Histeria coletiva.

O tema escolhido para a postagem de hoje veio da sugestão da leitora Bia: Histeria Coletiva.

Na verdade, o termo mais correto para designar esta condição é “doença psicogênica de massa”, mas como ela é conhecida por todos como “histeria coletiva” ou “histeria em massa” é assim que vamos chamá-la.

A histeria coletiva é um distúrbio psicológico onde um grupo de pessoas passa a ter, ao mesmo tempo, um comportamento estranho ou se sentir doente sem uma causa aparente. Não há um estopim externo (uso de drogas, bebida etc.), é a mente da pessoa que provoca os sintomas. Acontece de forma sequencial: um indivíduo apresenta os sintomas e o resto começa a senti-los também.

Não é hipocondria, de fato as pessoas experimentam consequências graves nestes episódios, muitas vezes culminando em morte. Há “sintomas” físicos que são reais, palpáveis, atestáveis. As pessoas ficam transtornadas a ponto de perderem o controle de seus atos, emoções e sentidos. A diferença é que a causa não reside em uma doença ou em nada físico: é mental. O que quer que a pessoa ache que tem, não tem, causa está apenas na sua mente.

Mas, é aquela frase que eu vivo repetindo: sua mente cria realidade. Quando se diz que a doença da pessoa não é “real”, é preciso fazer uma ressalva: para a pessoa é real. Ela tem todos os sintomas, ela sente aquilo como verdadeiro. Pode não ser clinicamente correto dizer que a pessoa está com este ou aquele diagnóstico, mas a partir do momento em que a doença sai da mente e se manifesta no corpo, ela ganha realidade.

A partir do momento em que a pessoa entra na histeria coletiva o que sua mente projeta ela no corpo, ela plasma na realidade. Isso incluí produzir sintomas físicos muito específicos, ter sua percepção da realidade alterada e, muitas vezes, conseguir força ou resistência fora do normal. Aí não adianta ficar repetindo para a pessoa que aquilo não é real. Passou a ser e deve ser tratado, não como a doença que a pessoa acha que tem, e sim tratar a sua mente.

A histeria coletiva pode acontecer com qualquer um de nós. Alguns grupos estão mais propensos, mas ninguém está a salvo. Acontece com mais frequência em grupos que se encontram confinados, ainda que seja um confinamento temporário e voluntário, como por exemplo, passageiros de um avião, alunos de uma escola ou pessoas que trabalham em uma mesma empresa.

Há muitos casos famosos documentados. Um dos mais famoso, por ser bastante curioso, ocorreu na França, em 1518, em Estrasburg: uma mulher chamada Frau Troffea começou a dançar no meio da rua, sozinha, sem música e sem nenhum motivo aparente para isso. A mulher ficou dançando seis dias sem parar e, ao final deste período, já havia mais 34 pessoas dançando com ela, no mesmo esquema.

Aos poucos, mais pessoas foram “contaminadas” e entraram no surto de histeria coletiva. Em pouco menos de um mês, havia 400 pessoas dançando freneticamente. A maioria acabou morrendo de exaustão ou ataque cardíaco em decorrência do esforço físico, privação de água, alimentos e sono. E este evento não foi único: pelo menos outros seis casos de pessoas que se juntaram e dançaram até a morte foram registrados na Idade Média. O fenômeno ganhou até nome: “dançomania”.

Não se sabe muito da doença, mas especialistas acreditam que ela é ativada por uma alta carga de estresse, que provoca uma superestimulação do sistema nervoso. Também se sabe que é um fenômeno predominantemente feminino, mulheres são muito mais sensíveis/propensas/vulneráveis a esse tipo de evento.

O surto começa, via de regra, com o que se chama um “paciente zero”, ou seja, uma pessoa que perde o controle de sua mente repentinamente e, a partir dela, os outros se “contaminam” e esse desequilíbrio mental passa para eles. O “contaminam” está entre aspas pois, até onde se entende como normal, o desequilíbrio mental não é algo contagioso, mas, nos casos de histeria coletiva, passa a ser. E aí reside a grande dificuldade em explicar o mecanismo da histeria coletiva.

Na prática funciona da seguinte forma: esse paciente zero geralmente tem um pico de ansiedade por qualquer motivo que seja e converte esse desequilíbrio mental em um problema físico: sente sinais de doenças, dança sem parar, ri sem parar ou age de qualquer outra forma perturbada. Por motivos que ainda não se entendem, ele “contamina” o grupo que está à sua volta, gradualmente.

A capital mundial da Histeria Coletiva é Malásia. Lá sua incidência é significativamente maior do que no resto do mundo. Há quem atribua isso às crendices locais sobre fantasmas e assombrações que deixam as pessoas sugestionadas ao sobrenatural e há quem atribua à repressão provocada pela religiosidade local. O fato é que a maior parte dos relatos de grandes eventos de histeria coletiva vem de lá. O último data deste ano, em uma escola, onde alunos declararam sentir uma presença maligna no local.

Nem sempre a histeria coletiva se manifesta em forma de sofrimento, existem eventos que não são tão pesados. Por exemplo, uma piada contada em um colégio interno na Tanzânia, em 1962, fez com que três meninas tivessem crises de risco descontroladas. Elas contaram a piada para outras alunas, que entraram na mesma crise de riso. Não demorou muito eram 95 alunas rindo compulsivamente.

As alunas contaram a piada para seus pais, que também tiveram crises de riso. Por sua vez, alguns pais contaram a piada para moradores das redondezas e o mesmo aconteceu. Um povoado inteiro ficou em uma crise de riso e não estamos falando de crises de riso comuns, elas duraram mais do que esperado: algumas só terminaram 18 meses depois.

Em alguns casos, o surto é um pouco mais exótico. Em um convento na França, uma freira começou a miar. Não demorou muito, outras freiras se juntaram a ela, formando um grupo de quase cem mulheres miando. Se reuniam várias vezes por dia para miar e miavam por longas horas.

Como os médicos não conseguiram compreender ou solucionar o problema, apelaram para um método um pouco menos civilizado: soldados foram enviados ao convento e davam pauladas nas freiras até que elas parem de miar.

Em tempos remotos, a histeria coletiva não era vista como uma doença e sim como possessão demoníaca, por isso os pacientes não eram tratados com muita dignidade. Exorcismos (que muitas vezes incluíam bater com a Bíblia na testa da pessoa até o comportamento cessar) ou força bruta e intimidação eram as opções de “tratamento”. Mas, não se engane, a histeria coletiva não é exclusividade da Idade Média ou de zonas rurais habitadas por pessoas com baixa instrução.

Ela também acontece em áreas predominantemente urbanas, com moradores de cidades que tem amplo acesso à informação. Em 2010, em Paris, um homem se levantou no meio da noite para fazer uma mamadeira para seu filho. Sua esposa, por algum motivo, quando o viu se dirigir à cozinha achou que ele era o diabo. Começou a gritar e acordou os demais moradores da casa. A irmã do homem acordou e também o viu como o diabo. Pegou uma faca e cravou na sua mão.

O homem tentava se explicar enquanto as duas pediam por socorro. No final, mais de dez pessoas da família expulsaram o homem de casa alegando que ele era o diabo.

Muito puto por ter sido jogado pra fora da própria casa, o sujeito resolveu voltar para provar para a família que ele não era o demônio. O pavor de vê-lo voltando foi tanto que os familiares começaram a se jogar pela janela para fugir dele. O resultado final: mortos, feridos e uma perícia onde se constatou em exames toxicológicos que ninguém havia bebido, usado drogas ou qualquer substância ou remédio que pudesse alterar a percepção.

O curioso é que quando a pessoa entra nesse surto de histeria coletiva, sua mente fica “aberta”, sugestionável e hiper-reativa, capaz de criar basicamente qualquer coisa. No episódio 18 da terceira temporada do seriado “House” vemos o médico em um avião onde as pessoas começam a passar mal, com sintomas físicos idênticos à meningite, como manchas pelo corpo e febre. House pega o microfone do avião e avisa que há um surto de meningite e que quem começar a sentir determinados sintomas deve procurá-lo.

Um dos sintomas descritos por ele é “tremor na mão esquerda”. Não demora muito, várias pessoas começam a apresentar tremores na mão esquerda, e, obviamente, viram motivo de piada por parte do médico. Era apenas um surto de histeria coletiva, mas, apesar de não estarem doentes, essas pessoas estavam extremamente vulneráveis, sendo possível induzi-las a sentir praticamente qualquer coisa.

Hoje há uma compreensão do que acontece (uma pessoa surta e outras acabam caindo nesse surto também) mas não de como acontece. Por qual motivo algumas pessoas entram em histeria coletiva e outras não? Há milhões de teorias e nenhuma certeza.

Para alguns existiria um campo eletromagnético individual que cada um de nós teria e, quando ele entra em curto, pode acabar afetando o campo de outras pessoas. Quanto mais baixa a frequência vibracional da pessoa (problemas de saúde, tristeza e outros sentimentos negativos baixariam a vibração), mais propensa ela é a ter uma interferência em seu campo.

Para outros, existe uma “mente única”, um elo de ligação mais ou menos forte entre a mente de todos nós, uma espécie de mente coletiva. Assim, quando uma mente individual surta, isso reverbera em outras. As mentes menos conscientes estariam mais sujeitas a esses efeitos.

Porém, a teoria mais aceita até agora é a de que o estado mental da pessoa é o determinante para ela cair ou não nesse surto. Uma pessoa centrada, com uma personalidade e mente bem estruturadas, que esteja equilibrada, estaria blindada desse tipo de evento. Pessoas ansiosas, estressadas, com a mente muito inquieta, estariam mais propensas a se deixar sugestionar pelo desequilíbrio alheio, quase que como um pedido de socorro indireto.

Enquanto não se entende bem o mecanismo de funcionamento, o que podemos tomar de aprendizado da histeria coletiva é: muitas vezes sua mente te engana. Sua mente erra, sua mente se sugestiona, sua mente mente. Então, por mais que você tenha certeza absoluta de algo, lembre-se que você pode estar errado. Sua mente cria realidade, por mais que você não esteja doente, ela pode criar manchas por todo seu corpo, febre e coisas até piores emulando perfeitamente uma doença.

Algumas reflexões sobre o tema.

Até que ponto essa histeria midiática, essa hiper estimulação do medo e da polarização podem afetar nossas mentes? Um desequilíbrio mental de uma pessoa dentro de um avião pode afetar todos os passageiros, o que acontece se esse desequilíbrio for divulgado online, de modo a que o mundo todo possa vê-lo? A forma como a mídia e as pessoas em redes sociais tratam doenças, catástrofes e até projeções futuras podem desencadear histeria coletiva macro por serem compartilhadas no mundo todo?

O que nos leva a outra pergunta: será que isso já aconteceu ou está acontecendo? Será que certos eventos não são fruto de histeria em massa e não de paixão política, ativismo ou amor por uma causa? Talvez por ter suas atitudes recobertas por uma suposta causa nobre estejamos deixando de perceber uma doença.

E, por fim, como delimitar a linha que separa uma pessoa louca de uma pessoa sã se todos nós podemos em algum momento cair na loucura alheia? Onde está essa chavinha que, quando vira, nos joga no mundo da loucura, nos faz perder o controle da nossa mente e da realidade?

As respostas virão com o tempo. Até lá, sugiro que trabalhem suas mentes para mantê-las saudáveis, equilibradas e centradas, de modo a não serem sugados por um surto alheio.

Para dizer que quer saber que piada é esse que fez a pessoa rir por 18 meses, para dizer que isso é coisa do capeta ou ainda para dizer que consegue identificar uma meia dúzia de histerias coletivas no Brasil: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Aprendi muito com seu texto, Sally. Mas o caso de histeria coletiva que talvez seja o mais famoso de todos não foi citado: o pânico generalizado de milhares pessoas que ouviam pelo rádio uma “leitura dramatizada” de “A Guerra dos Mundos” feita por Orson Welles. O caso aconteceu em 1938 e foi um pandemônio de repercussão planetária. A narração de Welles da tal “invasão dos marcianos” descrita no livro de H.G. Wells foi tão vívida e parecida com um boletim noticioso real que causou terror em boa parte da população de Nova York e Nova Jérsei. Muita gente, sem saber que o que ouviam nada mais era que uma leitura de uma obra de ficção e já tensas por o mundo estar às portas da Segunda Guerra, saíram correndo apavoradas pelas ruas e a polícia local levou horas para conseguir acabar com a confusão.

    • É que nesse caso as pessoas tinham todos os indícios para pensar que aquilo era real. Foi um equívoco. O sujeito do rádio descreveu em detalhes uma invasão. Na histeria coletiva há algum tipo de surto ou alucinação que faz a pessoa ver o diabo onde está seu marido ou coisa do tipo. Não me parece o caso.

      • Entendo. Nos casos que você mencionou, os surtos de histeria têm causas internas, são distúrbios psicológicos. Um “paciente zero” que já não esteja lá muito bem da cabeça, por razões incompreensíveis e desconhecidas, começa repentinamente a agir de forma estranha e outras pessoas no entorno, de alguma forma suscetíveis, replicam esse comportamento e influenciam outros e mais outros numa espécie de reação em cadeia. Já no caso “Guerra dos Mundos” houve um “gatilho” externo: o famigerado programa de rádio, ainda que o contexto em que tudo aconteceu pudesse mesmo levar multidões ao pânico.

  • isso me lembrou da histeria com o filme do coringa. Depois que as pessoas leram em notícias que o filme poderia “despertar” comportamentos agressivos, só vejo gente com medo indo assistir. Na verdade, acho que a Internet meio que colocabora com isso. Ruim mesmo onde as pessoas por medo matam por causa de rumores… Todo mundo é afetado. Estou evitando as redes sociais e até mesmo o celular pra ver se fico mais zen.

    • Não vão parar enquanto não conseguirem criar uma desgraça oriunda desse filme. A mídia é quem está plantando a ideia de forma massiva, e quando acontecer, vão dizer “eu avisei que o filme era perigoso”

  • tem umas pessoas que você se sente até meio estranho só de estar perto, eu hein!. demônio, bad vibes, doença psicológica… sei lá. mas parece que drena suas energias. e tem quem sinta o mesmo até interagindo na internet.

    • Dá para sentir sim. Gente que está sempre procurando por um erro para apontar o dedo, gente que só reclama, gente que visivelmente não está feliz.

      • Eu então devo ser ou muito insensível ou pouco influenciável, porque confesso pra vocês que dificilmente sinto “bad vibes” perto de outras pessoas, a não ser que o problema delas seja mesmo bastante grande e já esteja transparecendo de forma bem explícita.

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