Econoentropia – Parte 2

No texto anterior, estabeleci a ideia de que podemos traçar um paralelo direto entre leis da Física como a entropia e nosso funcionamento como sociedade: no final das contas, é tudo uma questão de utilização de energia para manter a complexidade de qualquer sistema. E que sem algum desequilíbrio, é impossível gerar movimento. Infelizmente, isso significa que muitas pessoas acabam exploradas para que o “mundo humano” continue girando. Mas, é a única forma de fazer isso?

Aqui é importante lembrar que dada a oportunidade, o ser humano se coloca no centro do universo… um dos nossos primeiros palpites sobre o Sol é que ele girava ao nosso redor, e deu muito trabalho mudar essa visão das coisas. E até hoje em dia: quando a conversa é sobre aquecimento global, dizem que o mundo está perdido! Mas, o mundo consegue se virar com alguns graus a mais, quem pode sofrer com isso somos nós, e não o planeta. Pessoas tendem a achar que tudo é sobre… pessoas.

Agora, de um ponto de vista energético, nossa luta contra a entropia não precisa ser enxergada como um sistema fechado, onde só a exploração de uma pessoa pela outra gera a energia necessária para o acúmulo de riquezas ou mesmo para o funcionamento básico da sociedade. Capitalismo e comunismo, nesse sentido, acabam presos demais nessa visão antropocêntrica das coisas, pelo menos na mentalidade popular. Mas a realidade é muito mais complexa.

Se é verdade que muito do que gera a desigualdade humana é resultado de exploração entre pessoas, o que nos torna cada vez mais ricos em geral é o melhor aproveitamento da energia do ambiente na forma de recursos naturais. E nesse sentido, nada é mais importante que nossa estrela mais próxima, o Sol. Virtualmente toda a energia armazenada nesta rocha flutuando no espaço veio da incansável fusão nuclear que ainda ocorre em seu núcleo. Essa energia irradiada pela estrela permite a existência da vida e sua complexidade absurda.

E como nos tornamos a espécie mais eficiente na captação dessa energia (melhores que as plantas, porque transformamos elas em energia também), conseguimos manter a humanidade numa curva crescente de avanços que desafiam a entropia. Não fosse essa quantidade absurda de energia grátis chegando no planeta a cada segundo, não teríamos como continuar adicionando complexidade às nossas vidas. É muito por isso que podemos considerar que uma espécie é tão avançada quanto sua capacidade de coletar e transformar energia.

Atualmente, somos os melhores do planeta, mas ainda uma piada no quesito eficiência. O Sol irradia quantidades imensamente maiores de energia para o vazio do espaço do que temos capacidade de aproveitar. Temos um motor de avião ao nosso dispor, mas ainda andamos na velocidade de uma carroça. E todo meu argumento de como podemos melhorar a vida da humanidade passa por aproveitar essa energia desperdiçada. Quanto mais nossa tecnologia permite que utilizemos os recursos livres ao nosso redor, mais energia entra no nosso sistema, e mesmo com pessoas tendo essa tendência à exploração, a abundância é tamanha que sobra o suficiente para até mesmo os mais pobres viverem com um padrão de vida muito melhor.

Não me parece inteligente esperar que a natureza humana mude o suficiente para que busquemos a igualdade como prioridade. Até porque os humanos menos adaptados à essa busca pela eficiência energética já foram extintos. Num universo onde existe a certeza de que tudo ao nosso redor tende à desorganização e a extinção da energia livre para uso, seria suicídio abandonar essa busca por recursos para sustentar mais e mais complexidade. Se a gente parar, a humanidade degrada até desaparecer.

Só na nossa vizinhança próxima existe uma estrela poderosa e estável e milhares de objetos celestes lotados de todo tipo de elemento químico que possamos querer. Não precisa ir muito mais longe do que Marte para alcançar um cinturão de asteroides com incontáveis toneladas de recursos exploráveis. E tudo relativamente perto de uma usina nuclear gigantesca cuja energia podemos usar sem medo de acabar por bilhões de anos. A humanidade precisa abraçar a realidade da entropia e colocar o aumento de complexidade pelo consumo maior de energia como prioridade.

O sistema humano parece estar chegando próximo de um primeiro limite de energia e recursos disponíveis no planeta. Não que as coisas estejam acabando, mas os frutos mais baixos dessa árvore já estão quase todos coletados. Precisamos dar novos saltos tecnológicos, e logo. Quando nossa espécie fica muito tempo sem uma grande nova fonte de recursos naturais e energia, começa a se voltar contra ela mesma. O que talvez explique o ambiente cultural atual… se não estamos coletando materiais e vivendo uma explosão de complexidade na vida média do cidadão, sobra tempo e disposição para ficar fazendo essa disputa do poder que já temos.

Não vai ser mais tolerância e doações ou mais consciência ambiental que vai ajudar nossa espécie, vai ser, como sempre, mais energia disponível. Está mais do que na hora de virarmos nosso foco para o espaço e para a robótica, porque nossa sociedade é como um bebê esfomeado, que precisa de mais e mais para continuar crescendo. Pelo ponto de vista energético, todo governo que não está virando o seu foco para uma nova “corrida do ouro” rumo ao espaço e aumento considerável da mecanização na sua economia está abandonando seu povo, não só na questão social quanto na competição econômica. O ser humano é motivado por esse crescimento contínuo porque não poderia ser diferente.

Os detalhes a gente resolve muito melhor com a energia fluindo. Como o Estado cuida dos seus pobres e divide os recursos são questões pequenas quando existem recursos para dividir. Essa mentalidade expansionista não é “masculinidade tóxica”, é a mecânica de funcionamento da realidade. Se você busca equilíbrio no seu sistema, você vai acabar exaurindo toda a energia dele em trocas internas. No mundo da entropia, ou a energia vem de fora, ou as coisas acabam. É por isso que de bilhões de espécies de seres vivos, só algumas resistiram até hoje. E é por isso que a espécie humana encontrou uma posição de tamanho poder em relação a todas as outras da Terra.

Quando você internaliza a ideia de que no final das contas nós e todo o resto da matéria e energia no universo temos um adversário em comum na entropia e que cada segundo é tempo “roubado” dela, fica tudo muito mais claro na hora de definir o que são boas e más políticas. Não é sobre as regras que existem no momento, não é sobre manutenção. É a luta constante por mais energia. E por sorte, ainda tem energia de sobra nesse universo… basta ir buscá-la.

Para dizer que não entendeu nada, mas está feliz que acabou; para dizer que eu devo estar fazendo propaganda para a concessionária de energia, ou mesmo para dizer que falar de pessoas é mais divertido: somir@desfavor.com

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