Vírus nosso.

O ser humano é mais do que suas células. Na verdade, somos um verdadeiro ecossistema. Bactérias e vírus usam seres vivos multicelulares há muitos milhões de anos para se alimentar e reproduzir, e como não poderia deixar de ser, nós também somos suas vítimas. Não, espera… vítimas talvez não seja a palavra certa…

Bactérias matam muita gente todos os anos, vírus também. De tempos em tempos, como estamos vendo no recente caso do coronavírus chinês, doenças causadas por esses microrganismos causam problemas para a humanidade, algumas causam algum incômodo passageiro, outras promovem verdadeiros genocídios, como no caso da Peste Negra (bactéria) ou Gripe Espanhola (vírus), com centenas de milhões de mortes como resultado de pandemias.

Um dos nossos maiores avanços em questões de saúde até hoje foi a descoberta desses seres invisíveis. A medicina antiga errava absurdamente nos seus diagnósticos e especialmente nos tratamentos por não ter essa informação básica, e a taxa de sobrevivência humana aumentou consideravelmente depois dessas descobertas. Nada matou mais gente até hoje, e a medicina eficiente só existe depois de identificarmos eles. Então, é razoável dizer que bactérias e vírus são nossos maiores inimigos nesse mundo, não?

Bom, talvez não. A realidade é sempre mais complicada do que uma resposta direta. Se por um lado as doenças causadas por microrganismos matam muita gente, considerando o tanto deles que estão ao nosso redor o tempo todo, e inclusive dentro da gente, se eles realmente fossem nossos inimigos, provavelmente nem estaríamos mais aqui. A verdade é que nós, os seres multicelulares, temos uma relação simbiótica com nossos companheiros minúsculos de planeta. Dependemos uns dos outros e moldamos nossas evoluções para melhorar essa parceria.

Muita gente sabe disso, mas não entende a gravidade: são bactérias que permitem nossa existência. As presentes no nosso sistema gastrointestinal são responsáveis por transformar a comida em elementos úteis para o corpo. Se uma pessoa recebesse um tratamento “mágico” para eliminar todas as bactérias do corpo, provavelmente morreria em questão de dias. Seu estômago e intestino dependem desses seres para funcionar. O corpo humano está tão confortável com essa ajuda externa que nem tem uma alternativa para as bactérias. Ou elas estão lá, ou não conseguimos sobreviver. Ponto.

Tanto que o leite materno já vem com um monte de bactérias que vão ser úteis para a criança. Precisa começar a cultura no estômago e intestino do bebê de alguma forma. E para quem não sabe, o apêndice não é um órgão inútil, e sim uma reserva especial de bactérias que o corpo pode usar caso algo dê errado com as que estão no intestino. Você sobrevive sem o apêndice, mas manter esse plano B foi tão importante para a humanidade até hoje que a evolução não mexeu nele até hoje. Uma morte ou outra por inflamação era menos perigosa para a espécie que manter uma reserva de bactérias.

Seu corpo está cheio delas, e as pessoas mais adaptadas a viver em harmonia com bactérias que passaram seus genes para frente. De uma certa forma, fomos moldados por elas. Mas, é claro, é uma troca: bactérias especializadas em ajudar seres vivos mais complexos tem uma taxa de sobrevivência muito maior. Bactérias que matam não tem o mesmo sucesso. É uma questão de números, esses seres são tão imensamente numerosos que mesmo os que matam seus hospedeiros ainda existem, mas não em números compatíveis com os que trabalham em conjunto. Estatisticamente, se você for uma bactéria que ajuda humanos a digerir alimentos, você tem muito mais chances de se reproduzir do que uma que causa doenças fatais.

Bactérias ajudam a criar muitos dos alimentos que gostamos, podem funcionar como tratamento para diversos problemas de saúde, e dia após dia são estudadas para nos ajudar a resolver diversos outros problemas. Afinal, são máquinas vivas que realizam funções específicas, são resistentes e se multiplicam rapidamente. Não se assustem se na prática os famosos nano robôs da ficção científica acabarem sendo seres vivos mesmo. A tecnologia já existe, moldada por bilhões de anos de evolução.

Mas isso muita gente já sabia. O que pode surgir como uma surpresa para a maioria é que vírus são parceiros da humanidade também. Algo em torno de 5 a 8% do nosso código genético parecem ter sido implantados por vírus. Esses genes são chamados de elementos virais endógenos, e são criados por retrovírus. Retrovírus são uma classe de vírus que é conhecida justamente por invadir células e mudar o código de DNA dela para tirarem vantagens, a mais comum sendo a capacidade de se reproduzir. Sozinhos, os retrovírus não conseguem se multiplicar, mas conseguem “hackear” células de outros seres vivos para que elas produzam suas cópias. Eles literalmente mudam o DNA da célula hospedeira.

Na maioria dos casos, é uma mudança que não passa para frente. Seres vivos tem vários mecanismos para evitar que cópias erradas do seu código genético passem para frente, então, via de regra o retrovírus acha um lugar confortável num corpo e tenta encontrar o equilíbrio necessário. Normalmente nosso sistema imunológico acaba com a festa, mas às vezes o retrovírus acerta no alvo: as células reprodutivas humanas. Quando eles conseguem fazer a mudança em células como esperma e óvulos e um deles acaba virando um embrião, esse é o novo DNA desse ser vivo.

E como faz muito tempo que isso acontece, mesmo com as pequenas probabilidades de acertar a célula certa que vai virar um novo ser humano, depois de bilhões e bilhões de oportunidades, os retrovírus conseguiram ocupar essa quantidade considerável de código genético humano. Dizem que somos 99% chimpanzé, mas raramente que somos 8% vírus. Isso não é um desastre? Estamos condenados? Não, claro que não. Porque assim como no caso das bactérias, a evolução está ocorrendo ao mesmo tempo. Código genético que faz mal para humanos gera menos descendentes. Código genético que ajuda, gera mais.

Então, sim, esses 8% vírus que todos nós aparentamos ser muito provavelmente nos ajudou. Especialmente nos primeiros momentos: aparentemente esses genes invasores nos ajudam a criar uma prévia de sistema imunológico antes do que surgiria só com nossos genes. Esse DNA faz isso para proteger o vírus (mesmo que ele não esteja lá), mas acaba nos beneficiando e diminuindo o número de infecções na fase embrionária do ser humano.

Além disso, os mecanismos que o vírus usa para “colar” nas células pode ser responsável pela forma como as placentas dos mamíferos funcionam. Especialmente no caso dos humanos, onde a placenta (que é um órgão temporário das grávidas usado para alimentar e eliminar dejetos do feto) se prende no útero ao ponto de penetrar a barreira de proteção e entrar em contato com o fluxo sanguíneo da mãe. Os genes “grudentos” dos vírus ajudam o embrião e ficar colado nas paredes do útero e receber mais nutrientes antes de um sistema mais complexo assumir a função com a placenta e o cordão umbilical.

Estudos feitos em ratos descobriram que os genes virais podem até ajudar com algumas defesas naturais contra o câncer: um deles tem um mecanismo para matar células com defeitos de DNA, o que tecnicamente ajuda o vírus a se disseminar para fora da célula que infectou, mas tem o efeito benéfico de quebrar células cancerosas que não estavam sendo manipuladas pelo vírus.

Dada a longuíssima história de relação entre esses vírus e nós, não existem provas de que eles causem algum problema para nós. Somos os descendentes daqueles que melhor se adaptaram ao DNA modificado, e isso só pode funcionar se a mudança for benéfica para ambas as espécies. Os retrovírus criaram bilhões de seres vivos que já saem de fábrica com DNAs que facilitam sua vida, os seres humanos ganharam algumas ajudas valiosas durante sua história, que mesmo que sejam minúsculas para cada indivíduo, fazem uma grande diferença num universo de bilhões.

Vírus e bactérias. Eles nos moldam, nós moldamos eles. Eu acredito que mesmo se um deles sair de controle e se tornar extremamente mortal em largas escalas, não vão acabar com a humanidade. Afinal, mesmo um criado em laboratório vai acabar evoluindo em questão de dias ou meses para achar o melhor equilíbrio. Humanos imunes sempre vão existir, e eles que vão se reproduzir. Enxergue doenças e grandes crises de saúde não como a natureza nos atacando, e sim como um erro momentâneo no equilíbrio. Os próprios microrganismos estão em luta constante para nos ajudar, no final das contas: o vírus ou bactéria que mais nos ajudar vai ser o que vai se reproduzir melhor e matar de fome os que nos fizerem mal.

Se não fosse isso, podem ter certeza de que não tinha mais um ser multicelular nesse mundo. É que toda relação tem seus problemas…

Para dizer que não é o momento certo de falar disso, para dizer que não sabia que estava cheio de bactérias e vírus, ou mesmo para dizer que é mais divertido tocar o terror mesmo: somir@desfavor.com

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