Econoentropia – Parte 1

Depois de vários anos criticando as visões alheias sobre o funcionamento da sociedade, e especialmente as decisões tomadas em nome dessas ideias, resolvi que dessa vez vou ser vidraça e não pedra. Hoje eu quero falar de uma Teoria de Tudo, jogando leis da Física e métodos de organização social e econômica num balaio só. Ou seja, para quem é habitual do desfavor, vai ser um texto daqueles…

Só mais uma coisa, não categorizei como Dés Potas porque não é sobre uma ideia de poder absoluto mudando os rumos da humanidade, e sim sobre um estado mental que eu acredito ser necessário antes de escolher qualquer ideologia para seguir. O que cada um faz depois de considerar essa ideia está fora do meu controle. Talvez você chegue em conclusões totalmente diferentes.

Agora sim, a ideia: as leis mais básicas da Física regem não só partículas fundamentais, mas também sistemas extremamente complexos como a vida em sociedade do ser humano, suas estruturas de poder e por consequência, a economia global. Riqueza, pobreza, poder, opressão… todos resultados até que previsíveis de seres cujos moléculas e átomos são regidos por processos como a entropia.

Tem um texto só sobre isso, mas eu relembro aqui: entropia é a tendência de tudo o que existe ir para um estado de menor complexidade com o passar do tempo. Pense que tudo no universo é como uma escultura de gelo: por mais detalhada e trabalhosa que tenha sido sua criação, ela quer derreter e virar uma mera poça d’água. A não ser que você coloque energia extra vinda de outro lugar na refrigeração dela, ela vai se desfazer. Isso acontece por um motivo muito simples: é mais fácil para aquele amontoado de moléculas de água estar no formato da poça do que no da escultura. Tanto que se você deixar a natureza solta, ela não vai produzir um cisne de gelo aleatoriamente.

E eu vou ter que ir um pouco além aqui: até mesmo dizer que o estado de menor complexidade é mais fácil não conta toda a história. É só um atalho para nossas mentes símias. Na verdade, a natureza e suas leis físicas não têm preferência alguma, é só que entre todas as possibilidades de organização daquelas moléculas d’água possíveis, só uma entre incontáveis gera a escultura de gelo, mas quintilhões delas terminam numa poça d’água. E como a natureza não está interessada em nenhuma delas em especial, é uma questão de “sorte”. E como sabemos bem, esperar que uma poça d’água se torne uma escultura de gelo espontaneamente é esperar pela eternidade… não é que seja impossível, mas é tão provável quanto você ganhar a megasena um trilhão de vezes seguidas. (todos os números aqui estão absurdamente menores que os reais, senão eu gastaria as 4 páginas escrevendo zeros e ninguém entenderia nada mesmo…)

O ponto aqui é que o princípio da entropia rege o que deveríamos esperar da realidade. Todo o contato do ser humano com o mundo ao seu redor é baseado nisso: não adianta só esperar por uma dessas combinações de partículas fundamentais aleatórias que seja benéfica, porque a chance é tão absurdamente pequena que nem todo o tempo do universo daria conta disso. É por isso que aprendemos que seja lá o que você quiser, precisa de energia para fazer. Para respirar e para usar seu smartphone, a ideia básica é a mesma: a realidade só se transforma com energia. A matéria que por uma probabilidade minúscula conseguiu ficar organizada o suficiente para ser considerada viva passa toda essa vida numa busca incessante por fontes de energia para não se desfazer. A entropia não liga para os seus planos, mas também não tem pressa: não importa o que você faça, está gastando energia e desorganizando a matéria do mesmo jeito. A entropia é a dona do cassino, não importa o quanto você acha que ganhou, ela ganha mais no final do dia.

E o que isso tem a ver com a sociedade humana? Alguns de vocês já devem estar percebendo para onde eu vou, mas precisamos fazer uma outra parada antes de ir para o destino final: a ideia de que desequilíbrios geram movimento. Não preciso nem sair da termodinâmica para explicar isso: boa parte da energia produzida no mundo é baseada na ideia de que diferenças entre temperaturas geram uma reação de movimento. Se você aquece a água (coloca energia nela), ela vira vapor e se movimenta. Gradientes de temperatura movimentavam os barcos à vapor e movimentam usinas nucleares. É uma das coisas mais confiáveis que conhecemos.

Mas não precisa pensar só em vapor, a asa de um avião dá sustentação no ar porque há um desequilíbrio entre a pressão acima e abaixo dela, as coisas caem porque a gravidade no centro da Terra é maior que na superfície. Onde há desequilíbrio, há movimento. E onde há movimento, há energia sendo gasta. E continuando, onde energia é gasta a complexidade é aumentada. Manter a vida como vivemos atualmente exige a manutenção de um grau de complexidade aberrante do ponto de vista da entropia. Me arrisco a dizer que o smartphone ou computador na sua mão exigiu mais complexidade para existir do que um oceano, por exemplo.

Então, vamos finalmente para a ideia deste texto: seja como for que escolhamos nos governar e viver em sociedade, quem ignorar esses princípios básicos da Física vai quebrar a cara. O universo simplesmente não funciona de outra forma, e não te exijo nenhum salto mental para o misticismo para explicar o motivo: somos criaturas de uma realidade baseada em entropia, então pode apostar que cada pedacinho do seu DNA está programado para funcionar nessa realidade. Uma larva de mosca sabe instintivamente que precisa manter sua complexidade se quiser continuar viva, ela vai procurar fontes de energia sem vacilar meia vez. E dá para ir mais longe ainda: somos todos descendentes do primeiro amontoado de elementos que consumiu outro e tirou vantagem disso.

E tudo isso começou com um desequilíbrio: a vida inicial no planeta tinha alguma coisa a mais que sua comida. E dali pra frente foi uma explosão de estratégias diferentes para coletar energia do ambiente e com isso manter sua própria complexidade. Atualmente, isso desemboca no predador maior da cadeia alimentar, o ser humano. Aprendemos a extrair uma quantidade incrível de energia do ambiente e principalmente, a explorar qualquer desequilíbrio ao nosso favor. Cada uma das grandes descobertas do passado é uma soma de conseguir muito mais energia por muito menos esforço com dominar a utilização desses gradientes energéticos para gerar movimento.

E ao continuar esse processo, percebemos algo importante: assim como a escultura de gelo, a sociedade humana está sempre querendo se desorganizar para algo mais provável do que todos nossos complexos sistemas de poder e tecnologia. Fazer milhões de pessoas obedeceram às mesmas leis e pessoas? Criar acordos sociais, rituais e padrões de comportamento num bicho com um cérebro terrivelmente complexo como o humano? Dá muito trabalho. Exige quantidades imensas de energia e movimento.

O ser humano em sociedade ainda está sob o controle da entropia porque se formos olhar de forma puramente estatística, qual a probabilidade de milhões de pessoas concordarem com qualquer coisa? Não deve ser muito diferente da chance de uma poça d’água virar uma escultura de gelo espontaneamente… mas, evidente, assim, como não ficamos só esperando pela escultura, não ficamos de braços cruzados torcendo para as pessoas de um país decidirem sozinhas que uma lei faz sentido e as beneficia de alguma forma. Tem que colocar energia na produção da escultura, tem que colocar energia no controle da população. Ou é energia do cérebro de uma pessoa tentando criar uma campanha de conscientização, ou é a energia dos músculos de um soldado enfiando a porrada num dissidente. O sistema não vai se organizar sozinho, é proibido por lei (da termodinâmica).

Entendem quando eu digo que não há nada de místico ou mágico aqui? São apenas leis da Física sendo vistas numa escala maior de complexidade. Parece só masturbação mental, eu admito, mas tem uma ideia aqui que quando realmente entrar na sua cabeça, vai te fazer entender todas as discussões políticas e até econômicas por um novo ângulo: é impossível que qualquer sistema deste universo mantenha sua complexidade sem energia extra sendo constantemente aplicada. Um sistema baseado em igualdade e uso apenas dos recursos atuais de um povo está fadado ao fracasso. Não necessariamente por ser uma ideia ruim, mas por ser fisicamente impossível. Dava no mesmo sugerir que a solução era dar unicórnios para todos.

A entropia consome a complexidade que já criamos, e ela nunca vai parar. Metal enferruja, madeira apodrece… se você não comer a comida na sua casa, um inseto, uma bactéria ou um fungo vai tomar a dianteira. Todas as regras da realidade que não escolhemos são definidas pela entropia. E isso vale para pessoas: gente que não consegue fazer parte da complexidade da sociedade definha e perde qualquer incentivo de contribuir para um bem maior. Podemos dar um passo além: qualquer instituição humana depende da energia colocada nela pelas pessoas. Num exemplo que brasileiro conhece bem, se você não fizer algum esforço para votar direito, o resultado são os políticos que temos. Todo mundo briga por Lula e Bolsonaro, mas duvido que alguém lembre em quem votou para vereador… é essa falta de energia que permite à entropia quebrar a complexidade de um sistema até ele perder qualquer característica original.

A política não é terrível porque é impossível fazer boa política, ela é terrível porque a quantidade de energia colocada pelas populações nisso só permite esse grau de complexidade mesmo. São todos processos entrópicos. Mas este texto não existe só para “culpar a vítima”, eu também preciso voltar para os gradientes de temperatura e a produção de movimento: se você analisar a forma como pessoas e nações conseguem acumular riquezas, vai perceber um padrão claro de desequilíbrios. A desigualdade galopante do século XXI preocupa como deveria preocupar mesmo, mas eu sinto que estamos tomando tudo de forma muito… pessoal. Do ponto de vista físico, não tem como gerar movimento de dinheiro sem alguma forma de desequilíbrio. Oferta e demanda, oras. Alguém tem algo que outro considera valioso, surge o interesse de colocar energia ali para fazer a troca. Nada mais natural, e não é necessariamente o problema.

O problema soa mais como uma dificuldade de gerar esse “movimento” sem roubar essa energia de outros seres humanos. O iPhone tira vantagem da energia barata do trabalhador chinês para vender para a energia cara do trabalhador americano, por exemplo. Se a Apple precisasse comprar a hora do trabalhador americano para vender essa hora de volta para ele como um produto final, existiria um risco muito real de cobrar o preço justo. Preços justos não enriquecem ninguém, eles mantem a quantidade de energia mais ou menos estável dentro do sistema. Evidente que soa ético não abusar de desequilíbrios entre pessoas para enriquecer, mas o que tem que ficar claro aqui é que o problema é o “entre pessoas”, não o desequilíbrio.

Sem desequilíbrio, o sistema não tem energia extra para se sustentar. A entropia vai desmontar qualquer complexidade que ficar parada. Mantendo o exemplo do parágrafo anterior: sem a energia extra do desequilíbrio, a Apple tem um produto de preço justo, mas nenhum incentivo para adicionar complexidade ao sistema. Aliás, pior, fica impossibilitada de fazer isso, afinal, qualquer energia colocada em inovação teria que ser tirada de dentro de seu próprio sistema. Sem a energia extra, nos tornamos justos, mas precisamos canibalizar nossos recursos para fazer qualquer coisa diferente. Adicione a isso a entropia tornando esses recursos cada vez menores com o passar do tempo e basicamente toda empresa do mundo iria à falência.

Hoje em dia precisamos de pobres e ricos para gerar esse gradiente de energias e gerar o valor extra da exploração dos menos afortunados. Durante boa parte da nossa história, tentamos gerar essa carga extra de energia de outras pessoas, e fazer o quê? Funciona. Não sei por quanto tempo, pois a desigualdade está aumentando e eventualmente isso explode numa revolta popular, mas se serve de consolo, o pobre de hoje é menos miserável que o pobre de outros tempos. Melhor ser pobre num mundo onde até se desperdiça comida e quase todos os países tem sistemas públicos de saúde do que passar fome num campo isolado na Idade Média… a oferta geral de energia disponível para a complexidade é muito maior nos dias atuais.

Mas, peraí… de onde veio essa energia? Se eu estou descrevendo toda a história humana através de humanos usando outros humanos para combater sua própria entropia, o sistema deveria estar fechado e toda a riqueza dos ricos ter vindo dos pobres, não? Não. Claro que não. Quando você enxerga a sociedade humana pelo ângulo da energia, não podemos esquecer da gigantesca usina nuclear que nos ilumina todos os dias… tem energia extra de sobra para entrar na jornada humana rumo a um futuro melhor. Mas eu continuo essa história amanhã, com o Sol, asteroides e robôs.

Continua

Para se desesperar que até esses textos tem continuação agora, para dizer que volta semana que vem, ou mesmo para dizer que eu escrevo as auto-ajudas mais bizarras: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Off: textos só do Somir essa semana… A Sally está bem?

    Sobre o texto: legal essa ideia levantada, Somir. Vez por outra sou tentado a pensar mesmo que, como alguns “esotéricos” dizem por aí, somos todos energia, um conjunto enorme de átomos, elétrons e protons e neutrons, sempre trocando energias positivas e negativas aqui e acolá, e que tudo isso faz parte de um grande sistema bem maior, tudo sendo energia. E não tem como fugir disso. Só que esse tipo de explicação para as coisas parece assustar as pessoas (talvez por parecer simples demais), quando entra no meio questões sobre ética, dignidade humana e tudo mais.

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    Geraldo Renato da Silva

    Pode parecer um tanto simplório e raso da minha parte, mas vejo o universo como uma imensa bateria, com os polos positivo e negativo: sendo assim onde está sobrando alguma coisa está faltando em outro lugar. E essa eterna busca para “equalizar” os opostos é que mantém as coisas funcionando.
    Esse modelo também pode ser aplicado em qualquer outro sistema (sociedade, corpo humano, etc).

    • Se é simplório e raso, estamos no mesmo time.

      Mas partindo dessa ideia, é importante entender que querer forçar o equilíbrio não ajuda, porque sem a energia que o desequilíbrio gera, não podemos existir. Tá na entropia, abraça o caos.

  • Só vou falar uma coisa: a partir deste ano, incidentes coletivos (morte nada a ver de várias pessoas ao mesmo tempo, tipo Boate Kiss, avião do Irã etc.) serão mais comuns.

    • É meio importante substanciar uma afirmação dessas… qual é a lógica desse aumento de tragédias coletivas? Algo que estamos fazendo ou uma outra conjuntura externa de elementos?

  • “Não sei por quanto tempo, pois a desigualdade está aumentando e eventualmente isso explode numa revolta popular”
    Sobre essa questão da economia e da mobilidade social, recomendo o filme Parasite (2019).

    Está acontecendo uma tendência nos países mais avançados, em que a nova geração não vai conseguir avançar em sua classe economico-social, vai estagnar ou até retroceder. Pessoas por volta dos 20 e poucos anos dificilmente terão as mesmas oportunidades de ascensão social que pessoas de 30 anos ou mais tiveram em sua época. Chegamos ao limite do avanço social espontâneo.

    A teoria mais aceita pra tal fenômeno é que quanto mais avançados ficamos, mais eficientes ficamos. Por exemplo, antes um metalúrgico era uma pessoa de classe média e com aposentadoria garantida, com o avanço tecnológico eles foram perdendo espaço. Antes dos metalúrgicos eram acendedores de lampião e assim vai. Muitas profissões vendidas como “seguras” estão se tornando obsoletas, as pessoas vão ter que se especializar cada vez mais. O cara que acendia lampião podia migrar pra outro trabalho manual, mas a tendência, salvo uma grande reviravolta na humanidade, é isso acabar.

    No caso do Brasil, ainda vai levar um tempo porque ainda tem vagas pra carregador de caixote e batedor de lata, porém, mais da metade dos adultos não têm Ensino Médio, o que fazer com essas pessoas no futuro? Largar na pobreza e na subsistência? E isso também leva à política, pois essas pessoas votam, geralmente em populistas ultrapassados. Alguns políticos por aí já debatem a questão da renda básica universal, se não tem emprego pra todos, pelo menos ninguém morre de fome. Se isso vai dar certo eu não sei, vide redução da população jovem mundial pra sustentar isso (já existem mais idosos do que bebês no mundo). Só sei que: quem acha que está seguro, está errado.

    • Seus pontos são muito válidos, e eu pretendo abordar vários deles no próximo texto, mas com um ângulo menos humano e mais… energético. Eu acredito que dependemos mais de buscar novas fontes de combate à entropia e menos de políticas canibalizando a energia que já temos.

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