Melhor direção.

Hoje em dia, metade do Brasil dirige um Uber, criando o território ideal para a discussão da vez. Sally e Somir analisam os pontos positivos e negativos de ter um carro quando caronas se tornaram um dos maiores mercados do país. Os impopulares encontram a melhor rota.

Tema de hoje: se o custo for o mesmo, é melhor ter um carro ou andar de Uber/táxi?

SOMIR

Ninguém vive sozinho, mas ter a possibilidade da independência é fundamental. É tudo uma questão de equilíbrio: se você tem um carro, ainda pode andar de Uber. Se você só anda de Uber, não tem um carro disponível. A base do argumento é simples assim. Se você analisou os números e descobriu que ter seu carro é economicamente viável em comparação com Uber e táxis, é óbvio que o carro é a opção mais segura e versátil.

Claro que é prático não ter que se preocupar com manutenção de carro, estacionamento e trânsito, mas também é prático ir até a garagem e pegar seu carro para ir onde quiser, sem envolver mais ninguém. Você tem privacidade e controle da sua rota com seu próprio carro, pode mudar de ideia, pode sentir uma vontade forte de cagar e voltar pra casa, pode parar para tomar um café… tudo muito mais complicado quando você tem um motorista que não trabalha só para você.

Uber é bacana até você precisar esconder um corpo. Não que eu vá matar alguém ou defenda o comportamento, mas é um exemplo extremo de algo que simplesmente não é possível para quem não tem seu carro. Talvez no Rio de Janeiro tenha um tipo de Uber especial pra isso… seja como for, quando você precisa ter certeza que não vai envolver mais ninguém na história, você precisa ter o seu carro. Seu carro não vai deixar registros do que você fez ou deixou de fazer.

Sem contar que Uber e táxis são negócios, e negócios precisam ser lucrativos: nesse caso, a oferta está onde está a demanda. Se você mora numa cidade pequena ou se quer ir para uma parte muito afastada de uma grande, boas chances de ter dificuldades de encontrar alguém imediatamente. Sem contar que tem que esperar até alguém chegar, normalmente exposto numa rua, o que nunca é saudável num país perigoso como o Brasil. Seu carro não está nem aí se a rota é lucrativa ou se é de madrugada na zona rural (o que pode ou não estar relacionado com o corpo…).

E vamos comparar os motoristas? No caso do seu carro, é você ou uma pessoa da sua confiança. No caso do Uber ou táxi, é um brasileiro médio. Não sei quanto a vocês, mas eu sempre prefiro reduzir minha dependência de brasileiros médios. Conseguem prestar mal até mesmo o serviço de carona. Já são vários os casos de motoristas de Uber dando golpes aumentando a rota, cobrando preços astronômicos e até mesmo abusando de passageiras! Vai querer girar a roleta brasileira?

E piora: nessa crise, qualquer pessoa com uma carteira de habilitação está pegando o trabalho de motorista. Saber dirigir e ser motorista são coisas bem diferentes. Já andei em vários carros de gente que parece estar dirigindo pela primeira vez: vacilantes, desatentos e extremamente dependentes do GPS do aplicativo. Em várias cidades do país um motorista que não conhece a área pode acabar te colocando numa situação fatal. E como não é a profissão real dessas pessoas, elas não treinam ou se esforçam para fazer um bom serviço. Talvez se você morar num centro mais rico de uma capital gigante seus motoristas sejam selecionados pela concorrência agressiva, mas na maior parte do país, são uns perdidos cujo diploma não serve para mais nada.

Eu sei que não serve para todo mundo, mas… às vezes você só quer ficar quieto, e Uber meio que gera a presunção de alguma conversa. Até taxista, que costumava ser quieto e te deixar em paz agora fica puxando papo porque acha que é isso que as pessoas querem. No meu carro eu posso ficar tão quieto como quiser. Mas como tem gente que conversa feliz da vida com qualquer ser vivo (como a Sally), é um ponto mais discutível. Eu já tive que ouvir papo de crente e de mórmon nas minhas viagens, não foi agradável.

Mas é na hora do aperto que ter seu carro se torna imbatível: precisa levar alguém para o hospital às 4 da manhã? Pega o carro e vai! Tem casos que ambulância não é a melhor escolha, e elas demoram bastante no Brasil. E até algum Uber se dignar a vir te pegar, a pessoa já pode estar passando muito mal. Seu carro tem o tempo de resposta de andar até a garagem ou até a rua. É muito mais ágil. Precisa sair correndo de algum lugar por se sentir em perigo? Ainda bem que você tem seu carro, não? Imagina esperar carona quando tem um elemento estranho te olhando demais? Carro está lá quando você precisa.

E, não podemos ignorar um detalhe: vai entrar no motel de Uber? Faça-me o favor. Vai precisar de um oceano de KY para dar conta do Saara que você acabou de criar entre as pernas dela. Toma vergonha na cara! Sally só está defendendo não ter carro porque é mulher. Homem tem obrigação de ter seu carro (ou moto, se quiser morrer cedo). Pode me chamar de machista, mas até um gol quadrado caindo aos pedaços é melhor do que depender de carona para se movimentar. Onde fica o seu senso de controle sobre a vida? Você tem que projetar a imagem de alguém que consegue ir para onde quiser a hora que quiser. Essa geração sem carro não aprendeu os verdadeiros valores da masculinidade, e é por isso que tem tanta mulher sofrendo por aí.

Isso acelerou rapidamente… mas, que seja: ter carro é essencial. O mundo que vivemos foi montado pensando neles, e estamos bem longe ainda de uma sociedade baseada em transporte coletivo. No futuro eu posso até concordar com isso, mas agora? Agora eu prefiro ter um carro e usar o Uber quando for mais conveniente, porque na dúvida, é melhor ter todas as opções.

Para me chamar de paulista, para me chamar de machista, ou mesmo para dizer que entra no motel de Uber: somir@desfavor.com

SALLY

Se o custo for o mesmo, o que é melhor: ter carro ou andar de taxi/uber?

Na minha realidade é muito mais benéfico andar de táxi, Uber ou qualquer aplicativo do gênero.

Para começo de conversa, o brasileiro não é exatamente um povo educado. Isso se reflete em diversos pontos no dia a dia e um deles é no trânsito. Pessoas que dirigem mal, de forma agressiva, de forma descuidada ou simplesmente não sabem dirigir pois compraram literalmente sua carteira de motorista (ou a manutenção dela) acabam complicando a vida de quem dirige.

Mesmo que você seja uma pessoa zen, que não se incomoda com nada que façam no trânsito, ter animais ao volante gera uma carga de estresse: sair de casa já contando com a falta de habilidade alheia cria uma tensão. Tem que dirigir por você e pelos outros, sempre tomando cuidado pois, a qualquer momento, alguém pode fazer uma imbecilidade ou imprudência. Partir desse start já me faz não querer dirigir no Brasil. A vida já tem estresse suficiente para acrescentar um que pode ser evitado.

Além disso, temos o fator violência urbana + criminalidade. Seu carro pode ser roubado em qualquer esquina, a menos que você seja um dos poucos privilegiados de viver em um lugar que ainda é seguro no país. Se houver uma discussão de trânsito seu carro pode ser vandalizado por um motorista indignado. Também pode existir uma junção de ambos: o carro se vandalizado para que você seja obrigado a parar e, então, seja assaltado. Prefiro que roubem ou vandalizem o carro alheio, obrigada.

E, mesmo que nada disso aconteça, as ruas e estradas brasileiras se encarregam de vandalizar seu carro. Buracos, estrutura irregular, animais na pista, lixo, alagamento e tantos outros problemas destroem um carro. A vida útil de um carro no Brasil é bem menor do que em outros países civilizados. Não vou pagar caro (sim, carro no Brasil custa caro) por algo que o próprio meio vai se encarregar de arruinar.

Vale lembrar que os custos com combustíveis não são os únicos de quem opta por ter um carro. Há impostos, manutenção do veículo, seguro e tantos outros que, além de representar despesas, representam também burocracia e dor de cabeça. É pedir para ter problema, que nem sempre é fácil de resolver.

Muitos estados te obrigam a fazer uma vistoria anual, que é um inferno para agendar e perde-se um dia para cumprir. Chegam multas bizarras na sua casa, que dão um trabalho infinito para recorrer e provar que você não cometeu essa infração. Eu uma vez recebi uma multa por estar dirigindo sem capacete… um carro. Demorei meses e perdi dias inteiros (mesmo sendo advogada) para conseguir me livrar dela.

Quando não dá para contar com a eficiência e justiça daqueles que te fiscalizam (o DETRAN talvez seja um dos piores órgãos públicos nesse quesito), não dá para contar com um tratamento dentro da lei. Quem disse, por exemplo, que seu carro só será rebocado se estiver estacionado em um local incorreto? Pode ser rebocado em qualquer lugar, foda-se a lei. Quem já teve carro rebocado e teve que ir retirá-lo do depósito sabe a dor de cabeça e os custos que isso gera.

Estamos em um país onde nada funciona. Quando nada funciona, é melhor ter o mínimo de relações possíveis com o Poder Público. Comprar algo que ele possa fiscalizar, tributar e rebocar é pedir para ter dor de cabeça. Quando não tem outro jeito, a gente se sujeita à corrupção e incompetência alheia, mas havendo a possibilidade de quem te leve e te busque? Chupa Poder Público, não vou me sujeitar a vocês.

Não que táxi/Uber sejam perfeitos, tenho uma série de ressalvas, como qualquer prestador de serviços brasileiros. Mas me parece uma dor de cabeça menor. Sendo o caso, não estou brigando contra o Estado, uma máquina de triturar contribuintes. Se um determinado aplicativo de táxi pisa na bola comigo, tenho a opção de outros 10 para usar, não estou presa na mão deles. Já os donos de veículos, eles não podem escolher, eles estão nas mãos do Poder Público.

Sem contar que eu ganho tempo indo de táxi, um dos bens mais difíceis de conseguir nos dias de hoje. Durante o trajeto (geralmente longo, pois moro em uma cidade com trânsito infernal) eu consigo responder a e-mails, falar ao telefone, responder a comentários do Desfavor e fazer muitas outras coisas que não conseguiria se estivesse dirigindo. Quem não dirige pode beber, pode responder a whatsapp, pode fazer basicamente o que quiser.

Deixo os problemas legais e burocráticos para o taxista, eu só entro, sento e sou levada ao meu endereço final. É muito fácil e prático: quando preciso ligo e eles vem me buscar onde quer que eu esteja.

Claro, isso seria um problema se eu fosse uma criminosa ou fizesse algo que tivesse que ser mantido em segredo, mas felizmente não sou. Não cometo crimes, não tenho amantes a esconder, não vou a lugares secretos, não preciso me defender nem me proteger. E se alguém não vive sua vida de forma limpa, honesta e correta, bem, a discussão carro x táxi é o de menos…

Foi-se o tempo onde carro era status, era poder. O que vale hoje é ter mais tempo e menos estresse, duas coisas que se conseguem quando você está no banco do carona. Grandes merda ter um carro, besteira, bobagem apreciada apenas por desempoderados. Carro não é poder, é dor de cabeça e sujeição ao Poder Público. Vá de táxi ou de uber.

Para dizer que você prefere não ir onde quer que seja, para dizer que você prefere fazer um bom plano de saúde e ir de moto ou ainda para dizer que é um adolescente infantil e usa carro para pegar mulher: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Hoje em dia ter carro é tipo ter filho… Proporciona algumas alegrias sim, mas nas atuais condições é prejuízo e dor de cabeça por muito tempo.

  • É, depende da pessoa, do uso que ela faz do carro mesmo. Mas de acordo com o texto, fico com a Sally nessa, seus argumentos convencem. Quando eu penso na dor de cabeça burocrática que é ter que lidar com carro, ahh não… Prefiro pegar um uber mesmo e pronto.

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    Innen Wahrheit

    “Quem não dirige pode beber, pode responder a whatsapp, pode fazer basicamente o que quiser.”

    Isto não procede! Experimente peidar dentro de um carro que não seja seu…

    • Ué, você acha que o motorista, que está ali ganhando seu sustento, vai te interpelar e questionar se você peidou?

  • Nem sempre os serviços de app de caronas são prestados de forma exemplar – taxi, inclusive, dispensa comentários. Nem sempre são tão baratos, e apps que tem tarifa dinâmica como o Uber podem ter custos totalmente diferentes pra mesma corrida em ocasiões distintas – já vi casos de pessoas que precisaram fazer duas corridas iguais no mesmo dia, e o preço da segunda corrida foi o dobro da primeira. Então acho que fico com o carro mesmo

      • Verdade, falha minha na análise.

        Porém, mesmo com o compontente financeiro idêntico no comparativo, ainda não mudo minha opinião. Comtinuo optando por carro próprio, não dependendo de drivers que serão uma roleta russa: podem ser educados, bem como podem achar que estão te fazendo um favor

  • “Essa geração sem carro não aprendeu os verdadeiros valores da masculinidade, e é por isso que tem tanta mulher sofrendo por aí.”
    Imaginei um jovem indo buscar a namorada com um desses patinetes hipsters alugáveis e perdi 1 minuto de vida rindo. Essa geração não consegue ter nada próprio, precisam compartilhar tudo (apartamento, transporte, até namorada é aceitável compartilhar hoje em dia!) e ainda tentam glamourizar pra fingir que não estão na merda. Não digo que isso é (totalmente) culpa deles, mas me estender fazendo críticas ao decadente sistema atual fugiria do tema do texto.

    No meu contexto valeu mais a pena comprar um carro, tenho muitas ferramentas de trabalho pra transportar e não raro viajo para cidades próximas.

  • Aqui onde moro o preço de uma corrida de taxi pode chegar a custar o que eu coloco de gasolina pra uma semana (Uber também tá começando a ir por esse caminho). Por mais que tenha todas essas desvantagens burocráticas, ainda prefiro ter meu carro. Saio quando quero, quando eu tiver que ir a tal lugar com urgência não preciso esperar ninguém e ainda arranjo uma justificativa perfeita pra cortar conversa de zé ruela que me pergunta “AiN MaS Por quE VoCê NaUm Bebeeee?” nas festas (é só falar “Tô dirigindo” e o assunto morre na hora).

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