Aprendendo a escrever.

Ok, você já deve ter aprendido mais ou menos na mesma época que aprender a ler, mas… quanto mais nos habituamos ao meio digital, mais percebemos como na prática a teoria é outra. Se oficialmente boa parte da população sabe escrever, basta alguns minutos de internet para perceber a imensa dificuldade da maioria das pessoas de expressar qualquer ideia nesse meio. Ao invés de dar dicas de como escrever, hoje eu quero estender um ponto do último texto sobre o assunto: a diferença entre falar e escrever.

E eu não estou me baseando apenas em comentários imbecis de redes sociais e portais de notícias, estou falando também de uma parte considerável da comunicação escrita utilizada no mercado de trabalho e até mesmo no meio acadêmico. E quem me dera que o problema fosse só erros na escrita das palavras ou mesmo concordância verbal… isso é fácil de corrigir. O verdadeiro problema que assola a comunicação escrita no Brasil (e pelo o que eu leio por aí, pelo mundo) é a falta de coerência e propósito nos textos trocados por aí.

Este texto não é sobre escrever livros ou montar textos argumentativos de altíssimo nível, é sobre escrever coisas coerentes no seu dia a dia e evitar confusões onde elas não precisam existir. Escrever bem mesmo é questão de experiência e estudo, mas parar de escrever mal é alcançável apenas com um ajuste de mentalidade. Não precisa ser o Machado de Assis para mandar um e-mail decente, escrever um bom relatório ou passar direito suas ideias numa rede social…

Vamos estabelecer uma coisa aqui: a fala e a escrita compartilham as mesmas palavras, mas pode considerar como uma outra língua. Não se fala como se escreve e principalmente, não se escreve como se fala. O que funciona num contexto nem sempre tem tradução direta para o outro. Quando você começa a escrever, tem que fazer escolhas muito diferentes da fala, e se possível, desenvolver todo seu raciocínio de novo na “língua da escrita”. É diferente assim.

E muito por isso, é possível que você nem perceba que está escrevendo muito mal no seu dia a dia, se você não estiver prestando atenção nas peculiaridades da escrita, vai achar que fez tudo direitinho com base no que usa enquanto está falando. Mas, quais são essas peculiaridades?

A mais importante e provavelmente mais óbvia é que textos não tem ajuda de uma pessoa ao vivo para passar sua mensagem. Parece uma bobagem, mas o simples fato de você estar falando na frente de outra pessoa simplifica imensamente a compreensão de uma ideia. Somos programados para reconhecer expressões, posturas, contextos visuais… um revirar de olhos pode ter mais poder de passar uma mensagem que dez parágrafos de texto. E pode ter certeza de que vamos nos adaptando a esse poder. É bem provável que na sua cabeça pareça que você sempre vai ter esses recursos extras ao seu favor.

Mas a escrita enfrenta a batalha pela compreensão sozinha. O que está no papel ou na tela é tudo o que você tem para passar a sua ideia. Então, comece a pensar nisso tudo através dessa percepção de isolamento: seu texto só depende dele para funcionar. Cada coisa que você presumir de quem vai ler pode e será usada contra você na hora da leitura. Você não sabe como o outro pensa e não sabe como ele vai se apropriar da sua ideia na cabeça dele. Tecnicamente: quando você fala a ideia é sua, quando você escreve, a ideia é do outro. Porque a única coisa decodificando e dando contexto para algo que você lê é a sua cabeça.

Vamos reforçar o ponto: não só a escrita não tem ajuda nenhuma da sua aparência, trejeitos e do ambiente onde as duas pessoas estão, como também a pessoa que está recebendo a informação só pode usar a cabeça dela para entender sobre o que diabos você está falando. Não dá para ficar presumindo que a outra pessoa vai entender qualquer coisa. O que você não explicar vai depender da outra pessoa ter uma visão das coisas parecidas com as suas antes mesmo de ler o texto. E como a vida nos ensina, raramente esse é o caso.

Mas isso quer dizer que precisa descrever uma bola de borracha vermelha toda vez que escrever sobre uma? Claro que não. Não fosse uma base comum de significados para palavras, a escrita seria uma forma impossível de comunicação, você pode presumir livremente que o leitor sabe o que cada palavra é, mesmo as mais incomuns, essa conversa é sobre o sentimento atrelado ou mesmo o contexto histórico das coisas sobre as quais você escreve.

Por exemplo: falar sobre carros é diferente de falar sobre uma marca de carros: a pessoa sabe o que é um carro e entende os princípios mais comuns atrelados a um deles, mas provavelmente tem um sentimento bem próprio sobre cada uma das marcas, quando tem. Faz parte do conjunto esperado de conhecimento de uma pessoa do mundo moderno saber que carro é meio de transporte, mas não tem obrigação nenhuma de saber a diferença entre as montadoras alemãs, ou ter uma preferência por alguma delas. Se você escrever que “é óbvio que a pessoa escolheria uma Mercedes ao invés de uma BMW”, boa parte do seu público não vai ter a menor ideia sobre o que você quer dizer com isso. Mesmo quem conhece a fundo o tema não tem obrigação nenhuma de concordar com isso.

Jamais trate sua opinião sobre alguma coisa como algo “óbvio”. Especialmente quando dela depende a compreensão da continuação de um texto. Se você perder a pessoa no começo do raciocínio, vai ser quase impossível trazer ela de volta depois. Não adianta só estabelecer algo e torcer para a pessoa que lê completar da mesma forma que você. Também, no sentido oposto, concluir algo sem explicar o motivo gera a mesma dependência exagerada da concordância alheia. O clássico que se ensina em redações na escola é que toda história tem que ter começo, meio e fim. O que não fica claro nessa época é que isso vale para um texto de qualquer tamanho. Mesmo que seja um e-mail no trabalho.

Inclusive eu sugiro que no dia a dia você nem fique sofrendo para entender a parte do “meio”. Basta usar os conceitos de lógica básica de premissa e conclusão. Você precisa dessas duas partes: uma que estabeleça de onde você está tirando uma ideia e outra que a partir desse estabelecimento gere uma conclusão. Se A, então B. A não ser que você saiba muito bem o que está fazendo, não troque essa ordem. Explique a situação para que a outra pessoa entenda muito bem de onde vem aquela ideia, porque ela não vai ter outro lugar de onde tirar essa compreensão. Idem para a conclusão: você não pode estabelecer que o céu é azul, portanto bicicletas poluem menos. Parece óbvio nesse exemplo maluco, mas é uma das coisas que mais acontecem na hora da confusão com algum material escrito.

Digamos que você está tentando convencer alguém a comprar os seus brigadeiros: você estabelece que eles são feitos com carinho, e conclui dizendo que o melhor é comprar os feitos com ingredientes de qualidade. Oras, se o final do argumento é relacionado com os ingredientes, a premissa de serem feitos com carinho não ajuda em nada. Se o seu argumento de venda está baseado numa coisa, essa coisa precisa ser estabelecida: quais ingredientes selecionados você usa? Por que eles fazem diferença? Você só falou de carinho antes. Senão era melhor concluir dizendo que caseiro era melhor que industrializado, porque presume-se que o ser humano médio conecte o conceito de carinho com algo caseiro ao invés de uma grande indústria.

O argumento nem precisa ser tão bom assim, só de premissa e conclusão estarem relacionadas você já torna uma leitura bem mais agradável e fácil de se lembrar depois. E para premissa e conclusão funcionarem, você não pode presumir muito: quanto mais longe do conhecimento básico de um ser humano você for, mais precisa explicar sobre o que está falando. Quanto mais pessoal e emocional for seu ponto, maior a necessidade de estabelecer o porquê das coisas serem assim: lembre-se que não tem a sua expressão ao vivo para passar essa mensagem.

Você pode achar que precisa escrever muito então para seguir essa mentalidade na escrita, e está enganado(a): eu vejo muitos casos de gente que escreve paredes de texto incoerentes e acha que mandou muito bem só por causa do volume de palavras. Como se escrita fosse uma disputa para ver quem digitou mais… massas de palavras não tornam um texto mais compreensível, lógica básica sim. Justamente pelo meio da escrita ter essa limitação de só poder usar o seu conteúdo para passar uma mensagem que você não deve exagerar: atente-se ao objetivo do seu texto. Se é pedir uma coisa, peça logo. Se é para explicar um ponto, fale só desse ponto. Tangentes na língua escrita são cansativas e atrapalham o fluxo da ideia: colocam coisas entre a premissa e a conclusão.

Se você precisa falar de várias coisas, é de bom tom finalizar cada ideia antes de começar a próxima. Eu sei que é engraçado eu falando disso, mas é aquela velha história de conhecer as regras para poder quebrá-las: nos textos que eu saio por uma tangente por vários parágrafos, foi a minha escolha e eu sei qual o custo disso. Tanto que não é incomum repetir a premissa depois dessa mudança de assunto para relembrar qual o foco da argumentação. E ao contrário do desfavor, num texto profissional ou mesmo numa mensagem pessoal quem está lendo não concordou em “ler por ler” antes de receber aquele conjunto de palavras: você está interrompendo alguém para passar uma mensagem, então… passe a mensagem.

Escrever bem é sim treino, muita leitura e ter habilidades de comunicação bem desenvolvidas, mas não precisamos disso no dia a dia. Assim como não precisamos ser excelentes oradores para nos comunicarmos habitualmente. Ninguém está exigindo mais do que explicar sobre o que está falando e conectar os pontos da sua ideia. Escreva o mínimo possível para passar uma mensagem que não dependa do outro já concordar com você ou mesmo ter o mesmo conhecimento sobre as coisas. Não mude de assunto antes de finalizar um assunto. Não explique o que não vai ter função na sua argumentação. Separe visualmente os parágrafos para facilitar a vida de quem está lendo.

Isso é só questão de mentalidade. Simplicidade e lógica. Escrita é uma outra língua com suas próprias regras. Basta segui-las.

Para dizer que este texto é uma contradição, para dizer que agora entende porque eu me repito tanto, ou mesmo para dizer que não leu: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Sobre lógica, falo por experiência própria: aprendam desde pequeno lógica aristotélica, retórica, e tudo mais! Aprendam técnicas de argumentação dos antigos, falácias etc etc. Super ajuda no processo de escrita!

  • Acho bacana quem ainda se preocupa em se comunicar com os outros além do básico pra vida em sociedade (“bom dia”), tem tanta gente problemática e de má vontade que parece que faz questão de interpretar o pior dos outros. Você fala que gosta de maçãs, aí o doente te acusa de odiar pessoas que gostam de peras e querer obrigar todos a comerem maçãs ZZzZzzZzZzzZZ…

    Sempre quis perguntar, quanto tempo costuma levar a produção de um texto pro Desfavor?

    • Varia, de escrita mesmo tem textos que eu faço em duas horas, tem textos que demoram quatro, mas raramente eu deixo passar disso (senão não consigo fazer mais nada no dia). Tem o tempo de pesquisa, mas eu não tenho padrões para isso. A Sally deve responder com um processo bem mais organizado e profissional que o meu.

  • Eu sabia escrever, mas depois do corretor autocompletando desaprendi. Também já soube fazer cálculos antes da calculadora. O mais legal mesmo é que tô perdendo a memória, porque agora não preciso mais usar, tudo vejo na agenda do celular!

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