Preconceito liberado.

Sally e Somir concordam que bullying tem sua função social. Mas na hora de escolher um para ser liberado e aplicado na sociedade, reprimem a escolha um do outro. Os impopulares decidem quem merece mais opressão.

Tema hoje: se você pudesse liberar um preconceito, tornando-o plenamente aceitável, qual seria?

SOMIR

Contra gordos. Foi uma das melhores ferramentas da humanidade para a manutenção da saúde física até hoje, e como estamos percebendo ultimamente, também a da mental. Por mais que seja tentador seguir o caminho da Sally e querer que religiosos sejam mais oprimidos, eu também vou olhar para a nossa história para tomar essa decisão: preconceito contra gordos reduz o número de gordos. Preconceito contra religiosos estimula sua multiplicação.

Mas voltemos o foco para os rechonchudos: nem acho que precisemos de uma vigília espartana sobre a forma do outro, não estou pregando uma ditadura de tanquinhos e gordura corporal com apenas um dígito, mas uma linha de controle social que pelo menos garanta que não tenhamos uma população extremamente obesa no mundo. Acho até razoável que o cidadão do século XXI tenha um mais de gordura de reserva que o plebeu da Idade Média, merecemos isso depois de tantos avanços tecnológicos e sociais. O que não podemos deixar acontecer é que alguém diga a palavra “gordofobia” em qualquer contexto que não o humorístico…

É da nossa natureza exagerar, e o que começou de forma inocente para combater padrões de beleza focados em magreza extrema agora é um monstro ideológico que ignora a realidade e diz que uma mulher completamente redonda é linda e saudável. O linda a gente até releva, porque tem gente que gosta mesmo, mas o saudável é de uma desonestidade intelectual doentia.

E foco no exagero de novo: não estamos falando de homens com barriga ou mulheres com “muitas curvas”, estamos falando de um movimento de aceitação de gente que não tem mais a forma de um ser humano e não consegue funcionar normalmente na sociedade. Se você ocupa mais de um assento e precisa de ajuda para completar tarefas básicas como calçar um sapato, seu corpo está terrivelmente doente. A única doutora que defenderia isso seria uma em Teoria de Gêneros…

Mas, problema da pessoa, certo? Por que alguém tem que sair do seu caminho para ir pentelhar um obeso mórbido? Cada um vive sua vida! Em tese isso está certo, mas na prática, gente nesse grau de acúmulo de gordura a pessoa impacta sim a vida alheia. Controlar gente muito gorda é importante para a sociedade: reduz o impacto na rede de saúde, evita desperdício de recursos, mas talvez mais importante, protege a sanidade de uma sociedade.

O movimento de aceitação de pessoas muito gordas é a “droga de entrada” para outros ideais claramente desconectados da realidade. Quem ignora bilhões de anos de evolução só para elogiar uma pessoa horrendamente gorda que está em negação sobre sua aparência repulsiva está negando a realidade junto. E quando pode uma coisa, o cérebro entende que pode muito mais, é um passinho só para achar que homens também podem menstruar. Não é à toa que entre feminazis há uma concentração desproporcional de obesas mórbidas. É gente que já ignorou a realidade olhando no espelho, para as quais não custa nada continuar ignorando depois.

Reprimir gordos não só ajuda a reduzir doenças no mundo, como também enfraquece uma das bases desse movimento de negação de ciência e lógica simples que assola os grupos ditos mais progressivos da nossa sociedade. Não duvido que no futuro refiram-se aos dias atuais como a era da Peste Gorda. Quando a humanidade foi tomada por pessoas tão ignorantes sobre o funcionamento do próprio corpo e da realidade em geral que começaram a mutilar suas genitálias em massa e acreditar que a Terra era plana. Uma nova Idade das Trevas. Não é sobre encher o saco de um gordo que não está atrapalhando ninguém, é sobre uma luta pela sanidade coletiva da espécie.

E sim, se eu vou usar o ângulo da sanidade, por que não ir direto na religião? Isso emburrece a humanidade há milênios. O problema é que religiosos tendem a florescer quando são reprimidos. Dá um senso de valor para suas crenças ridículas. Eu sempre digo que a forma mais fácil de criar um ateu é não falar sobre religião em casa: com espaço para pensar, uma pessoa rapidamente vai prestar atenção nos inúmeros furos da teoria religiosa, e pode ser qualquer uma delas. Agora, se você coloca a pessoa num ambiente onde religiões são tratadas com seriedade e existe alguma forma de repressão em curso, ela vai deixar de olhar para as falhas da lógica e começar a pensar que se tem alguém batendo, é porque tem coisa séria ali.

Sem contar a tara do cidadão médio de posar como vítima. Os cristãos dominam as Américas desde as descobertas pelos europeus, alcançam números acima de 99% de crença em seus países e ainda tentam se colocar como perseguidos em qualquer chance que conseguem. Se esse povo cabeça-oca acha que existe preconceito contra cristão no Brasil hoje, imagina só como reagiriam se realmente fosse liberado e estimulado bater na fé deles? Eu não duvido que alguns desistiriam, mas a imensa maioria dobraria a aposta e se tornaria radical na sua crença. Faz parte do processo de validação do amigo imaginário acreditar que está sendo perseguido por isso.

Pelo menos o preconceito contra gordos funcionou: quanto mais liberado, menos gente chegava nesses pesos bizarros. Uma pessoa que seria atração de circo 100 anos atrás já tem assento garantido em vários aviões dos dias atuais. Fomos reduzindo o cerco contra os gordos, e eles envenenaram a nossa cultura de uma forma que pode demorar séculos para resolver. No caso dos religiosos, o jogo estava perdido desde o começo. Essa parte só resolvemos com o passar dos séculos e o aumento do nível de educação básico e condições dignas de vida ao redor do mundo. Adoraria tirar a muleta da humanidade, mas me contento de não precisar fazer ela de aço para aguentar o peso…

Para me chamar de gordofóbico (eu sou gordo), para dizer que só o bullying salva esse mundo, ou mesmo para dizer que se pesar as duas opiniões a minha ganha: somir@desfavor.com

SALLY

Se te fosse permitido o direito de liberar um preconceito, tornando-o plenamente aceitável, qual seria?

A tentação é enorme, existe uma infinidade de grupos que precisam de predadores, de umas porradas bem dadas de modo a pararem de atrasar a humanidade e encher o saco. No meio de tantos, escolho o que acho que causa mais mal à humanidade: liberaria o preconceito contra religioso.

Sim, é uma faca de dois gumes, pois religião, sobretudo em países subdesenvolvidos, é um tampão: funciona como um mecanismo de contenção social eficiente. Provavelmente aumentaria a criminalidade, o uso de entorpecentes para não ter que lidar com uma vida sem um amigo imaginário e uma série de outras consequências negativas. Mas, apesar do rebosteio, acredito que o saldo final seria positivo.

Toda “minoria” (entre aspas, pois geralmente tendem a se tornar maiorias, pela falta de predadores que conquistam no grito e no choro) é um atraso social e atravanca a evolução da espécie, mas religiosos fazem isso há muito tempo, é hora de colocar um basta nesta merda.

Massas seguem regras ridículas como não usar anticoncepcionais ou matar o coleguinha em nome de um Deus, buscando pertinência, aceitação social. Passou dos limites, se o que eles encontrarem for rejeição social, talvez repensem. Aí veríamos quem realmente tem fé e quem só está buscando pertencer, aparentar ser ou um simples atalho para ficar com a consciência tranquila por todas as bostas que faz na vida.

Já pensou, se religião fosse uma coisa que queimasse a pessoa? Algo que depusesse contra? Milhões de pessoas perderiam essa distração em suas vidas. Teriam que encontrar outra forma de preencher seus vazios, de aplacar seus medos, de se sentirem bem consigo mesmas. Sou romântica, acho que isso obrigaria boa parte dessas pessoas a encarar a realidade: acabou essa mamata de ficar pedindo coisas para um amigo imaginário, é você, meu irmão, é você o único responsável por tudo na sua vida. E se você fizer coisas terríveis, vai ter que lidar com isso, não tem ritual ou perdão de um ser mágico que te absolva.

Talvez para alguns soe como algo cruel a se fazer, retirar a muleta na qual a pessoa se escora. Porém, do meu ponto de vista, é empoderador, no bom sentido da palavra: eu não acho que essas pessoas sejam mancas, eu não acho que elas precisem de muletas. Todos, sem exceção, têm o poder de melhorar e mudar suas vidas e tudo que precisam para isso está dentro deles, não fora. Não em outra pessoa, em um relacionamento, em um grupo, em uma substância química ou em rituais.

Porém, a única forma de fazer com que as pessoas vejam isso é retirar a muleta delas. Assim como Jesus, eu também diria “levanta-te e anda”, só acrescentaria um “filho da puta” ao final da frase. E muitas delas de fato andariam sem muletas, o que abriria um novo leque de possibilidades em suas vidas e, com sorte, iniciaria um círculo virtuoso, um remake da Caverna de Platão, onde muitos voltariam para contar aos coleguinhas da caverna que existe vida lá fora e que aquilo que os assusta são apenas suas próprias sombras.

Pensando no macro, tornar religião algo amplamente rejeitado também tem suas vantagens. Essa mistura nefasta de Estado e religião que acontece em muitos países ruiria, pois seria como ostentar uma coligação com o tráfico de drogas ou com pedófilos. Sem o dinheiro sujo de igrejas, a vida de certos canalhas ficaria um pouco mais difícil e o voto de Cabresto de Cristo deixaria de existir, ao menos em larga escala.

Uma sociedade sem essas regras absurdas de “não pode comer isso”, “não pode fazer aquilo” seria mais saudável e menos dividida. União é poder, a tática do “dividir para conquistar” sofreria um duro golpe. Seria um fator a menos para separar, para polarizar, para desunir esse povo bunda. E, quem sabe, um povo unido conseguisse ser um pouco menos sacaneado.

Sem religião também teríamos menos conflitos mundiais. Não falo apenas de guerras, mas também de disputas veladas, censura e desprezo pela ciência. Talvez a África conseguisse dar um bom passo adiante, por exemplo. Fora que toda a fortuna mundial que está nas mãos de religiões poderia ser melhor destinada. Já imaginaram que delícia algum organismo internacional auditando o banco do Vaticano e redistribuindo esse dinheiro para algo realmente útil e necessário?

Reforço aqui o que eu sempre digo sobre religião: nada contra Deus, meu problema é com seus prepostos. O objetivo não é “proibir” que as pessoas acreditem em um Deus e sim retirar o glamour e o aval social de boa pessoa que isso lhes confere. Em um exemplo grotesco: todo mundo caga, não é proibido cagar nem ostentar o quanto você defecou naquele dia, quem quiser fala, conta, posta foto em rede social, mas ninguém faz, pois convencionou-se que isso é algo íntimo, privado e não-compartilhável. Se a pessoa ostentar, será mal vista socialmente. Pois bem, o mesmo valeria para religião.

Quer adorar um Deus? Quer ter fé? Joinha. Faz aí no conforto do seu lar, sem ostentar, assim como se faz quando se defeca. Se o seu Deus existe e te escuta, pode ter certeza que para ele não faz a menor diferença se você frequenta templos, doa dinheiro, faz sexo antes ou depois do casamento, come determinada comida ou acorda determinada hora. Se você ama mesmo o seu Deus, não precisa de pirotecnia, rituais e ostentação, basta a intenção. É interno e não externo. Se, para você, é importante que seja externo, não é fé nem amor, é tirar proveito de um status.

Sem religiões cada um teria que se olhar e entender o que é. Não teria mais a possibilidade de se definir de forma massiva aderindo a tal religião. Ao ter que se olhar, a pessoa se conheceria melhor e desenvolveria algum grau de consciência sobre si mesma, o que gera um controle maior da própria vida e dos próprios quereres. Chega de pessoas que aderiram a estereótipos impostos por seitas que apenas servem para segregar quem não topa entrar neles.

Não quero um mundo sem religião, quero um mundo onde religiosos tenham que fazê-lo em silêncio.

Para dizer que é censura, para dizer que você precisa do status ou ainda para dizer que bom mesmo seria preconceito contra feminista: sally@desfavor.com

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Comentários (7)

  • Preconceito contra gente burra é o melhor, porque dá para colocar gordos, religiosos, lacrianes, etc, tudo no mesmo balaio.
    Tu ‘é’ gordo porque é burro ou vc não tá vendo que comer dessa forma é burrice alimentar? Vou nem entrar no mérito dos discípulos do senhor. Mentira, vou sim.
    Tive a “oportunidade” de participar de um grupo da Batista. A alienação é imposta pelo próprio pastor. É incrível. Eles são doutrinados a tirarem todo tipo de dúvida com o pastor, porque ele sabe a palavra e só a palavra sabe dar bons conselhos. Em nenhum momento eles falaram em terapia, psicólogos, ajuda médica, ou estimularam aqueles jovens a pensarem de forma crítica. É como se o mundo inteiro existisse para desvirtuá-los e só a Igreja fosse um lugar bom para interação. É bizarro, porque isso leva a toda sorte de manipulação. Aqueles jovens podem ser levados a fazer qualquer coisa, desde que arranjem um argumento bíblico.
    O meu maior medo é que o Brasil seja um grande país crente, porque eles ficam cooptando pessoas em qualquer lugar, e são insistentes, tem até prêmio para quem arrasta mais gente para dentro da igreja.
    Por fim, os lacrianes, eles agem contra eles mesmos. Isso já é o suficiente para serem considerados burros.

  • Adorei o termo “era da Peste Gorda”, Somir! E peço que tal definição certeira também seja agora devidamente incorporado ao vocabulário da RID.

  • Eu queria muito saber o que o Somir pesquisa pra achar essas imagens de introdução…

    Fico com a Sally porque falar mal de gordos ainda é aceitável e, mesmo que na sua bolha social não seja, ainda tem o preconceito velado. Você não tem a obrigação moral de namorar uma pessoa obesa, por exemplo. É só dar um like numa foto de uma gordinha e pronto, já prestou contas.

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