as pessoas vivenciarem mais a realidade de Arthur, que não parece conseguir sair do mesmo ponto não importa o que faça. Talvez se tivessem confiado um pouco mais nos espectadores, poderíamos colocar mais exposição do mundo e explorar melhor suas fantasias, mas novamente, eu entendo que complicar o filme poderia atrapalhar a experiência do povão.

E ainda no tema de simplificar para a audiência, fico feliz que tenha sobrado alguma ambiguidade no filme: depois da grande revelação que ele era adotado e sua mãe uma maluca que o torturava quando pequeno, um relance atrás de uma foto dela com uma mensagem carinhosa e as iniciais T.W. chacoalha toda a história passada estabelecida até ali. Como falta material para chegar a uma conclusão, eu acredito que isso sugere duas possibilidades: a mãe dele era tão iludida que escreveu a dedicatória de Thomas Wayne atrás da foto assim como Arthur inventou seu namoro como a vizinha, ou que algo muito mais sinistro aconteceu. Pode ser que ele seja mesmo meio-irmão do Batman, mas que Thomas tenha forçado a mulher a forjar a adoção dele para manter as aparências e se proteger de pagar pensão e dividir a herança. Isso fica em aberto e não vi outras indicações fortes apontando para um lado ou outro.

E caso Coringa seja mesmo irmão do Batman, isso abre mais duas possibilidades: na primeira, o Coringa foi maltratado pela mãe e desenvolveu os problemas mentais que vimos no filme, ou já era maluco. No relatório do Asilo Arkham está escrito que ela foi internada depois de amarrar o filho, o que pode ser resultado de Arthur já ser desequilibrado desde criança, enlouquecendo a mãe no processo. O fato dele soltar seu lado psicopata de vez depois de ficar sem seus remédios sugere que eram eles que seguravam seu comportamento assassino. Mas, não vamos nos esquecer a probabilidade de sua mãe ter escrito a dedicatória por conta própria ainda é tão válida quanto a teoria de Coringa ser um Wayne. Tomara que não façam um filme do Coringa criança…

Eu vi algumas discussões sobre as intenções reais do apresentador do talk-show, se ele estava conscientemente abusando de um doente mental por audiência. Normalmente esses programas sempre tem um convidado recorrente completamente maluco que bagunça as entrevistas, aqui no Brasil o Skylab fazia isso para o Jô Soares ou a Inês Brasil para o Danilo Gentili, nos EUA isso era ainda mais comum, com vários comediantes famosos começando carreiras de sucesso fazendo esse papel, como o Andy Kaufman. Num mundo ideal, o Coringa seria o maluco de estimação do programa de Murray, podendo até fazer uma carreira nisso. Em tese era só um jogo clássico de exploração, mas Coringa é um psicopata. Não torna a personagem de Murray totalmente inocente, mas também coloca aquela situação em sua conta. Os vídeos demonstravam alguém desequilibrado, talvez só tenha visto os destaques da produção, onde Arthur só parece um comediante biruta e não alguém totalmente desconectado da realidade. Tanto que ele mal se lembra de ter criado o nome quando recebe o pedido de apresentar Arthur desse jeito. Ninguém é santo aqui.

E já que falamos do homem-morcego recentemente, digo com segurança que a pior parte do filme é sua existência. Eu sei que eles eram obrigados a colocar alguma coisa sobre isso por lá, mas é o que derruba o status do filme de um grande filme em geral para um grande filme de quadrinhos. Por incrível que pareça, a coisa mais ridícula do filme do palhaço que começa uma revolução na cidade é a lembrança que a história vai ter um cara vestido de morcego combatendo o crime eventualmente. Até por isso eu não acredito que o Coringa de Joaquin Phoenix tenha lugar na linha oficial de filmes da DC: ele é muito bom para aquela palhaçada toda. É impossível fazer um filme do Batman que o coloque no mesmo patamar de seriedade, e olha que os do Nolan foram excelentes. O melhor Coringa que cabe ao lado do Batman é mesmo o de Heath Ledger, suficientemente caricato para se mesclar com um homem com orelhas pontudas no capacete.

Mas… como o filme está fazendo muito dinheiro, acredito que estamos protegidos apenas pela integridade profissional de Joaquin Phoenix. E mesmo assim, um caminhão de dinheiro pode chacoalhar as convicções de muita gente. No final das contas, é só um vilão de histórias em quadrinhos. Torço para que não tenhamos mais filmes desse Coringa, mas o risco existe. Fazer o quê? Coringa é a melhor personagem de todas entre Marvel e DC, de longe.

Em resumo: não é um filme perfeito. Mas você dificilmente vai ver algo melhor do que isso baseado em histórias da DC ou da Marvel. Eu percebi como Logan, que estava no topo da minha lista de melhor filme do gênero até hoje é infantil em comparação. É o Taxi Driver dessa geração, é o que tem pra hoje. E sinceramente, o que tem pra hoje está de ótimo tamanho.

Para dizer que eu não falei do que você queria (não vou bater palma para lacradora dançar), para dizer que se eu gostei deve ser chato, ou mesmo para dizer que vai rezar junto para não ter continuação: somir@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Confesso que mesmo com todo o hype, não me interessei pelo filme, mas, pelo tanto de pedidos que houve por este texto, achei que haveria mais comentários.

    • Eu estou começando a quebrar o código do que gera comentários aqui no desfavor. Mês que vem vou fazer alguns testes…

  • Eu saí convicta de q ele era meio irmão do Batman e q o pai deles era um “vilao”. As alucinações são ótimas, mas se não soubessemos o q era real ou imaginário teríamos uma experiência mais interessante, tipo Cisne Negro. Aquela cena do anão foi sensacional. Me senti meio “coringa” rs.

    • Tem gente teorizando que todo o filme é uma alucinação, mas como eles começam a história do Batman no final, fica menos provável. Seja como for, eu adoraria que fosse ainda mais confuso…

  • Filmes ambíguos costumam ser os melhores, nem todas as pontas precisam ser amarradas. Lembrei d’O Labirinto do Fauno, quem decide é o espectador. Voltando ao Coringa, algumas críticas do filme fazem sentido. Sistema de saúde, concentração de renda, sentimento de ser um palhaço ao ver a situação política. Difícil alguém não ter se identificado com pelo menos algum ponto, mas teve até quem disse que o filme era muito esquerdista por causa disso. Pois é…
    Do outro lado, o velho reducionismo de “incels blablabla” e que o filme iria causar atentados. Flashback da minha vizinha crente dizendo que as cartas de YuGiOh iriam levar a mim e meus amigos pro inferno (falando mal de mulher gratuitamente pra não perder o hábito).
    No fim, foi só um filme e cada um pegou suas cerejas favoritas pra punheta politizada. Ainda veremos anos mais bizarros do que 2019 antes das coisas melhorarem, se melhorarem.

    • O filme não merece ser arrastado para os esgotos da problematização de rede social. Não é de esquerda ou direita, é só um excelente filme sobre um maluco.

  • Eu me surpreendi é de vc ter gostado de um filme tão bom, que não tem nada de chato. E de eu concordar com vc :D

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