A série já fez sucesso e a Netflix prometeu continuar, mas isso não resolve a verdadeira questão: se nós gostamos. Sally e Somir discordam, e os impopulares enfrentam o monstro.

Tema de hoje: a série The Witcher é boa?

SOMIR

Com certeza. Para qualquer juízo de valor nessa vida, precisamos de parâmetros: não se julga um carro pela sua capacidade de flutuar, não é mesmo? Não adianta esperar que uma série sobre um mutante medieval que mata monstros seja politicamente relevante no mundo atual. Ou mesmo extremamente complexa em sua estrutura. The Witcher é baseado em livros de fantasia, e francamente, só se tornou mundialmente popular ao ponto de virar série por causa dos jogos. Não é Dostoiévski, mas, não precisa ser…

Então, vamos julgar The Witcher pelo o que realmente é: uma série divertida de fantasia medieval, que assim como tantas outras, bebe da fonte de Tolkien e torna as coisas mais “adultas”. Elfos, dragões, feudalismo e tudo mais que faz parte do gênero. Normalmente é questão de que elemento extra o autor vai colocar nesse universo. O polonês Andrzej Sapkowski decidiu usar um protagonista insensível num mundo mais cínico onde as pessoas fazem sexo. George R. R. Martin decidiu ficar sem os elfos e focar mais em disputas políticas num mundo muito mais cínico onde as pessoas fazem sexo. O polonês aceitou mais a “bobagem” da premissa e se divertiu com isso, o americano tentou dar mais realismo e está quase morrendo de estresse para finalizar sua obra.

E foi isso que a série da Netflix entendeu: se você entrar no mundo de The Witcher esperando as tramas complexas de Game of Thrones, vai ficar decepcionado mesmo. O escopo da história é outro, bem mais limitado em número de personagens e espaço geográfico. Estamos acompanhando Geralt, na sua visão limitada das coisas, não um mundo inteiro como na obra de Martin. Não se compara duas coisas tão diferentes. The Witcher precisava ser tratado com menos reverência pelo roteiro, mais focado em criar situações divertidas de se ver nos episódios do que alimentar aquele seu lado conspirador no cérebro.

O formato desconjuntado de tempos nos episódios gera um resultado que faz tempo que não vemos em grandes séries: The Witcher costuma ter uma história por episódio que você provavelmente consegue entender sem ter visto outro. Tem sempre algo se resolvendo num capítulo com a personagem principal. A série é mais simples porque essa é a sua alma. Uma boa e velha história sobre um “pistoleiro de western” num mundo com magia e dragões. Premissa excelente.

Eu confesso que fiquei chocado com o primeiro episódio: tudo tinha uma cara meio… barata… desde o figurino até os cenários e efeitos especiais. O Superman é um Cigano Igor de peruca branca colada com cuspe, parece que as coisas foram filmadas num quintal… e a história estava meio “bobinha” logo de cara. Tanto que eu demorei para ver o segundo episódio. Mas ainda bem que o fiz: o Superman continua ridículo, os efeitos especiais meio bizarros, mas o mundo começa a crescer dentro da sua cabeça. É quando você lembra porque jogou os três jogos mesmo com aquele sistema de combate enroscado (se você discorda, está errado) e seu computador querendo morrer pela complexidade gráfica. De alguma forma, Geralt e cia. tem o poder de te pegar desprevenido e conversar com aquela parte da sua cabeça que não quer muita complexidade e tensão nas histórias.

Geralt é um velho ranzinza num corpo jovem cheio de esteroides mágicos, Yennefer é uma ex-baranga que racionaliza cada besteira que faz, Jaskier é um alívio cômico… e a série os joga em aventuras fantásticas. Só isso. A Ciri com certeza vai ganhar mais destaque daqui pra frente, mas não vai ter nenhuma trama cheia de personagens armando uns contra os outros para tirar seu foco das aventuras. O mote da série é “relaxa e goza”. Homens querem ser respeitados e falar pouco, mulheres querem ficar lindas e poderosas num estalar de dedos, é só fantasia. Para de se preocupar.

Se Game of Thrones começasse a demonstrar um desinteresse tão grande pela complexidade da história de uma hora para outra, seria uma traição ao que foi prometido no começo e viraria uma série merda. Opa… foi justamente isso que aconteceu! Game of Thrones virou The Witcher de uma temporada para outra, o que me deixou puto da vida. Mas ao contrário da Sally, eu não estou transferindo minha putez para a nova série, afinal, The Witcher não mentiu para ninguém: a ideia é essa de simplicidade mesmo. Se achar divertido, acompanhe, se quiser outra coisa… bom, vá procurar outra coisa para ver. Infelizmente nos roubaram de um final decente para a outra série de fantasia medieval, mas isso não é culpa dessa série.

A série tem defeitos? Com certeza. Uma lacradas aqui e acolá, umas decisões estéticas estranhas como as armaduras dos vilões, aqueles dragões de gráfico de PS2… mas nenhum desses defeitos mexe com a alma da história. Geralt é Geralt e Yennefer é… bom, ela é quem vai carregar essa série, tenho certeza. O que é uma pena, quanto mais famosa ela ficar, menos vamos ver ela pelada, o que valeu o ingresso da primeira temporada sozinho. Mas vida que segue.

Não pense demais, algumas coisas foram feitas só para serem divertidas. A obra do polonês não foi pensada como uma complexa trama política, e sim como um protagonista calado que mata monstros e come muita mulher num mundo medieval. Tudo está a serviço dessa premissa. Não é nem que a história seja simplória e sem imaginação, é que ela sabe ficar concentrada nas personagens que vamos nos afeiçoando. Essa é a escolha dessa série. Existem outras formas de fazer isso, mas não faz sentido a julgar por escolhas que nem queria fazer.

Tolkien tinha sua fantasia ariana de poder incorruptível, Martin se valida pela inteligência de suas personagens, e Sapkowski queria ver o Clint Eastwood com uma espada enfiando porrada em monstros. São coisas diferentes. Temos que aprender a entender essas diferenças. E se você consegue vencer esse preconceito, como eu venci ao começar a assistir o segundo episódio, a tendência é se divertir.

E se não gostar mesmo assim, não era pra você. Mas não quer dizer que é ruim. Jogue uma moeda para o seu Witcher…

Para dizer que nerd nunca te abandona, para dizer que cada vez que Geralt não responde para uma mulher você vibra, ou mesmo para dizer que tem coisa que mulher não entende: somir@desfavor.com

SALLY

Rápido e rasteiro: o seriado “The Witcher” é bom?

Não, meus queridos, nem tudo na vida é superprodução, efeitos especiais e magia. Acho que Game of Thrones mostrou que mesmo que uma produção jorre dinheiro, pessoas bonitas e fantasia pirotécnica, ainda pode causar desgosto.

Para começo de conversa, é um troço extremamente infantil e cheio de clichês. Sabe aquele seriado de criancinha no qual enfiam um monte de morte sangrenta e cena de sexo para não parecer que é de criancinha? Pois é, conto de fadas para adultos. Haja saco, haja vocação para a distração e para viver em um mundo de fantasias. Sem tempo, irmão.

O personagem principal é aquele clichezão do rebeldão competente, o ironicão com bom coração, o grosseirão que salva o dia. Um feiticeiro cheio das magias que fala de forma afetada querendo parecer bad boy mas, na verdade, parecendo câncer de garganta, mais ou menos como Christian Bale fez no papel de Batman. Para piorar, se chama Geraldo (ok, é Geralt em inglês, mas não deixa de ser Geraldo).

Geraldão é o combo completo do clichê de herói que nerd se identifica: é um desastre em interações humanas, mas acaba sendo admirado por todos. Aquele perfil psicológico superficial e manjado de pessoa boa porém traumatizada e arredia. Geraldão sai por aí matando monstros visivelmente mais fortes do que ele (e ele sempre vence), comendo mulher e se comportando de forma socialmente atípica.

Os outros dois personagens principais também são nauseantemente clichê: uma menina feia, fodida e humilhada que acaba exaltada se tornando uma bonita e poderosa feiticeira, dando uma sensação de volta por cima a todas as barangas do mundo. Por fim, temos uma menina que é neta de uma rainha e acaba ficando na merda depois que sua mãe perde o trono, vagando sozinha por aí, em uma jornada de superação e crescimento que me faz querer tomar um Plasil.

A vida dos três está interligada em uma trama que, por mais complexa que pareça, continua bobinha. Fazer do roteiro um labirinto de idas e vindas, de encontros e desencontros, bagunçar o tempo linear, não são sinônimo de qualidade. Muito pelo contrário, esses recursos são pirotecnia para distrair o público de uma história muito da medíocre e manjada que está sendo recontada pela milésima vez, mas com esse detalhe diferente, para fazer parecer que tudo é diferente.

Dá ao nerd a sensação de que ele não é um fodido, pois Geraldão sofre os mesmos problemas que ele (desajuste social, dificuldade de relacionamento, mente conturbada e outros) mas ao mesmo tempo é foda: come geral, mata monstro, sempre escapa da morte, é admirado. Ou seja, sim, é possível ser um fodido mas também ser foda – na ficção. Gente com a cabeça fodida, na vida real, ou arruma a cabeça ou vive na merda.

Naquela uma hora do episódio os fodidos lavam a alma quando o personagem com quem se identificam, o Superman de Olho Amarelo, mostra que é possível ser tão fodido da cabeça, tão fodido emocionalmente e, ao mesmo tempo, bem-sucedido. Não é. Mas deve ser um conforto para todos os fodidos da cabeça se apegar à ideia de que não vão ter que arregaçar as mangas e resolver seus problemas de cabeça.

A série é over. É muita magia, muito efeito especial, muita fantasia. Parece que a intenção é sobrecarregar os sentidos de quem assiste para que o cérebro entre em estado de overexposição e não questione o roteiro vazio e infantilizado. Consegue ser ainda pior do que Game of Thrones, pois não tem aquele conflito político complexo, é apenas fantasia, fantasia, fantasia. Monstro, magia, luta. É um anestésico mental para quem não quer lembrar ou ficar neste mundo.

Por uma hora, cada capítulo do seriado te suga com um excesso de estímulos para outro mundo e te tira da realidade, sem te acrescentar absolutamente nada. São calorias vazias. Quase que uma pornografia da alienação, com roteiro pensado para fazer a mente dos excluídos chegar a um orgasmo de satisfação se realizando através dos três personagens principais, que são basicamente os três grandes arquétipos dos fodidos da atualidade.

Gozar com o pau dos outros já é triste, gozar com o pau dos outros ficcionalmente é deprimente. Deve liberar umas endorfinas pros fodidos que se sentem realizados ao ver pessoas como eles vencendo (ainda que na ficção), mas, sejamos sinceros, quando o episódio acaba, a pessoa continua tão fodida como antes e sem ter recebido nenhum aporte que melhore sua vida, sua cultura, seu emocional. Muito pelo contrário, é um chamado para viver cada vez mais no mundo da fantasia e uma falsa ilusão de que dá para ser ferrado da cabeça e ainda assim, admirado e bem-sucedido. Não dá.

A gente consegue ver isso pelo fanatismo que os desempoderados começam a externar pela série. É um bastião de esperança para eles. Se falar mal do seriado perto de fã, é um drama. Já tem doente mental colocando a foto do Geraldão como avatar de rede social, já tem demente usando as mesmas roupas, fazendo tatuagem e por aí vai. É palpável que não se admira o trabalho de produção, figurino, direção ou roteiro, as pessoas querem viver naquele mundo de fantasia e, em vez de arregaçar as mangas e mudar suas vidas, fogem para lá. Vão tomar bem no meio do cu, adultinhos infantilizados!

Então, além do seriado não acrescentar absolutamente nada além de excesso de estímulo visual, ele também é nocivo. Não, não dá para ter a mente e o comportamento do Geraldão e ainda assim ser foda e bem-sucedido. Não, não dá para ter o layout e a história de Yennefer e virar bonita e poderosa. Esse seriado é cocaína de autoestima, quando a pessoa usa se sente ótima, mas quando acaba quer mais e mais.

Eu não aguento mais esse combo vazio de Medieval + Pessoas Bonitas + Porrada + Sexo. Quer fazer um seriado de fantasia medieval? Vá além. Faça algo diferente do que vem sendo feito à exaustão. Se vier com mais do mesmo eu vou achar medíocre sim, não vou elogiar quem apenas se dignou a refazer o mesmo que todo mundo vem fazendo.

E contratem atores melhores. Geraldão parece uma cruza de Legolas com Cigano Igor. Sua inexpressividade nórdica, sua voz de “fumei por 40 anos”, seu olhar canastrão me ofendem. Parem de carregar tanto nas cores e efeitos especiais, uma hora alguém vai ter um ataque epiléptico vendo essa merda. Coloquem algum conteúdo em vez de fazer uma mera desculpa para sexo, porrada e fantasia. Enquanto ficar só nisso, é ruim, por mais que muita gente goste. Ser bom ou ruim não se confunde com você gostar ou não. “Se eu gosto, é bom”. Vá pá puta que pariu.

The Witcher é mais do mesmo: não é lazer, é fuga da realidade e escapismo para gente emocionalmente fodida.

Para se voltar contra mim por gostar da série e se sentir esculachado, para dizer que Geraldão tem tudo que é necessário para o papel (corpo) ou ainda para dizer que se você gosta aquilo é bom e se você não gosta é ruim pois o seu gosto representa a toda a verdade da vida, do mundo e do universo: sally@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Falando como alguém que desconhece livros e os games a série é boa. Achei o visual pobre tbm, devem ter gastado tudo contratando o Cavill. Alias quando essa herança maldita de Lost de contar tudo nesse vai e vem na linha do tempo vai acabar?? As vezes é simplesmente desnecessário como no caso de The Witcher.

  • Olha, eu confesso que amei. É exatamente tudo que Somir falou, a série não é super produzida, não tem figurinos e efeitos especiais super elaborados, mas no final entrega o que promete. A série foi feita pra passar o tempo sem pensar muito em tudo o que está acontecendo. E como vimos em Got, dinheiro não é garantia para nada.
    Conheço o universo por conta do video game, que sinceramente, nem consegui jogar direito porque os comandos são muito doidos. Somir, vindo diretamente de Dark Souls(que eu amo de paixão), achei the withcer um mindfuck terrível. Pqp

    • Dark Souls tem uma mecânica feita para te concentrar em uma coisa por vez, The Witcher é tudo ao mesmo tempo. Ainda é um jogaço, mas sempre me deixa com a sensação que eu não estou fazendo as coisas do jeito “certo”.

      • Eu acho um jogo foda também, mas não consegui avançar muito por conta disso, aí acabei comprando sekiro que tem o estilo de DS. Um jogaço.

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    Geraldo Renato da Silva

    Puxa vida! Nunca ouvi falar nessa série, além de saber que o protagonista é meu xará.
    Para ser sincero, nunca gostei de acompanhar séries, pois você fica preso, além de ficar com muita expectativa (mesma coisa de quem tem saco para acompanhar novelas…)
    Uma pergunta: as novelinhas do SBT não vão terminar? Algumas estão batendo recordes em capítulos (quase 2 anos no ar).

  • Witcher pode ser ruim, mas Sex Education é muito pior.
    Pense num daqueles filmes de adolescentes cheios de clichês, só que sem qualquer senso de humor. É assim a série.

  • Achei os livros uma mistura de Michael Moorcock com Robert Howard; a série adicionou um componente Ed Wood, e, sem dúvida, apela a um público bem mais restrito que LotR ou GoT. Dei boas risadas assistindo, quando vierem mais episódios ligarei a Netflix sem dúvida. Os games eu não conheço, na verdade não tenho muito interesse em games a não ser um com nome japonês sobre o qual li aqui no Desfavor, e que me lembrou a época em que morava no Rio de Janeiro.

  • Nem sabia se era série ou jogo, para ver o quanto me interessa. Mas adorei o novo nome… Geraldão. Sempre que vir propagandas, vou lembrar disso… e rir muito!

  • Não curto fantasia medieval – porque simplesmente não faz minha cabeça – e me chamou a atenção este trecho do texto da Sally: “Já tem doente mental colocando a foto do Geraldão como avatar de rede social, já tem demente usando as mesmas roupas, fazendo tatuagem e por aí vai.”. Quão patética uma pessoa tem que ser pra fazer isso?

    • Tem muito doente fazendo isso.

      Nem é sobre a fantasia medieval, se tiver algum conteúdo (ainda que não seja profundo) e acrescentar algo (ainda que não seja altamente relevante) eu consideraria bom, mesmo sem gostar. Mas é pura perda de tempo.

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