Negócios da China.

A Blizzard Entertainment, produtora de jogos dos Estados Unidos, causou polêmica após punir um jogador de e-sports que expressou apoio aos protestos de Hong Kong. Na semana passada, a empresa desqualificou e baniu o jogador Ng Wai, conhecido como “Blitzchung”, de um torneio mundial do jogo de cartas online Hearthstone. Após ser duramente criticada nas redes sociais, a Blizzard decidiu reduzir a punição. LINK


Não é justo que Hong Kong tenha que aceitar uma ditadura e não faz sentido esperar que uma empresa aja conta os próprios interesses se o fizer dentro da lei. Desfavor da semana.

SALLY

Existem algumas mentiras às quais, por um motivo ou por outro, se adere em massa. Mesmo que todo mundo saiba que são mentiras, se convencionou mandar um “joinha” e tocar a vida, afinal, seria exaustivo viver refutando o óbvio e apontar a mentira não mudaria em nada a realidade.

Porém, esta dinâmica esconde um perigo: eventualmente, podemos nos acostumar de tal forma com a mentira que, em um descuido, ela começa a se consolidar como verdade nas nossas cabeças. E, na minha opinião, isso está acontecendo atualmente quando falamos de grandes empresas.

A notícia do texto é meramente ilustrativa, como este, outros casos maiores ou menores estão aparecendo: empresas tomando atitudes que contradizem seu belíssimo discurso de “visão/missão/valores” e gerando muita indignação por causa disso. Sério, gente?

Empresas não estão preocupadas nem com o seu bem-estar nem com um mundo melhor. Se alguma empresa prega esse discurso (quase todas pregam), você já deveria saber que é mentira, que é apenas o que o consumidor deseja ler para se sentir menos culpado ao comprar algo feito por crianças escravas, por trabalhadores muito mal remunerados, às custas do meio ambiente ou qualquer outra escrotidão que seja necessária para manter uma multinacional de grande porte funcionando.

Além disso, as empresas têm o sagrado direito de estabelecer suas regras. Desde que não violem a lei, ou seja, desde que não façam aquilo que está expressa e previamente proibido, elas podem fazer o que querem. Não pode postar foto de mamilo? Não vai ter foto de mamilo e se você não gosta não entre nessa rede social. Não é censura, a empresa tem esse direito. O tamanho G da loja só cabe em um feto? Não compre, eles fazem a roupa para o público que eles querem.

Muito me espanta que tanta gente esteja indignada com postura que considera incorreta vinda de empresa. Por favor, longe de mim querer vilanizar empresas, mas ninguém aqui é criança, a gente sabe que para se tornar uma multinacional lucrativa coisas não louváveis são feitas. Quem diz que não, mente. E quem acredita, deve estar querendo aplacar sua culpa por consumir um produto permeado por uma história incorreta.

Infelizmente as coisas são como elas são, não como a gente gostaria que elas fossem. Independente do que digam, anunciem, ostentem, grandes empresas estão voltadas para uma coisa: lucro. Caso contrário não sobrevivem. É feio fazer discurso politicamente correto quando o goal é lucro? Sim, é muito feio, mas esse trem já partiu, já fizemos um pacto tácito de ficar ouvindo essas baboseiras sem contraditar.

Então, quando a pessoa se revolta de forma ensandecida publicamente exigindo este ou aquele posicionamento da empresa, coerente com a baboseira inclusiva, politicamente correta e ecológica que ela prega, basicamente está passando um atestado de idiota.

Quem espera que a Blizzard faça “a coisa certa” está sendo basicamente débil mental. Grande empresa tem seu foco em lucro, quando dá para conciliar com atitudes bacanas ou corretas, eles o farão, quando não der, adivinha quem vai prevalecer?

Assim como você pode ter um amigo que vote em um candidato diferente do seu, você pode consumir um produto de uma empresa cujo pensamento não esteja totalmente alinhado com o seu. Não me refiro a prestigiar uma empresa criminosa que causa um dano social imenso, falo sobre comprar coisas de quem não levanta a mesma bandeira que você. Você quer um produto ou um amigo?

E aí surge outro equívoco: uma empresa não tem que se posicionar, salvo que a questão envolva sua atividade-fim. Uma empresa pode se posicionar se quiser, mas ela não tem que. Uma empresa tem que prestar um bom serviço ou produto.

Não faz muito tempo a Omo levou um pau por uma campanha que “ensinava” como criar crianças pregando a diversidade. O recado foi claro: o consumidor quer um sabão que lave direito e não custe caro, sobre os filhos, a Omo que cale a boca e cada um educa os seus como quiser.

Eu não quero empresas me dizendo como fazer as coisas e vocês também não deveriam querer. É hipócrita. É ofensivo. Todo mundo sabe que são grandes corporações voltadas para o lucro (e tá tudo bem buscar lucro, longe de mim vilanizar), então, não venham cagar regra e fingir que se importam. E, para isso, como pessoa coerente, eu não posso ficar exigindo que empresas “se posicionem”. Eu não cago no seu quintal, você não caga no meu.

Pedir para que uma empresa ou um famoso se posicionem é pedir para escutar uma mentira. O que as pessoas acham? Que uma empresa ou um famoso vai falar coisas como “não fazemos tamanhos grandes pois roupa veste mal em gorda e desvaloriza nosso produto”? Óbvio que não. É um jogo de fingir que fala a verdade enquanto o outro finge que acredita. Exigir um posicionamento para se saciar com uma mentira é medíocre.

Vamos aceitar que o mundo das grandes empresas hoje é movido pelo lucro e que não vai ser um discurso bonito que vai mudar isso. Querer que seja diferente é como uma criança que se joga no chão e grita: “MAS EU QUEEEEROOO!” na loja de brinquedos para que os pais comprem algo. Menos foco nos outros, mais foco em nós mesmos, no olhar para dentro e em ver onde nós podemos melhorar.

É clichê, mas é válido: seja a mudança que você quer ver no mundo. Faz o seu, se porte da forma que entende ser a correta, viva sua vida. É assim que as mudanças acontecem, e não apontando o dedo para os outros e cobrando. Mude e o mundo à sua volta mudará. Uma mudança de verdade, e não um discurso vazio e mentiroso para agradar consumidor.

Para dizer que você quer que a empresa seja sua amiga, para dizer que quem lacra não lucra ou ainda para dizer que já que a Omo quer tanto lacrar poderia acrescentar um H antes do seu nome: sally@desfavor.com

SOMIR

A Blizzard é uma empresa gigantesca, pelo menos no mundo dos games. Seu faturamento é enorme, emprega milhares de funcionários e gasta uma fortuna no desenvolvimento e divulgação de seus produtos. Tem clientes no mundo todo e um dos seus mercados mais lucrativos é a China. Pudera, são centenas de milhões de pessoas só no mercado de jogos para smartphones. E como toda empresa que faz negócios na China, existe uma regra clara para seguir: como a economia não é aberta e o partido comunista tem poderes absolutos, ou você aceita suas regras ou está expulso do país.

Não é segredo, os chineses nunca fingiram ser outra coisa. Se você discordar tanto deles ao ponto de não aceitar as regras impostas pelo partido, não deve fazer negócios por lá. O que claramente não é o caso das maiores empresas do mundo, todas felizes de morder um pedaço do dinheiro chinês e seu mercado praticamente infinito. E virtualmente todos os consumidores fora da China parecem concordar com isso: não vejo nenhum boicote sobre marcas que aceitam os valores da ditadura comunista para fazer negócios. Aliás, quase todo mundo protestando a Blizzard o fez utilizando equipamentos feitos na China com a exploração da mão de obra barata local.

Mas, de tempos em tempos, as pessoas parecem se lembrar de que todo o dinheiro chinês tem algo de podre: o custo humanitário de um regime autocrático que limita liberdades pessoais de seu povo. E tão de surpresa quanto, ficam furiosas com as empresas que fazem negócios com os comunistas do oriente. Oras, alguém achava que dava para entrar no mercado deles sem aceitar as regras? Ou só não gostamos de ser lembrados disso?

Vamos pensar na mecânica do que aconteceu no caso que ilustra a coluna de hoje: a Blizzard gasta muito dinheiro produzindo um jogo e fazendo ações de divulgação como torneios. Só faz isso porque existe um retorno financeiro com as vendas, inclusive no mercado chinês. Um dos jogadores do torneio dá uma declaração política que com certeza vai incomodar o paranoico governo chinês. Para evitar ser expulsa de um mercado gigantesco, a empresa pune rapidamente os envolvidos.

Qual a surpresa? O que fazer de diferente? O objetivo de uma empresa é continuar fazendo dinheiro para existir. Não faz o menor sentido para a Blizzard abrir mão de milhões, quiçá bilhões de dólares para defender a opinião de um jogador contra o dono de um dos mercados mais lucrativos do mundo. A alma da empresa estava vendida faz tempo, não temos nenhuma novidade aqui. De um ponto de vista comercial, seria abrir um precedente que fatalmente levaria a empresa à falência: se qualquer jogador aleatório vale abrir mão dessa dinheirama, é impossível continuar funcionando.

Mas para variar, a reação das pessoas é emocional. Talvez por isso sejam pessoas normais e não megacorporações capazes de gerar tantos negócios. Não estou escrevendo uma ode ao capitalismo selvagem, vejo muito mérito em quem assume uma posição política que considera nobre e paga o preço para não se corromper. Mas não é assim que as coisas funcionam normalmente. A maioria absoluta das empresas que você vai ver por aí estão nessa pelo dinheiro, mesmo que façam propagandas dizendo o contrário.

Pode apostar que na rede social chinesa ninguém está com o logo de arco-íris… se os imbecis do ocidente acreditam que Apple, Google, Facebook e afins se importam minimamente com questões sociais ou minorias, problema deles. No mercado chinês todos são obrigados a serem mais honestos sobre seu verdadeiro interesse: dinheiro e poder. Não tem causa de estimação ou foco na diversidade, tem subserviência ao partido porque é isso que faz os negócios acontecerem. Fora da China é razoavelmente lucrativo fingir que se importa, mas lá dentro vemos as verdadeiras cores de todos eles.

E honestamente? Tudo bem. Se você é inocente ao ponto de acreditar que grandes empresas se importam, se você vê anúncio de petroleira dizendo que se importa com o ambiente e sorri aliviado, azar o seu. A realidade não é essa e não temos nada nas leis obrigando as empresas a agirem de forma diferente. Estão nisso pelo dinheiro e pronto. Se o modelo de negócios delas não infringirem as leis vigentes, não há o que discutir.

Mas infelizmente vivemos num mundo pós lavagem cerebral da propaganda corporativa. Esse povo que discute os elementos “problemáticos” da nossa sociedade acreditou na baboseira contada por propagandas inclusivas e logos de arco-íris, e realmente acha que empresas são elementos de mudança social. Abandonaram as esperanças nos governos e entidades públicas para colocá-las em gente que só quer te vender mais coisas que você provavelmente nem precisa…

Por algum motivo, tem muita gente que realmente espera que empresas como a Blizzard percam uma quantidade imensa de dinheiro para permitir que um jogador qualquer possa protestar durante um de seus eventos. Quem lacra não lucra porque pautas progressivas afastam consumidores, não lucra porque esquece do fundamento básico de um negócio: vender seus produtos e serviços. A Gillette tomou um tombo gigantesco nos lucros depois daquela ridícula campanha criticando homens em geral… resolveu fazer uma declaração política bizarra ao invés de vender seu produto e teve que colocar o rabinho entre as pernas quando as vendas desabaram.

Existe uma diferença enorme entre o público e o privado. Entidades públicas não precisam lucrar, por isso podem tomar decisões que beneficiem pessoas ao invés de geração de negócios. Entidades privadas vão à falência se não continuarem gerando valor acima de seus gastos. Não é racional esperar posicionamento político claro de empresas, a não ser que esse posicionamento político seja algo que facilite seu objetivo de lucro.

Me sinto um dinossauro falando isso, mas: essa juventude de rede social nunca aprendeu a diferença entre governos e empresas. Cresceram ouvindo as mentiras óbvias da propaganda institucional, mas não tinham defesa alguma contra elas. Acreditaram. Acreditaram que a Blizzard tinha obrigação de perder o mercado chinês para não se indispor com elas! A ilusão de importância de suas opiniões criadas pela rede social começou a envenenar sua visão de mundo.

Jamais dependam de empresas para mudar o mundo. Porque o mundo que as empresas querem não é o mesmo que você quer.

Para dizer que fomos pagos pelo governo chinês, para dizer que o South Park falou isso bem melhor, ou mesmo para dizer que só confia na gente porque não ganhamos nada com o Desfavor: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Confesso que estou achando divertido a postura das redes sociais:

    Muita gente do lacre, que sempre se diz contra a ditadura, que jura que no Brasil estamos vivendo uma situação em curso de ditadura, abrindo as pernas pra repressão Chinesa contra os manifestantes de Hong-Kong “veja bem, o governo já revogou as medidas da lei de deportação e continuam os protestos”. Gente que sempre se diz a favor da liberdade passando um pano bonito pro regime Chinês.

    Tudo depende de que lado estão os
    governantes. Se são de direita todo protesto é válido, se são de esquerda passam pano.

    E a postura das empresas e algumas pessoas está sendo hilariante. Vê-las distorcer o que sempre pregaram (contra o Trump) pra não perder o mercado Chinês é o claro recado pra nunca acreditar no que falam.

  • South Park mitou ou lacrou rs . Declaração perfeita em poucas palavras q faço minhas tbm. Como a MBA , tbm prefiro dinheiro a liberdade rs.

    • Vou defender o South Park aqui: o episódio é muito mais crítico às empresas que abrem as pernas para a China do que propriamente o governo chinês. Eu tenho certeza que eles queriam ser banidos na China para provar o ponto da crítica e fazer uma bagunça.

      E todo episódio com o Mickey psicopata vale a pena!

  • leve inveja desses países asiáticos que,ao menos por enquanto, podem se dar ao luxo de recusar o globohomo, em alguns locais na europa já tem gente sendo multada ou presa por errar o pronome imaginário de outra pessoa e um comercial britânico foi censurado, acusado de sexismo por mostrar uma mãe com um bebê.

    a copa do mundo em qatar tem cara de que vai ser bem divertida

  • “Pode apostar que na rede social chinesa ninguém está com o logo de arco-íris”
    Isso me lembra que a Apple baniu o emoji da bandeira de Taiwan na China (incluindo Hong Kong e Macau):
    https://finance.yahoo.com/news/apple-bows-china-censoring-taiwan-202655127.html

    E só quem obedece leis mesmo é a classe média, e olhe lá, porque é o único setor da sociedade que tem algo a perder. Tanto pessoas muito pobres quanto pessoas muito ricas fazem o que quer, seja pelo poder de subornar qualquer um que esteja em seu caminho, seja pela sua existência ser completamente irrelevante no geral (acha que a Disney vai processar o João do camelô por vender um brinquedo falsificado do Mickey?). Vida que segue…

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