Retrospectiva Google 2019

Saiu a retrospectiva Google 2019, uma espécie de grande “Ei, você” nacional, onde o site revela quais foram a buscas mais realizadas em 2019. O resultado, obviamente, é deprimente.

Caso você tenha curiosidade em a lista completa, é só clicar aqui. As buscas estão divididas em categorias e o Google mostra os dez termos mais buscados de cada categoria no país.

Vamos começar falando das tosqueiras. Nos termos mais buscados do ano, temos basicamente uma divisão entre futebol e pessoas mortas. Alienação e sadismo. Apenas uma coisa destoa: em quarto lugar há uma busca por vagas de emprego. Falaremos sobre isso mais pra frente, agora vamos rir um pouco.

Na categoria “Por quê?”, vemos perguntas extremamente relevantes como “Por que o Japão está na Copa América” ou “Por que Carlinhos Brown saiu do The Voice” (terceiro e quarto lugar entre os termos mais buscado durante o ano). Essa costuma ser uma das categorias mais populares, no sentido de menos elitizadas. São pessoas que pedem explicações ao Google. Nenhum militante, pseudo-intelectual ou floquinho de neve especial faria isso.

E quem tem titica de sabiá amarelo na cabeça, não pergunta coisas relevantes, coisas para melhorar de vida, informações que se tornem ferramentas para realizar algo. Não. A pessoa quer a fofoquinha, quer alimentar sua curiosidade, quer se poupar de pensar, quer focar na vida alheia para se distrair. Paciência, cada um vive como quer, não há qualquer indício de que estas pessoas estejam infelizes assim.

E as buscas nessas categorias estão a cara do povão mesmo. Um bando de besteiras, porém leves e despretensiosas. No maior país católico do mundo uma das dúvidas mais pesquisadas do ano foi “Por que não comer carne na Sexta-Feira Santa”. É isso, um mar de ignorância e superficialidade, mas, ao que tudo indica, com muita curiosidade e sem sofrência.

A categoria “O que é” também segue por essa linha popular onde a pessoa pede explicações ao Google. Os resultados foram similares: ignorância de arrepiar. Maior país católico do mundo cravando entre os mais buscados do ano “O que é Corpus Christie?”. O brasileiro médio não sabe nem onde está, se fechar o olho periga cair de cabeça no chão. No país onde falar sobre AI-5 vira escândalo, uma das perguntas mais buscadas do ano é “O que é AI-5?”. Parabéns escolas, esse montante de gente não é obra apenas da incompetência do ensino público não. Pelo visto, tem muita escola particular que sequer cita o AI-5.

Outras excrescências dentro do previsto se seguem, como “O que é Shallow Now?” ou “O que é Golden Shower”. Provavelmente as Tias do Zap estão tentando se colocar a par da modernidade. Novamente, apenas uma busca chama a atenção. Sabe aqueles exercícios para criança onde o livro manda apontar quem não pertence ao grupo? Aparece uma foto de uma banana, uma maçã, um abacaxi e um carro. É mais ou menos isso. Vamos entrar em detalhes mais pra frente.

Na categoria “Como fazer” a coisa se refina um pouco. A pessoa não quer só saber algo, ela quer executar algo. Acredito que só por aí já elimine metade da população. As buscas consistem em obviedades estilo “Como fazer meu quiz no Instagram”, “Como fazer figurinhas para o whatsapp” e outras coisas do tipo. Mais uma vez, apenas uma busca destoa. Nove são objetivas, como fazer uma sobremesa, uma inscrição para o Enem e coisas no estilo. Mas uma é subjetiva.

Apesar da massiva quantidade de burrice e breguice, este ano vemos alguns componentes novos, que, se não observarmos com um olhar mais atento, podem passar despercebidos. Desponta no horizonte uma espécie de depressão macaquita, uma modalidade diferente de busca lamentável, uma nova forma de fracasso que, se tudo continuar como está, tende a crescer e talvez até ofuscar a burrice e breguice.

Na categoria “o que é”, o primeiro colocado nas buscas de 2019 foi “o que é libido?”. Olha só, no país onde todo mundo faz questão de ostentar o quanto faz sexo o tempo todo, as pessoas não sabem sequer reconhecer o que é libido. Não creio que a natureza da busca seja pelo desconhecimento do termo, afinal, quando se trata de palavras relacionadas a sexo, o brasileiro conhece bem, por novelas, por programas baixo nível e tantas outras formas. Acredito que a motivação da busca é não saber reconhecer libido mesmo.

Aos poucos, a imagem de um brasileiro(a) ativo, que faz muito sexo, que gosta muito de sexo, vai se esvaindo. A nova geração está cansada, está com medo, está desanimada. Vivemos hoje em um país polarizado onde ambos os lados estão com muita raiva e medo, isso desgasta, isso drena energia e parece que no final das contas não está sobrando quase nada, nem para batucar, fazer sexo ou macaquear.

Podem ter certeza que não foi o Tiozão do Zap quem fez essa busca. Os mais rudimentares, os mais animalescos, não tem qualquer preocupação com libido. Preocupa-se com a libido quem tem um mínimo de sutileza para perceber que libido é uma questão. A velha geração está tomando viagra e tendo um caso com a secretária de boa. Quem desconhece libido é a nova geração.

Na categoria “Como fazer”, o terceiro colocado chama a atenção: “Como fazer que as pessoas gostem de mim”. Imagina o grau de desespero de alguém para ir ao Google perguntar como fazer para que gostem dela. De onde vem isso? A regra sempre foi um brasileiro tão tosco que sequer percebia quando não gostavam dele. Um brasileiro fanfarrão, cheio de amigos do bar, do prédio, da rua. Ainda que não fossem amizades muito verdadeiras, em momento algum passavam a impressão de desgostar.

Um chute: começamos a ver os frutos dessa geração insuportável, militante, floquinho de neve único que sai do conforto da casa dos pais e encara a vida real, muito além da faculdade piolhenta na qual estabeleceu uma bolha. A vida não é um arco-íris, essas pessoas não são maioria e se você se portar assim, ninguém vai gostar de você mesmo. E portas vão se fechar. E não adianta ir chorar na sua bolha. A vida real não é a sua bolha. A vida real não gosta da sua bolha.

“Mas Sally, como você pode saber que é esse o perfil de pessoa que faz essa busca?”. É esse o perfil massivo dos consumidores de remédios controladores de humor, ansiedade e antidepressivos. É esse o perfil em números de demissão. É esse o perfil em tentativas de suicídio. É esse o perfil em número de desempregados (sim, dos 40 para cima, o desemprego cai, o grande problema está nos jovens). Essa geração está colidindo contra uma parede de concreto chamada “realidade” sem qualquer proteção.

E aí caímos na única busca geral de 2019 que não fala sobre mortos ou futebol: pessoas procurando por vagas de emprego. Sim, os floquinhos de neve estão sendo radicalmente rejeitados pelo mercado de trabalho, seja não conseguindo vagas, seja não se adaptando à realidade fora da bolha. Essa nova geração sem noção da vida, da realidade, totalmente imersa em algo externo como uma causa, uma militância, uma bandeira, não tem estrutura para a vida real e estão cada vez mais solitários quando são obrigados a sair de suas bolhas.

O alienado, o pobre, o fútil… esses são felizes, ao seu modo. Pagodeiam o dia todo, bebem, flertam, são cheios de “amigos”, afinal, o que não falta neste país é gente que gosta de uma bagunça. O brasileiro por excelência, aquele malandro boêmio, aquela tiazona fofoqueira, podem ser vazios e imprestáveis, mas não estão constantemente procurando problemas e motivos para se revoltar e se angustiar. Muito pelo contrário, tem prazer em esquecer dos problemas bebendo, fazendo festa ou tendo um caso com a estagiária. Quem está angustiado, quem está destoando das buscas “na merda e sorrindo” é a nova geração.

Começamos a ver um mix interessante de insuportabilidade e baixa autoestima. Ao que tudo indica, essas pessoas estão dispostas a mudar o que são (ou ao menos fingir ser algo diferente) para que as pessoas gostem delas. Complicado. Porém, mais complicado ainda é nem sequer saber o que é preciso emular para que gostem de você. Anos fora da realidade imersos em uma bolha criam essa desconexão, a pessoa sequer entende os motivos da rejeição.

Falo para quem, como eu, tem mais de 40 anos: se você for jogado em dois ambientes diferentes, um formal e um informal, um de esquerda um de direita ou qualquer outra dualidade que se consiga pensar, por mais que você odeie, você sabe o que falar para ser “aceito”, para se enturmar.

Você tem uma noção social, você sabe o que cada ambiente, cada estilo, cada nicho quer. Por mais que não seja agradável fingir, você tem a capacidade de, no mínimo, saber o que deveria fazer, se quisesse, para ser acolhido por aquele grupo.

A nova geração não tem. É uma espécie de autismo social. Vestiram suas crenças, suas bandeiras, sua militância de tal forma que isso os define. Se você tira isso eles ficam sem identidade. Não sabem o que “ser”.

Quando você atrela sua personalidade a uma bandeira, todas as pessoas que não são levantadoras dessa bandeira vão desgostar de você, pois você se torna um chato para elas. Sim, há pluralidade no mundo, se limitar a uma bandeira em um mundo plural é fazer um pacto com a rejeição. Não é que você não possa defender uma causa… pode. Desde que seja como um adultinho, não como um adolescente fanático que vira isso, se traveste disso, confunde sua estrutura, sua personalidade com a causa que defende e deixa que isso o descontrole.

Não me refiro apenas a política. Qualquer bandeira que a pessoa vista e a defina, desde causa animal até sexualidade, vai gerar rejeição. Vai fazer dessa pessoa uma chata do caralho, por mais que ela fale sobre outros assuntos, ela fala desde esse lugar, desde essa crença, que limita. A pessoa se veste como tal, corta o cabelo conforme o código do grupo, usa as roupas que aquela tribo tem como padrão. Vira uma caricatura de si mesma. Visualmente, sem sequer trocar uma palavra, ela já repele.

E não repele pela causa X ou Y. Eu sinto profunda repulsa por militantes/ativistas de causas com as quais eu concordo. Repele por se limitar desta forma, se torna uma pessoa desinteressante. Uma pessoa que passa a olhar o mundo pelo filtro das suas crenças. Um adultinho adolescente que dá importância demais a coisas que estão fora dele e importância de menos ao que está dentro.

Foda-se a floresta queimada, o cachorrinho maltratado, o negro discriminado ou o político tal. Isso não te define. Primeiro você se conheça, saiba quem você é sem essas muletas, depois você se opõe a essas barbaridades de forma centrada e equilibrada.

Ainda que minha suposição esteja errada e que essas pesquisas destoantes no Google venham de outro grupo… os conselhos permanecem os mesmos: seja você, não algo externo. Não deixe que rótulos, crenças ou qualquer outro fator externo defina quem você é.

Você não é a mãe do fulano, a esposa do fulano, o diretor de tal empresa ou o jogador de tal time. Sua essência é muito mais importante, significativa e profunda do que qualquer fator externo. Enquanto você deixar que algo externo te defina, as chances de ser rejeitado são enormes.

Como fazer com que as pessoas gostem de você? Seja você, sem qualquer fator externo que te defina. Você é mais do que um partido político, uma causa, uma bandeira, uma orientação sexual, uma cor, uma religião ou qualquer outro fator limitante que só funciona como separador hoje em dia.

Entre em contato com o que você é de verdade, se conheça, e pare de dar tanta importância e atenção para coisas externas, quem sabe assim você deixa de ser um chato do caralho e as pessoas gostam mais de você.

Para dizer que não foi uma motivação muito positiva, para dizer que sequer entendeu o que eu estou sugerindo que você faça ou ainda para dizer que prefere as buscas do Ei Você: sally@desfavor.com

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Comentários (24)

  • Felizmente essa galerinha “ultra-quebradora-de-padrões” se veste, se comporta e fala de um jeito bem padronizado. Fica mais fácil de detectar e passar bem longe desses ~retardadxs~ (até um “bom dia” já deve microagressão/gatilho/e o caralho a 4 pra eles).

    PS: Essa semana eu vi no Twitter um cara vendendo uma “coleção afrontosa pra usar no trabalho” (ou algo assim, nas palavras dele). O “”””kit””””” continha caneca, adesivo, camiseta com frases do tipo “Legal a reunião, mas só tinha homem branco”, “Chocolate é bom, mas sem assédio é melhor ainda” (e tinha uma galera querendo comprar)… Mano, depois tão aí chorando na internet por causa de desemprego e não sabem porque. Se eu vejo funcionário meu “militando” no serviço é rua no dia seguinte.

  • A maioria desses goiabões de hoje em dia nunca nem tinham ouvido na vida a palavra “libido” até ela aparecer na conversa de Zap Zap vazada do Neymar.

  • Não há manual de instruções para a vida! Personalidade, auto-conhecimento e essência são coisas que tem que ser moldadas, trabalhadas e construídas dia a dia. Não são algo que se pode receber já pronto e simplesmente “vestir” como se fosse uma roupa ou uma máscara. Ser “senhor de si mesmo” e se conhecer muito bem para não se deixar definir apenas por uma causa ou uma bandeira dá trabalho e leva tempo, mas precisa ser feito. E essa geração, infelizmente, só descobrindo isso agora e da pior maneira…

    • Sim. Dá trabalho, requer dedicação, requer coragem olhar para si mesmo. Essa geração cuzona e imediatista não deve saber nem como começar a fazer…

  • Desfavor dando minha dose de realidade diária. Não mudaria uma única vírgula deste texto, sinto repulsa e até certa pena de quem usa alguma bandeira que levanta como personalidade. O jovem tem que entender que foda-se se você é feminista, foda-se se você é lgbt, foda-se se você é conservador ou liberal, foda-se se você é vegano, o importante é ser algo mais, aí depois reclamam dos estereótipos, claro que eles irão existir se as pessoas se vestem, se comportam e só abrem a boca para defender X bandeira!
    Ps: Eu fui uma das pessoas que pesquisou como fazer chocolate quente

    • Se você gosta de um chocolate quente bem consistente, grosso, faz com meita lata de creme de leite, meio copo de leite e meia lata de leite condensado, com chocolate para cobertura ao leite Neslté. É só derreter tudo em fogo baixo e mexer até engrossar.

      Sobre os levantadores de bandeiras: acho que eles tem medo de olhar para dentro, para o que são, e não gostar. Daí se apegam a uma causa para defini-los.

  • Avatar

    Fascista Pedófilo Neonazista de Satã

    Os floquinhos de neve a busca de uma vaga de emprego porque com certeza não sentiram o baque dos tempos do Plano Collor, aquela maravilha que fez muita empresa sair demitindo a rodo.
    Parece que essa nova geração não entendeu que “vaga de emprego” é algo que o patronato brasileiro só faz questão de abrir em último caso e sempre que possível, é pra algum parente ou relacionado, a não ser quando o negócio é grande e precisam de alguém pra base operacional.
    O legal aí é ver a trupe mais “esquerdiota” reclamando da “uberização” esquecendo que em processo parecido o grosso das mulheres que trabalhavam de “doméstica” tiveram que partir pro ramo de “diarista” porque praticamente acabou aquela de “classe média alta” que recebia vinte salários mínimos de contracheque.

  • Realmente, as pessoas não sabem lidar com absolutamente nada sem um roteiro, precisam de coach até pra limpar o cu ou mimetizar argumentos e comportamentos de alguém, por isso é uma correria de entrar em grupinho de ui sou nerd, ui sou gay, ui sou alfa, ui sou negro trans obeso, amarrados em degrau social, pensando em tudo antes de falar e agir
    Parem de ser covardes um segundo

    • Olha, se quiser ser assim, seja, mas arque com as consequências disso sem choramingar e encher o saco dos outros. A vida é feita de escolhas, toda escolha tem seu bônus e seu ônus.

  • Com o nível dos jovens atuais, não duvido que daqui alguns anos vão comecar a andar de quatro. Só querem beber, ir pra farra. Vc viu um acidente no RJ que tinham 8 jovens bêbados dentro dum carro e morreram 5? O país do futuro tá lascado. O jovem brasileiro tinha que acabar!

    • Eu vi os pais comentando que “era para ser”.
      Sim, quando você não educa, não ensina limites aos seus filhos, não ensina que não pode beber e dirigir, é pra ser isso mesmo. Mas não é destino, é falha dos pais.
      Não tem essa de que “eram adolescentes”. Eu já fui adolescente nunca na minha vida bebi e dirigi, muito menos subi no carro com uma pessoa bêbada.

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