Bacurau.

Finalmente tomei coragem e vi o filme. A coprodução franco-brasileira conta a história de um vilarejo nordestino que subitamente se vê apagado do mapa e recebe a visita de forasteiros mal intencionados. Não que seja um filme de muitos spoilers, mas se você não viu o filme e faz questão de ver, melhor não continuar…

Normalmente eu começaria reclamando da politização criada ao redor do filme, dizendo que isso atrapalharia uma análise honesta do material. Mas, dessa vez, a politização faz parte da experiência. Estabelecer Bacurau como uma peça de resistência contra a direita de Bolsonaro, Trump e cia. estava nos planos de divulgação do filme e provavelmente gerou boa parte da renda conquistada nos cinemas. Bacurau queria ser político e conseguiu. Infelizmente, isso custou caro para a qualidade da obra.

A história, até pelas limitações geradas pela politização do roteiro, acaba simples: Bacurau é um distrito muito afastado de uma cidade maior no interior de Pernambuco, com uma minúscula população que se conhece pelo nome. Sua população não é miserável, parece viver sob uma espécie de regime socialista, com uma vibe meio cubana (idealizada). Não há preconceito contra gays, não há racismo… as pessoas convivem em relativa harmonia. Obviamente, por estarem tão afastados de centros urbanos, tem dificuldades de abastecimento, mas ninguém é mostrado passando fome.

Um belo dia, o professor da escola não consegue mais achar a própria vila na internet. O sinal de celular desaparece, estranhos começam a aparecer na cidade… e por estranhos obviamente estamos falando de pessoas brancas do sul. O filme acelera o passo para mostrar um grupo de caçadores de gente vindos dos EUA que estão lá para matar toda a população de Bacurau. Sumir do mapa fazia parte do plano deles. Logo a história avança para mostrar o conflito entre os americanos malvados e o corajoso povo nordestino, que… spoiler… vence a batalha. Se bem que era provável mesmo que o filme não fosse explicitamente politizado… um final com os assassinos vencendo seria decepcionante em qualquer contexto.

E se você está revirando os olhos com a completa falta de sutileza do roteiro, cuidado para não cair numa armadilha ideológica: a premissa do filme não é problema. De um ponto de vista narrativo, a ideia é muito boa e já foi testada e aprovada por milênios. Um grupo mais fraco resistindo a um ataque de força maior é a base de milhares de histórias excelentes, e não tem muito como fugir da fórmula de gerar simpatia pelos heróis e pintar os vilões como pessoas horríveis. A base do filme é muito boa. Quando Bacurau se permite ser um filme e não um segmento de horário eleitoral, a história é cativante, e a surpresa do final valeria o ingresso fácil se tivessem controlado o ímpeto político e dado mais espaço para… para o filme!

Bacurau é um filme ruim quando esquece de ser filme. O meu maior incômodo com a experiência vem justamente das oportunidades desperdiçadas dentro da história do filme. Gastando tempo e recursos narrativos para lacrar ao invés de contar o que poderia ser uma história muito divertida. O que os envolvidos no projeto parecem não entender é que não há como tornar uma premissa dessas muito profunda, não é uma análise sobre as complexidades da natureza humana, é uma história sobre americanos psicopatas tentando matar um bando de nordestinos! Era só ter ficado com isso e deixado as melhores personagens brilharem.

Bacurau não quer ser o filme de ação que deveria ser, e isso custa caro para o ritmo e o desenvolvimento da história. Começamos muito bem com uma cena de uma mulher vindo de carona num caminhão-pipa de volta para Bacurau. Estabelece o isolamento da região, a cena com um caminhão virado na estrada carregado de caixões depois de um acidente cria um clima excelente de antecipação… mas aí Bacurau fica com “vergonha” de ser um filme normal e passa vinte minutos se arrastando num funeral só para mostrar como nordestinos são todos intelectuais de coração puro sem nenhum preconceito. Sim, é importante gerar simpatia com os heróis do filme, mas não precisava dessa enrolação toda. Até porque não te aproxima de nenhuma das personagens da cidade.

E esse é um problema recorrente do filme: não te deixam se afeiçoar a ninguém. As pessoas de Bacurau ficam sem personalidade, você pode até pensar que a ideia era fazer da cidade uma consciência coletiva, mas eu duvido muito: o roteiro se lembra que precisa estabelecer personagens do meio para frente, e tenta resolver, especialmente na figura dos vilões. Mas não dá mais tempo. A história já está estabelecida e não tem mais como se apegar. Foi tanto tempo perdido numa espécie de masturbação ideológica sobre as como esquerda é boa e direita é ruim que até mesmo a única personagem realmente diferenciada do filme, que deveria ser a base da história, é desperdiçada vergonhosamente. Mais sobre isso depois.

Falemos dos vilões: não há nada de errado com vilões cartunescos, Tarantino faz isso desde sempre e pode funcionar dentro de uma história que sabe não se levar a sério. Bacurau raramente se dá esse luxo. A necessidade de disfarçar que é um filme de ação divertido quebra tanto o ritmo da história que os vilões americanos ficam perdidos. Tecnicamente, eles estavam no filme certo, precisavam ser ridículos para atender à premissa da sua presença em Bacurau, mas ficam sozinhos no tom que o filme escolhe. Os heróis estão num filme artístico, os vilões estão num filme de ação cretino. Não dá certo.

O tom de Bacurau muda o tempo todo, e isso faz com que nenhuma personagem caiba de verdade dentro da história. O “chefe” dos vilões – interpretado por Udo Kier como um perfeito bandido de filme B – tem personalidade suficiente para ser desenvolvida na história, mas não tem chance. Precisamos gastar uma cena inteira relembrando o brasileiro que estrangeiros não nos acham brancos e depois demonstrar como o povo nordestino é extremamente tolerante com homossexuais. Desculpa, história, mas você não pode ocupar tanto tempo assim. Temos uma agenda política para preencher.

Mas deixar o vilão em segundo plano é um pecado comum nos filmes, perdoável. O desastre de Bacurau é jogar no lixo seus heróis. Especialmente Lunga: um cidadão fora-da-lei aparentemente gay que vive às margens da cidade numa represa, provavelmente protegendo a cidade de ser inundada. Nada é muito bem explicado. Lunga é mencionado no começo do filme, e é guardado como carta-na-manga para a segunda metade da história, onde retorna à cidade parecendo um vocalista de banda de metal dos anos 80. Não me perguntem o motivo, mas é realmente divertido. Aqui podemos discutir questão de gosto: eu teria escrito a história ao redor de Lunga e do chefe dos assassinos americanos, porque são de longe as melhores personagens. Mas aceito que tenham escolhido outro caminho. O problema é que quando Lunga chega na história, não tem o protagonismo que merece: o filme está gastando tempo te martelando na cabeça sobre como americanos são ruins e desenvolvendo vilões secundários que vão morrer em questão de minutos. Isso sim parece um erro de narrativa.

Mas o filme não é só problemas: há uma sacada muito boa na história. Muito se fala sobre o museu de Bacurau durante o filme, mas nunca entramos nele. Ele é mencionado como ponto de interesse da vila, mas os “turistas” que aparecem por lá não se mostram interessados. Nesse ponto, os roteiristas foram perfeitos: o museu fica na sua cabeça, mas não chama atenção demais para que você comece a pensar muito sobre ele. Quando um dos assassinos americanos finalmente entra no museu, já depois do grupo ter invadido a cidade e começado a caçar os cidadãos de Bacurau, descobrimos que é um museu de cangaceiros e que a história da cidade está intimamente ligada a isso. Perfeito. Essa é a virada para descobrirmos que o povo de Bacurau não é tão passivo quanto se previa, e dali pra frente o filme pega no breu e vira o que deveria ser: um filme de ação.

É quase uma virada tarantinesca: a violência sobe 300% imediatamente e os heróis trucidam os bandidos. Muito bom! Bacurau fez o que deveria ter feito desde o começo. Se eu te contasse que Bacurau é sobre um grupo de americanos que paga para matar todo mundo de uma cidadezinha nordestina só para descobrirem que eles são descendentes de cangaceiros e se foderem incrivelmente, você não acharia uma boa ideia de filme? Desde, é claro, que aceitassem a baboseira da premissa e fizessem um filme divertido e exagerado com isso.

Bacurau quase consegue. A sanha de fazer um filme mais artístico e a vontade de lacrar criam a tosquice necessária para gerar cenas divertidas quando tenta se levar a sério e falham terrivelmente, mas o roteiro que fica fazendo pausas para empurrar ideologia política quebra o ritmo da coisa e subutiliza vários dos pontos fortes da história. O filme poderia ser 100% Tarantino (e as melhores partes dele são quando seguem essa linha), mas parece que baixa um Jodorowsky na equipe e tudo enrosca de novo. Nada contra Jodorowsky, eu aguentei até a Dança da Realidade inteiro, mas não cabia em Bacurau. Não dá para fazer tudo o que você quer ao mesmo tempo. Eu gosto de churrasco e gosto de sorvete, mas não misturo os dois no mesmo prato… Bacurau tinha tudo para ser um dos melhores filmes de ação do Brasil, mas vira uma gororoba por causa da política e de escolhas criativas estranhas da sua equipe.

Recomendo com ressalvas. Muito mais longo do que precisaria ser, poucas coisas são realmente resolvidas depois de estabelecidas, mas quando o filme está fazendo o que deveria fazer, o faz muito bem. Torcendo por um remake americano!

Para me chamar de bolsominion, para dizer que é mais irritante quando você sabe que poderia ser bom, ou mesmo para dizer que seremos Resistência ainda com verba do governo: somir@desfavor.com

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Comentários (18)

  • Somir, já assistiu “A Vida Invisível”? Achei excelente e fiquei sinceramente muito feliz que ele foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar em vez de Bacurau. Recomendo!

  • Eu já não tinha interesse nenhum nesse filme antes de ler a postagem de hoje. Agora tenho menos interesse ainda…

  • Somir, você também percebeu uma “aura” de religiosidade/espiritualidade no filme nos momentos em que eles tomam aquelas pílulas que parecem ser algum alucinógeno? Fiquei muito intrigada com isso, porque parece não ter nada a ver com nada, mas, principalmente no momento do velório que todos tomam, a cena tem um ar todo num outro ritmo, como se eles estivessem todos em outra dimensão sei lá… como interpretou isso?

    • Eu nem entrei nesse aspecto do filme porque francamente, não parece ter função real na história. Tem o estabelecimento quando a moça chega na cidade, parece que vai ser importante, mas não tem nenhuma implicação perceptível na história. Que era alucinógeno eu entendi, porque a moça (personagem mal desenvolvido a gente esquece o nome) vê a água saindo do caixão e tudo mais, mas… eu não notei ambiguidade nenhuma no decorrer da história que sugira alucinação coletiva ou algo do tipo. Pareceu mais espinafre do Popeye do que qualquer outra coisa…

      Eu interpretei isso fora do filme: mais uma ideia de “filme de arte” que não conseguiram integrar num bangue-bangue.

  • Vi o filme e, sinceramente, não achei nada demais. Uma história comum, um enredo comum. Fiquei me perguntando o que esse povo por aí viu nesse filme de tão especial assim pra tanta idolatria! Falam de tal maneira como se fosse o supra sumo da produção nacional, sendo que não é!

    • O triste é que o “povo que defende” o filme faz a análise contrária que eu fiz: gostam de tudo o que não é o filme.

  • Parece um filme interessante, mas o problema de tomar o supositório vermelho é que você nunca mais consegue deixar de se incomodar com a lacração daquilo que você está assistindo ou jogando. É um caminho sem volta.

    Antigamente eu nem notava, hoje em dia nada passa despercebido e não consigo mais assistir quase nada ocidental. É impossível olhar ao seu redor e não enxergar como política e militância influenciam praticamente tudo e estão matando a criatividade das coisas no Ocidente. Não é a coexistência de coisas “neutras” e coisas “politizadas”, é quase obrigação em politizar tudo. Quando eu estava na faculdade ouvia militantes falando sobre “ocupação de espaços” e é isso que está acontecendo. É uma coisa quase que… religiosa. Assustador.

    Pensem que se não fosse a internet, esses remakes feministas de filmes antigos seriam a única versão existente.

    • Uma lacradinha aqui e ali não incomoda, é a falta de sutileza das intervenções que atrapalha. Eu já me acostumei a ver filme sem comercial, não consigo mais voltar atrás.

  • Resistência do quê? Esses políticos da “direita fascista opressora” não fazem porra nenhuma, o povo da direita como um todo sequer produzem entretenimento e obras “conservadoras” pra baterem de frente com a agenda de esquerda. Sem material e com a perseguição de empresas e políticos, vão ser apagados da história e ainda acham que estão indo bem na “guerra cultural”… tem troxa pra tudo.

  • A maldição do cinema brasileiro é o exagero: só sabe ser panfletário ou chanchada. Aí fica crítico lacrador falando mal de Neve Negra por inveja do cinema argentino.

      • Pois é, mas esquerdinha cultural não consegue separar política de trabalho. O objetivo era fazer horário eleitoral, o filme era só o formato. Era pra dizer: “não temos medo de vocês, fascistas, somos de luta!” Enquanto for panfletário, continuará uma merda de cinema, a menos que seja documentário (que serve pra isso). Falta sutileza a essa gente para fazer ficção que preste.

    • Só não digo que esses caras vivem numa bolha de concreto sem noção da realidade porque no fundo sabem que são os donos do status quo e só ficam de provocação, mesmo. “Vejam! Mídias, empresários e políticos jogam rios de dinheiro na gente enquanto demitem, banem e boicotam vocês!”
      Pode ser só meu pessimismo falando, mas às vezes me pergunto até que ponto internet, tecnologia e medicina moderna compensam essa engenharia social e insanidade ideológica ao meu redor.

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