Telômeros.

Todos nós envelhecemos, mas poucos entendem os motivos pelos quais ocorre esse processo. Um dos principais responsáveis por isso é pouco comentado e desconhecido do grande público, razão pela qual resolvi apresentá-lo superficialmente a vocês hoje. Desfavor Explica: Telômeros.

Cada célula do nosso corpo possuí, em seu núcleo, material genético (papo técnico: cromossomos). Cada célula tem um tempo de vida, portanto, elas devem se “reproduzir”, para que o ser humano não morra. Antes de partir, a célula deve deixar uma herdeira que assuma seu lugar. É esse processo de divisão celular que garante um organismo funcional, jovem e eficiente. Quanto mais tempo as células forem capazes de se replicar de forma saudável, mais tempo você se mantém jovem. E é aí que entram os Telômeros.

O nome vem do grego e significa “parte final”. De fato, os Telômeros são, em uma simplificação muito grosseira, a pontinha dos nossos cromossomos, como se fosse aquele pedacinho plástico que fica na ponta de cadarço de tênis e que o protege se esgarçar. Sua função é proteger o material genético do cromossomo. Enquanto essa proteção existir, o material genético fica intacto e a célula permanece viva e funcional.

Mas, a cada divisão celular, esse telômero vai reduzindo de tamanho e, portanto, sendo menos eficiente em sua função de proteção. É como um lápis, que vai sendo apontado, até ficar pequeno e deixar de existir. Quando isso acontece, quando o Telômero fica muito pequeno, a célula morre (papo técnico: senescência). Em média, uma célula se divide entre 50 e 70 vezes antes de esgotar seu Telômero e entrar em senescência (papo técnico: Limite de Hayflick).

Essa morte celular em grande escala se reflete na velhice do corpo humano: decréscimo de funções, de energia e toda aquela decadência que a idade gera. Também pode se refletir em uma série de doenças, por sinal, as que mais acometem a humanidade atualmente. Logo, preservar seus Telômeros, para evitar que suas células morram, pode ser considerado uma meta de vida bastante útil.

Em uma comparação pouco precisa, é como se você tivesse um tubo de ensaio cheio de líquido, virado de cabeça para baixo, com uma rolha que fica menor a cada dia. Vai chegar um momento em que a rolha não vai mais dar conta e o líquido vai escorrer, deixando o tubo de ensaio vazio, que seria a morte celular. Mas, se você fizer algumas coisas, pode evitar ou reduzir o desgaste dessa rolha, permitindo que o tubo de ensaio tenha validade por mais tempo.

Como já dissemos, os Telômeros não causam apenas o envelhecimento. Também tem papel crucial no desenvolvimento de doenças crônicas, desde câncer, diabetes doenças cardiovasculares, diversos tipos de demência e até obesidade. Não é apenas sobre envelhecer, é sobre se manter saudável também. Portanto, todos os estudos em andamento visando proteger os Telômeros não são apenas “fonte da juventude” (envelhecimento é um conjunto, Telômeros são apenas uma variável nessa equação) mas, principalmente, a busca pela prevenção e cura de muitas doenças.

Ok, entendemos que os Telômeros são essenciais e que, talvez, a fonte da juventude esteja ali. Como fazer para que os Telômeros durem mais, não se desgastem? Pretender que as células não se dividam é praticamente impossível, pois é a forma de funcionamento do corpo humano. Então, provavelmente, a solução será proteger os Telômeros do desgaste cada vez que essa divisão acontece. E recentemente se deu um passo importante na compreensão sobre como conseguir isso.

Vamos falar sobre enzimas. Enzimas são substâncias que facilitam as reações químicas no corpo (papo técnico: catalisadores). No vasto mundo das enzimas (cada uma age em uma área) existe uma chamada “telomerase”. Essa enzima pode aumentar a vida útil do Telômero, protegendo-o a cada divisão celular, impedindo ou retardando seu desgaste e, por consequência, impedindo a morte celular, processo que é um dos principais responsáveis pelo envelhecimento ou doenças.

A telomerase ganhou fama quando a bióloga americana Elizabeth Blackburn, ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 2009 falando nela, relacionando os Telômeros ao câncer. Em conjunto com uma psicóloga, a bióloga fez uma vasta investigação sobre o funcionamento da telomerase protegendo os telômeros, a interferência da genética e do estilo de vida (papo técnico: epigenética) nesse processo. Para quem quiser saber mais, elas lançaram um livro chamado “O segredo está nos telômeros”.

Em células cancerosas os telômeros nunca reduzem, o que tornam as células cancerosas imortais, o que, por sua vez, atrapalha um pouco uma eventual cura da doença. Isso acontece graças à telomerase, que trabalha mais nessas células, protegendo os Telômeros como verdadeiros Pit Bulls.

Se existe alguma mutação capaz de causar essa proteção extra, impedindo que os telômeros se encurtem, pode ser que estudando o mecanismo de células com câncer se aprenda um meio de emular isso quimicamente e fazer com que células saudáveis também recebam essa proteção extra e possam se tornar imortais.

Em contrapartida, se não der para descobrir como deixar o Telômero das células saudável infinito, pode ser que descubram como detonar os Telômeros das células cancerosas, o que seria um duro golpe na doença e poderia levar, de forma direta ou indireta, à cura do câncer.

Não estamos falando de um terreno seguro. Há quem diga que a natureza quer que sejamos finitos, portanto, ao estimular a telomerase e tornar Telômeros eternos, inevitavelmente estaremos fabricando câncer para a pessoa que receber esse bônus, como consequência desse processo. Seria inerente, para alguns estudiosos da área. Controverso.

Quem defende a teoria que super-telomerase é sinônimo de câncer diz que uma coisa não poderia ser dissociada da outra, a mãe natureza só nos tira o mecanismo de expiração (senescência) quando outro mecanismo de expiração se apresenta (câncer). Por isso, os experimentos ainda são muito tímidos, o risco é enorme. Existem estudos nesse sentido e existe uma previsão para começar o teste em humanos de uma injeção de telomerase em 2025. Mas também existe muita gritaria contra. Veremos.

Uma série de fatores determinam em qual proporção e em qual velocidade os Telômeros se desgastam. Já se cogitou que fosse pura questão de genética, mas hoje se sabe que o meio no qual a pessoa vive (sono, alimentação, poluição, estresse e tantos outros fatores) podem ser determinantes para alterar sua genética, inclusive seus Telômeros (papo técnico: epigenética). Então, sim, existem coisas que você pode fazer para preservar seus genes e seus Telômeros, retardando seu envelhecimento.

Isso quer dizer que uma pessoa que tem uma propensão genética a ter Telômeros mais fraquinhos e com menor “durabilidade” mas que leve uma vida com mínima agressão a eles pode ser muito mais saudável e jovem que uma pessoa que nasceu com propensão a Telômeros grandes e resistentes, mas leva uma vida com fatores que os atacam. É cada vez maior o prestígio da Epigenética, o meio determina mais do que a loteria de genes com os quais você nasceu.

Quando falamos em cuidar bem dos seus Telômeros, um dos fatores mais determinantes é o estresse. Estresse libera uma série de substâncias nocivas ao organismo (cortisol e cia) que aceleram a “divisão” das células. Quanto mais rápido elas se “dividem”, mais rápido se desgastam os Telômeros e mais rápido a célula morre, ou seja, mais rápido você envelhece, mais rápido seus órgãos começam a não funcionar tão bem, mais rápido aparecem problemas. Essa divisão acelerada também pode causar inúmeras doenças, inclusive câncer.

Portanto, uma vida estressante é sinônimo de envelhecimento precoce e doenças. E quando falamos em estresse, é em sentido amplo. Não é apenas se aborrecer ou brigar com alguém. É também ansiedade, pouco sono ou sono sem qualidade, alimentação que deixe o organismo em sobrecarga ou com deficiência, cigarro, beber pouca água, depressão, excesso de bebida alcoólica ou qualquer outra química que seja agressiva ao corpo e qualquer outro hábito ou estilo de vida que coloque o organismo em uma condição anormal e desgastante.

Quando, por exemplo, você deixa seu corpo tempo demais sem comida, ele entra em estresse, mesmo que seu dia esteja muito feliz, mesmo que você tenha ganhado na loteria e beijado o amor da sua vida logo depois. Estresse não é só psicológico, é físico também. Esteja atento a ambos.

O estresse (seja por falta de carboidratos, seja por água insuficiente, seja por ter saído na porrada com alguém no trânsito) liberam substâncias tóxicas ao seu organismo. Essas toxinas não são prejudiciais apenas aos Telômeros, elas afetam cada função vital, geram doenças (principalmente câncer: apenas 10% dos casos são fatalidade genética, cerca de 90% são fruto de más escolhas de vida). Inundar seu corpo destas toxinas (chamadas por alguns de “radicais livres” ou “estresse oxidativo”) é uma furada, sob muitos pontos de vista, portanto, melhores seus hábitos de vida, tanto no físico como no psicológico.

Basicamente, exercícios regulares (que liberam substâncias contra o estresse), hábitos de alimentação saudáveis (não comer alimentos processados, não comer muito açúcar, beber muita água, não ficar muitas horas sem comer), muitas horas de sono de qualidade e aprender a se preocupar menos, controlar menos, se aborrecer menos e relaxar mais são os primeiros passos fundamentais para não detonar seus Telômeros, garantindo um envelhecimento saudável.

Mas, se fosse para falar apenas obviedades, eu nem escreveria este texto. Essas dicas de saúde servem para basicamente tudo, prevenir desde infarto até hemorroidas. Todo mundo sabe que é o estilo de vida que menos agride o corpo. Só que, com os Telômeros, o buraco é mais embaixo. Tem algumas ficas bem específicas que eu quero te contar.

No que diz respeito a exercícios, por exemplo, todo mundo sabe que o pior cenário possível é o sedentarismo. Mas, quando falamos de Telômeros, exercícios de alto impacto são notoriamente mais eficientes. Claro, uma caminhada light é melhor do que nada, mas estudos indicam que pessoas que praticam exercícios de alto impacto tem Telômeros maiores e melhores, ou então regeneram seus Telômeros desgastados com mais eficiência.

Também há uma vertente mais sutil. Além do combo sono, exercícios, alimentação, foram constatados outros fatores menos populares que afetam os Telômeros. Pequenas coisas como morar em uma vizinhança tranquila, na qual a pessoa se sinta bem, abundância de plantas e área verde nos arredores e até os relacionamentos que vivenciamos afetam os telômeros. Viver em um lugar onde as pessoas não se sentem seguras, sentem medo ou não conseguem descansar em paz pode, para fins de Telômeros, fazer tanto mal quanto fumar.

Um ponto importantíssimo para preservar seus Telômeros: foco mental. Pessoas que tendem a focar mais suas mentes (ou seja, ter controle de suas mentes) no que estão fazendo têm telômeros mais longos quando comparadas àquelas cujas mentes divagam. Aprender a focar seus pensamentos não é bom apenas para o trabalho, também ajuda no emocional, pois impede que você pense em besteiras que te angustiam, que sofra por antecedência ou que fique remoendo ou projetando problemas.

Outras pesquisas demonstram que pessoas que meditam preservam mais os telômeros. Manter a mente no presente (em vez de ficar no passado ou no futuro) representa um alto grau de consciência e deixa a pessoa mais sã e centrada. São coisas que qualquer um pode treinar, de graça, no conforto do seu lar. Se você quer dar uma forcinha para os seus Telômeros, autoconhecimento e meditação, pra ontem. Não torça o nariz, ninguém é super-herói para dar conta de tudo sem educar e cuidar da mente. Se as pessoas cuidassem da mente com o mesmo empenho que cuidam do corpo…

Alimentação também tem seus macetes. Sabe-se que alguns tipos de uva tem uma substância que estimula a produção da telomerase ajudando a proteger os Telômeros. A descoberta veio depois que constataram que populações de regiões onde se consome muita uva e vinha tinham um ritmo de envelhecimento mais lento.

Agora um ponto polêmico. Um dos jeitos mais eficientes de preservar seus Telômeros, se você for mulher: não ter filhos. Sim, ter filhos detona seus Telômeros por vários motivos, desde a bioquímica da gravidez até o desgaste que uma criança gera, físico (privação de sono, esforço, atenção redobrada etc) e emocional. Não se sabe muito bem o motivo pelo qual isso acontece, mas se sabe que acontece.

Há quem diga que a mãe natureza entende que você já cumpriu seu papel de reprodutor no mundo e não despende os mesmos esforços para te manter jovem e saudável (uma vez que não acontece com homens que tem filhos, pois eles podem continuar tendo filhos a qualquer idade). Há quem diga que é uma mera consequência química e ambiental.

Fato é que quando compararam o tamanho dos Telômeros de mães com o de mulheres sem filhos, a diferença assusta. Uma gravidez encurtaria a vida, em matéria de Telômeros, em 11 anos. Um exemplo ilustrativo: de acordo com o mesmo estudo, fumar causa um desgaste de quatro anos e a obesidade de oito anos.

Logo, ter filhos te envelhece, em média 11 anos, mais do que fumar e ser obesa ao mesmo tempo. Não estou dizendo que as pessoas não tenham filhos, estou dizendo que, se os tiverem, invistam tempo e dinheiro em hábitos para preservar e restaurar seus Telômeros, pois vocês partem de uma desvantagem.

Ainda não chegamos ao ponto de descobrir formas de preservar os Telômeros de modo a ser imortais ou imunes às principais doenças, mas sim, se caminha para isso. Porém, você pode fazer a sua parte e, quem sabe, apenas ela seja determinante para decidir o tipo de vida e saúde que você terá, principalmente quando a idade chegar.

As ferramentas você já tem… Não que este texto baste, é uma leve pincelada, certamente você pode pesquisar muito mais dicas e informações, mas o texto cumpre seu objetivo de te apresentar os Telômeros e seu mecanismo base de funcionamento. Agora está nas suas mãos.

E não pense você que é tarde. Reverter alguns hábitos ruins é sinônimo de mais do parar de detonar seus Telômeros. Mesmo que algum dano tenha sido causado, uma vez suprimido o hábito ruim, é possível que os Telômeros retomem seu tamanho normal, ou seja, que se “regenerem”, protegendo mais seu organismo e seu DNA. O corpo humano é maravilhoso, tudo que temos que fazer é parar de jogar contra ele.

Para dizer que o pior cenário é quando só depende de você, para dizer que os Telômeros são uma mentira inventada pela Rede Globo ou ainda para dizer que é período de férias, portanto, de textos leves e não dessas porcarias científicas: sally@desfavor.com

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Comentários (17)

  • Não ter estresse num país desses é difícil. E sobre ficar muito tempo sem comer, desde criança pulo o café da manhã porque só sinto fone depois do meio dia. Há pouco descobri que deram nome de jejum intermitente e vários médicos dizem que faz bem, então não vou mudar. Se eu ficar caduco vai ser por causa de estresse mesmo.

  • Rapá, meus telômeros devem estar mal cuidados, considerando o nível de stress e ansiedade que passo, fora flertar com a depressão de vez em quando…

  • Eu: “Olha, meus telômeros que se fodam, depois dos 70 a vida é uma merda. Pronto, falei!”

    Sally: “Se vc não se cuidar, sua vida será uma merda antes dos 70!”

    Eu: “Só se eu obedecer às recomendações médicas. Se eu continuar atirando nos telômeros com gordura, sódio e açúcar, vou para onde a natureza quer que eu vá: virar cocô de verme ou churrasquinho bem-passado!”

    • Nada disso. Pode ficar aqui e ficar muito mal: todo fodido, cagando na fralda e sem andar. Trate de cuidar da porra dos telômeros!

  • Já tinha ouvido falar em telômeros antes, mas nunca com essa profundidade. Muita informação útil, valiosa e importante aqui. E cuide bem de seus telômeros você também, Sally. Ninguém é imortal – ainda -, mas pessoas como você mereceriam ser…

    • Eu tento cuidar bem deles, mas pode ter certeza de que eu não mereço ser imortal. Qualidade de vida já está de bom tamanho.

  • Já que as pessoas estão amadurecendo cada vez mais tarde e estão morrendo mais tarde, faz sentido investir em tratamentos pra que a vida adulta dure mais tempo. Não vale a pena ter expectativa de vida de 100 anos sendo que a pessoa já começa a envelhecer e caducar lá pelos 60, ou seja, meio século num corpo frágil, deprimido por não ter mais as energias de antes, e ainda por cima produzindo nada pra sociedade. Tem que esticar a vida adulta e manter as pessoas no mercado de trabalho por mais tempo, sim.

    • A questão é com que qualidade de vida se chega lá. Tem que valer a pena. É na juventude que definimos o tipo de velhice que teremos.

  • “Essas dicas de saúde servem para basicamente tudo, prevenir desde infarto até hemorroidas.”
    Não seria o Desfavor se não tivesse menção a cu, hahaha!

    Ótimo texto, só fiquei meio em dúvida na questão de ter filhos porque eu vejo tantas velhinhas, uma delas minha avó, que tiveram 3 ou 5 filhos e estão chegando aos 90 anos, enquanto tem tanta mulher sem filhos que vive estressada e correndo, tomando remédio pra tudo… Será que a vida no campo, com pouca poluição e alimentos frescos, compensaram o trabalho de criar a ninhada?

    • Sua avó comia comida saudável, respirava ar puro, provavelmente não tinha um trabalho estressante nem a maioria dos fatores de risco que a sociedade atual gera. A vida hoje já é muito estressante, com correria e privação se sono normalmente, acrescentar um filho faz a balança desequilibrar absurdamente.

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