Café forte.

A pesquisa na universidade varava a madrugada, mais uma vez. Rodrigo se perdera entre a enormidade de dados do experimento com as propriedades da antimatéria e as novidades sobre seu jogo preferido, que acessava ao mesmo tempo. O trabalho noturno era solitário, mas permitia essas liberalidades. Ouvia apenas o som dos próprios passos enquanto caminhava rumo à sala de descanso dos professores em busca de mais uma dose de café quando a monotonia é quebrada por uma voz fantasmagórica:

“Está tão frio…”

“Quem está aí? E se diz que faz frio. Não está frio.”

Silêncio.

Rodrigo olha ao seu redor em busca de algum sinal, mas logo retoma seu caminho. Na sala de descanso, coloca uma cápsula do café mais forte na máquina e espera.

“Eu não quero ficar sozinho…”

“Não é tão ruim assim, dá para focar muito mais nas suas pesquisas. E, onde você está?” – Rodrigo diz antes de dar um gole no café.

“Você é arrogante, você não entende.”

“Se você vai ficar falando escondido em algum lugar, eu vou voltar para o meu trabalho. É muita falta de educação.”

“Eu estou do outro lado.” – a voz responde.

“Vago.”

Rodrigo busca uma das bolachas doces ao lado da cafeteira, e começa a abrir um dos pacotes lentamente.

“Hã?” – a voz parece confusa.

“Vago, mal definido. Eu preciso de um ponto de referência para saber de que lado você está. Do outro lado do sofá? do outro lado da sala? Do outro lado da parede?”

“Do outro lado da vida!”

“Isso obviamente não me ajuda a encontrar sua posição.”

Não há resposta. Rodrigo termina de comer suas bolachas e segue de volta ao seu departamento. No longo corredor, as luzes automatizadas vão seguindo seus passos acendendo e apagando de acordo com sua presença. Já chegando à metade final, nota que uma das luzes se acende no final do corredor. Ele para e observa.

Uma figura humana começa a se materializar diante de seus olhos, abaixo da luz. Um homem negro de compleição magra, maltrapilho, com diversas feridas e cicatrizes espalhadas pelo corpo. Ele olha para baixo, braços esticados em frente à barriga. Rodrigo vacila por alguns momentos, mas começa a se aproximar lentamente enquanto pergunta:

“Quem é você?”

“Eu vivi aqui antes de você nascer…”

“Você é um fantasma?”

“Eu sofri na mão de gente muito ruim. Fui tirado da minha terra natal…”

“Fantasma de escravo então? Qual o seu nome?” – Rodrigo interrompe.

“Ayubu, esse foi o nome que a minha mãe me deu. Quer dizer perseverante.”

“Duvido. Você só pode saber o que eu sei, e o meu conhecimento de nomes africanos tradicionais é inexistente.”

“Não entendi…” – Ayubu levanta a cabeça, franzindo a testa em dúvida.

“Eu devo ter dormido ou estar em algum processo alucinatório, seja você um sonho ou uma ilusão, como é um figmento da minha imaginação, não seria capaz de ter uma informação que eu não tenho.”

“Eu sou real!”

“Talvez num sentido metafísico. Mas por mais que eu tenha curiosidade de explorar minha imaginação, não posso perder tempo, tenho que entregar a pesquisa amanhã.”

“Você duvida que eu seja real?” – Ayubu parece irritado.

“Se fantasmas fossem reais, já teríamos provado há séculos.”

“Observe!”

As luzes começam a piscar violentamente, portas se abrem e fecham sozinhas, enquanto os olhos de Ayubu brilham avermelhados.

“Ayubu… Ayubu… para, não precisa disso.”

“Você aceita minha existência?”

“Não, esse show não muda nada. Eu já te vi se materializando, se fosse acreditar que era real, teria acreditado lá mesmo. Não tem nada de funcionalmente diferente em piscar luzes e bater portas. Se é um sonho ou uma alucinação, são igualmente possíveis.”

“Então sinta isso na própria pele e me diga se eu sou um sonho!” – Ayubu estica o braço de forma ameaçadora. Uma forte dor no peito faz com que Rodrigo caia no chão imediatamente, encolhido em posição fetal. A dor começa a diminuir, o suficiente para Rodrigo se reposicionar sentado no chão, olhando para Ayubu.

“Então… ai… tecnicamente estamos na mesma, Ayubu. Nada disso impede que seja um sonho.”

Ayubu suspira, expressão desapontada.

“Mas se te serve de consolo, é um dos sonhos mais realistas que eu vivi.”

“Eu estou aqui para te dar uma lição. Mas você se recusa a aprender.” – Ayubu vem se aproximando.

“Qual lição?” – Rodrigo se levanta.

“Você está lidando com coisas que não entende. Sua fé na ciência vai te destruir!”

“Ah não, sermão crente no meu sonho? Você tem alguma ideia do que eu estou fazendo?”

“Mexendo com partículas de Deus!”

“Não. Antimatéria. Nada a ver com isso. E mesmo que o experimento dê muito errado, a quantidade no laboratório não explodiria nem uma bolha de sabão!”

“Mas você está trabalhando com outras coisas, não?”

“Só se for chegar no nível 100 do personagem do meu jogo… Ayubu, eu não sei o que você está fazendo nesse sonho. De verdade…”

“Mas é o meu propósito te dar essa lição…”

“Você toma café?”

“Eu plantava café até meu corpo não aguentar mais…”

“Ayubu… me ajuda…” – Rodrigo estende a mão apontando a sala de descanso.

Os dois seguem até lá. Rodrigo faz duas xícaras, e serve uma a Ayubu. Oferece açúcar, mas a aparição rejeita.

“Ah, você é dos meus. Açúcar estraga o café.”

“Perde completamente o sabor!” – Ayubu sorri.

“Esse é do forte, eu deixo escondido durante o dia, só uso de noite quando só eu estou aqui.”

Ayubu toma um gole e acena com a cabeça para elogiar o café.

“Vamos lá… minha teoria é que você é um sonho ou uma alucinação. Eu apostaria mais num sonho, porque você consegue interagir com o ambiente sem dificuldades. A sua teoria é que você é um fantasma de verdade e está aqui para me dar uma lição, certo?”

“Sim.”

“E, se eu entendi corretamente, a lição é que eu não posso mexer com as partículas de Deus, certo?”

“Sim, é isso que eu vim fazer aqui.”

“Mas, eu já te disse que trabalho com antimatéria, algo bem diferente. Ninguém aqui na universidade está sequer estudando isso… como ficamos?”

“Eu posso ter entendido errado. Vai ver me disseram antimatéria e eu confundi por causa das notícias sobre as partículas de Deus…” – Ayubu, ainda tomando café, parece bem mais descontraído e amistoso que antes.

“Sei não, quem te disse isso?”

“Você não entenderia o funcionamento do outro lado.”

“Eu trabalho com física experimental, já fiz mestrado… duvido que se você me explicar eu não consigo pelo menos lidar com a informação.”

“São assuntos do espírito, não da racionalidade.”

“Sabe o que eu acho? Que nem você sabe do que está falando.”

Ayubu para o gole, afasta a caneca e fecha a expressão. Rodrigo continua:

“Em vida, você foi um escravo, certo? Presumo século 18 ou 19.”

“Sim, eu morri em 1792.” – Ayubu responde.

“Então, não te parece estranho que tenham escolhido você para me passar essa mensagem? Se fosse o Oppenheimer eu até entenderia. Faz mais sentido você vir aqui me dar uma lição sobre igualdade racial, exploração, etc.”

“Só porque eu sou negro eu não posso te avisar sobre os perigos da ciência?”

“Você sabe muito bem que não foi isso que eu disse!” – agora é a expressão de Rodrigo que fica fechada.

“Você não pode simplesmente aceitar a lição que eu vim te passar?”

“Não! Ela não faz sentido! Você é um fantasma e fantasmas não existem! Eu quero acordar logo disso porque não quero acordar babando na frente dos meus alunos amanhã de manhã.”

“A sua arrogância ainda vai ser sua ruína.”

“E que escravo fala assim?”

“Agora eu não sei muito bem que não foi isso que você disse!”

“Ah, então você fez curso superior na escola do Gasparzinho?”

“Acho que me mandaram para te dar uma lição para deixar de ser babaca!”

“Então que mandassem alguém menos burro!”

“Você não tem solução.” – Ayubu começa a desaparecer, mas não sem antes fazer um gesto ofensivo com o dedo. Rodrigo sente a dor nas áreas baixas imediatamente, leva as mãos para a área, derramando o café no chão.

“Muito adulto, Ayubu… Argh… droga…”

Rodrigo abre os olhos. Está no laboratório, uma aluna está rindo olhando diretamente para ele. Se ergue na cadeira e tenta fazer um pose mais digna, o que é invalidado pela baba que escorre pelo canto da boca.

“Que horas são?”

“Sete e quarenta.” – responde a moça.

“Ah, a pesquisa! Era pra mandar hoje…”

“Ué, não é essa aqui no computador? Parece feita.”

“Ayubu?” – Rodrigo fica pensativo.

Ele se aproxima do computador e começa a ler. É a maior sequência de bobagens espirituais e pseudociência que leu na vida. Rodrigo perde o prazo e a bolsa de estudos algumas semanas depois.

Moral da história: fantasmas não entendem nada de ciência.

Para dizer que isso foi um desperdício de tempo, para dizer que não sabe se foi isso que eu quis dizer, ou mesmo para dizer que a verdadeira lição é não confiar nos outros: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas:

Comentários (9)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: