Primeiros Socorros – Sobrevivendo a um naufrágio.

Brasil é um país com muitas praias, rios e lagos, portanto, um país com um número significativo de embarcações. Você sabe o que fazer se estiver em uma delas e, por algum motivo, ela afundar? Apesar dos naufrágios não serem tão comentados, eles são mais comuns do que se imagina. Segundo a Organização Marítima Internacional, ocorrem cerca de 4 vezes mais naufrágios em viagens internacionais do que acidentes aéreos. Hora de saber como sobreviver. Desfavor Explica: sobrevivendo a um naufrágio.

O primeiro passo é a prevenção. Antes de viajar em uma embarcação, confira se ela está equipada com coletes e botes salva-vidas para todos. A gente acha que sempre estarão, mas isso não é verdade. Até mega embarcações como o Titanic tinham menos coletes e botes do que deveriam. Não confie, fiscalize, principalmente se for no Brasil. Todo barco, por mais luxuoso e grande que seja, pode afundar.

Dependendo do tipo de viagem que você vai fazer, é preciso observar umas coisinhas a mais. Se é só um passeio, que vai e volta sem se distanciar muito da costa, coletes e botes bastam. Mas, se for um deslocamento maior, navegando em mar aberto, além disso é preciso verificar se há kits de sobrevivência, estojos de primeiros-socorros, equipamento de sinalização e manuais com premissas básicas sobre como se portar em caso de naufrágio. Converse com os funcionários do navio e peça para que te expliquem onde estão estes itens e como utilizá-los em caso de emergência.

O grande diferencial em um naufrágio é conseguir avaliar a situação e saber quando é melhor ficar na embarcação ou quando é melhor pular fora, literalmente. Normalmente os membros da tripulação são devidamente treinados para te passar essa orientação, mas no Brasil… melhor você aprender como tomar essa decisão.

A grande pergunta é: você está correndo perigos se ficar no barco? É esse o indicador para você ficar ou ir para a água. Se não estiver correndo perigo, é sempre melhor ficar no barco. Por exemplo, se o barco estiver pegando fogo, você corre perigo e é melhor sair dali, pois, entre outros riscos, podem acontecer explosões. Se há apenas água entrando lentamente em um barco grande, você ainda não corre perigo, é melhor esperar por socorro no barco.

Mas, saiba que, independente do que aconteça, você sempre estará correndo perigo se o barco estiver prestes a afundar. Então, nada de deixar para sair do barco no último minuto.

Quando um barco afunda ele suga para o fundo tudo que estiver nele ou perto dele, então, se o nível da água está subindo rápido, é melhor sair dali. No geral, o tempo que ele demora a afundar está relacionado ao seu tamanho. Grandes barcos, como cruzeiros, podem demorar dias para afundar. Avalie a situação, o ângulo de inclinação do barco e a velocidade com a qual a água está entrando. Se perceber que ele vai afundar em breve, saia.

Em tese, todos os membros da tripulação estão hierarquicamente abaixo do Comandante, ele é o “Presidente do Navio”, por assim dizer. As decisões são dele e o resto apenas executa. É assim por se supor que, além de ser o membro mais experiente da embarcação, ele também é o que tem a melhor noção do que está acontecendo, pois é quem está conduzindo o barco, posição que, muitas vezes, lhe confere informações privilegiadas. Em tese, a decisão de abandonar o barco é do Comandante, mas, novamente: Brasil. Faça o que achar melhor para sua sobrevivência.

Se é certo que ela vai afundar, o ideal é sair dele com um colete salva-vidas preso ao corpo em um bote salva-vidas. Mas, se fosse para falar da regra, não precisava deste texto, bastaria ler as instruções de segurança do navio.

Primeira providência: vista uma camiseta de manga comprida (que protege do frio e de queimaduras solares) e um colete salva-vidas. Porém, um detalhe: se você está no interior do navio e a água está entrando muito rápido, vista o colete mas não o infle até estar do lado de fora, uma vez que o colete inflado pode atrapalhar seu deslocamento em um ambiente com muita água e até te deixar preso a ele.

Depois que você sair do interior do navio, faça tudo que estiver ao seu alcance para sair em um bote salva-vidas. Se não houver bote, faça tudo que estiver ao seu alcance para sair do barco com algo que te ajude a flutuar: boia, prancha, pedaço de madeira. Vale qualquer coisa. Só pule na água sem nada em caso de vida ou morte.

Pior cenário possível: você tem que pular do barco imediatamente, sem colete, sem boia, sem nada. Algumas dicas que podem te ajudar: não pule descalço, destroços podem machucar seu pé. Olhe antes de pular, para não cair por cima de metais, madeira ou até outras pessoas. Pule o mais longe possível que conseguir do barco, de preferência em uma área bem distante da hélice do motor. Assim que cair na água procure algo que flutue para se segurar.

Seu objetivo é cair de pé na água, tenha isso em mente na hora de pular. Posição recomendada para pular: Coloque um dos braços no abdômen e segure o cotovelo oposto. Use a outra mão para tampar o nariz. Pule com as pernas cruzadas, assim é mais provável que os pés entrem na água primeiro. Mesmo que você saiba nadar, tampe o nariz, pois pulando de grandes alturas você pode acabar aspirando água sem querer.

Se eu tivesse que indicar um único item para que você pegue antes de abandonar o barco seria água potável. O maior estoque possível. Se puder, encha uma mochila e leve. Muita coisa é importante, mas nada, absolutamente nada é tão importante, principalmente em naufrágios no mar, como água potável, pois você não tem a menor chance de conseguir isso no meio do oceano e mesmo em rios e lagos a água pode te fazer mal, causando uma diarreia que vai te desidratar e te enfraquecer.

Bato nessa tecla pois as pessoas tendem a se preocupar muito com comida. Comida você consegue extrair da água, mas água potável nem sempre. E mesmo que não consiga comida dentro da água, o ser humano pode sobreviver alguns dias sem comida, temos uma reserva de gordura no nosso corpo que nos permite isso. Mas dificilmente se sobrevive por dias sem água. Beber a água do mar, que é salgada, não é uma opção, ela só vai te desidratar ainda mais rápido. Beber água doce que cause diarreia também.

Dica importante: evite beber muita água nas primeiras 24h após o naufrágio. Pelo estresse e movimentação do evento, é bem provável que a água provoque náuseas, te faça vomitar e passar mal. No primeiro dia, golinhos moderados, para não desidratar, e só depois beba de forma mais generosa.

Se você teve o privilégio de conseguir sair em um bote salva-vidas, é bem provável que ele tenha uma coisa chamada “captadores”, recipientes para armazenar o orvalho durante a noite ou água da chuva, gerando um suprimento extra de água potável. Se não houver um captador, improvise o seu: deixe uma sacola aberta, uma tigela, qualquer coisa capaz de recolher água da chuva (também vai recolher orvalho) em um local estável e seguro.

Ao cair na água, independente de bote, boia ou o que quer que esteja te ajudando a flutuar, se afaste o máximo que puder da embarcação, pois quando ela afundar completamente, vai criar uma sucção poderosa que pode te levar junto para o fundo. Afaste-se também de qualquer vazamento de óleo, combustível ou coisa do gênero. Não apenas pelo risco de explosões e fogo (sim, o mar pode pegar fogo), mas também pelo efeito tóxico que pode ter para a sua saúde.

Quando maior a embarcação, maior será a sucção quando ela afundar. “Mas Sally, como sei o quanto tenho que me afastar?”. Afaste-se pelo menos uma embarcação de distância, ou seja, o tamanho do barco no qual você está. Se o seu barco tem 30 metros, afaste-se pelo menos 30 metros. Não é brincadeira, ainda mais se for um barco grande. Essa sucção te puxa junto mesmo que você esteja com colete salva-vidas. Nem sempre é possível se afastar tanto, mas ao menos tente.

Entre todas as opções, o nado “peito” (aquele em que a pessoa nada como uma rã) é o mais indicado em custo-benefício (deslocamento x consumo de energia). Nade para longe. Se não sabe nadar se agarre a algo e bata as pernas, não tem mistério. Apenas se afaste da embarcação o máximo que puder, caso contrário você não vai sobreviver.

Observe seu corpo e verifique se há ferimentos. A adrenalina do evento pode camuflar a dor e você pode estar ferido e não se dar conta. Sangramentos significativos precisarão de um torniquete, acredite, você não quer sangrar na água, as consequências são as piores (desde hipotermia até tubarões). Um pedaço de roupa basta, amarre de forma firme a região anterior ao local da ferida, ou seja, a região por onde o sangue passaria para chegar ao local machucado. Isso vai impedir que muito sangue chegue ali e saia do seu corpo.

Só depois que a embarcação afundar por completo é que você deve retornar ao local onde ele estava, pois é lá que as equipes de resgate vão procurar sobreviventes. Além disso, pode ser que alguém que tenha um lugar sobrando em um bote salva-vidas te acolha, tornando sua espera menos ruim.

Com ou sem bote, os náufragos devem se manter próximos, pois as chances de serem avistados pelo resgate ou por embarcações que estão passando são maiores se forem um grupo coeso. Se avistarem qualquer embarcação, helicóptero, mergulhador… qualquer humano por perto, essa é a hora de gastar aquela energia que estavam economizando: gritem, acenem, façam o que for possível para serem percebidos.

Caso alguém esteja em um bote salva-vidas, fica mais fácil chamar a atenção do resgate, pois os botes costumam estar equipados com algumas ferramentas valiosas para isso.

Os recursos utilizados normalmente são: 1) espelhos ou qualquer superfície reflexiva, usados durante o dia, refletindo os raios solares em direção ao outras embarcações ou quem quer que possa te resgatar; 2) Corantes de marcação, um pó que dissolve na água e a colore com uma cor chamativa criando um rastro para o local onde você está por algumas horas; 3) Apitos, ideais para fazer barulho, quando a visibilidade não estiver boa 4) Lanternas, ótimas para sinalizar à noite e 5) Sinalizadores, basicamente foguetes luminosos, uma espécie de fogos de artifício que não explodem, também ideais para serem usados à noite.

A regra é ficar no local do naufrágio, mas, toda regra tem exceção: se perceberem que estão próximos de terra firme, é recomendável abandonar o local do naufrágio. As chances de sobrevivência do grupo são maiores se estiverem em terra e as equipes de busca sempre procuram nos territórios próximos. Normalmente isso é constatável pela visão: você vê uma ilha ou uma costa próxima, mas também existem outros sinais que podem indicar que há terra por perto.

Pode ser que você não consiga avistar a terra se o tempo estiver ruim, se houver muita chuva ou névoa ou se sua visão for uma porcaria. Nesse caso, fique atento a estes sinais: nuvens paradas no meio de um céu limpo, o tom da água vai ficando perceptivelmente mais claro em determinada direção e aves marinhas caçando (normalmente elas caçam perto de onde descansam, ou seja, de terra firme). Avistar galhos, folhas ou até lixo boiando também indica que há terra por perto. Se houver a possibilidade de ir para terra firma, vá.

Vai ter um outro texto te ensinando a sobreviver em uma ilha, mas, por hora, se você chegou à terra firme, considere-se uma pessoa de sorte. Busque um abrigo (uma caverna ou algo protegido) ou improvise um abrigo, procure uma fonte de água doce, frutas e outros alimentos e esteja atento ao resgate, se possível deixando um sinal claro de SOS que seja visível para quem passe pelo mar ou pelo ar.

Vamos supor que você não teve tanta sorte e não achou terra firme. Não tem problema, não perca as esperanças, a regra é que náufragos sejam resgatados. “Mas Sally, você me mandou focar na água potável, não peguei porra nenhuma de comida e agora estou com fome”. Calma. Se você estiver em um bote salva-vidas, ele provavelmente contém um estoque de comida bem calórica em algum cantinho, provavelmente abaixo do banco, é só procurar. Se você está em um bote porcaria, ele não tem estoque de comida, mas deve ter material para pesca. Se você está na merda mesmo, sem bote, hora de improvisar.

Ao contrário do que disse o Secretário de Pesca, o peixe não é um animal inteligente. Com um pedaço de madeira ou plástico e uma linha desfiada da sua roupa você consegue pescar. Com dificuldade, mas consegue. Às vezes até com a mão você consegue pegar um peixe. Não, não precisa de minhoca, a visão dos peixes é um lixo, qualquer coisinha que balance ou que brilhe vai fazer um idiotão de guelras acabar mordendo sua isca. Amarre a linha na madeira e algo pequeno e chamativo na outra ponta da linha. Faça silêncio e tente não se mexer. É possível que algum peixe morda a isca.

Dá para improvisar uma rede com uma roupa, basta atirar por cima dos bichos quando estiverem passando. Muitos vão fugir, mas sempre tem um peixe com delay que fica paralisado e acaba sendo pego. Só coma depois de retirar os intestinos, não é difícil de achar, basta procurar um tubinho que vai da boca ao cu do bicho. Ah sim, evite comer mariscos e ostras, eles podem ter um efeito devastador no organismo que vai mais te prejudicar do que te ajudar.

Agora vamos pensar na situação mais tenebrosa possível: você não tem nada, absolutamente nada. Está tipo Rose do Titanic, deitado em uma tábua de madeira e nem água potável tem. O que fazer? Lamento te informar, mas sua melhor chance para permanecer vivo é beber sua própria urina. Provavelmente há algum destroço nas proximidades da área do naufrágio que sirva como recipiente: faça xixi ali e beba, isso vai retardar sua desidratação.

Além da hidratação, a principal preocupação de um náufrago à deriva deve ser com sua temperatura corporal, é ela (ou o desequilíbrio dela) uma das principais causas de morte. Se o local for frio, há um grande risco de hipotermia e você vai ter que fazer o impossível para se manter aquecido. Se o lugar for quente, o sol vai te castigar e você pode morrer desidratado ou de insolação.

Sua obrigação é: em lugares frios, fazer o impossível para manter suas roupas secas e seus pés muito bem aquecidos. Em lugares quentes, o dever de casa é sempre cobrir não apenas o corpo com roupas, deixando a menor quantidade de pele possível exposta (roupas fornecem alguma proteção solar) como também proteger cabeça e rosto, para evitar insolação e danos aos olhos.

Novamente, vamos pensar no pior cenário possível: você está boiando na água (com um colete ou algo que te ajude), não tem como se manter seco e aquecido. Ok, ainda assim existe algo que você pode fazer: dobre as pernas em direção ao peito e abrace os joelhos, esta posição ajuda a conservar o calor. Se houverem mais pessoas por perto, fiquem próximos e se abracem (isso vale inclusive para quem estiver no bote).

Vamos supor que você percebe que há tubarões nas proximidades. O melhor a fazer é ficar o mais quieto que puder, para não chamar a atenção. Se houver uma ferida exposta, é hora de dar o seu melhor para estancar o sangramento, eles não são muito bons de visão, mas de olfato sim. Se eles se aproximarem de você, lute.

Normalmente tubarões não compram briga com suas presas, se elas de alguma forma os machucam, eles desistem e vão atrás de algo mais fácil. Um pedaço de metal ou de madeira, um sinalizador, vale tudo para se defender. Sua melhor chance é encontrar algo pontiagudo ou cortante, pois uma simples pancada debaixo d’água não vai machucar um tubarão.

Em todas as situações, procure manter a calma. O estresse turva o discernimento e te leva a tomar atitudes idiotas. Faça a sua parte e espere, são muito grandes as chances de o resgate chegar. Estamos na era do satélite, do GPS, da internet. É possível rastrear de onde foi o último lugar que seu celular emitiu sinal. Tenha calma e faça o que estiver ao seu alcance para se manter vivo, alguém vai te encontrar.

Para dizer que agora não anda mais de barco, para dizer que vai fazer aulas de natação ou ainda para dizer que não confia em resgate tupiniquim: sally@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Matéria bastante interessante da BBC, publicada em 2017, sobre uma argentina (!), filha de irlandeses, que era camareira em navios da companhia britânica White Star Line e sobreviveu não a um, mas a nada menos que TRÊS naufrágios nos anos de 1911, 1912 e 1916, de forma quase que consecutiva. Dentre esses desastres, inclui-se o do Titanic. O apelido dela ficou sendo “Senhorita Inafundável”:

    https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39764364

    Em tempo: ela morreu aos 84 anos, de insuficiência cardíaca e navegou por mais de quatro décadas.

  • Por coincidência, nas festas meu pai estava na piscina, em cima de uma bóia, e me perguntou quando tempo dava pra sobreviver à deriva em cima de uma bóia como aquelas. E a primeira coisa que eu falei foi “depende se o senhor tem acesso a água potável ou não”

  • Esse negócio de instruções de segurança pro caso do navio afundar é besteira. Na hora do desespero do “salve-se quem puder” ninguém va lembrar de porra nenhuma.

    • Lembra sim. Por mais que você pense que esqueceu tudo, quando o cérebro humano é confrontado com o risco de vida, ele usa todos os recursos que tem para ajudar a pessoa a sobreviver. Isso incluí ir buscar informações arquivadas que muitas vezes seu consciente nem lembravam que existiam.

  • Li não lembro onde que basta uma única e mísera gota de sangue no mar para atiçar os tubarões em alto-mar. É assim mesmo?

    • Sim, é isso aí. Tubarões conseguem sentir o cheiro de uma gota de sangue mesmo estando a quilômetros de distância.

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