Kenshi

O jogo começa: você está no meio de um deserto ao meio dia, com fome, sozinho e usando só roupa de baixo. Ah, você está sem um braço. Você não sabe o que fazer, então começa a vagar sem rumo. Do meio da areia, surge um inseto gigantesco que te ataca. Você pensa: “não é possível que colocariam um inimigo que pode me matar segundos depois do jogo começar, certo?”. Você morre quase que imediatamente, o ser consome seu corpo. Game Over. Bem-vindo!

Kenshi é um jogo da produtora Lo-Fi Games, que até poucos anos atrás era o projeto pessoal de um homem chamado Chris Hunt. De 2006 a 2013 ele trabalhou sozinho no jogo, trabalhando como guarda noturno para complementar a renda. Com o sucesso dos protótipos, conseguiu montar uma equipe. Mesmo assim, o jogo só foi considerado finalizado e pronto para venda no final de 2018. E como expliquei no primeiro parágrafo, o jogo tem uma reputação de ser tão complexo como brutal. É claro que eu adoraria.

O estilo é sandbox, ou seja: o jogo te dá um cenário, regras pré-definidas de como as coisas funcionam naquele mundo, mas depois disso, você está por conta própria. Em Kenshi você não é especial, não é o Escolhido, não tem poderes únicos, nem mesmo uma história só sua para seguir. Você é o cérebro por trás da personagem que guia, e pode fazer o que bem entender com essa liberdade. Você percebe o diferencial logo de cara: existem vários cenários para começar, com diferentes graus de dificuldade, mas em nenhum deles alguém te diz o que fazer, ou mesmo como jogar. Você tem entre alguns segundos e alguns minutos de paz para entender que botão ou clique faz o que, e já tem que lidar com os inúmeros problemas que surgem no seu caminho.

O objetivo inicial é sobreviver: seu personagem fica com fome e pode morrer se ficar muito tempo sem comer. O mundo ao seu redor não te oferece muito: o cenário é pós-apocalíptico, com um horizonte quase que totalmente árido ou venenoso, pontuado por raras construções e aglomerações de pessoas. Quase toda a fauna do jogo é extremamente agressiva, e especialmente nas primeiras horas, praticamente impossível de ser enfrentada numa luta. A decisão do criador do jogo foi de colocar qualquer proeza de combate atrás de muito treinamento. Se você não sabe lutar e não está muito bem equipado, qualquer batalha pode ser sua última.

Mas falemos do mundo primeiro. Como já disse, você começa sua aventura numa terra arrasada, e ninguém te explica como isso aconteceu. O mapa do jogo é gigantesco, e não existem veículos: ir de um extremo ao outro do continente pode demorar semanas (de jogo). Por onde quer se vá, o ambiente é inóspito, com poucas instâncias de vegetação, restos de algo parecido com uma civilização tecnológica antiga, e algumas facções em eterno pé de guerra. Claramente não estamos na Terra do futuro, tendo em vista o que se pode enxergar durante a noite: alguns planetas bem próximos no céu, e é claro, o fato de os humanos serem apenas uma das raças disponíveis.

Um dos pontos positivos desse mundo é a originalidade: apesar das outras raças além dos humanos seguirem alguns clichês como um povo de guerreiros e um que imita o comportamento de formigas e cupins vivendo em colônias, são tendências, e não personalidades obrigatórias. Uma das partes mais importantes da jogabilidade é o recrutamento de aliados, e nas suas viagens, você vai encontrar muita gente que não tem o menor interesse em seguir os padrões de suas sociedades. A personagem mais querida pelos fãs do jogo é um desses que quer ser diferente do que “nasceu para fazer”, por exemplo. Algumas dessas pessoas tem histórias e habilidades, mas a maioria é de gente tão perdida e incapaz como você no começo. Todo mundo tem que treinar. E sobreviver.

E sobreviver não é fácil. Quando eu comecei num modo de dificuldade médio (vulgo sozinho, mas perto de uma cidade e com os dois braços), meu instinto foi procurar uma briga contra um “NPC fraco” para pegar uma arma. O problema é que quase todo mundo anda em bandos em Kenshi. Mesmo assim eu quis tentar para ver se eles eram fortes. Fui espancado por 10 pessoas, como era óbvio que aconteceria. Como meu personagem ficou inconsciente e sangrando e ninguém apareceu para me salvar, morri ali mesmo. Em Kenshi, você sofre danos de acordo com onde é acertado, seja na cabeça, no peito, na barriga ou nos membros. Se você apanhar muito numa área vital, pode morrer se ninguém prestar primeiros socorros e se não passar um bom tempo numa cama se recuperando depois. Se um dos seus membros receber esse trauma, você o perde, e só próteses robóticas (que são muito difíceis de achar no começo do jogo) podem te dar a função desse membro de volta, e com sérias penalidades.

Da segunda vez, já com outro personagem, fui mais esperto: esperei um grupo de bandidos lutar com o outro, quando só tinha gente caída sangrando no chão, corri para roubar as coisas dos derrotados. Não dava muito dinheiro, mas era o suficiente para comprar um pedaço de carne seca e sobreviver mais um dia. O segredo do jogo é juntar dinheiro para conseguir aliados. Sua equipe vai aumentando. Mesmo que sejam vários completos inúteis como você, números significam mais segurança e mais oportunidades de carregar coisas para vender depois. E com o tempo, você vai treinando não só a capacidade de lutar, mas a capacidade de apanhar: em Kenshi existe uma mecânica de resistência. Se você apanha até ficar a um milímetro da morte várias vezes, fica mais resistente nas próximas vezes, e demora mais para desmaiar.

O que não quer dizer que o jogo se torna muito seguro depois de um tempo: sim, você vai se equipando melhor e sua equipe fica mais habilidosa e resistente, mas basta um erro de planejamento ou um mínimo de excesso de confiança para você se enfiar numa situação sem volta. Kenshi pune severamente quem não tem medo de nada. Quanto mais você conhece sobre a área e seus perigos, e quanto mais precauções toma, menores as chances de sangrar até a morte no meio de um deserto ou floresta debaixo de chuva ácida.

Mas é um jogo de lutar contra inimigos? Não, é um jogo do que você quiser. Eu percebi que comida era rara no jogo e pouca gente tinha estoques, então resolvi fazer meu time aprender agricultura e começar a plantar, para quem sabe montar um império alimentício! Sem brigas, só colheitas. O problema é que o mundo não deixa de existir ao seu redor: assim que você se estabelece em algum lugar e monta uma base de operações, os seus vizinhos começam a prestar mais atenção. E muitos desses vizinhos não ganham a vida de forma tão honesta… minha fazenda foi atacada por bandidos inúmeras vezes, que quase mataram meus fazendeiros, exigindo muita estratégia para pelo menos salvar alguns.

Depois disso, o “governo” local tomou nota da minha existência. Vieram cobrar impostos sob a pena de matar todo mundo. Sem condições de enfrentar um exército, cedi. Entraram na minha fazenda e pegaram toda a comida. Eles fazem isso a cada semana, exigindo alguma esperteza para esconder a produção quando eles estão chegando. Em relação aos bandidos, eu consegui contratar mercenários que cobram os olhos da cara, mas conseguem me proteger. As coisas pareciam ir bem. Até que uma facção de psicopatas que vivem há quilômetros de distância resolveram que precisavam testar nossa coragem como guerreiros. Eles vem a cada quatro dias, espancam todo mundo até deixar metade da minha equipe aleijada, matam todos os mercenários (que eu realmente esperava que fossem mais fortes), roubam a comida, nos chamam de viadinhos e vão embora.

O jogo não é sobre lutas, mas é um simulador de vida medieval numa terra arrasada. Você tem que lutar. Agora estou treinando os poucos ainda em condição de lutar e correndo pelas cidades buscando novos aliados e mais mercenários para tentar me provar para esses malucos. Se nada funcionar, vou ter que tirar minha fazenda de lá e ir para um lugar mais distante, onde toda a vida animal é extremamente mortífera, onde chove ácido, mas não tem gente por perto. Estou contando tudo isso como se fosse a história do jogo, mas é a história de um jogo! Tudo isso é baseado apenas nas regras do mundo onde ele acontece, mas não tem nenhuma programação definindo que as coisas tinham que ser assim. Eu poderia ter feito mil escolhas diferentes no meio do caminho.

Cada novo recomeço cria uma história completamente diferente. Eu poderia ter montado minha equipe de forma diferente, poderia ter sido menos ganancioso, poderia ter me concentrado em atacar gente indefesa, poderia virar ladrão, poderia virar mercador… essa é a grande vantagem de Kenshi: o jogo só te obriga a conhecer suas regras, o resto é com você. Poucos jogos são assim hoje em dia. Todo mundo fala de valor das decisões dos jogadores, mas no final das contas é uma seleção entre 3 falas que basicamente não muda na história. Todo mundo fala sobre liberdade de ação, mas existem mil mecanismos para te proteger quando você faz uma bobagem. Em Kenshi existem facções que escravizam pessoas, se você desmaiar na frente de um deles, pode acabar do outro lado do mundo dentro de uma jaula sem chance de escapar tão cedo.

Oras, eu ataquei um grupo de 10 pessoas sozinho. Eu merecia morrer. Eu montei uma fazenda e não treinei soldados para me proteger numa terra dominada por uma raça guerreira, é claro que eles não me respeitam. Isso é uma decisão de jogador livre. A decisão de fazer apostas difíceis e pagar o preço. A história do jogo só pode ser contada por quem jogou. Sem o jogador, o mundo continua fazendo o que sempre fez, não tem uma profecia ou qualquer mecanismo barato de narrativa para substituir sua imaginação. Um dia, meus fazendeiros vão dominar o mercado de comida do mundo, ganhando muito dinheiro. Com esses recursos vamos treinar e equipar soldados formidáveis para protegê-los. Vamos montar muros ao redor da cidade dos psicopatas e fazê-los morrer de fome sem poder fazer comércio com outros povos! Vamos mandar times de assassinos para invadir sorrateiramente sua cidade e matar todo mundo que cuida da produção e distribuição de alimentos. Vou colocá-los em jaulas no meio do deserto para que definhem à plena vista daqueles que desafiarem meu poder! Minha vingança será cruel. E essa história só vai existir num arquivo do meu computador.

Kenshi é um dos melhores jogos já lançados nos últimos anos, mesmo tendo gráficos feios (é tudo feio, enferrujado e desbotado) e dando pau o tempo todo. Tudo se resume ao poder das escolhas e de criar sua própria narrativa. Ninguém vai te ensinar o que fazer, cada coisa que você conquistar vai ser retirada das mãos frias de seus inimigos. Eu só queria plantar meu trigo em paz…

Para dizer que isso sim é uma análise de jogo, para dizer que parece muito difícil (só pelas primeiras 50 horas, depois fica só difícil), ou mesmo para dizer que de sofrimento basta o real: somir@desfavor.com

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