O rock morreu (mas passa bem).

A Billboard lançou no final do ano passado várias listas com os nomes e músicas mais populares de diversos gêneros musicais da década. Por curiosidade, fui ver como ficou a tabela do rock. Foi um choque. Não o choque de gerações por não saber quem eram aquelas bandas, e sim o de descobrir que entre os 10 primeiros, nenhum dos grupos sequer se parece com rock…

Essa é a lista:

Na minha nada humilde opinião, foi um tapa na cara. No meu tempo, essas músicas eram consideradas pop ou eletrônicas. Não só porque você praticamente não ouve um riff ou um solo, mas também porque nem as bandas relacionadas costumam se descrever como rock. Mas não vamos arrancar os cabelos à toa, há uma peculiaridade nas listas da Billboard: tudo o que não é feito por um artista solo pop ou um rapper é rock para eles. E, claro, não é uma medida de qualidade, e sim do que mais vendeu e foi tocado em rádios.

O que ajuda a explicar que nessa lista a primeira banda de rock que todo mundo vai concordar que é rock mesmo é o Foo Fighters no 16º lugar. Ainda se encontra coisas mais “reais” como Black Keys na sequência, mas mesmo as bandas oficialmente rock do resto da lista tem algo preocupante em comum: estão ficando cada vez mais velhas. Não são artistas recentes, alguns tem várias décadas de estrada. Faz muito tempo que uma banda de rock sem aspas não surge para ficar muito famosa. Mesmo os Arctic Monkeys já estão começando a ficar velhos…

Alguma coisa aconteceu. Um dos grandes gêneros musicais do mundo voltou a ser algo de nicho. Algo que você tem que escolher ouvir e conhecer algumas bandas para não ser bombardeado com coisas como Imagine Dragons (eu não gosto, nada contra você gostar, mas nem eu nem eles achamos que fazem rock). O Spotify, por exemplo, não tem mais a menor noção do que configura rock a não ser que você olhe na playlist de clássicos. O gênero está diluído de tal forma que daqui a pouco qualquer música que usar uma guitarra vai valer como rock, até aquelas músicas bregas do Norte.

Mas esse texto é só um velho reclamando das crianças e seus gostos horríveis? Claro que não. Entendo que com o passar do tempo o que configura música vai mudando na cabeça das pessoas, eu andei lendo sobre as mudanças técnicas na produção musical nessa última década e entendi que o que mais vende no pop hoje em dia são músicas com um estilo específico, com menos melodias, algo mais próximo do rap. Os profissionais da área não são tontos e vão na direção que mais rende. No meu tempo de adolescente era uma porcaria também, mas era a porcaria que funcionava com a minha geração. Isso é normal, é cíclico. Alguém já escreveu um texto dizendo que os Beatles eram a morte da música…

Mas tem uma coisa que está me incomodando muito na música moderna, e especialmente no que chamam de rock atualmente: se eu não sei de onde está vindo o som eu fico imediatamente em dúvida se é alguém escutando uma música que gosta ou se é uma propaganda. E Imagine Dragons no topo da lista da Billboard é algo emblemático: a última vez que eu ouvi “Believer” não foi numa rádio ou num serviço de streaming, foi num comercial da XP Investimentos. E quando você presta atenção, a música é perfeita para um comercial mesmo. Aliás, quase todas as músicas dessa banda parecem que foram criadas para um comercial de TV…

E, peraí… olha essa lista de novo. Percebe algo em comum? Todas elas têm a mesma pegada de música boa para juntar com imagens de pessoas (multicoloridas) e passar a mensagem de uma empresa de telecomunicações, por exemplo. Se colocar qualquer uma delas baixinho atrás da voz de um narrador usando palavras vazias de publicidade, elas se encaixam perfeitamente. Tem uma pegada animada, não “provocam” seu ouvido com quebras de ritmo ou instrumentos malucos, não tem um riff ou um solo que berra por atenção, crescem na hora do refrão para dar uma sensação de grandiosidade… e os temas são os mais genéricos possíveis: “eu sou uma pessoa que acredita”? Não são letras de rock, são hashtags de rede social!

Eu lido muito com “músicas de propaganda” no meu dia a dia, eu sei direitinho o que uma precisa ter para se integrar com uma peça publicitária, e não é que se eu visse qualquer uma dessas 10 primeiras numa lista de músicas para comercial eu provavelmente escolheria para meu trabalho? O rock moderno parece ser basicamente música de comercial. Não música comercial, DE comercial. Tem diferença. Pop é música para vender música, esse tipo de “publirock” é música feita para vender produtos e serviços. E as bandas de mais sucesso nessa época sabem fazer tudo o que precisam para um publicitário escolher suas músicas.

Nos anos 90 eu teria uma dificuldade enorme de encaixar Nirvana ou mesmo Pearl Jam numa propaganda. Imagina vender plano de celular ou carro popular com “Smells Like Teen Spirit” no fundo? As letras não eram nem um pouco seguras para o ambiente esterilizado da publicidade, e as músicas chamavam atenção demais. Não dava para escutar o narrador dizendo que a empresa se importa com seus consumidores. Publicitário quer música que não fale nada, para evitar que fale alguma coisa problemática.

E digo mais, até por isso estamos vendo uma redução no famoso “comportamento de rockstar” entre as bandas. A marca que está te pagando horrores para colocar a música no comercial não quer estar misturada com gente que se enche de drogas e quebra quartos de hotel. E considerando o ambiente cultural, é bom nem falar nada demais nas redes sociais ou entrevistas, tipo jogador de futebol. Cala a boca e faz sua música com letras vazias e sons agradáveis de fácil digestão, cala…

Era um nicho de mercado pronto para ser explorado, e quase toda a lista desses 10 primeiros colocados pulou na oportunidade. E não vamos nos enganar: se vendeu tanto, é porque as pessoas gostam. Às vezes a pessoa só quer um fast food mesmo, e de ser para se fingir de rebelde enquanto isso (a música Feel it Still na lista é literalmente sobre ser rebelde só para fazer graça) melhor ainda! O rock ainda evoca um sentimento divertido na mente das pessoas, e não faz diferença se é honesto. Se servir para adicionar uma “hashtag de personalidade” na hora, está valendo.

O rock rock mesmo morreu. Morreu como movimento cultural, agora sendo explorado por corporações e publicitários com o apoio de bandas espertas para fazer dinheiro nesse mercado de “publirock”. Mas é claro, não morreu para quem ainda é do rock, quem foi e vai ser criado com bandas que ainda fazem músicas como expressão artística, e não como trilha sonora de propaganda de rede social… voltamos a ser um nicho. Algo que só entende quem se importa em entender. Podemos culpar essa morte pela cultura excessivamente publicitária (as pessoas se policiam sobre o que falar como se estivessem fazendo uma propaganda o tempo todo) criada pela internet, mas também não podemos esquecer que é a partir dela que ainda temos acesso às milhares de bandas novas que surgem a cada ano, algumas querendo a fama clássica de rockstar, outras só querendo que alguma agência de publicidade as encontre para se vender e ganhar a vida.

Talvez o ambiente cultural mude mais rápido que eu preveja aqui, mas é bem provável que a era das grandes bandas e rock rock no topo das paradas tenha acabado. Porque no final das contas nem é questão de gosto musical popular (as pessoas gostam do que toca várias vezes), e sim questão da maior parte da humanidade ficar de saco cheio dessa “publicitarização” da cultura em geral e exigir um pouco mais de riscos de seus artistas. E francamente, isso depende exclusivamente de quanto dinheiro se consegue fazer com esse tipo de rock da lista que ilustra esta postagem. Enquanto Imagine Dragons render tanto assim, pode ter certeza que as bandas que não tocam “publirock” na lista vão ficar mais e mais velhas…

Para dizer que agora vai chamar essas bandas de publirock, para dizer que se isso é rock Beatles é death metal, ou mesmo para dizer que funk carioca é muito mais rock n’ roll que todas essas bandas juntas: somir@desfavor.com

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Comentários (13)

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    Geraldo Renato da Silva

    A música que mais toca nas rádios e na Internet nada mais é do que o retrato da nossa atual sociedade: tudo muito certinho, limpinho, não se pode ofender ninguém, risco zero. Nunca tinha ouvido falar dessa banda (Imagine Dragons) e ao ouvir, poderia falar que é qualquer estilo de música, menos rock.
    Mas ainda tenho esperança: quem saiba esteja surgindo em alguma garagem uma banda que irá desafiar o mainstream?

  • Uma dúvida que me surgiu a partir do ponto exposto pelo texto foi: será que essas bandas realmente lançam essas músicas mirando o mercado de trilha de comercial de TV, ou eles compõem com tamanha paumolescência que o trabalho só serve pra isso e olhe lá?

  • É um tanto triste perceber isso para os amantes de rock clássico, ou para aqueles que tiveram uma educação musical mínima.

    Naquele meu texto do desfavor convidado sobre pop e rock eu comentei algo do tipo que traz a tona o tema de hoje: hoje tudo é rock, tudo é pop. O gênero propriamente dito em termos estruturais de composição já era, ficou diluído entre tantas vertentes que passeiam pela eletrônica.

    E é triste também pensar que é o dinheiro que manda na indústria do entretenimento, para além do péssimo gosto das pessoas no geral. Isso me faz lembrar não só de imagine Dragons como também do Beiber esses dias por aí querendo emplacar aquele hit “yummy” nos 1os lugares e fazendo um aue nas redes sociais.

    • Outro dia desses eu estava vendo uma compilação de sucessos dos anos 90 e 2000, e virtualmente todas as bandas que eu desprezava na época como “porcaria pop” são muito mais rock que qualquer coisa nesse top 10.

      Eu estou quase pedindo desculpas para o Nickelback…

      Quase.

      Sobre o lance do Bieber, eu fiquei dividido: é mais ou menos como se fazia muitos anos atrás de mandar as fãs ligarem para a rádio pedindo a música. Não soa como algo ético, mas, parece só uma continuação do que sempre se fez.

  • “O gênero está diluído de tal forma que daqui a pouco qualquer música que usar uma guitarra vai valer como rock, até aquelas músicas bregas do Norte.”
    Mas eu achava que isso tinha acontecido a tanto tempo… nem sei que bandas são essas aí. Só fui reconhecer porque você falou no comercial da XP Investimentos.
    Por falar em música de propaganda, eu gostei daquele comercial do cachorro, do facebook. Acabei ouvindo um monte de músicas da Carmen Miranda por isso. Eu não conhecia o trabalho dela e descobri que tinha música que eu conhecia mas não sabia que a voz dela que tinha tornado famosa.

    • Sapos na panela. Muita gente só percebeu o que estava acontecendo com essa lista da Billboard, eu incluído. Mas sim, faz tempo que a coisa tinha perdido o rumo…

      Sempre divertido descobrir porque algo fez muito sucesso no passado. Comerciais podem ser excelentes para aumentar o conhecimento musical das pessoas, menos quando as bandas fazem músicas pensando em comerciais. Música comercial > Música de comercial.

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