Prisão mental.

Sugestão de Bolsonaro de Sunga: “como um estado deve lidar com psicopatas, pedófilos e outras doenças que não tem cura?”. Mesmo não precisando mais seguir temas, esse me deixou com a pulga atrás da orelha… até porque ele pode ir por um caminho terrível. Sempre um bom prospecto.

O Estado costuma saber o que fazer com quem mata, com quem rouba e com quem engana, e até entende que existem fatores que tornam esses crimes mais ou menos culpáveis. Matar uma pessoa é um crime sério, mas se ficar comprovado que você precisou fazer isso para se proteger, boas chances de você sequer ser punido. Roubar comida por estar passando fome costuma mudar as atitudes de um juiz em relação ao criminoso… percebam que não é só uma questão da letra fria da lei, é um senso comum desenvolvido por nós há milênios. Toda regra precisa de contexto.

Contexto que nos foge quando falamos de psicopatas, pedófilos e afins. Para a maioria de nós, entrar na cabeça dessas pessoas e ver o mundo com seus olhos é praticamente impossível. O contexto desaparece, e ficamos apenas com crimes terríveis e aparentemente inexplicáveis. Toda semana tem uma série de notícias sobre crimes bárbaros contra crianças e adultos que não conseguimos sequer entender. O senso comum utilizado para lidar com criminosos em outros contextos desaparece.

A resposta mais comum para isso é querer eliminar essas pessoas do mundo. Até mesmo para os mais ferrenhos críticos da pena de morte, caso de pedófilos estupradores e assassinos em série são uma difícil concessão em troca de um ideal maior. O que quase todos nós pensamos instintivamente é matar essas pessoas e não deixar que façam mal a outros. Então, por que motivo não faz parte das leis de todos os países essa exceção nesses casos? Se todo mundo pode concordar que uma pessoa que estupra e mata um bebê não merece respirar o mesmo ar que nós, deveria ser super simples criar esse tipo de lei.

Bom, aqui entram os argumentos mais comuns contra pena de morte: é uma punição sem volta aplicada por um sistema falível. O Estado pode errar e matar um inocente. Ou pior, o Estado pode ser usado por alguém mal intencionado para matar um inocente. Mas, além disso, é uma porta aberta para abusos: se psicopata tem que morrer, temos que ter uma definição disso. Se temos uma definição disso, ela é baseada num exame prévio ou apenas quando a pessoa comete algum crime? Se ela só vira psicopata se cometer algum tipo de crime, isso não significa que estamos definindo psicopatia como algo adquirido e não inato? Quem mata animais de forma cruel normalmente cai no espectro de psicopatia, essa pessoa morre também? Um soldado que mata centenas de pessoas a pedido do Estado não é psicopata? Um pai que vinga a morte do filho matando todos os filhos do inimigo é um psicopata?

No caso de pedófilos: ter uma coleção de fotos de crianças nuas em casa faz a pessoa entrar na categoria e receber a punição máxima de morte? Ou precisa efetivamente abusar de uma criança? Qual a faixa exata onde deixa de ser estupro de vulnerável e se torna sexo consentido? 14 anos como no Brasil ou 18 anos como em alguns estados dos EUA? Pode parecer bem óbvio para a maioria de nós que um adulto fazendo sexo com uma garota de 17 anos não tem nada de pedofilia, mas se essa for a regra da sociedade, ainda vale a pena de morte? Ou vamos ter uma segunda faixa etária para definir isso? Por que duas faixas etárias? Se uma garota de 12 anos te mandar um nude, você morre?

Qualquer psicólogo ou psiquiatra de respeito vai te dizer que não é como fazer um exame de sangue e encontrar uma bactéria… a mente humana é complicada. E toda vez que você mistura conceitos complicados com pena de morte, o risco do nosso senso comum falhar aumenta exponencialmente. É por isso que eu não vou continuar esse texto considerando matar essas pessoas. Indivíduos tem o sagrado direito de desejar a morte de alguém, mas o Estado tem que ficar com as mãos bem longe do tema.

Por isso, minha solução é desconectá-los da sociedade. E isso não quer dizer criar prisão perpétua e deixá-los juntos com os outros presos. Não estamos falando de ressocializar, estamos indo para o caminho oposto. O primeiro passo para lidar com um problema é reconhecer um problema: o número de pessoas com doenças mentais incuráveis no mundo é grande o suficiente para precisar de uma solução só sua. Não adianta tratar como um bandido genérico, porque o buraco é muito mais embaixo. A ideia de que psicopatas, sociopatas, pedófilos e todo tipo de ser humano que não parece ser tratável são apenas uma minúscula parcela de nós é confortável, mas não parece ser a realidade.

Temos que considerar sociedades à parte para essas pessoas. Elas precisam ser tiradas do convívio com o resto das pessoas, porque simplesmente não sabemos como resolver seus problemas atualmente. Elas são perigosas para o bem estar da maioria, mas dadas as condições certas, ainda podem ser úteis para o mundo. A ideia aqui é retomar o conceito de colônias penais: sociedades de excluídos com baixa vigilância de comportamento e uma distância razoável de outros centros populacionais para minimizar seu impacto. O ideal seria criar cidades-prisões, com uma gama básica de serviços públicos e empregos que possam gerar valor para a sociedade externa. Em troca deles ficarem longe de novas vítimas, recebem um arremedo de vida. Sim, parece ser bondade demais para gente que fez coisas horríveis, mas o sistema todo é montado para proteger quem por um acaso foi vítima de erro do Estado e ainda pode ser retirado de lá.

É claro, apesar do mundo ainda ter muito espaço disponível, os custos de criar cidades só para essas pessoas seria proibitivo. Ninguém vai gastar bilhões construindo uma cidade de psicopatas. Por isso, eu sugiro algo bem mais tecnológico: cidades virtuais em redes fechadas. A pessoa ainda viveria numa prisão, mas incentivada a viver em uma realidade paralela com utilização de computadores e realidade virtual. A tecnologia ainda não permite imersão perfeita, mas uma pessoa completamente isolada aceita qualquer migalha de interação social. E com o tempo, a qualidade só tende a aumentar, incentivando ainda mais esse isolamento da sociedade “normal”.

Não há necessidade de mais do que um cubículo com privada e cama, além de um computador. Muita gente vive essa vida por escolha própria hoje em dia. A grande preocupação seria isolar essa rede virtual do resto da internet, para evitar que essas pessoas pudessem influenciar outros, e especialmente para aplicar as regras dessa nova realidade virtual: a ausência de leis. Não estamos aqui para ressocializar. Se tudo der certo, a pessoa morre naturalmente sem nunca mais interagir com o resto do mundo, por isso, podemos liberar todo tipo de conteúdo dentro dessa rede.

Mas só para dar alegria para gente horrível? Não. É um efeito colateral que até traz o benefício de acalmar esse povo, mas também seria uma excelente ferramenta para encontrar falsos positivos, pessoas que foram acusadas de ter algum problema mental incurável, mas que na prática não fazem escolhas compatíveis. O mundo virtual rapidamente se tornaria a única válvula de escape dessas pessoas, e seus desejos mais profundos viriam à tona, por mais que tentassem disfarçar. Um mundo virtual sem regras claras é um excelente indicador do que a pessoa realmente quer fazer. Eu não vou descrever o que estou pensando exatamente sobre esse mundo virtual, porque pode ser meio pesado até mesmo para o Desfavor, mas em linhas gerais, é um jogo multijogador com várias personagens não jogáveis e mecânicas realistas de sexo e violência.

E para conseguir moedas virtuais desse mundo, esses presos poderiam fazer vários trabalhos repetitivos que ainda não conseguimos automatizar bem, como tratar fotos de lojas virtuais, transcrever livros escaneados, fazer reconhecimento visual em mapas… uma série de coisas que são úteis para o mundo lá fora, mas que não exigem interação humana. Quanto mais a humanidade transforma dados em commodities valiosas, e antes de uma inteligência artificial verdadeiramente generalista, esse povo seria extremamente útil e nunca mais teria contato com uma pessoa do mundo exterior. O objetivo do projeto é manter uma estrutura de custos equilibrada com a receita.

Tem gente que não vai participar? Sempre vai ter quem vai se rebelar e não participar, mas no final das contas, é o mesmo custo que o Estado teria de qualquer jeito. Com o passar dos meses, é bem provável que até mesmo os mais teimosos ou tecnologicamente ineptos acabassem dando uma chance para esse mundo virtual. Com um sistema de experiência, poderíamos evitar que jogadores muito veteranos entrassem em contato com novatos. Toda essa lógica de games já foi muito bem estudada no mercado. Dá para colocar níveis, desafios, itens especiais e tudo mais o que faz jogos multijogador funcionarem. Queremos que essas pessoas se enfiem dentro do jogo e nunca mais queiram sair. É a forma mais humana que eu consigo enxergar de isolar uma pessoa que não pode voltar para a sociedade.

Outro benefício é para a ciência, especialmente as que estudam a mente humana: começaríamos a entender muito mais sobre esses problemas mentais vendo essa gente agindo, raciocinando e tomando decisões num ambiente protegido. Nada impede que existam sessões de terapia virtuais, onde essas pessoas podem falar sobre seus problemas e dar mais material de estudo para os especialistas. E… se o Estado quiser ser bem capitalista mesmo, pode cobrar uma nota para terceiros entrarem no jogo e verem como ele é. Pode ser muito eficiente para gerar renda para o sistema, e ainda mais para olhar mais de perto pessoas que talvez cometam crimes reais… cidadão que gasta muito dinheiro para ficar o dia todo no jogo dos presos cometendo atrocidades merece uma análise mais próxima.

O futuro é a realidade virtual. Muita gente já vai se perder lá dentro de qualquer jeito, então, por que não usar isso para o nosso bem? Não deixa o Estado ter uma punição sem volta, pode gerar vantagens econômicas, e nenhuma criança real vai ser ferida no processo.

Para dizer que já estamos nessa realidade virtual, para dizer que pagaria para viver essa vida, ou mesmo para dizer que Bar’hai não curtiu isso: somir@desfavor.com

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Comentários (4)

  • Esse seu sistema seria um incentivo para os crimes rs. Eu ficaria levemente tentada a matar algumas pessoas e ir pra lá. Briga ncadeiras a parte, estudar essas mentes seria interessante. Tipo, escala da maldade q tem num programa aí.

  • Lembrei-me daquele seu texto sobre o restaurante indiano em que qualquer pessoa vai lá e pode voluntariamente participar do preparo das comidas, que são servidas a todos. Tem que fazer isso aí porém obrigatório, separar um espaço na prisão pra esses pulhas cultivarem e cozinharem os próprios alimentos, se não aceitar Darwin leva. Também vale pra lavanderia e limpeza no geral.
    Acho que assim que o ômi brasileiro soubesse que se cometer crimes teria que fazer coisas que não faz em casa pra ajudar a mãe/esposa, a criminalidade despenca.

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