Infinitron.

O ano era 2380, a prestigiosa universidade de Calisto acabara de receber o prêmio Nobel pela descoberta de mais uma partícula: o Lepteriton-12. Um quarteto de Lepteriton-12 forma o Lepteriton-11, cada um contribuindo com um momento potencial para a até então elusiva menor subdivisão da matéria. Enquanto Xsepatrik Jones aceitava o prêmio em nome da sua equipe, os presentes recebiam a informação que o Laboratório de Ultra-fusão em Mercúrio acaba de avistar o Lepteriton-13. Era mais uma descoberta de subdivisão da matéria, a milésima só naquele século. Deveríamos ter notado antes, mas foi naquele momento que muita gente se convenceu que algo estava errado com a nossa ciência…

Estudiosos da Teoria da Materialização estavam relegados às margens da comunidade científica há décadas, sugerindo que havia um componente incompreendido na descoberta de tantas subdivisões do átomo em tão pouco tempo: o da intenção humana. Víamos naqueles estudos o que queríamos ver, criando essas partículas inconscientemente. A área não tinha muito prestígio pela alta concentração de pessoas com inclinações mais místicas, sugerindo um conexão entre intenção humana e a própria realidade. Com uma boa parte da mídia do Sistema cobrindo a Crise da Milésima, o movimento ganhou muita força.

Ainda mais quando a universidade indochinesa de Shenzai apresentou o Lepteriton-14 menos de 24 horas depois. Ao redor do Sistema, percebeu-se um retorno do prestígio de diversas religiões antigas, criando uma divisão entre aqueles que acreditavam que as partículas estavam sendo criadas pela humanidade e os que atribuíam isso a uma entidade poderosa maior. Infelizmente, a natureza humana acabou gerando animosidade entre as correntes de pensamento e recriando uma divisão ideológica agressiva que não se via há mais de dois séculos. As religiões clássicas dominavam a mentalidade nos arredores da Terra, os defensores da materialização inconsciente eram mais numerosos em regiões mais afastadas.

Nos laboratórios ao redor do Sistema a taxa de adoção da explicação metafísica das aparentemente infinitas subdivisões da matéria era consideravelmente menor. Para alguns, era apenas questão de esforço e tempo para finalmente encontrar um limite nas descobertas. Para outros, era a prova que a realidade era uma simulação gerando complexidade infinita por definição, tal qual um jogo que cria cenários de forma procedural de acordo com a ponto de vista do jogador. As subdivisões continuavam aparecendo, com mudanças de nomes e longas sequências numéricas, até que se convencionasse que uma chave de 16 dígitos alfanuméricos seria suficiente para nomear essas novas partículas fundamentais por um bom tempo.

Em 2408, uma parcela considerável dos cientistas tinha abandonado a área da física fundamental, o interesse público pela descoberta da Uy78oHJha88100aA – a bilionésima partícula fundamental – era basicamente nulo, não oferecendo mais prêmios ou qualquer notoriedade para os pesquisadores. Mesmo sem respostas maiores sobre o mistério das subdivisões da matéria, a recuperação do poder da religião era visível. E a divisão caudada por elas: com a consolidação do islamo-cristianismo em Marte, formou-se uma divisão clara entre os habitantes do círculo central dos planetas rochosos e dos materialistas das áreas externas do Sistema.

Mas mesmo dentro dos dois grupos, as tensões aumentavam. Em menos de três décadas, os islamo-cristãos estavam novamente divididos entre as religiões originais, com animosidades sendo relatadas nas colônias celestes de Vênus e em vários países da Terra. Já do lado materialista, um grupo acreditava que as incontáveis subdivisões da matéria poderiam causar um desastre de excesso de complexidade na realidade enquanto o outro pregava a utilização do poder para desbloquear o potencial humano.

Esses grupos, como sabemos hoje, foram chamados de Apocalípticos e Transcendentes. APOC e TRN se organizaram em bases em Titã e Europa, respectivamente, utilizando seus recursos numa corrida armamentista que durou quase um século. Na Terra e em Marte dominadas por islamistas e cristãos as verbas de pesquisa científica diminuíram consideravelmente, o que incentivou muitos de seus melhores talentos na área a se unirem à TRN, por condições melhores e principalmente para se protegerem dos ataques cada vez mais comuns da APOC.

Quando o acordo de cooperação Terra-Marte-APOC foi assinado em 2462, tivemos o embrião do que hoje chamamos de TMA. Na época, eles dominavam algo em torno de 95% das áreas habitadas do Sistema, forçando a TRN a se afastar, até finalmente começarem a colonização do cinturão de Oort. Escondidos de um Sistema cada vez mais hostil à pesquisa científica, nossos antepassados continuaram o processo de pesquisa das subdivisões da matéria até encontrarem a 991827hGGa999Tr7, a última subdivisão. Quer dizer, na época não sabiam que era a última, mas hoje em dia chamamos a partícula de Infinitron.

Foram mais 3 anos sem nenhuma descoberta de subdivisão que solidificaram a ideia de que aquela era, de fato, a última. Com finalmente alguma estabilidade no estudo das partículas fundamentais, começamos a descobrir as propriedades daquela. E nada tinha nos preparado para esse conhecimento: nenhuma força ao nosso dispor podia mover os Infinitrons. Eles não pareciam interagir ou ter qualquer mudança, não importa o que jogássemos contra eles. Na escala do Infinitron, o universo é completamente estático e imutável. Isso não fazia o menor sentido. A partícula sugeria que a realidade era uma espécie de ilusão de movimento, mas… vista por quem? Se éramos formados por Infinitrons também, era impossível que conseguíssemos sequer ter ilusões.

Foi quando a TMA finalmente resolveu o problema por nós. Um projeto secreto de pesquisa deles baseado nas nossas descobertas, que sempre divulgamos publicamente, nos deu a explicação e o nome Infinitron que usamos atualmente. Como de costume, tentavam criar uma arma para controlar suas populações agressivas e nos manter distantes, mas a presença obrigatória de sacerdotes em todas as instalações de pesquisa da TMA permitiu que num momento de fervor religioso, um cientista chamado Emaloub Chistensen conseguisse visualizar a realidade: que não éramos formados por Infinitrons, e sim que estávamos sendo projetados deles. Todas as subdivisões da matéria eram projeções únicas, e cada Infinitron tinha uma consciência própria.

Emaloub acreditou estar conversando com seu deus, mas na verdade estava em contato com incontáveis mentes em projeção de consciência através dos Infinitrons. E agora vocês devem estar curiosos para saber por quê demos esse nome para a partícula… bom, na verdade, essas consciências somos nós. Dentro de cada Infinitron existe um universo, e na soma de todas nossas consciências se formam as menores partículas da matéria em outras realidades. A realidade é criada pela realidade, sucessivamente, sem nenhum limite à vista. Do ponto de vista da humanidade original, nós somos infinitamente pequenos, mas do ponto de vista das humanidades que ainda vamos conhecer, somos maiores que todos seus universos combinados.

A TMA ficou, certa de ter encontrado o criador. Nós seguimos. Não podemos perder tempo, o próximo Emaloub está quase iniciando o experimento… boa sorte!

Para dizer que eu confundi só por confundir, para dizer que já foi melhor, ou mesmo para dizer que não negocia com terrorista: somir@desfavor.com

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