O carnaval está morto.

Milhões de pessoas saíram às ruas fantasiadas, milhões assistiram a desfiles de escola de samba, trios elétricos e eventos relacionados, milhões de turistas vieram ao Brasil, mas, ainda assim, o carnaval parece estar morto.

A falta de adesão ao evento não é a única forma de extingui-lo. Sua descaracterização também pode ser responsável por isso. Sabemos que o mundo está em constante mudança, então, nada mais natural que um grande evento seja mutável: o carnaval de hoje não poderia ser igual ao carnaval da década de 80. Mas não estamos falando de mudança no carnaval ou de evolução, estamos falando em um evento totalmente descaracterizado que em nada difere de outros. Tenho a sensação de que, não importa o tipo de “comemoração grupal”, são todas iguais, a única coisa que muda são as roupas.

Aglomeração, música alta, selfie, bebida, briga e acasalamento. Se as pessoas estiverem de branco é Réveillon, se estiverem com um arquinho com orelhas de algum bicho é carnaval, se estiverem com roupa arrumada é uma noitada. Salvo algumas honrosas exceções, as comemorações estão ficando descaracterizadas, pasteurizadas, todas iguais. Por sinal, igualmente insatisfatórias, uma vez que se tirar os ganhos secundários (chegaremos neles mais pra frente) as pessoas tendem a se desinteressarem completamente pelo evento. Não é sobre o evento, é sobre o status e a pertinência que o evento lhes proporciona.

Fomos obrigados a fazer a cobertura de um desfile de escola de samba no domingo. Um desfile que supostamente iria causar polêmica, dar o que falar, estar no centro das atenções. Não foi isso que se viu. Talvez algum crente mais emocionado tenha se exaltado, porém, no geral, as pessoas cagaram solenemente, como estão cagando para todos os desfiles ou eventos relacionados a carnaval. Estão cagando para o carnaval de Salvador, para o Galo da Madrugada e até para bloquinhos de rua. Mas, ainda assim, as pessoas vão. Que estranho fenômeno é esse?

Quem vai a bloquinho de rua faz a sua parte, bebe, urina na rua, pega uma DST. Tem muita gente de corpo presente, mas, não sinto mais o clima de carnaval, que toma a cidade toda, o país todo. O brasileiro parece finalmente ter alcançado um patamar nunca antes visto: cagar para carnaval e futebol. Seria digno de comemoração se, em seu lugar, tivessem assumido atividades um pouco melhores, mas infelizmente não é o caso.

O brasileiro parece ter interesse em brigar por posicionamentos “ideológicos” (entre aspas, pois na macacolândia não existe ideologia) e/ou ostentar uma vida falsa em redes sociais e/ou se entorpecer – e os eventos são apenas uma escada para isso. Tanto se faz se é com arquinho de orelha de bicho ou roupa branca, pouco importa o nome que se dá à festa, o importante é como vai ficar a foto que a pessoa vai postar de si mesma em suas redes sociais, o quanto ela chocou a sociedade ou militou se destacando da multidão (vejam como sou especial!) ou o quanto aquilo serviu para se alienar de si mesma ou de sua vida.

Não tem mais sonho de ser jogador de futebol. Esse sonho não deu lugar a outro de ser médico ou descobrir a cura de uma doença. O sonho agora é receber mimos de uma marca qualquer por ter muitos seguidores, é virar youtuber, é ter influência em um mundo digital que não é real, mas é o mundo principal onde a maior parte vive hoje em dia, uma vez que sua realidade é tão bosta que preferem se refugiar nesse mundinho onde têm maior controle. O sonho é ser expoente de uma “causa”, um líder militante que vê as coisas de forma mais inteligente que o resto. O sonho é estar sempre acima dos demais, não importa por qual motivo. Que sonho merda, de gente desempoderada…

O carnaval, como o conhecíamos, morreu. E, em seu lugar, não entrou uma nova forma de carnaval, apenas se mantém a modalidade vazia de comemoração e socialização que se pratica o resto do ano. Não lamento seu fim, sempre achei carnaval um lixo, mas lamento a falta de evolução. Estagnaram nas aparências, no que há de mais sem conteúdo. Não é à toa que essa geração Rivotril vive tão angustiada e fodida da cabeça, deve ser uma merda uma vida tão vazia e sem propósito.

Não é sobre o carnaval em si, é sobre todos os rituais, todos os costumes, todos os eventos que compõe o período de tempo que convencionamos chamar de “ano”. Estão todos mais ou menos iguais, criando uma sensação de “Dia da Marmota”. Para os poucos que ignoram datas comemorativas (como Somir e eu), é indiferente, mas, para aqueles que de alguma forma se agarravam a elas, fica uma enorme sensação de vazio e frustração, que seus adeptos não conseguem identificar nem de onde está vindo.

De tanto viver em um mundo virtual, as pessoas estão desaprendendo a se portar no mundo real. Não sabem mais construir tradições, eventos com características particulares, cultivar peculiaridades. Toda a atenção está voltada para a forma (a foto que será postada, a beleza do crush, o lugar do evento) e não sobra nada para o conteúdo.

Não sabem mais o que realmente querem ou gostam, tudo gira em torno desse desejo de ser especial, diferente, de se destacar. Estão muito ocupados pensando em forma de lacrar, de serem admirados, de serem diferenciados, para se preocuparem em perceber do que realmente gostam. Deve ser muito cansativa essa luta por constantes holofotes e admiração.

Quando não se tem conteúdo, apenas o desejo de admiração pela forma, é preciso lidar com um enorme vazio. Ou se recorre à anestesia (bebida, troca compulsiva de parceiros, vida em redes sociais, trabalho que toma a vida toda, etc) ou se arca com as consequências desse vazio não processado (depressão, síndrome do pânico e demais doenças que afetam quem não está de bem consigo mesmo).

Quem tem uma base sólida construída dentro de si mesmo está de camarote assistindo à banalização social e comentando, pois não precisa de nada externo a si para ser feliz ou reconhecer seu valor. Quem tem uma base fora de si mesmo está se afogando, tentando entender, tentando se escorar, tentando se equilibrar enquanto a base onde fincou pé vai ruindo lentamente. Fica a dica: nunca construa uma base em nada externo, pois não há garantias de que ela não venha a desmoronar um dia.

A impressão que tenho é que, seja no evento que for, vemos uma multidão de zumbis que não sabem sequer dizer as razões pelas quais estão ali. Um bando perdido, que acredita que fotos, festa, bebida e pegação são a fórmula para se sentirem felizes, mas experimentam um grande vazio quando percebem que nada disso preenche. Adultinhos que buscam as mesmas respostas que adolescentes, graças a um atraso intelectual e mental promovido pela falta de porrada na vida.

Adultinhos fantasiados pulando feito símios e sustentando que é isso que pessoas descontraídas fazem. Não, é isso que pessoas que precisam se anestesiar ou provar algo fazem. Carnaval está morto e enterrado a partir do momento em que não se comemora pelo simples gostar daquilo e sim para tirar foto, para mandar mensagem lacre ou para provar alguma coisa.

Tire a possibilidade de lacrar, de contestar, de antagonizar com alguém ou algum grupo. Tire a possibilidade de selfies ou qualquer foto relacionados com o evento. Tire o álcool entorpecendo os sentidos. Se, ainda assim, a pessoa tiver vontade de comemorar carnaval por legitimamente gostar dessa festa, sem poder lacrar, sem poder fotografar e sem poder beber, aí eu dou o braço a torcer: ela realmente pula carnaval. O resto? O resto está ali pelos motivos errados, e foram os responsáveis por matar o evento.

E vale para todo o resto. Pensem em qualquer evento. Se suprimir esses três fatores, as pessoas perderão o interesse em praticamente tudo, pois seu interesse não era no evento e sim em usar o evento como escada para conseguir se sentirem melhor.

Não pode lacrar, ou seja, tem que ser mais um na multidão em harmonia com o resto, passando despercebido, sem ganhar essa sensação de destaque, de se sentir especial, mais inteligente ou intelectualmente privilegiado, disruptivo, inovador… tem que estar em comunhão com todo o resto em igualdade, sem levantar polêmica.

Não pode tirar foto, ou seja, não pode usar o evento como escada para receber elogios, mandar recados, despertar inveja ou passar imagem de pessoa bem-sucedida, socialmente ativa, que curte demais a vida e totalmente incluída, convidada para os eventos mais legais. Sua felicidade, sua diversão, ficarão apenas com você, não será possível mostrar ao resto do mundo tudo que você fez.

Também não pode beber, para entorpecer os sentidos, ter mais agilidade ao socializar, ajudar a se desinibir. Tem que ser ela mesma, pura, na essência, sem muletas, a bancar aquele evento do começo ao fim. Total presença e consciência, percebendo cada detalhe, cada interação, cada pessoa.

Quem vai querer fazer qualquer coisa nos dias de hoje nessas condições? Quem vai querer ir a um evento se suprimidos esses três grandes ganhos secundários? Talvez o leitor do Desfavor, que nunca vem aqui para lacrar, que nunca vem aqui para tirar selfie, que nunca vem aqui para beber. Poucas atividades sobrarão, pois só sobreviverão aquelas que a pessoa gosta verdadeiramente.

E do que as pessoas no geral gostam verdadeiramente? Nem elas sabem, são tantos anos vivendo em um mundo de aparência, de ostentação, de mentira, que talvez elas nunca tenham se permitido experimentar algo focadas no que verdadeiramente gostam. Sempre fazem as coisas focadas na aparência, no lacre, no acasalamento. Do que você verdadeiramente gosta? O que você faria por prazer se não pudesse mostrar a ninguém, se não pudesse beber, se não pudesse se destacar fazendo?

Faça a si mesmo essa pergunta: se tirar o lacre, se tirar a ostentação e se tirar qualquer coisa que entorpeça seus sentidos, você ainda frequentaria os lugares e pessoas que frequenta? Se não, hora de repensar suas escolhas.

Para dizer que quer desver o texto, para dizer que você mede seu valor pelo olhar de terceiros por isso precisa de aprovação em rede social ou ainda para dizer que o leitor vem ao desfavor por ser doente mental: sally@desfavor.com

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Comentários (29)

  • Mais do que lacre e ostentação, publicar nas redes sociais virou prova de que se vive. Me lembro muito bem da vez que fui ao Chile, e uma professora veio me questionar sobre a viagem já que ela não tinha visto nenhuma foto minha no facebook. “Vou postar que estou em tal lugar, para provar que fui lá”.
    Ótimo ponto de vista, Sally, nunca tinha pensado sobre este viés.
    Bjs

  • “Quem vai querer fazer qualquer coisa nos dias de hoje nessas condições? Quem vai querer ir a um evento se suprimidos esses três grandes ganhos secundários? Talvez o leitor do Desfavor, que nunca vem aqui para lacrar, que nunca vem aqui para tirar selfie, que nunca vem aqui para beber. Poucas atividades sobrarão, pois só sobreviverão aquelas que a pessoa gosta verdadeiramente.”

    Eu quero! Não dou a mínima para militância, lacração e afins. E cada dia que passa me sinto vencido, no carnaval se eu me vestir de índio e cantar “Maria Sapatão” posso ser preso, então qual é a graça? No cinema os filmes cada vez mais com alguma agenda lacradora, não fui feito para o mundo atual e não estou sabendo lidar com ele…

    • Concordo com você, Mauro. Também tenho a desagradável sensação de que o tempo e o lugar a que pertenço não são estes…

    • O mundo atual destrói tudo. Mataram o carnaval e tantas outras festas, tradições e eventos, para limitá-los à sua caixinha. Acusam conservadores de serem cabeça fechada mas os que se dizem progressistas é que estão impondo limites em tudo.

  • Penso que sempre houve necessidade de confirmação de nossos triunfos (verdadeiros ou falsos) por parte de terceiros. O que houve foi a ampliação dos meios de divulgação e checagem. Precisamos de testemunhas que validem para nós o que pensamos a nosso respeito, pelo menos até que tenhamos um nível de autoconhecimento que permita prescindir disso.

  • Saio em um único bloco na minha cidade pela tradição com os amigos, mas mesmo esse já perdeu muito do seu propósito. Sempre fazia marchinhas falando das pisadas de bola da prefeitura tirando sarro de acontecimentos nacionais, esse ano só cantou marchinhas antigas sem desagradar ninguém. Ano eleitoral sr. Prefeito estava na folia fazendo selfies com os pobres que ele detesta.
    Estava impossibilitada de encher a cara mas ainda assim me diverti, acho que tenho as pessoas certas na minha vida.

  • Interessante o teu ponto, Sally, e concordo que a essência do evento está morta, ou pelo menos em partes. Em pensar que carnaval é uma tradição tão antiga, que vem desde antes da Idade Média, e que, dentre tantas concepções, significa a repetição de um mito pra não quebrar a tradição, significa uma festa pra renovação e destruição, significa romper e iniciar novos ciclos…
    Uma pena que as pessoas tenham perdido até mesmo essa concepção primordial do evento.

    • Uma pena mesmo, está tudo padronizado para caber na caixinha do politicamente correto.

      Mas uma hora isso dá um rebote e explode, aí vai ser bonito de se ver: as pessoas perdendo a linha na direção oposta.

  • Acho triste que até “ir ao cinema” já tá ficando assim. Não que tenha bebida, mas sempre tem um monte de gente que fica enchendo o saco tirando foto durante o filme. Às vezes tem também os que vão em grupo e ficam conversando como se estivessem num barzinho.

    • É considerada como uma forma de meditação ativa, se você fizer estando 100% presente. Dizem que faz muito bem para a mente.

  • “Tenho a sensação de que, não importa o tipo de “comemoração grupal”, são todas iguais, a única coisa que muda são as roupas. Aglomeração, música alta, selfie, bebida, briga e acasalamento.”

    Tirando a Páscoa e o Natal, o resto é tudo igual. Enfim, nunca gostei do Carnaval. A única coisa boa dessa “festa estranha com gente esquisita” é o feriado prolongado.

    • Mesmo Natal e Páscoa, muda a alegoria, mas o princípio básico de estar lá para tirar foto, para se anestesiar com bebida, etc. Alguém está 100% sóbrio, presente nesses eventos por exclusiva vontade de estar lá, sem intenção se ostentar, lacrar ou se entorpecer?

  • Acho que não existe nenhuma data comemorativa que não é transformada numa desculpa pro humano médio ficar drogado (bebida também é droga) e/ou fazer sexo irresponsável e/ou tirar fotos…

  • Eu tenho 40 anos e essa porra tem sobrevivido e tá mais viva do que nunca. Os BR fazem feriado 4 dias, quando o cetto seria apenas 1. Atraso de vida este país do feriado, do PT, PSol e bolsa família! Nem saio de casa. Que bebam, dirigiam e se matem nas DST, caguei pra eles!

  • Interessante falar do vazio alheio enquanto se gaba aqui mesmo da obsessão pela própria futilidade estética (“vou na academia não cinco, mas SETE vezes na semana”).

    • Tá sobrando tempo para controlar a minha vida, não é mesmo?
      Isso que você citou é bem antigo. Ao contrário de você, eu evoluo.
      Além disso, gastar uma hora por dia sete dias da semana não faz de ninguém fútil, tudo depende do que você faça nas outras 23h do seu dia.

      Maaaaas, bom saber que 1) você me dá tanta importância a ponto de estudar minha vida passada e 2) o pior que você tem para dizer sobre mim e me atacar é que eu cuido do meu corpo.

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    Mito dos Lacres

    O melhor dessas antecipadas de “carnaval” foi o lacre sendo queimado pela Alessandra Negrini (que nem parece que vai completar 50 anos esse ano) vestida de índio, que aliás é a única coisa interessante pra guardar dessa “festa”.

  • “O sonho agora é receber mimos de uma marca qualquer por ter muitos seguidores, é virar youtuber, é ter influência em um mundo digital que não é real (…)”
    O pior pesadelo dessa gente é acordar cedo e pegar transporte público pra ir trabalhar num emprego de verdade, se acham superiores demais pra se misturarem com aquela “gentalha marrom e nojenta” (embora nunca tenham feito nada de especial na vida), acham que todo mundo tem que dar tudo de graça pra eles. São desesperados pra viver de mendigagem e de falar e postar bosta sem esforço, daí surgem esses gordos profissionais e podcasts mitadores imbecis, por exemplo. Mas parte da culpa também é dessas empresas que ficam orbitando essas pessoas e premiando suas imbecilidades. Cupons, pacotinho de doces, camiseta, perfume, celular, livros, patrocínio, networking…

    E não venham me responder com o clichê de inveja, eu fico puto é com o fenômeno em si, que está contaminando toda uma nova geração de pessoas.

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