Cybertruck

Há pouco mais de uma semana, a Tesla, montadora do bilionário Elon “Pilha” Musk, lançou uma das primeiras verdadeiras novidades no mercado automobilístico em décadas: o Cybertruck. Uma pick-up elétrica que guarda mais semelhanças com um tanque de guerra de história de ficção científica do que qualquer outra coisa já disponível no mercado. Como era de se esperar com algo tão fora do padrão, a internet se dividiu imediatamente entre fãs e detratores do projeto, sem meios-termos.

A primeira coisa que chama a atenção é o design do veículo: uma série de linhas retas e triângulos que não se assemelha a nada em voga no mercado atual. Parece algo saído de algum estúdio de games desenvolvendo um título sobre um futuro pós-apocalíptico. Ou um Gurgel… mas tenho certeza que só alguns poucos brasileiros vão ter alguma memória do estilo visual da primeira e única montadora tupiniquim. Ao redor do mundo, a impressão mais comum é que colocaram rodas num bloco de metal pontiagudo e começaram a pré-venda.

Embora eu só trabalhe com design digital e impresso, tenho uma noção básica do campo para afirmar que não tem opinião errada sobre o visual do Cybertruck: é lindo ou horrendo ao mesmo tempo. Existe uma parte do design que pode ser mensurada e uma parte puramente psicológica. Tenho certeza que o projeto passa na maioria das provas sobre funcionalidade, aerodinâmica e distribuição de peso necessárias para o correto funcionamento de um carro, mas as escolhas das linhas afiadas são uma decisão estética que precisa ser validada pelo gosto pessoal de cada um. Não tem uma opinião “certa” sobre esse visual: ou você gosta ou não.

Eu achei espetacular. Não fosse a completa falta de suporte para veículos elétricos no Brasil, já teria feito a minha reserva. O Cybertruck tem esse jeitão “feio e inacabado” em comparação com a maioria dos carros disponíveis no mercado, nada de linhas suaves e distribuição visual que esperamos num carro, parece algo cortado diretamente de um grande bloco de metal. E é entregue apenas na cor metálica, sem muitas opções de personalização. Moderno, mas ao mesmo tempo clássico: Henry Ford já fazia isso há mais de um século, dizendo que as pessoas poderiam comprar seu carro em qualquer cor, desde que essa cor fosse preta.

Não é um carro “sexy”, não é um carro para ostentar, é um blocão de metal super resistente que usa a estética da ficção científica descaradamente. O nome não é à toa: Cybertruck remete ao estilo Cyberpunk de megalópoles futuristas à lá Blade Runner. E a coragem de ir num sentido completamente diferente da indústria automotiva com esse visual não é só a habitual insanidade de Elon Musk, é também uma tática de negócios muito mais inteligente do que a maioria deu crédito: se você vai entrar num mercado tão estabelecido como o de utilitários, está diante de uma batalha morro acima. O visual de pick-ups é basicamente o mesmo desde… desde a invenção do carro! Os primeiros modelos da Ford no começo do século XX e os últimos lançamentos do final da segunda década do século XXI são basicamente iguais.

Como entrar nesse mercado? Tenha em mente que boa parte das montadoras já estabelecidas não tem coragem de investir muito nessa área, que é dominada por americanos e mais recentemente japoneses. E até mesmo os japoneses tiveram que se render aos padrões americanos para se estabelecer no mercado. A ideia da Tesla foi causar. O Cybertruck quebra tanto o padrão das pick-ups no mercado que obriga todo mundo a prestar atenção, e mais importante, a julgá-la por padrões diferentes. O visual “chocante” do veículo é essencial para evitar comparações imediatas e tentar tirar o foco do elefante na sala: pick-up elétrica. Ênfase no elétrica.

Motor diesel é uma das coisas mais confiáveis do mundo? É sim. Um tanque cheio te leva longe mesmo numa pick-up beberrona com 3 toneladas de ferro para carregar por aí? Leva. Então por que diabos entrar nesse mercado com motores elétricos? Primeiro porque a Tesla é a empresa de uma bilionário que se diverte lançando foguetes, segundo porque a cada dia que passa, a opção elétrica fica mais interessante. Um motor elétrico tem vantagens imensas sobre um de combustão em questão de arranque, potência e confiabilidade. Você tem força máxima no minuto que liga o carro, pode mandar essa energia para qualquer roda e fazer qualquer combinação de potência. Funciona igual em quase todas as temperaturas e é baseado numa tecnologia bem mais simples de manter que um motor de combustão. O que ajuda bastante num veículo que precisa passar por terrenos acidentados. Faz sentido ter um motor elétrico no meio de um lamaçal.

Isso é, se existisse uma estrutura para manutenção de veículos elétricos onde você fosse utilizar o Cybertruck. No Brasil simplesmente não existe. Em boa parte das áreas mais rurais dos EUA e do mundo, também não. Se o Cybertruck fosse um pouco mais convencional na sua aparência, estaríamos falando disso. Para a “sorte” de Musk, toda a conversa gira ao redor das linhas retas da carroceria. Mesmo que você possa carregar o carro em casa, isso acontece numa velocidade muito menor do que em estações especializadas. O mundo ainda tem muito o que mudar para aceitar carros elétricos de vez, o que eu tenho certeza que vai acontecer eventualmente, mas pode demorar um pouco ainda.

Outro ponto de destaque utilizado pela Tesla foi a resistência do veículo: só não disseram que era à prova de bala, porque o resto foi alardeado. Feito com grossas placas de aço inoxidável e um vidro que supostamente resiste a maioria dos impactos, passou vergonha na apresentação pública ao vivo quando uma bola de metal que não era para quebrar o vidro o quebrou diante de milhares de pessoas. A desculpa de Elon Musk é que fizeram os testes na ordem errada, era para ter marretado a porta depois de testar a resistência do vidro: a marreta soltou o vidro, tornando-o mais frágil. Eles lançaram vídeos depois mostrando que o vidro não quebra quando toma uma pancada de uma bola de metal… o histórico de soltar as coisas antes de estarem prontas existe com Elon e sua turma, mas dessa vez eu decidi dar o benefício da dúvida. Pelo menos gerou um monte de memes.

Mas nada disso foi levado em consideração pelas milhares de pessoas que reservaram o seu. E aqui entra outro ponto muito interessante do lançamento do Cybertruck: seguindo o caminho aberto pela indústria dos games e portáteis em sites de financiamento coletivo, a Tesla inaugurou a era de “vaquinhas” para carros. O valor da reserva é simbólico: 100 dólares. Não te garante nada se você não pagar os outros 40 a 70 mil dólares do carro em si em suas três configurações, mas já capitaliza a empresa para continuar o desenvolvimento do projeto. Se a Tesla não conseguir entregar o produto em 2022, te devolve os 100 dólares.

É uma tática ousada, mas que já foi provada em outros setores. As pessoas gostam de participar do projeto e pagar por exclusividade. Caso o produto não seja um desastre completo no lançamento, a Tesla vai ter o primeiro não-esportivo de altíssimo padrão que já sabe que vai vender assim que sair da fábrica. A questão é que provavelmente esses carros vão acabar prioritariamente nas ruas de grandes cidades, e não no campo como as peças publicitárias estão alardeando: vai precisar de muito esforço para fazer quem já é consumidor de pick-up experimentar uma versão que não usa diesel (não conseguem vender nem versão gasolina para esse povo) e não sabem quem vai consertar quando der problema. Eu não duvido que a Tesla venha com uma estação de recarregamento baseada em energia solar ou algo do tipo que possa ser colocada fora de grandes cidades para fortalecer seu argumento de vendas.

Mas no começo, provavelmente esses monstros estarão nas ruas irritando todo mundo, na mão de gente que não consegue fazer baliza nem com um Uno. 2022 promete ser divertido. Mas já agora no final de 2019, podemos ver uma ideia nova no mercado automobilístico, que carecia de inovações desde que… bom, desde que a Tesla trouxe o carro elétrico para a frente do palco. Com certeza não inventaram a tecnologia, mas antes deles estavam todos muito tímidos com essa ideia de carros elétricos. Hoje em dia, toda montadora tem seu projeto. Como eu adorei o visual, espero que lancem moda mais uma vez: como os carros voadores não vieram, o máximo que temos agora é isso: um visual cyberpunk.

Anota aí, pode demorar uma década, mas eu ainda vou ter um desses. Finalmente uniram o gosto por carros desnecessariamente grandes e agressivos com nerdice. Obrigado por ser um maluco da porra, tio Elão! Tenta não falir tão cedo, tá?

Para dizer que não vem para o desfavor para ler sobre carros, para dizer que achou horroroso, ou mesmo para dizer que combina perfeito com seu implante +3 de NetRunner: somir@desfavor.com

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Comentários (16)

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    Don’t fuck my fish

    Concordo que é complicado pensar numa estrutura para carros elétricos em países como Brasil ou até mesmo boa parte dos Estados unidos, ainda mais considerando a dimensão territorial. Porém há vários países pequenos e ricos que dispõe de total estrutura para carros elétricos, e esses países são as minas de ouro pra tesla. Na Noruega, por exemplo, mais de 60% dos carros são elétricos. E adivinha qual a fabricante dominante dos elétricos por lá? Sim, Tesla.

    Em geral, os países ricos da Europa possuem estações de carregamento rápido licenciamentos pela Tesla espalhados por várias cidades e estradas. É possível encontrar vários num raio de 50km, mesmo nos interiores.
    Acredito que a CyberTruck pode se tornar a nova queridinha dos fazendeiros ricos por aqui.

    [um pouco off topic] falando em Noruega, Oslo tem um pouco dessa sensação futurística. É absurdo a quantidade de elétricos na rua. E engraçado como a cidade é silenciosa por causa disso.

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    Geraldo Renato da Silva

    Não sou aficionado com carros, mas acredito que um pouco de estética não faz mal; se pudéssemos unir a beleza dos esportivos dos anos 1960-80 com a economia de um Uno Mille seria o paraíso na Terra!

    • Mas tem estética. Não é uma convencional, mas é imediatamente reconhecível e desperta sentimentos claros em quem observa.

    • A culpa é de quem faz os designs desses carros viados. E a falta do ronco do motor… no futuro aposto que vai ter um mercado de compra e venda de sons de motor para carros elétricos.

      • “(…) no futuro aposto que vai ter um mercado de compra e venda de sons de motor para carros elétricos.” Também já pensei nisso, Somir. E isso seria mesmo legal…

    • Falando em games, tomara que o Elon Musk faça um patrocínio dentro do Cyberpunk 2077 com esse carro! E a personagem do Keanu Reeves seja quem dirija.

  • Acompanhei bem de longe esse assunto e confesso que não sabia que o tal “Cybertruck” era obra do Tio Elão. Mais uma dele… E eu também creio que o futuro pertence aos carros elétricos, mas que a mudança nessa direção – tanto da indústria quanto dos consumidores – não deve acontecer tão já. Quanto ao design dessa coisa, deve dizer que achei inusitado, pra dizer o mínimo. Eu não compraria. Podem me chamar de brega e cafona, mas meu gosto pra visual de carros tende mais pros chamados “muscle cars” dos anos 70, tanto os nacionais como o Maverick quanto os gringos como o Pontiac Trans AM.

    • Quando a gasolina do seu muscle car acabar, minha gangue pós apocalíptica cyberpunk vai passar pela estrada rindo e berrando: ENERGIA SOLAR, BITCHES!

  • Pelo menos vai ser mais fácil achar no estacionamento. No Brasil, ao menos onde moro, parece que só existe carro preto, cinza, vermelho ou branco.

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