Coma Alcoólico.

Beber até cair? Muito comum nesta época do ano. Porém, pode ser muito perigoso também. Não é engraçado, não faz parte de comemoração, é algo grave, perigoso, que coloca a vida da pessoa em risco. Desfavor Explica: Coma Alcoólico.

O chamado “Coma Alcoólico” acontece quando a pessoa fica inconsciente pelo excesso de álcool no organismo. Essa pessoa precisa de socorro imediato, pois a qualquer momento seus batimentos cardíacos ou sua respiração podem parar. Portanto, leia este texto com atenção, ele pode te ajudar a salvar a vida de um amigo, principalmente nesta época do ano.

Antes de ensinar a prestar socorro a quem entra em coma alcoólico, vamos entender em detalhes o que acontece no organismo de uma pessoa que está intoxicada por álcool, afinal, é sempre melhor prevenir um incêndio do que ter que apagar uma casa em chamas.

Não é fácil de calcular a quantidade de álcool capaz de gerar danos em cada organismo, pois isso varia conforme uma série de fatores como o peso, a altura, o físico, a etnia, a idade, a saúde, a velocidade na qual se bebe e até o gênero da pessoa (mulheres são mais vulneráveis), entre outros. Portanto, a primeira coisa que você deve saber é que não é possível estipular um X de bebida segura, como muitos sites indicam.

Não existe fórmula, não existe cálculo com base no seu peso, no teor alcoólico da bebida, não existe conta que previna alguém de se intoxicar com álcool, a melhor forma de perceber a hora de parar é observando os sinais que o corpo dá. Pule fora dessas fórmulas para calcular o quanto você pode beber antes de cair, corpo humano não é matemática.

O responsável por “remover” o álcool do organismo é o fígado, que funciona como um “filtro”. Quando a pessoa bebe mais do que o fígado consegue filtrar, o álcool se espalha pelo corpo, causando uma intoxicação grave. Não é motivo de orgulho nem de piada, esta intoxicação pode ser letal. Entre outros efeitos perigosos, pode causar diminuição da capacidade respiratória e do ritmo cardíaco, queda dos níveis de glicose no sangue, arritmias e outros problemas que matam rapidamente.

Pense no fígado como uma garrafa vazia com um funil na ponta. Se você despejar uma quantidade razoável de líquido gradualmente no funil (seu fígado), o funil cumprirá sua função e encherá a garrafa. Mas, se você joga de uma vez um litro de água no funil, ele obviamente vai transbordar e sujar todo o cômodo (seu corpo). E vai fazer muito mal, pois, no caso, esse líquido é tóxico para o cômodo. Se você coloca gradualmente mais água do que cabe na garrafa no funil, vai demorar um pouco mais, mas ele também vai transbordar e vai gerar danos. Então a premissa é: não beba muito rápido, não beba muita quantidade.

O fígado de um homem adulto leva, em média, uma hora para processar uma dose de bebida. Em mulheres, no geral, o tempo costuma ser o dobro. Por isso, é preciso dar tempo para que o corpo trabalhe e consiga se livrar do veneno que você está ingerindo (não jogar um litro de água no funil de uma só vez). Em algumas pessoas pode demorar mais ou demorar menos. Como saber? Pela reação do organismo. Nosso corpo é maravilhoso, ele nos notifica de tudo que acontece com ele, nós que somos uns idiotas, que nem sempre anotamos o recado.

Então, podemos concluir que beber três doses seguidas pode ser mais nocivo do que beber seis doses ao longo de toda a noite. Não é apenas a quantidade de bebida que vai determinar o estrago que ela fará no organismo. Viu que o amigo está bebendo uma atrás da outra? Tenta fazer com que ele dê um intervalo, coma alguma coisa, beba água. Dê tempo para que o corpo se livre dessas toxinas. E mesmo que se beba gradualmente, existe um limite do que o fígado consegue filtrar, portanto, não adianta beber devagar, mas beber muito. Viu que o amigo bebeu muito? Seja bacana e afaste-o da bebida.

Alguns fatores externos também podem fazer a diferença entre beber e se intoxicar até chegar ao coma alcoólico. Por exemplo, comer antes de beber pode reduzir em até três vezes a velocidade da absorção de álcool pelo organismo, ajudando o fígado a lidar melhor com a bebida, pois ao absorver o álcool de forma mais lenta, ele terá menos toxinas para lidar. Mas, tudo isso já foi falado em outro Desfavor Explica, sobre ressaca. Vamos ao tema de hoje.

Este texto não é sobre moralismo, sobre cagação de regra, sobre policiar a diversão dos outros. É importante saber identificar e socorrer quem entra em um quadro de coma alcoólico, principalmente no Brasil, que se banaliza, romantiza e glamouriza o ato de tomar um porre, muitas pessoas acham comum, inofensivo e engraçado “beber até cair” e não tomam as devidas providências.

Um recado para as meninas: depois que o álcool cai na corrente sanguínea, ele é transportado para todos os tecidos que contêm água. É por isso que as maiores concentrações da substância ficam no fígado, no coração, nos rins, no estômago e nos músculos. É por isso que as mulheres são mais afetadas pelo efeito da bebida: elas possuem menos água no corpo, ou seja, nelas o álcool é distribuído e metabolizado mais rapidamente e o que torna seus efeitos são mais intensos.

Então, não adianta querer bancar a “direitos iguais” e sentar para beber de igual para igual com um homem, por puro orgulho. É uma questão biológica: mulheres tem metade da resistência masculina a álcool. Uma mulher que tente acompanhar o ritmo de um homem provavelmente vai acabar em um hospital. Não faça isso com você mesma.

Seja em homens, seja em mulheres, coma alcoólico não é algo que aconteça de forma repentina, existem sinais de que a pessoa está bebendo mais do que o corpo consegue metabolizar e, portanto, de que a pessoa está se envenenando com álcool. O problema é que esses sintomas são normalizados pela sociedade brasileira, então, grandes chances de você ser ridicularizado se tentar socorrer alguém que ainda não caiu inconsciente no chão. As pessoas acreditam que antes disso, tudo é normal e faz parte da bebedeira, mas na verdade, o corpo está sofrendo danos.

Em um mundo ideal, um bom amigo alertaria o outro aos primeiros sinais de intoxicação, avisando que é hora de parar de beber pois o fígado já não está mais conseguindo metabolizar e bebida e ela está circulando pelo corpo como um veneno. Em um mundo ideal, a pessoa que está bebendo escutaria, pararia de beber até se recuperar, comeria algo, ingeriria água. Provavelmente não é isso que vai acontecer, mas, nosso papel aqui é orientar. Faça o que quiser com a informação que vai receber.

Os primeiros sintomas de que seu corpo está começando a ser intoxicado são sonolência, dificuldade de se concentrar e dificuldade em articular palavras. A pessoa fica sonolenta, menos ativa, mole. A pessoa não presta atenção quando você fala com ela, não entende ou não acompanha um raciocínio. A pessoa tem a fala arrastada, não pronuncia as palavras da forma correta como o faz quando está sóbria e articula frases com dificuldade. Essa é a hora de parar de beber, se hidratar, comer algo e só voltar a beber quando esses três “sintomas” desaparecerem por completo.

Provavelmente, a pessoa não dar ouvidos, pois a coisa mais normal que tem é gente bebendo e falando enrolado, se sentindo sonolenta e com dificuldade de concentração. Na cabeça do brasileiro médio, isso são consequências inerentes a se beber, não sintomas de intoxicação. O curioso é que se estes sintomas aparecessem após a ingestão de qualquer alimento, a pessoa correria para o hospital apavorada por ter comido algo estragado ou envenenado. Mas com bebida é tolerado… vai entender.

Faça seu papel de amigo e, se perceber que a pessoa chegou nesse estágio inicial de intoxicação, tente induzi-la a dar um tempo na bebida e se hidratar. Nesse ponto, não é mais saudável continuar bebendo. Não se sabe em quanto tempo ou em quantas doses isso pode escalar, progredir e virar um coma alcóolico. Quem acha que tem esse controle está se iludindo, pois depende de uma infinidade de variáveis que não podemos antever. Repito: se a pessoa está sonolenta, com fala arrastada e sem concentração, não é mais saudável continuar bebendo.

Como saber até quando é saudável beber? O primeiro a sentir os efeitos da intoxicação por álcool é o cérebro, por isso, ele é o melhor medidor para saber o quanto o organismo está sendo agredido. É através dos sinais que o cérebro emite que podemos determinar a hora certa de parar sem causar danos ao organismo.

Quando a pessoa começa a beber, o álcool chega a uma determinada região do cérebro (papo técnico: lobo frontal) e causa a sensação de alegria, deixando a pessoa mais falante (recurso muito utilizado como muleta para socializar). Até aí é saudável beber. Quando a pessoa fica mais falante mas sem comprometer em nada o raciocínio, o equilíbrio, a pronúncia das palavras, a concentração e o estado desperto, o corpo não está intoxicado. Saiu disso já é intoxicação para o seu organismo.

Se a pessoa continuar bebendo depois disso, o álcool atinge outra região (papo técnico lobo parietal e temporal) e começam os problemas. A pessoa sai daquela sensação de alegria falante e começa a pender para a sonolência. Começa a perder o discernimento. Começa a não pronunciar as palavras direito, perder os reflexos. Se continuar bebendo, o álcool vai alcançar outra região (papo técnico: lobo occipital) responsável pelo movimento e pela visão. Nesse caso, a pessoa começará a ver tudo embaçado, vai ter dificuldades para ficar de pé e caminhar.

Se, ainda assim, a pessoa continuar bebendo, o álcool pode chegar em outra região (papo técnico: cerebelo) responsável pelos reflexos. Quando isso acontece, a coordenação motora fica muito comprometida, a pessoa derruba coisas, esbarra nos outros e pode provocar uma série de acidentes. Geralmente é nesse estágio que os bêbados mais se machucam.

O ponto final dessa jornada autodestrutiva ocorre quando o álcool chega a uma área (papo técnico: tronco encefálico) que controla a respiração. Demora a chegar lá mas, quando chega, leva à inconsciência e ao coma, por insuficiência respiratória e cardíaca. É quando o bêbado desmaia. É o último recurso de um corpo que já enviou todo tipo de alerta para tentar fazer com que a pessoa pare de beber, em uma tentativa desesperada por não morrer. Já que a pessoa não para de beber, o corpo a apaga para tentar fazer cessar essa agressão. O problema é que nem sempre o corpo consegue apagar a pessoa a tempo.

Se a pessoa chegou nesse estágio final, se está inconsciente ou consciente mas não responsiva (você chama pelo nome, dá tapa na cara e ela continua prostrada), saiba que não há absolutamente nada que você possa fazer a não ser levá-la a um hospital. Dar açúcar, dar doce, dar café, dar Coca-Cola… nada ajuda, apenas atendimento médico. Não quer dizer que a pessoa vai morrer, quer dizer que a pessoa pode morrer. Às vezes o corpo dá conta de se desintoxicar sozinho, às vezes não. Ninguém quer pagar para ver, certo?

Se a pessoa chegou nesse estágio, não perca tempo. Deite a pessoa de lado para evitar que ela aspire o próprio vômito caso ela vomite (pessoas intoxicadas costumam vomitar) e chame uma ambulância. Qualquer outra medida é perda de tempo e omissão de socorro. Não dê ouvido a leigos, bêbados conselheiros ou qualquer outra pessoa que tente te convencer a fazer qualquer outra coisa que não levar a pessoa a um hospital.

Caso a pessoa esteja em um local frio (que não será o caso neste carnaval brasileiro), é preciso ter cuidado com hipotermia. Cubra a pessoa com um casaco ou com um cobertor, pois o corpo terá dificuldade de se manter aquecido nesse estado. Não ofereça líquidos, remédios ou comidas, pois as chances de uma pessoa não responsiva ou pouco responsiva pessoa engasgar são enormes. Se alguém se aproximar para tentar dar café para o bêbado, bote a pessoa para correr.

Não tente colocar o dedo na garganta da pessoa para que ela vomite. Não jogue a pessoa no banho frio. Não faça gambiarras, simpatias ou rezas. A única coisa que você deve fazer enquanto a ambulância não chega é monitorar os batimentos cardíacos e a respiração da pessoa, para que, se perceber que ela parou de respirar ou o coração parou de bater, faça RCP (reanimação cardiopulmonar, já ensinada em outro texto) até que o socorro chegue.

A medicação eficaz para esse estágio é intravenosa, portanto, a menos que você seja médico e esteja em um ambiente hospitalar, não poderá ajudar. Os médicos provavelmente colocarão soro na veia para hidratar a pessoa e também se ocuparão de fornecer glicose, reposição de vitaminas (papo técnico: vitamina B1) e regularizar os níveis de eletrólitos, além de outros medicamentos que melhorem o quadro da pessoa, como por exemplo, remédios para enjoo (papo técnico: antieméticos).

Além disso, é muito importante que essa pessoa esteja monitorada em um ambiente hospitalar, assim é possível verificar com precisão seus batimentos cardíacos e sua respiração, socorrendo-a imediatamente caso haja uma parada cardíaca ou respiratória, de modo a evitar danos cerebrais. Você não pode fazer esse monitoramento de forma eficiente em casa, então, eu sei que é chato, mas a pessoa precisa ficar em um hospital até se recuperar.

Que fique claro: a pessoa não morre pela intoxicação química do álcool. O álcool mata porque “desliga” as áreas cerebrais que controlam a consciência, a respiração e os batimentos cardíacos (papo técnico: efeito depressivo sobre o sistema nervoso central). Normalmente pessoas que tem as funções de respiração e batimentos cardíacos “desligadas” morrem. Não por envenenamento ou intoxicação, mas de parada cardíaca ou respiratória.

A maior parte dos organismos, quanto está muito intoxicado, tenta jogar o álcool para fora antes que ele entre na corrente sanguínea. Isso acontece através do vômito. Então, uma pessoa que bebe até vomitar já passou dos limites faz muito tempo e, dependendo do caso, também requer atenção e monitoramento.

Muita gente pensa que ao vomitar tudo se resolve e o bêbado vai ficar zerado. Negativo. Se a pessoa chegou ao ponto de vomitar, ela está bem intoxicada, já perdeu o discernimento e os reflexos. É perigoso jogar ela na cama e achar que uma boa noite de sono cura tudo. A pessoa pode vomitar mais e, graças aos reflexos ruins, aspirar o próprio vômito e morrer afogada nele. Um bêbado que está no estágio do vômito precisa de cuidados, atenção e monitoramento. Não acredite que se a pessoa vomitou tudo se resolveu.

E mesmo que te digam que é exagero, que é normal beber até cair, que não acontece nada, siga sua consciência: se achar que é grave, se achar que o estado da pessoa oferece risco à sua vida, chame uma ambulância ou providencie atendimento médico. É isso o que amigos de verdade fazem.

Para dizer que amigo de verdade bebe junto, para dizer que se a pessoa quer se autodestruir ela que se foda ou ainda para dizer que não vai lembrar destas dicas quando estiver bêbado: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Enquanto isso, o nosso governo de acefalos micropenianos persegue as drogas, quando o alcool está matando um quintilhão de vezes mais, sem nenhuma estrategia de controle.

    • Olha, se algum governo tiver coragem de mexer com alcool, seja para limitar o consumo ou proibir, acho que finalmente chega o dia em que o brasileiro faz uma revolução! Hahahahaha

        • Se o Brasil fosse um país normal, poderíamos falar em campanhas de conscientização. Mas estamos em um país onde precisam pedir para a pessoa lavar o pinto, onde precisa colocar cartaz pedindo para a pessoa não cagar no chão do banheiro. Não há qualquer chance de conscientizar esse povo…

  • “Se continuar bebendo, o álcool vai alcançar outra região (papo técnico: lobo occipital) responsável pelo movimento e pela visão. Nesse caso, a pessoa começará a ver tudo embaçado, vai ter dificuldades para ficar de pé e caminhar.”
    Eu já cheguei nesse estágio de bebedeira e, de longe, foi uma das ou a pior sensação que já senti na vida.
    Não consigo entender quem se coloca nessa situação novamente depois de ter passado por isso uma vez.

  • Jim Morrison, Jimi Hendrix e John Bonham são só alguns exemplos de gente famosa que morreu por beber descontroladamente. Nas autópsias verificaram-se sempre que esses roqueiros haviam ingerido quantidades colossais de bebida, chegando ao coma alcóolico não detectado e não tratado a tempo. A morte de Morrison é cercada de mistério e controvérsia, mas, de acordo com os laudos, houve parada cardíaca. Hendrix, por sua vez, sufocou com o próprio vômito após se encharcar de vinho tinto. No caso de Bonham, o afogamento na própria êmese aconteceu depois de nada menos que 40 doses de vodca.

  • Por ser abstêmio e por procurar nem sequer conviver com gente que bebe, eu não sabia de muita coisa que foi mencionada no texto e fiquei até um pouco assustado. Já imaginava que a coisa era bem séria, mas pelo que li aqui, coma alcóolico é pior do que eu pensava.

    • Eu tinha uma lembrança distante desse texto de 2013, quando abri o Desfavor hoje e dei de cara com o texto do dia pensei que estava tendo um deja vu :P

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