Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Transconfusão.

Em 2019, pelo menos 124 pessoas transgênero, entre homens e mulheres transexuais, transmasculinos e travestis, foram assassinadas no Brasil, em contextos de transfobia. Os dados estão no relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgado hoje (29). LINK


Esses números são jogados na mídia sem nenhuma lógica, e acabam atrapalhando mais do que ajudando. Desfavor da semana.

SALLY

Não faz muito tempo o Danilo Gentili publicou em suas redes sociais dados oficiais de estatísticas de mortes de LGBTWhatever e de mortes de homens “padrão” no Brasil. A discrepância era avassaladora, obviamente se matam muito mais homens, e ele ilustrou seu ponto escrevendo “Alguém come meu cu, só por segurança?”. Foi processado? Foi. A verdade dói.

O que o Danilo fez e o que nós vamos fazer aqui é simplesmente desacreditar estatísticas. Ninguém está dizendo que pessoas transgênero não sofram preconceito e violência, claro que sofrem, isso é óbvio. Mas colocar um número de 124 mortes por ano é tão escroto que depõe contra a causa. Fica parecendo que é algo muito menor do que realmente é.

124 pessoas devem morrer por dia no Rio de Janeiro. Por mais que cada vida importe, para o grande público, quando esse número é comparado com outros que anualmente ganham muito mais dígitos, ele parece irrelevante. A cada hora cinco pessoas morrem em acidente de trânsito. Se a gente analisar os números friamente, a conclusão é de que é muito mais urgente resolver as mortes no trânsito, pois é o que está afetando a sociedade como um todo com maior impacto.

É de uma burrice sem precedentes se valer de números para militar por uma causa quando esses números são desfavoráveis. Existem muitos outros argumentos, e, sinceramente, números não são o dado mais importante. Mas calma que piora: esse número caiu quando comparado a anos anteriores, onde o número de mortes ao ano seria de 163 assassinatos. Que ideia isso passa? “Beleza, está diminuindo, estamos conseguindo conscientizar a sociedade”. Uma elite intelectual vai saber que isso não é verdade, mas o povão? Torna o número ainda mais irrelevante.

Para piorar, são dados quase que impossíveis de serem constatados. Difícil ter a certeza da orientação sexual da pessoa morta, não acham? Aqui no Rio às vezes fica até difícil de saber se era homem ou mulher, é preciso exame da ossada ou de DNA. Seria como dizer que morreram X veganos assassinados. Será que dá para saber qual era a alimentação rotineira do morto?

Juro que antes de ler a notícia eu achei que ela tinha partido de algum órgão governamental bem conservador, querendo desmerecer a causa. Mas não, a militância brasileira é burra o suficiente para continuar dando sucessivos tiros no pé. O feminismo que faz aumentar o número de violência contra a mulher agora ganha outras vertentes. Já é uma realidade que essa militância burra está excluindo as “minorias” de vagas no mercado de trabalho, por medo de sua histeria. Ao que tudo indica, agora estão dispostos a minar sua própria credibilidade também. Parece que Romário estava mesmo certo: quem é ruim se destrói sozinho.

Essa militância nervosa, descontrolada, histérica que não descansa e se apega a qualquer coisa para fazer barulho aos poucos vai caindo em descrédito e, o que é mais importante, vai caindo no setor “saco cheio” da população. Sim, as pessoas estão de saco cheio, cheíssimo, taí o Presidente que escolheram passando o recado de forma bem clara. Não tem burrice pior do que voltar a opinião pública da massa contra si para receber aplausos apenas de quem já te aplaudia antes.

E não estamos aqui oferecendo nenhuma visão inovadora, privilegiada ou secreta. É público que a militância atual não funciona e ainda repele a maior parte das pessoas em vez de conscientizá-las. Já vimos essa reposta de várias formas: aumento da violência, volta do conservadorismo ao poder, exclusão de minorias de cargos de poder e tantas outras. As evidências estão aí, mas gente burra sai correndo feito um porquinho da índia quando você levanta a casinha e só para quando bate na parede.

Isso se chama arrogância. “Como é possível que minha maravilhosa forma de agir não dê certo? Vai dar certo sim, tudo que eu tenho que fazer é gritar com mais força”. Vai lá, militante, confia no seu potencial, insiste no erro. Quanto mais fundo cavarem, mais vão demorar para sair desse poço depois. Não é por falta de aviso ou por falta de feedback, é por arrogância mesmo. Quem nunca teve voz, quando tem, faz merda. Parabéns aos envolvidos.

Como já conseguiram despertar minha antipatia e meu saco cheio, no momento, eu estou assistindo a militância irritar a população e achando uma certa graça. Porém, ainda assim, algo me preocupa, a ponto de me dar ao trabalho de escrever este texto. A coisa pode sair do controle e aí não vai ser engraçado para ninguém, todos perdem. A sociedade perde.

Sabemos que vivemos em um país animalesco e o que hoje é gente fazendo Meme amanhã podem ser pessoas com paus e pedras transbordando ódio querendo se livrar dessa irritação. Portanto, por mais que enquanto a coisa está no campo das ideias (piadas) eu ache graça, devo alertar sobre a possibilidade. Tomara que não aconteça, mas se acontecer, acho que não dá para falar em “ódio gratuito”, não é mesmo?

Em um mundo civilizado, não se resolvem divergências com quem te irrita na base da violência física, mas todo mundo sabe muito bem que este não é um país civilizado. Se fosse, nem precisaríamos cogitar que alguém possa apanhar ou ser morto por ser transgênero. A barbárie está implícita no Brasil, faz parte do modo de funcionar do brasileiro médio. A falsa sensação de proteção que uma bolha te respaldando proporciona não te protege no mundo real. Seria muito bacana se todos pudessem tomar consciência disso.

Vão tomar consciência disso? Não, claro que não. Poder recém adquirido inebria. Mas a vida ensina. Infelizmente, ao que tudo indica, teremos que passar por esse rebote escroto, tal qual uma mola comprimida quando é solta. Não sei quanto tempo vai demorar, só sei que é previsível e… Salve Darwin! Quem não conseguir antever, não estará aqui para contar a história.

O Brasil hoje é um caldeirão de medo polarizado. Uma hora vai explodir e, não se iludam, um grupo barulhento na internet não traduz a realidade da maioria. Se tem uma coisa que a história nos ensinou é que o homem branco, quando se enfurece, faz estragos sombrios. Hora de dar um passinho na direção da conciliação e um passinho de distanciamento da vitimização, pelo bem da sociedade, que já está suficientemente doente.

Para dizer que meu texto é transfóbico mesmo eu tendo dado conselhos positivos, para dizer que quer ver o circo pegando fogo mesmo ou ainda para dizer que o pessoal do alfabeto não perde uma chance de se indispor com o mundo: sally@desfavor.com

SOMIR

Fazer pesquisa dá muito trabalho. Cruzar os dados e fazer relatórios depois idem. São tarefas repetitivas, cheias de detalhes. Mas mesmo assim, nada é mais complicado que tirar uma conclusão dos dados, isso é, se você quer entender a realidade através deles ao invés de forçar um ponto de vista e pronto. Uma conclusão precisa achar a lógica entre os dados e depreender dali padrões que possam ser usados para melhorar a tomada de decisões futuras.

Então, embora eu não faça pouco do trabalho da Antra pesquisando todos esses casos, algo está muito errado quando o que acaba saindo na mídia é “124 pessoas transgênero foram mortas no Brasil”. O que diabos isso quer dizer? Sim, eu sei que qualquer número acima de 1 em assassinatos é terrível, mas considerando que em 2018 foram 51 mil pessoas morrendo de forma violenta no Brasil e os dados de 2019 até Setembro sugerem quase 28 mil, parece algo irrelevante. É possível que uma doença que você nem sabe que existe tenha matado mais gente…

Ao contrário do estagiário do IG, que tirou da bunda que as mortes eram relacionadas com transfobia, eu fui ler o relatório. Aliás, eu fui ler vários desses relatórios. Não porque queria desacreditar os números, mas para entender o que eles significavam. O da Antra está aqui. O que se encontra em comum é a falta de relação dos dados com qualquer outra coisa que os dê um contexto. Pode nem ser culpa da entidade, porque é difícil mesmo achar esse tipo de número, mas no final das contas, acaba dando munição mesmo para quem quer fazer pouco desse problema. Se duvida, vá ver os comentários da matéria que ilustra a coluna de hoje.

Vários desses relatórios chamam a atenção para o Brasil ser o país que mais mata transexuais no mundo. O que eu nem duvido, porque o Brasil mata mais de qualquer pessoa que o resto do mundo com sua taxa absurda de assassinatos. Algo ainda me cheira mal sobre a queda no número de mortes violentas desde que o Bolsonaro assumiu, como eu sou paulista, sei bem sobre táticas para reduzir os números sem necessariamente reduzir a violência. Mas mesmo em queda, os números são absurdos. Mata-se mais gente aqui que em países em guerra.

Por isso, meu primeiro reflexo foi buscar a lógica entre o número de transexuais mortos no país com a parcela da população que se identifica de tal forma. Faz “sentido” a proporção? Se o argumento dos ativistas é de que o risco de morte aumenta para transexuais, ele tem que ser relativo aos outros grupos. O problema é que não existe um censo nacional trans. Ninguém sabe essa porcentagem. A primeira hipótese que surgiu na minha cabeça é que o Brasil também tem a maior população transexual do mundo. Considerando como somos famosos mundialmente por isso, deve haver algum fundo de verdade no volume de transexuais que produzimos todos os anos.

Mas esses dados não existem. O número de mortos não é alto ou baixo de acordo com alguma métrica, é só um número. Uma pessoa como eu que acha inaceitável matar outro ser humano por motivos de raça, religião ou sexualidade continua no escuro sobre o que essas pesquisas significam. É um número jogado que pode ser politizado de acordo com o interesse do momento. Quando o feminicídio “entrou na moda” na grande mídia, o Jornal Nacional estava dando os números dia sim, dia também. Não significava nada em específico, mas parecia importante e gerava discussão. Parecia que o Brasil ia finalmente atacar o problema da violência contra a mulher!

Mas, como eram só números sem contexto, ficou “chato” falar de feminicídio e o ciclo de notícias partiu para pastagens mais verdes. Ainda aparece de tempos em tempos, mas como não tem muito o que fazer na prática só isolando o número de mulheres que morrem de forma violenta, não tivemos muitas medidas concretas. O número de feminicídios continua atrelado ao número de mortes violentas em geral: aumenta ou diminui de acordo com os dados gerais do ano. Nem precisava da palavra nova no final das contas.

E toda essa conversa sobre mortes de trans parece seguir o mesmo caminho. Os números dizem pouco. Quer dizer, se você só ler a matéria preguiçosa do site de notícias ou a coluna preguiçosa da lacradora do Universa: porque mesmo que não seja possível traçar um valor aproveitável sobre o risco que ser transexual gera no Brasil, podemos ver alguns padrões surgirem nas partes da pesquisa que a mídia não tem saco de ler. A pessoa trans morta costuma seguir padrões bem conhecidos no resto da população: pobreza, juventude e cor da pele negra ou parda. Esses fatores aparecem de forma tão clara nos dados (eu já passei o link) que começa a ficar difícil isolar o fator transexual nesses casos. Se você é um negro pobre e jovem, viver no Brasil é mais perigoso que enfrentar o Estado Islâmico…

E tem outro porém: segundo a própria pesquisa, algo em torno de 70% das vítimas trabalhavam com prostituição. Começa a ficar realmente complicado dizer que transfobia é a causa dessas mortes, pode ser, pode não ser, não existem dados para trabalhar. Como esses números se comparam com a taxa de mortalidade de mulheres que tem a mesma profissão? Aliás, a gente compara transexuais com mulheres ou homens para tirar conclusões sobre o risco que transexuais correm? O meu ponto aqui não é que devemos fazer pouco desses dados, mas sim que devemos ter dados que signifiquem alguma coisa.

E não sejam apenas uma ferramenta para conseguir cliques e curtidas, que as pesquisas como a da Antra não sejam 90% opinião e 10% dados, e especialmente que essa cultura do lacre acabe para termos alguma chance de ajudar quem precisa de ajuda. Cada divulgação desastrada dessas garante mais votos para o Bolsonaro, e no dia depois da eleição, estão “todxs” chorando tentando entender o que aconteceu.

Aconteceu incompetência e necessidade de “vitimização instantânea” ao invés de um trabalho sério. Mas não adianta avisar, todo dissidente é bolsominion, nazista e transfóbico. Então beleza… fica com a turma dos comentários de site de notícias que lê isso e acha pouco.

Para dizer que eu consigo ser irritante para lacradores e mitadores, para dizer que números são machistas, ou mesmo para dizer que gente que está se afogando te leva junto: somir@desfavor.com

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Comentários (5)

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    Mito dos Lacres

    A ideia é justamente que a violência contra os trans aumente pra fortalecer a militância.
    Parece um tiro no pé, mas só que não é, ainda que isso implique em riscos políticos e até mesmo a própria integridade física.

    • Claro que é um tiro no pé. Querer ganhar relevância com pouco mais de cem mortes ao ano é um baita tiro no pé, tanto é que a notícia viralizou e virou piada.

      • Avatar

        Mito dos Lacres

        Sally, você não entendeu a tática. A ideia é que a divulgação massiva de tais dados acabe por fomentar reações mais agressivas dos grupos homofóbicos, alimentando a radicalização e dando condições para a construção de uma massa de manobra política sólida o suficiente para abarcar as pretensões políticas da turma que encabeça tal movimento.
        Ainda que os grupos trans estejam em posição minoritária, ainda assim, há vantagens políticas interessantes para serem exploradas caso se tenha uma janela maior de oportunidades para encenar o jogo da “vitimização”, tirando vantagem de grupos ditos “progressistas” dentro da sociedade brasileira.
        E no fim tudo gira em torno de poder, fortuna, popularidade e fama, sendo esse o verdadeiro “protagonismo” que é buscado a tanto custo por essa turma militante.

  • Não tem aquele estereótipo de “briga de travesti”, navalha ou algo assim? E se parte dessas mortes forem trans matando trans, como fica? Lembrei-me de uma discussão recente sobre o caso de uma mulher que matou a namorada/esposa e houve um debate se isso seria considerado feminicídio.

    • Perfeitamente possível. Pode ser também em decorrência do risco que envolve a prostituição, seja ela de homem, mulher ou trans.

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