Empregadas voadoras.

Polêmica do dia… das últimas horas… até a mídia ter algo que gera mais cliques… o ministro Paulo Guedes foi filmado dizendo com certo desprezo no tom de voz que com o dólar baixo, até empregada doméstica estava indo para a Disney. Foi o suficiente para a plebe se rebelar. Quer dizer, o suficiente para meia dúzia de matérias forçadas e umas lacradas na rede social.

Basta olhar para a cara de Paulo Guedes para saber que sua missão nesta Terra não é ser simpático. Parece aquele tipo de pessoa que está perpetuamente de saco cheio e acha todo mundo ao seu redor muito burro. Eu não sou lá a pessoa mais indicada para criticar esse comportamento, mas consigo perceber claramente que a maioria dessa polêmica momentânea não passa de má vontade do brasileiro. Má vontade de assumir o que é de verdade: um elitista.

O quê? O povo cuja produção cultural é 90% bunda e 10% alcoolismo? Esse povo não tem sequer condições de ser elitista! Mas, contra todas as probabilidades, argumento que isso faz sim parte da mentalidade tupiniquim, um povo que na sua grande maioria pensa exatamente como Guedes, só não tem o dinheiro para bancar. Até por isso que quase todo mundo sentiu algo malicioso no comentário sobre as empregadas.

Se você ouve o discurso de Guedes, pouco depois de completar a frase ele já tenta explicar que nem era sobre empregadas poderem ou não ir para a Disney, e sim como qualquer turismo virava internacional com o dólar baixo, mas o dano já estava feito. Na dúvida, o opinião pública pega o mais divertido para usar. E muito mais divertido é fazer pose dando de ombros para qualquer contexto. Colunistas e aleatórios de rede social enchendo a boca para falar das histórias de superação de empregadas que conhecem, e dando lição de moral no ministro. E dá-lhe jornalista ligando para as pessoas mais pobres que conhecem em busca da opinião de alguma empregada conhecida…

Muitas lacradas depois, o assunto vai esfriando e a próxima notícia mais divertida toma seu lugar no ciclo de notícias. E no final das contas, o brasileiro médio não pensou meio segundo sobre aquela história toda. Paulo Guedes vai ser lembrado como alguém que fez pouco das empregadas, e isso está de bom tamanho para a memória coletiva. Até porque, no final das contas, é um crime leve.

Brasileiro sempre dá uma cutucada em quem é mais pobre que ele, num país tão misturado etnicamente, faz sentido que a hierarquia orgânica de uma sociedade gire ao redor do dinheiro. E, honestamente, dos males o menor: quem tem divisões explícitas de raças, castas ou religiões tem muito mais problemas para resolver. Com exceção dos mais miseráveis, todo brasileiro tem sua “empregada” para desdenhar. Basta ser mais pobre.

Aliás, não sei nem por que usei aspas, empregada doméstica é uma profissão relevante em países justamente como Brasil. A coisa é bem mais literal. Se a pessoa tem um salário, é bem provável que explore de alguma forma outra que não tem. E por mais que os mais ricos tenham um público maior para se referir no tom que reconhecemos em Guedes, é tanta gente pensando assim que até… as empregadas domésticas… reconheceram rapidamente que tinha algum desprezo ali. Normal, elas fazem isso com quem é mais pobre também.

Mas não o fazem em público, afinal, a regra não escrita que rege a estruturação do preconceito brasileiro é a discrição. É por isso que o país parece tão tolerante. Não deixe seu discurso vazar para alguém de “casta inferior” e está tudo bem. Paulo Guedes perdeu esse privilégio com a vida pública, poderia ter sido mais esperto. Mas já passamos do ponto de esperar qualquer autocontrole dos ministros e filhos de Bolsonaro. E, para falar a verdade, talvez seja justamente essa “burrice” de falar o que pensa mesmo que traga todos os dividendos políticos que eles se aproveitam agora.

O brasileiro vive nessa cultura da mordaça seletiva, esperando aqueles mais pobres que ele se afastarem para dizer o que pensa. E por mais que pipoquem mil matérias e tweets ofendidos sobre essas frases deles, o povão mesmo sente que tem algo verdadeiro ali. Que seus pensamentos estão sendo refletidos pelos políticos. Vamos falar a verdade? Quem anda de avião habitualmente não gosta de gente pobre ocupando assentos. O risco de serem barulhentos e mal educados é consideravelmente maior.

Assim como quem vai em shopping não quer ver as áreas comuns tomadas por adolescentes funkeiros. Quem vai numa igreja evangélica de periferia quer ver gente de terno, e não mendigo. Não sou eu fazendo discurso de ódio, estou só dizendo que não adianta tapar o sol com a peneira: desigualdade gera conflitos entre pessoas de realidades muito diferentes. O ser humano foi moldado pela evolução para preferir ambientes homogêneos. E sua capacidade de lidar com situações diferentes está diretamente relacionada com sua capacidade de pensamento crítico e inteligência emocional para se adaptar rapidamente.

Coisa que o brasileiro médio não costuma ter. Não porque são inerentemente ruins, o ser humano médio não é bom ou ruim, e sim porque o incentivo para isso aqui é basicamente nulo. Guerra de classes por aqui é algo menos pronunciado porque temos espaço de sobra para segregar. Quase toda pessoa que tem uma empregada doméstica usa esse tom para se referir a elas, mas normalmente não precisam discursar para uma plateia delas. A suposta tolerância multicultural brasileira é um produto de separação, e não de convivência. Não falamos com outras “castas”, e quando falamos, somos condescendentes, aquela polidez estelionatária do advogado que chama o manobrista de sua Mercedes de “doutor”…

Na média, Paulo Guedes até que não foi escroto. No máximo, tirou um sarro da empregada doméstica que vive num bairro merda e vai para a Disney. Esperávamos dele o fingimento politicamente correto de todos os colunistas e poços de virtude das redes sociais, que não encostam em gente mais pobre e marrom que eles, mas adoram escrever sobre o quanto admiram e respeitam essa massa descamisada. Parecem políticos em campanha.

Na verdade, a única forma de realmente fazer bem para esse povo é fechar esse sorriso amarelo que os mais afortunados apresentam aos pobres. Ninguém consegue melhorar se não escuta a verdade. A maior parte das falas dos ministros de Bolsonaro são horrendas no conteúdo, mas pelo menos cutucam um pouco essa educação falsa do brasileiro. Povo preconceituoso que se inocenta pelos eufemismos e falsas admirações pelos menos afortunados. Pode apostar que na casa do rico e na casa do pobre não existem papas na língua para bater em gente que consideram inferior.

E se todos soubéssemos disso, talvez tivéssemos um pouco mais de informação para trabalhar. Ou um pouco mais de vergonha de agir feito animais. Mas é muito complicado pedir mais honestidade, afinal, esse jeitinho todo especial de mentir que respeita o mais pobre é um dos poucos alentos para esse povo que já nasce condenado num dos países mais desiguais do mundo. Se for para falar a verdade, eles vão perceber que tem direito a muito mais do que recebem. E aí, os sorrisos acabam.

A fala de Paulo Guedes só incomoda porque é a ponta de um iceberg sem prazo para derreter, que todo mundo sabe de uma forma ou de outra que está lá, mas é mais confortável fingir que não. É o caralho que você se doeu por causa das empregadas, deve falar coisa muito pior em casa, o que incomoda de verdade é ser lembrado como toda a suposta paz e integração brasileiras são baseadas em mentiras. Quem se importa com empregadas é contra a existência de empregadas, e não com um preconceito contra elas indo para a Disney.

Para dizer que é um texto fascista e comunista ao mesmo tempo, para dizer que Paulo Guedes é um poeta calado, ou mesmo para dizer que é aceleracionista e adora tudo isso: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • “Parece aquele tipo de pessoa que está perpetuamente de saco cheio e acha todo mundo ao seu redor muito burro”

    descreveu o meu pai…

    Sobre o texto, fico imensamente feliz sabendo que temos o mesmo pensamento.

  • E não teve que explicar nada sobre os problemas de se ter um câmbio nesse nível. Acho que ele foi muito esperto isso sim. Vendedor de carro usado nato.

  • O texto é uma manifestação de conivência (ou simplesmente de apoio) ao preconceito elitista congênito ao governo atual. Logo, o conteúdo é previsível.
    De resto, só me resta rir dos trouxas que enunciavam que era necessário expelir a Dilma e o PT para a desvalorização da moeda diminuir, em uma ilustração do nível intelectual ridículo da classe média e da elite nacionais.

  • Essa administraçao vai morrer pela boca pela falta de qualquer tato de expor os seus pontos só porque “é verdade”. A única coisa nessa polêmica que acho que merece um debate é a bizarrice de uma parcela enorme (ou até a maioria) dos bostileiros com mais de 12 anos ainda terem como sonho de viagem internacional a porcaria da Disney! E não adianta nem dizer “Ah eles querem levar as crianças” porque canso de ver adultos sem criança, casais sem filhos autistando por lá. Ma minha humilde opinião essa é uma das maiores representações da nossa terceiro-mundice e mediocridade.

    • “a bizarrice de uma parcela enorme (ou até a maioria) dos bostileiros com mais de 12 anos ainda terem como sonho de viagem internacional a porcaria da Disney!”

      Só de querer ir pros Estados Unidos já é atestado de breguice, não tem nada de interessante ou único naquele país. Até uma viagem pra porra do México te dá mais cultura, mais paisagens bonitas (e lá também neva em alguns locais, se esse for seu desejo) e comida melhor.

    • Olha, realmente, já fui pra disney e não curti muito. Não tem tanta coisa radical, e tem várias pra família inteira, breguices do tipo dinâmica de grupo dentro de uma sala. Parques legais mesmo, se tu procura coisas radicais pra valer, são o sixflags e o bush gardens.

  • “A suposta tolerância multicultural brasileira é um produto de separação, e não de convivência”
    “toda a suposta paz e integração brasileiras são baseadas em mentiras”
    “Mas é muito complicado pedir mais honestidade, afinal, esse jeitinho todo especial de mentir que respeita o mais pobre é um dos poucos alentos para esse povo que já nasce condenado num dos países mais desiguais do mundo. Se for para falar a verdade, eles vão perceber que tem direito a muito mais do que recebem.”

    Em quatro frases resumiu pelo menos 70% de toda a literatura de estudos sociais sobre o Brasil (e até sobre a América latina como um todo), parabéns!

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