Quer pagar quando?

No mundo atual, os cartões assumem cada vez mais o papel de dinheiro no comércio. Sally e Somir gostam da comodidade, mas discordam sobre a utilidade do crédito. Os impopulares gastam suas opiniões.

Tema de hoje: podendo escolher, é melhor comprar à vista ou no cartão de crédito?

SOMIR

Crédito. Quando a tecnologia humana oferece uma oportunidade, devemos aproveitar. Não estou dizendo para ser um irresponsável que gasta mais do que tem condição de pagar, estou só dizendo que se você tiver um mínimo de responsabilidade, pode fazer o sistema funcionar para te ajudar. Cartão de Crédito é algo criado para arrancar dinheiro de gente desorganizada, mas ao mesmo tempo, oferece vantagens para quem entende o que está fazendo.

Não é sempre que as coisas conspiram ao nosso favor nessa vida, então, nas raras vezes que isso dá certo, não custa aproveitar. O Brasil tem um sistema financeiro/bancário bem moderno para os padrões mundiais, com integrações rápidas e uma imensa adesão do comércio na área de cartões. Além disso, temos essa peculiaridade do parcelamento: não se parcela geladeira ou televisão no resto do mundo. São só casos muito específicos como casas, carros ou equipamentos industriais caríssimos. Aqui, periga de cidadão parcelar cachorro-quente na banquinha!

Isso permite ao brasileiro (novamente: minimamente responsável) uma das maiores mamatas consumistas do mundo. Pode ter as coisas antes de poder pagar por elas. Curioso imaginar que num país com tantos golpes temos um dos sistemas que mais confiam no consumidor no mundo, mas é o que acontece. Antes fazíamos com carnês e cheques pré-datados, mas hoje em dia o cartão de crédito unificou tudo na comodidade de um pedaço de plástico.

Não podemos deixar exemplos de gente que gasta sem poder gastar nos balizar sobre as vantagens desse sistema. É que nem dizer que carros não são práticos porque algumas pessoas dirigem bêbadas. Oras, o ser humano é falho, e consegue fazer besteira com qualquer coisa… cartões de crédito não endividam pessoas, pessoas endividam pessoas. Usando de forma responsável, o cartão te permite adiantar o acesso às coisas que você quer, às vezes mais de um ano de antecedência, organiza seus gastos numa conta só que economiza muito tempo precioso de vida, e ainda te dá alguns benefícios por utilizá-lo.

Se você ganha um salário mínimo por mês e compra um iPhone de 10 mil reais parcelado, a culpa não é do cartão, a culpa é sua de ser um completo maluco. Agora, se você tem a renda futura disponível para o que quer comprar agora, vai ter muitas vantagens. E digo mais, na posição de quem já viu muitas lojas (físicas e virtuais) pelo outro lado do balcão: o comerciante brasileiro coloca o valor do parcelamento “sem juros” no preço à vista. Se você comprar à vista, dificilmente vai ter um desconto tão grande como imagina. Se o sistema é viciado em compras parceladas, não adianta remar contra a maré.

E se você for consistente nas compras do cartão, ganha de brinde um relatório completo dos seus gastos no mês, sem nenhum ruído de outras movimentações da sua conta. Se você prestar atenção na fatura, começa a perceber seus padrões de consumo sem ter que fazer uma tabela de Excel e ficar anotando cada gasto. Dá até para pagar conta no cartão hoje em dia. A vantagem é que como você vai ter que pagar essa fatura em questão de dias, fica bem mais ligado no que gastou, é um atalho para gerar interesse nessa área da sua vida. Com o passar dos meses, você já vai ter uma noção quase instintiva de quanto vai gastar no mês e sem muita dificuldade vai saber onde cortar gastos ou mesmo o quanto pode exagerar eventualmente. É muito chato fazer isso normalmente, o cartão facilita demais.

E existem vantagens em consolidar seus gastos numa plataforma que está sempre analisando seu potencial de consumo e sua confiabilidade: você vai perceber que se gastar seu dinheiro no cartão e não ficar devendo, seu score de bom pagador e seu potencial de empréstimos e financiamentos aumenta. Está tudo interligado. Pode ser a diferença entre conseguir aquele financiamento para uma casa própria ou não. A tendência é que todo mundo acabe se conectando a um sistema de análise de crédito para tomar decisões em tempo real sobre o que está vendendo para alguém.

Eu sou um defensor da privacidade, desde que essa privacidade seja relevante à dignidade do ser humano. Quando a pessoa escolhe entrar no sistema por conta própria para coletar vantagens, direito dela também. Gente que sempre paga suas faturas em dia tem que ser recompensada, tudo bem que é a obrigação, mas comportamento humano costuma ser corrigido com incentivos, não com punições. Eu aceito que o banco e as instituições financeiras saibam sobre meus gastos, pois acredito ser vantajoso na hora que eu precisar de uma injeção de capital ou mesmo condições mais favoráveis para pagamento de insumos e equipamentos.

Eu não uso milhas para viajar, mas dá para trocar por várias coisas. Dificilmente vale muita coisa, mas se você conseguir acumular e trocar por descontos em outras coisas depois, é “dinheiro grátis”. Entre não ter benefício algum pagando à vista e ter um benefício pequeno usando o cartão, qual o problema?

Já fiz as coisas do jeito errado com cartão, fiquei com uma dívida pesada para os meus padrões na época, mas foi um excelente aprendizado. Não fiquei com trauma do cartão, fiquei com trauma de tomar decisões erradas e não respeitar minhas possibilidades financeiras. A tentação é tão grande quanto sua irresponsabilidade. Mas já que estamos falando de dívidas, vamos falar de algo meio errado, mas que é verdade: em última instância, o cartão está assumindo um risco ao te “emprestar” dinheiro. É o modelo de negócios deles: para ter o benefício de morder uma parte de cada transação e eventualmente ganhar um extra com os juros, aceitam tomar calotes de algumas pessoas. Se não fosse lucrativo, eles não fariam isso.

Faz parte do jogo: se der algum problema na sua vida que te impeça de pagar suas contas, o cartão é quase como um seguro. Ninguém quer ter que usar o seguro, mas é melhor ter do que não ter. Se você usou bastante o cartão, é provável que tenha um limite mais alto. Pode te ajudar num mês mais complicado, especialmente se você trabalha por conta própria, e se tudo der errado, respira fundo e aguenta: em alguns meses começam a aparecer as propostas. Existe todo um mercado ao redor disso. Espero que ninguém aqui faça isso de propósito, mas a vida é cheia de surpresas… se o bicho pegar mesmo, é melhor ter um último suspiro financeiro com o cartão antes de se afundar do que se afundar imediatamente.

Quer a melhor dica para usar cartão? Tenha dinheiro para duas faturas médias na sua conta o tempo todo. Basta se programar por um tempo para juntar esse dinheiro extra, e depois você dificilmente vai passar perrengue. Se você perder esse respiro, é só não usar o cartão no mês seguinte e começar a juntar de novo. É só saber usar.

Para perguntar se meu sobrenome termina com Berg, para dizer que não quer registro das coisas que compra, ou mesmo para dizer que o melhor mesmo é usar cartão de outra pessoa: somir@desfavor.com

SALLY

Tendo a possibilidade de escolher, o que é melhor: comprar à vista ou comprar no cartão?

Se eu puder, sem me apertar nem comprometer meu orçamento básico, pago à vista. Não sei o dia de amanhã, não gosto de jogar dívidas desnecessárias para o mês seguinte. Eu durmo melhor à noite se minhas dívidas estiverem pagas e não pendentes.

Conheço muitas pessoas que não ligam a mínima para dívidas, nome sujo no SPC, cobranças e até oficiais de justiça em suas portas. Eu ligo. Me incomoda profundamente estar devendo, me dá uma sensação de coisas por fazer e de incompetência.

Talvez você seja privilegiado de ter limite astronômico no cartão que cubra todas as suas compras e ainda deixe margem para eventuais despesas surpresas que apareçam do nada. Não é o meu caso, se eu comprar tudo no cartão, comprometo boa parte do meu crédito e não terei de onde tirar se precisar imediatamente.

Cartão é meu S.O.S., é minha última opção. Já vi gente recriminando essa escolha, dizendo que o que é gasto no cartão se converte em benefícios, em milhas ou até em prêmios. No Brasil? A menos que você faça um gasto de cinco dígitos por mês no cartão (algo que passa longe da minha realidade), nenhum programa de pontos compensa. Você junta 50 mil pontos e troca por um chaveiro ou um abridor de lata. Vai tomar no cu.

Também vi gente dizendo que se não puder pagar a dívida tudo bem, depois de alguns anos paga só 10% ou negocia. Meus mais sinceros parabéns para quem tem essa brasilidade nagô de conseguir gastar mais do que pode pagar e colocar a cabeça no travesseiro com serenidade à noite, sabendo que tem uma dívida em seu nome que só cresce. Pelos limites éticos que me criaram, eu não consigo ter paz se estiver devendo algo a alguém: pode ser um trabalho, pode ser dinheiro, tanto faz. Ficar devendo me faz mal.

Se você tem alguém que possa te socorrer financeiramente em caso de uma emergência, parabéns, você é um privilegiado, talvez você possa se dar ao luxo de ter seu crédito bloqueado por despesas do dia a dia. Eu não tenho. Eu preciso ter algum crédito, no caso de algum evento de força maior que demande um gasto significativo e não planejado. Me sentiria muito mal acionando terceiros para limpar a minha bunda.

E se você não é um privilegiado, mas, ainda assim, sai comprando tudo no crédito e comprometendo o limite que você terá disponível caso precise fazer um gasto extraordinário, desculpa te dizer, mas você é um irresponsável. E mesmo que tenha quem te socorra, não é uma atitude adulta comprometer suas finanças contando com uma ajuda externa. Pode não ser a opção mais legal ou mais fácil para você, mas ser totalmente responsável pelas suas finanças é a coisa adulta a se fazer.

Pouco me importa se essa dívida vai ser paga, negociada ou perdoada, o fato de ter gerado uma dívida com a qual não posso arcar me entristece, me faz sentir um fracasso como adulta. Se nem as suas contas você consegue arcar sozinho, não vejo como você possa ser chamado de adulto. Se você se sente confortável em ter outro adulto te socorrendo financeiramente, ou de ter uma dívida por anos correndo no seu nome, repensa sua vida aí, pois algo está fora de lugar.

Não podemos esquecer o fato de que muitas vezes pagar à vista ou pagar em dinheiro pode render bons descontos. Além de não comprometer seu crédito futuro e não se arriscar a acumular dívidas em um futuro incerto, você ainda pode pagar mais barato por bens e serviços se pagar à vista. Ou pode pagar mais caro se o fizer por cartão, geralmente acima de um certo número de parcelas o cartão cobrar juros nada amigáveis.

Pagar no cartão também pode dar uma falsa sensação de não ter gastado o dinheiro, pela abstração que gera. Quando o dinheiro sai da sua conta na hora, não tem como se enganar: ele não está mais lá fisicamente, não tem como errar a conta. Isso ajuda a controlar os gastos, a fechar a torneira quando precisa e a repensar se aquela compra é mesmo necessária.

Por isso, a menos que a pessoa seja muito pé no chão e organizada, pagar tudo no cartão pode te enfiar em um problema, fazendo com que você gaste mais do que tem sem sentir. As despesas feitas no cartão se acumulam de forma silenciosa e ardilosa. Quando chega a conta a pessoa jura que está errado, que não gastou tudo isso e, quando vai somar, percebe que gastou sim, um monte de “pouquinhos” que viraram um “muito”. Já vi acontecer até com economista.

Eu não tenho certeza de que estou imune a essa falha. Ao longo de um mês temos bons e maus momentos. Momentos de pleno controle das finanças e momentos onde não controlamos tão de perto os gastos. Momentos de economia e momentos de consumismo. Talvez eu caia nessa armadilha, portanto, melhor me prevenir.

Ninguém totalmente ponderado, totalmente controlado, totalmente comedido o mês inteiro. Então, as chances de comprar a mais, sem ter dinheiro para pagar, são maiores. Prefiro que minha conta bancária seja meu freio, que ao abrir e ver aquela miséria que fica no final do mês eu reprima e deixe de comprar algumas coisas.

Por último, um fator que para muitos deve ser risível, mas para mim importa: meu nome. Estar com o nome sujo ou estar devendo me parece insuportável. Passa uma falta de credibilidade, uma desorganização com a própria vida, que chega a ser capaz de minar a confiança na pessoa. Beleza, acontece acidentalmente com todo mundo em algum momento, a vida é cheia de imprevistos, mas… por opção? Escolher passar por isso? Não, obrigada. Acho que depõe contra mim.

As chances de você fazer uma cagada financeira são menores de você puder comprar à vista. Como não somos perfeitos, não somos infalíveis, acredito que a melhor política seja resguardar nossas finanças e consumir da forma a que seja menos provável um endividamento, caso não esteja sobrando dinheiro. Eu tenho humildade de reconhecer o valor de um freio como esse, e você?

Para dizer que basta saber somar para não se endividar, para dizer que está cagando para dívidas e para o seu nome ou ainda para dizer que sabe que é o certo a fazer mas não resiste a comprar no cartão: sally@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Acho que a máxima “nunca gaste mais do que vc ganha” serve pra tudo. Inclusive para o cartão de crédito. Se os parcelamentos nao fazem com que vc gaste mais do que recebe, não vejo problema nenhum e é uma maneira de vc conseguir adquirir coisas mais caras.

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    Geraldo Renato da Silva

    Sempre preferi comprar à vista: você pode exigir desconto e pode dormir tranquilo. Tenho amigos e amigas que entraram no cartão de crédito e no cheque especial e estão neste atoleiro até hoje. E controle de gastos é essencial: para mim, deveria ser ensinado nas escolas.

    • “Sempre preferi comprar à vista: você pode exigir desconto e pode dormir tranquilo. Tenho amigos e amigas que entraram no cartão de crédito e no cheque especial e estão neste atoleiro até hoje. “ Morro de medo que me meter nesse “atoleiro” também…

      Ah, e eu também acho que controle de gastos deveria ser ensinado nas escolas, Geraldo.

  • Sou uma parasita. Financiei a prazo à vontade na época das vagas gordas, a fim de alavancar o patrimônio, e agora tentarei economizar para as vagas magras. Meu equivalente na área privada ganha 3, 4 vezes mais, porém estabilidade é um must em tempos de instabilidade perene.

  • Sem cartão o dinheiro vai pelo ralo e a pessoa não percebe. Compro tudo no cartão e pago tudo só 1X no mês, assim tenho noção de quanto gasto. Quando pagava no $ me embucetava todo, gastava a mais sem sentir.

  • Entendo o ponto de vista do Somir, mas eu fico com a Sally nessa. Minha postura em relação a essa questão é bastante semelhante à dela: tenho horror a ficar com o nome sujo e prefiro não deixar dívidas pendentes porque o futuro, como ela bem disse, é incerto; e porque faço questão de não ter algo por fazer (ou por pagar) perturbando a minha paz de espírito. Posso dizer que não sou gastão nem pão-duro, mas eu também me preocupo com isso de gastar sem perceber um monte de “pouquinhos” que, lá na frente se transformam em um “muito”.

  • Eu até concordo com o Somir quando ele diz que é só saber gastar, a pessoa tem que ser muito bem controlada e organizada e tal. Mas, por outro lado, fico com a Sally nessa, principalmente no ponto que diz respeito à imprevisibilidade futura: mesmo que tu tenha lá uma renda fixa, a gente não sabe bem o dia de amanhã, alguma coisa pode acontecer e tu precisar de dinheiro na hora pra alguma emergência, enfim. E é foda tu, mesmo que seja controlado, simplesmente ver no final do mês parte do teu dinheiro indo embora porque fez dividas anteriormente.

    E quanto a comprar coisas propriamente ditas, prefiro muito mais à vista mesmo. Aliás, sou do tipo cliente abusado, que pexinxa horrores, do tipo que o produto custa 1 real, eu vou lá e digo que quero pagar 98 centavos. Não vai me vender? Então também não quero… rs

    • Pois é, não somos capazes de prever todas as emergências que podem acontecer, melhor ter crédito para estar apto a limpar a própria bunda em situações inesperadas.

  • Somir quebrou os dois braços andando de moto, brigou com travecos por falta de savoir-faire, colou o furico com superbonder, desmaiou por correr em jejum prolongado, tudo isso tendo um QI bem acima da média.

    Sally o tirou de diversas enrascadas. Meu voto é por comprar à vista, a menos que seja um imóvel, porque aí o financiamento é inevitável na maioria dos casos.

    • É, quem compra imóvel à vista nem tem que entrar nessa discussão, pois é uma pessoa sem qualquer problema com crédito…

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