No programa do Pânico na Jovem Pan, com transmissão em vídeo pela internet, os jornalistas Glenn Greenwald e Augusto Nunes brigaram ao vivo. A repercussão foi enorme, afinal, ambos representam os lados opostos na grande briga política que acomete o Brasil. Milhares de notícias, artigos e postagens analisaram a situação, a maioria tomando algum dos lados. Mas, será que foi motivo para tanta animosidade assim?

Aprendemos desde cedo que o ideal é reagir a uma situação proporcionalmente à sua gravidade. O bebê chora como se fosse morrer quando está sentindo um pouco de cólica, a criança berra desesperada quando é contrariada, o pré-adolescente acha que o mundo vai acabar quando toma um fora… mas, o tempo vai nos ensinando: boa parte das coisas que pareciam terríveis nos nossos primeiros anos de vida tornam-se mais toleráveis. Seja por evolução pessoal de aprender que tudo passa, seja por pressão externa dos adultos, de alguma forma aprendemos a controlar esses impulsos.

Se você parar para pensar mesmo, a maioria dos nossos problemas cotidianos não é tão intolerável assim. Ainda mais depois de passar por um perrengue dos grandes na vida. O que é aperto financeiro perto de uma doença grave? Não quer dizer que não tenhamos o direito de ficarmos tristes ou irritados quando algo dá errado, mas que com raras exceções, temos a capacidade de sairmos melhores daquela situação. Não exagere no otimismo ou no pessimismo, apenas olhe para a vida como ela é e entenda que as coisas estão em constante mudança. Ou, como a Sally gosta de dizer: “isso também passará”.

Mas, estamos vivendo um momento político e social que parece ir contra esse tipo de amadurecimento pessoal. Nossos ânimos estão exaltados, reagimos na velocidade da luz de forma agressiva e absolutista. Temos aliados infalíveis e inimigos indesculpáveis na era da polarização. Todo ato parece ter consequências duradouras e reforçar essa visão de mundo, isso é, até a próxima polêmica, porque o ciclo de notícias não tem tempo para muito mais do que isso.

Então, vou oferecer uma visão que você provavelmente não viu sobre a briga de Glenn e Augusto: grandes coisas… são dois adultos que sabem o que fazem e tinham totais condições de evitar a situação se quisessem. Nenhum dos dois parece ser capaz de vencer sequer um boneco de posto numa briga de verdade, então zero repercussões no campo da violência física. Glenn se colocou numa posição que costuma levar a um confrontamento físico, Augusto mordeu a isca. Isso tudo não significa mais do que duas pessoas brigando porque no fundo, queriam fazer isso.

Atitude reprovável? Com certeza. Augusto um pouco mais errado por ter começado o embate físico, mas não vamos diminuir a capacidade de ambos de analisar aquela situação e saber que aquilo claramente se transformaria numa briga. Se você chega nessa idade sem conseguir “ler o ambiente” dessa forma básica, deve devolver o título de adulto… então, faz mais sentido analisar o caso como duas pessoas que sabiam o que estavam fazendo, e honestamente, tinham o direito de escolher esse rumo de ação.

Tanto que escolheram: Glenn e Augusto passaram o dia recebendo apoio pelas redes sociais. Todo mundo validando seus comportamentos. No final das contas, ambos avançaram suas agendas de alguma forma. Talvez Augusto tenha mais problemas pela situação ter acontecido no seu local de trabalho e ter ficado registrado como o primeiro agressor, mas no final das contas, a briga só reforçou as imagens que ambos queriam passar para a sociedade, se posicionando ainda mais ferrenhamente do lado que defendem.

E aí, entra a escolha de quem está vendo isso de fora: validar o comportamento ou tratar as coisas como elas são. O festival de mensagens de apoio, repúdio e os artigos analisando minuciosamente quem estava errado ou usando o fato para caracterizar algum dos lados da disputa política nos mostra qual a escolha foi feita. Não temos que pensar na forma como nos tornamos agressivos por causa desse showzinho de dois manipuladores, temos que buscar a razoabilidade como meta de vida. Violência não é coisa da direita ou da esquerda, violência é coisa de quem é violento.

Vamos criando esses circos ao redor de situações banais… no mesmo dia, milhares de brigas piores entre dois homens aconteceram no Brasil. A maioria por falta de maturidade dos envolvidos. E, normalmente não damos a mínima para isso: problema deles. Mas, quando ambos se posicionam de forma tão explicitamente política, e dada a visibilidade do fato, esquecemos dos seres humanos ali e olhamos apenas para as bandeiras que levantam. Eu não vi nenhum avanço na conversa sobre esquerda ou direita naquela situação, só vi dois favelados brigando porque não conseguiam conversar. Não me representam, de forma alguma.

Mas, representam o grosso da internet e da mídia brasileira, sedentos por mais um palanque na interminável guerra pela verdade absoluta. No meu mundo ideal, o máximo que mereceriam era um meme da Sandra Annenberg dizendo “que deselegante”. Sério, não tem nada para ver aqui. Não é a esquerda, não é a direita, não é o Lula ou o Bolsonaro, são dois homens que estavam doidos para criar uma confusão e conseguiram. A politização era um plano de fundo para um comportamento humano genérico.

Vivemos criticando politização de tudo aqui no Desfavor, e não vai ser diferente agora: os dois calharam de representar movimentos políticos populares no Brasil, só isso. Gente escrota vai usar isso para validar suas fantasias de violência contra o outro lado, ou mesmo para se vitimizar (vítima é o novo agressor). Mas no final das contas, foi só uma briga de bar durante um programa de rádio.

E briga bem merda… esse povo nem para enfiar a porrada direito…

Para dizer que isso tem cara de Desfavor da Semana (sempre tem coisa pior), para dizer que eu só estou capitalizando no tema para mostrar mais propagandas, ou mesmo para dizer que o errado na briga é quem você menos gosta: somir@desfavor.com

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Comentários (21)

  • Essa briga não é nada perto da próxima!

    Lula x Bolsonaro no Thunderdome! Dois homens (uso o termo com grande liberdade aqui) entram, com sorte, nenhum sai!

    Eu assistiria…

  • Achei mais uma notícia comum. E a única coisa relevante dentro de meses foi lula sendo solto. E relevante não quer dizer bom.

  • Pensei que esse fosse ser o desfavor da semana, mas pelo visto vai ser o Lula Livre e o julgamento do STF da 2a instância, né?

    Bem, embora eu tenda a ser “team Gleen”, tenho que dizer: ridículo o comportamento de ambos! Mais ridícula ainda toda a comoção causada nas redes sociais. Isso me soou até algo montado, premeditado, pra servir de possível cortina de fumaça.

    • O STF tornou qualquer outro tema obsoleto…

      O Glenn saiu mais limpo dessa história, mas o meu ponto é que são duas pessoas que tinham toda a condição de evitar isso, mas não o fizeram. O fator humano é muito mais responsável do que o político…

  • Perguntei ao C3P-DILMO:

    When a gay left-wing journalist calls an old right-wing journalist a coward, he expects to [complete]

    (…) be called a bully, but it’s always the left-wing media that gets the bullying. It’s always the left-wing media that gets the “shame,” that gets the “fear,” that gets the “fear.” And that’s all because it’s always the left-wing media that says it’s “outrageous” that conservatives should be afraid of people who don’t share the left-wing view. It’s always the left-wing media that’s “shameful” that a certain view shouldn’t be taken seriously.

    In an interview last week with a gay conservative radio show host who had written a book about how the gay rights movement destroyed traditional Christian values, the interviewer asked him: “Do you think that there are any other conservative Christians who would disagree

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    John Cena de S.

    Exatamente. Glenn provocando acintosamente um sujeito da velha guarda para levar uns tapas e devolver uma cusparada. Meu sobrinho de dez anos briga muito melhor que esses dois senhores. O de quatro anos também, mas não é temperamental e preferiria assistir a briga de camarote. O de doze anos está aprendendo a tocar guitarra, que é muito melhor do que perder tempo com programas desse calibre. Se eu estivesse no corner do Augusto, sendo conivente com esse teatrinho, recomendaria que colocasse as mãos da cintura, sacudisse os ombros e imitasse o sotaque, falando fininho “kivirrrrrdi” “vici fi kivirrrdi”, cpmo o garoto do meme, até levar uma cusparada. Aí, pegaria um lenço, removeria o cuspe e me retiraria do estúdio. Aí os dois ainda seriam adultos ridículos, indignos do título, mas o Augusto teria a vantagem de ter sido o menos descompensado.

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    Pedófilo Satanista Nazifascista

    O Glenn está no lucro por conta de ficar intercambiando entre EUA e Brasil. Se ele bobear mais um pouco, tudo aquilo que construiu a fama desse BOSTA pode acabar por levá-lo pra cadeia… E não, não é aqui no Brasil e sim nos EUA.

    Aqueles raquio pegos na operação pirotecnia foram suficientes pra vazar o esquema de levantamento de informações da rede X9 que alimenta Wikileaks e o The Intercept.

  • “e o mestiço – mulato, mameluco ou cafuzo – menos que um intermediário, é um decaído, sem as energias físicas dos antecedentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores” Euclides da Cunha mandando a redpill há mais de 100 anos

  • Aquele momento em que você percebe que conseguiu exorcizar sua internet adequadamente (nada de redes sociais nem portal de notícias desde o impeachment e contando!) e não tem ideia de quem são essas figuras.

    O problema de acusar os outros de isentão é que a maior parte da população é de fato isentona, geralmente engajamento político é diretamente proporcional à sua classe social e nível de escolarização.

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