Discussão placebo.

Que o mundo está cheio de supostos tratamentos de saúde que não passam de placebo, Sally e Somir concordam. Mas na hora de confrontar uma pessoa utilizando um deles, acreditam em efeitos diferentes em suas respostas. Os impopulares tratam de opinar.

Tema de hoje: é válido avisar uma pessoa que está se tratando com um placebo?

SOMIR

Sim. Não vivemos num mundo onde as pessoas entendam bem o que é placebo, nem mesmo o que configura um. E se você acha que não é uma coisa positiva avisar uma pessoa sobre estar utilizando um tratamento de saúde que é um placebo, há uma grande chance de você também estar confuso(a) sobre placebos. Por isso, primeiro vamos estabelecer algumas coisas para que estejamos na mesma página na hora do argumento:

Placebos não são coisas boas ou ruins. Placebos são elementos inertes para o problema que se enfrenta. É comum que as pessoas tenham uma ideia “confortável” ao pensar num placebo, pensando automaticamente em alguém que está sofrendo menos com um desses tratamentos. Só que isso é sua mente sendo tendenciosa: o placebo não faz nada. Se o corpo da pessoa com o problema tem em si a capacidade de se curar sem nenhum elemento externo, ela pode melhorar. Mas não há um efeito mágico.

De uma certa forma, o placebo é análogo à oração. Você pode rezar para se curar de uma gripe ou um mal estar nas costas, e as chances de sucesso são consideravelmente altas assim, já que o corpo está acostumado a resolver esses problemas sem remédios ou tratamentos. Rezar para se curar da AIDS ou para fazer um membro amputado crescer novamente já são outros quinhentos… por mais que a pessoa queira muito, não existem soluções para esses problemas dentro do corpo humano. Então, embora exista muito poder dentro da mente com a autossugestão, esse poder é subordinado ao que o nosso DNA torna possível.

O que eu quero definir aqui é que placebo não significa ajuda, só significa deixar para o próprio corpo a tarefa de se tratar de um problema de saúde. E nem estou dizendo que faz mal: afinal, em alguns casos pode ser pior tomar remédios sem prescrição ou cair na mão de um maluco feito um quiroprata. Não tem crença nesse mundo que faça aplicar fezes num machucado opção melhor que lavar com água e sabão. Placebos são piores que um tratamento real, e melhores que um tratamento amador ou perigoso. Placebos são, por definição, neutros.

E talvez pior do que a confusão sobre placebo ser algo positivo seja o baixo conhecimento médio do que configura placebo. Vivemos num mundo onde pessoas acreditam de verdade em coisas como astrologia! O conhecimento científico é baixíssimo em média. Tem gente que realmente acredita em homeopatia, acupuntura, cirurgias espíritas, cura por cristais… seja por ignorância pura, preguiça se aprofundar sobre o tema ou medo de ser confrontado com uma realidade decepcionante, vivemos cercados de pessoas que simplesmente não pensam o suficiente sobre os métodos bizarros de “medicina alternativa” que ainda usamos no século XXI.

É por isso que eu me sinto compelido a pelo menos avisar a pessoa sobre ela estar se tratando com um placebo. Quase sempre isso é resultado de uma grande ignorância sobre o funcionamento de física, química e biologia, ou a ilusão que placebos são inerentemente bons. Eu estou há mais de 10 anos escrevendo aqui sobre inúmeros assuntos porque acredito de verdade que disseminar boas informações é um ato valioso para o mundo. Assim como muita gente gastou seu tempo e energia para passar conhecimento para mim, eu quero passar esse conhecimento para frente.

Porque só assim melhoramos como espécie. Só assim eu acredito que minha vida daqui a alguns anos vai estar melhor que agora. Quanto mais gente bem informada, maiores as chances de boas decisões que me impactam serem tomadas. Altruísmo e egoísmo andam de mãos dadas. Já foi a minha fase de querer apontar o dedo para a ignorância do outro como forma de me sentir melhor comigo mesmo, agora as coisas são mais práticas: gente que entende o que é placebo é menos propensa a ter problemas sérios de saúde ou mesmo transmitir doenças.

E aqui eu volto na mania de achar que placebo é sempre algo que faz a pessoa se sentir melhor. Não, em alguns casos isso acontece, mas como é um tratamento irrelevante para o problema, muitas vezes mesmo se a pessoa achar que está se sentindo melhor, o corpo está sofrendo. São muitas variáveis para considerar aqui, em vários problemas comuns de saúde tratados com remédios de verdade, existe o risco da pessoa achar que melhorou e parar o tratamento antes da hora só para piorar muito depois. Um placebo pode estar criando esse problema: o psicológico da pessoa melhora por achar que está se curando, mas isso só mascara o problema por um tempo. Chega de achar que “mal não faz”. Você não sabe disso. O que você deveria saber é que água destilada não é remédio, que espetar partes aleatórias do corpo não muda a composição química do organismo… e que rezar não é um tratamento médico eficiente.

Eu acredito que as pessoas têm o direito de serem informadas, e digo isso com a percepção clara que não vou ter sucesso na maioria das vezes. Quem investiu seu tempo num placebo costuma não gostar de ouvir a verdade sobre o que está fazendo. Pode ser que a sua informação seja ignorada, ou mesmo que a pessoa se sinta ofendida por isso, mas considerando a chance de fazer alguém pensar por meio segundo na bobagem que está fazendo e colocá-la numa direção melhor compensa tudo isso.

Eu lembro que por pura ignorância, fui uma vez até uma clínica de medicina ortomolecular para resolver um problema de saúde. Parecia algo honesto. Durante a conversa com o médico, eu percebi o absurdo que era tudo aquilo. Se alguém tivesse me avisado sobre isso antes, eu teria evitado gastar com a consulta e teria marcado com um médico de verdade. Não teve ninguém para me dizer que aquilo era uma homeopatia com mais etapas. Por sorte eu tenho conhecimento científico suficiente para perceber na hora o problema, mas quanta gente cai nesses golpes todos os dias, perdendo dinheiro e tempo que poderiam ser utilizados em tratamentos de verdade? Ou mesmo não fazendo nada, que dá no mesmo que o placebo.

Às vezes é só questão de alguém te avisar. Eu gostaria de ser avisado, e estendo essa gentileza ao resto do mundo. Simples assim.

Para dizer que eu sou muito cético, para dizer que falar a verdade para o outro é arrogância, ou mesmo para dizer que é fã de placebos porque tem muita gente nesse mundo: somir@desfavor.com

SALLY

Suponha que uma pessoa querida está fazendo um tratamento com algo que você sabe ser um placebo e que esse tratamento está dando certo. É válido expressar a sua opinião, caso ela te pergunte sobre aquilo ser um placebo?

Vale destacar que esse tratamento não gera qualquer risco ou prejuízo para a pessoa, que não está atrasando ou impedindo um eventual tratamento “real” que poderia solucionar o problema e que a pessoa não está sendo extorquida ou explorada. Após estas ressalvas, minha resposta.

Não, melhor calar a boquinha. Se está funcionando (e não está causando um mal à pessoa), foda-se se é água benta, penicilina, homeopatia, antibiótico, florais ou peido de unicórnio. O que importa é que a pessoa está bem. A mente tem o poder de curar, ou ao menos de fazer o corpo se sentir como se estivesse curado, então, deixa a pessoa continuar acreditando naquilo, se o placebo não implicar em nenhum risco para ela.

O efeito placebo só acontece graças à crença que o paciente tem de estar tomando algo eficiente. Para que o efeito positivo continue acontecendo é indispensável que a pessoa continue acreditando que está tomando algo útil. Se ela tem essa crença forte o bastante para gerar um benefício físico para si mesma, não seja pau no cu, deixe ela usufruir desse bem-estar. A partir do momento em que você coloca essa crença em dúvida, o placebo deixará de fazer efeito.

Óbvio que não estamos falando de algo que coloque em risco a vida da pessoa, tipo ter leucemia e se tratar com cristais. Estamos falando de algum desconforto não-letal atenuado pela crença do paciente de que está sendo tratado com algo eficiente. Ao colocar em questão a eficácia do que a pessoa está tomando você também ameaça o efeito benéfico que aquilo está proporcionando ao paciente. Tem certeza de que quer fazer isso?

Eu sempre sou a favor de não mentir, e nesse caso não é necessário mentir. Basta não opinar. Basta dizer que se está fazendo bem, é isso que importa ou qualquer outra coisa do tipo. Vamos combinar, o poder da mente humana vai muito além do seu e do meu conhecimento, nenhum de nós sabem mensurar exatamente até onde pode ir o efeito placebo. Dê essa oportunidade à pessoa: se está funcionando, não estrague a brincadeira.

E quando falamos em placebo não necessariamente falamos em estelionato. Sim, homeopatia, florais, cromoterapia e outros placebos exploram financeiramente inocentes, mas nem sempre tem que ser assim. Lembro de um conhecido meu que é neurologista e percebeu, após muito sofrimento, que a enxaqueca de uma paciente era claramente tratável com um placebo: ele prescreveu uns comprimidos como sendo um possível tratamento experimental e suas dores de cabeça sumiram por anos. Era apenas vitamina C.

Não vejo ganhos em ir dizer a uma pessoa que está livre de enxaquecas semanais incapacitantes há mais de cinco anos que ela na verdade está tomando apenas vitamina C. Pra quê? Para parecer fodona, sabichona e arauto da verdade? Prefiro dizer que não me importa o que seja, e sim que esteja funcionando sem lhe causar nenhum mal. Que se está dando certo, se finalmente a pessoa consegue ter uma vida normal, funcional e sem dor, ela deve seguir em frente.

Nesse caso específico, quando, após muito tempo, a pessoa foi advertida que estava tomando vitamina C (por um elitista intelectual com o qual se relacionou) as dores de cabeça incapacitantes voltaram. Francamente, qual é o sentido de esfregar essa informação na cara da pessoa se vai fazer mais mal do que bem?

A pessoa TEM QUE saber? Quem é você para decidir retirar da pessoa um recurso importante que evita dor ou mal estar? Acredito que isso seja não apenas cruel, como também diga muito sobre quem o faz: cria uma falsa sensação de superioridade intelectual. O fodão que revela a “verdade” se mostra intelectualmente superior. Desnecessário.

Como regra, não acho bacana enganar os outros, mas no caso de um placebo que apenas faça bem à pessoa, sem colocar sua saúde em risco nem atrasar tratamentos cientificamente comprovados, não estou muito certa de que caia na categoria “enganar”. O placebo também é um tratamento, não para o corpo e sim para a mente. Para tratar é necessário fazer o paciente acreditar. Se dá certo, se não faz mal, é sim um tratamento válido e é inerente a ele que a pessoa acredite no que está tomando.

Evidente que esta não deve ser a primeira escolha nem o recurso principal, mas quando nada funciona, quando a pessoa vivencia um constante mal estar para o qual a ciência não tem solução, é uma medida caridosa permitir que a autossugestão alivie sofrimento e desconforto. Amar é querer ver o outro bem, não querer esfregar a verdade a qualquer preço.

O mais curioso é que as mesmas pessoas que costumam reagir mal a esta proposição são as pessoas que mentem descaradamente em questões muito mais banais: você não está gorda, gostei do novo corte de cabelo, sua filha e linda, sua roupa é legal, você não é burra, você não é feia, etc. Todas mentiras sem ganhos significativos, mas que são contadas sem o menor pudor. Porém, uma omissão que assegura o bem-estar da pessoa vira um grande vilão. Isso se chama hipocrisia.

Placebo é um tratamento, ainda que como último recurso, ainda que como última esperança quando a ciência falha ou não sabe o que fazer. Mas sim, há situações onde placebo é um tratamento, muitas vezes, o único tratamento. E faz parte do processo de tratamento que a pessoa acredite estar tomando algo eficaz. Negar isso à pessoa é escroto. É bem provável que se ela pudesse escolher, escolhesse seu bem-estar e não uma informação cientificamente correta que vai lhe gerar dor, sofrimento ou mal-estar.

Senhores, a prioridade é ver o outro bem, feliz, funcional, sem dor, sem desconforto – desde, é claro, que isso não gere nenhum prejuízo à pessoa. Se para isso você tiver que engolir uma informação científica em vez de esfregá-la na cara de alguém, que assim seja. Vala mais ver o outro feliz do que cientificamente atualizado, não acham?

Vamos combinar, ninguém aqui fala a verdade o tempo todo. E, provavelmente, ninguém aqui costuma faltar com a verdade por um motivo tão nobre como privar a pessoa de um sofrimento físico, é muito mais provável que o façam para SE pouparem de transtornos, confrontos e encheção de saco. Se você omite informações pelo seu bem-estar, por qual motivo não pode fazer o mesmo pelo bem-estar da pessoa que gosta? Reflitam.

Para dizer que prefere sentir dor e saber a verdade (e presumir que todo mundo é como você), para chamar compaixão de mentira ou ainda para dizer em tese que tem que falar a verdade e na prática mentir socialmente todo santo dia: sally@desfavor.com

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Comentários (7)

  • Ué, se houver tratamento que faça mais efeito do que o placebo, melhor contar; caso contrário, melhor deixar o placebo ajudar.

      • Sim, às vezes ela desconhece o tratamento médico e vai numa benzedeira. Aí vc tem que avisar que existe tratamento com base científica e onde está disponível.

    • O problema é que nem sempre existe um “verdadeiro tratamento” ou nem sempre o “verdadeiro tratamento” funciona com a pessoa. Nesse caso, a única possibilidade de melhora é o placebo.

  • Mas a função do placebo não ê justamente a pessoa achar que funciona e se sentir melhor? Então vai falar pra que? Aí estraga a porra do placebo! Deixa a pessoa ser feliz, caráio!

    • Sim, para que o placebo funcione é indispensável que a pessoa acredite que ele é eficiente. Levantar um questionamento sobre a eficiência do placebo pode privar a pessoa de todos os efeitos positivos que ele teria.

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