Coronavírus – Parte 2

Aconteceu. O coronavírus (papo técnico: Covid-19, mas se a gente chamar assim, nem todos vão entender o texto) chegou ao Brasil no carnaval, conforme qualquer pessoa com um mínimo de cognição conseguiria prever, mas não o governo brasileiro, que não exerceu nenhum tipo de fiscalização preventiva entre as pessoas que desembarcaram no país nesse período.

Já são mais de 250 casos suspeitos, portanto, é hora de aprofundar o assunto. Principalmente depois de escutar as orientações do Poder Público, pedindo que as pessoas só recorram a hospitais em último caso. Discordamos fortemente disso e vamos te explicar o motivo.

Mas antes, vamos aprofundar um pouco na prevenção. Já falamos o básico sobre o coronavírus neste texto, agora é hora de orientações mais específicas.

A melhor forma de prevenção é lavar as mãos com água e sabão, da forma como ensinamos no outro texto. Porém, se isso não for possível, álcool gel resolve a situação desde que seja álcool gel 70%. “Mas Sally, não é todo álcool gel que é 70%?”. Não. Tem uns aí que tem mais ação de perfuminho do que de desinfetante. Por isso, na hora de comprar, esteja atento: 70% ou nada feito.

Já explicamos no outro texto a razão pela qual não é bom usar máscaras, que, se não forem bem utilizadas, além de não proteger, pode prejudicar e até adoecer a pessoa. Mas, o ser humano quando sente medo não é racional. Sei que vai ter muita gente que vai querer usar máscara, não importa o que eu diga, então, algumas dicas para os teimosos de plantão que querem essa falsa sensação de segurança que a máscara oferece.

A única máscara que te protege do coronavírus é a PFF2/N95, que, atualmente, está sendo vendida a R$ 60,00 a unidade, o que quer dizer que o padrão, uma caixa com 100 unidades, vai te custar R$ 6.000,00. Ainda quer usar a máscara? Ok, então tenha consciência de que assim que ela ficar úmida deve ser trocada, caso contrário em vez de repelir você está cultivando micro-organismos que podem te fazer mal. Em um país quente e úmido como o Brasil, sobretudo no verão, provavelmente você vai ter que trocar a máscara de duas em duas horas.

E, ainda que esteja com a máscara, você só barra uma porta de entrada para o vírus. Como explicamos no outro texto, se você encosta em um local contaminado e depois leva a mão a qualquer mucosa (inclusive olhos), pode ser contaminado. Então, usar máscara não te exime de lavar as mãos várias vezes por dia.

Um cuidado especial que devemos ter: celular. O celular vai conosco para todos os lugares, é apoiado em todo tipo de superfície, está em nossas mãos o tempo todo. Portanto, ele é um dos principais focos de contaminação. A solução mais prática é colocá-lo em uma braçadeira plástica daquelas usadas para corridas e academias e desinfetá-la com álcool 70% várias vezes ao dia (não recomendo passar álcool direto no aparelho).

Qualquer pertence seu que sair de casa e encostar em ambientes externos (ex: caneta que você deixa na mesa do restaurante, garrafinha térmica que coloca no chão da academia) merece uma boa lavada com água e sabão quando chegar em casa. Se não for “molhável”, um paninho com álcool 70%. Assim você mantém a sua casa livre de contaminação e, quando estiver em casa, não precisa ficar lavando as mãos o tempo todo.

Um conselho bastante antipático, mas que está sendo divulgado pela OMS: distância social. Isso significa não ficar muito próximo de outras pessoas, ao menos de desconhecidos. A recomendação é fica a pelo menos um metro de distância, se possível mais. No Brasil, isso significa não andar de transporte público e não frequentar certos locais como cinemas e teatros. Sei que nem sempre isso é possível, mas, fica a dica para aqueles que tiverem oportunidade de seguir a recomendação.

Mais um detalhe que não vem sendo muito falado: evitar o consumo de comidas cruas ou pouco cozidas fora de casa. Como você não sabe quem vai manipular esse alimento, melhor não se arriscar. Quando o alimento é frito ou vai ao forno, os germes em geral morrem, mas quando falamos de alimentos crus, qualquer partícula que contaminar o alimento vai direto para a mucosa da sua boca.

Lembrando sempre que comida crua não é só sushi e carpaccio, saladas, verduras e outras comidas mais banais também são servidas cruas. Cuidado redobrado se você está comendo em um self-service, onde qualquer pessoa pode espirrar partículas na comida exposta. Se puder, evite. Evite também compartilhar copos, talheres, toalhas ou qualquer coisa que entre em contato com fluidos corporais.

Uma dica para quem rói a unha: crie um mecanismo para dar um tempo nesse vício. Suponho que se você pudesse parar, já teria parado. Então, já que não consegue parar, coloque uma barreira física entre sua unha e sua boca: luvas, esparadrapos nas pontas dos dedos, pouco importa o que seja, apenas bloqueie esse hábito de levar a mão à boca, pois quem rói unha acaba fazendo, de forma automática, sem perceber.

Os cuidados também valem para você como transmissor. No Brasil há uma grande normalização da gripe: pessoas vão trabalhar gripadas, vão a eventos sociais gripadas, usam transporte público gripadas. Isso é coisa de símios sem um pingo de consideração, em países civilizados pessoas doentes ficam em casa para não contaminar ninguém. Portanto, se você está com sintomas de gripe, seja civilizado e fique em casa até melhorar.

Sobre ambiente de trabalho: se este país fosse sério, colocaria todo mundo em home office, obrigando a ir trabalhar apenas aquelas pessoas onde é indispensável a presença física. Não vai acontecer, então, algumas dicas rápidas, mas que infelizmente não protegem 100%, pois estar confinado com outras pessoas é sempre um risco: não compartilhe telefones, teclados e outros itens que podem ser foco de contaminação. Se for obrigado a compartilhar, limpe com álcool 70% antes de usar. Evite elevadores, se puder, suba de escada. Evite transporte público. Evite aglomerações ou pessoas próximas. Difícil, eu sei.

Agora vamos para a segunda parte. Supondo que a prevenção não tenha funcionado e você esteja sentindo sintomas compatíveis com coronavírus, você sabe o que fazer? A hora de procurar ajuda? Como procurar ajuda?

Os sintomas parecem os de uma gripe comum (coriza, febre, tosse), pois, na maior parte da população é assim que a doença se manifesta: como uma gripe, que normalmente o próprio corpo combate e controla. Mas, em pessoas que estão com o organismo debilitado (e isso pode acontecer por uma série de motivos, sem que você sequer perceba estar com o organismo debilitado), a coisa pode se agravar e acarretar risco de vida.

Começa como uma gripe, mas, em algum momento, a situação se agrava de forma rápida e drástica. É tão rápido que muitas vezes as pessoas não conseguem ter uma percepção/reação do que está acontecendo até ser tarde demais, principalmente pessoas que acham que coronavírus só mata idosos. Se isso acontecer, você precisa estar muito atento para procurar por ajuda assim que a coisa começar a ficar grave. Não dá para esperar depois que a piora se instaura, pois você pode morrer em uma questão de horas.

O grande ataque do vírus é ao pulmão, portanto, o estado do pulmão será o seu termômetro para saber quando procurar ajuda. Isso pode acontecer na forma de uma pneumonia, na forma de uma síndrome de angústia respiratória, ou na forma de sepse. Vamos explicar cada um com calma para que você apenda a reconhecer quando algum deles está acontecendo. É importante deixar bem claro que nenhum desses problemas pode ser tratado em casa ou com remédios caseiros. É indispensável atendimento médico tanto para diagnóstico como para tratamento.

Em todos os casos, é quase certo que a pessoa vai experimentar dificuldades respiratórias. Então, ao contrário do que o governo brasileiro anda anunciando, uma dificuldade respiratória basta para que você procure por ajuda. Pode ser uma gripe, mas também pode ser o começo de uma complicação grave no pulmão que, se não for tratada imediatamente, pode causar danos irreversíveis, entre eles a morte.

Quando a coisa se agrava, a consequência mais comum é a pneumonia. Simplificando bastante, a pneumonia é uma infecção que inflama seus pulmões. Um dos primeiros sintomas da pneumonia é a dificuldade respiratória, geralmente acompanhada por tosse, uma tentativa do corpo de expelir os fluidos que estão se acumulando no pulmão. Também costuma causar febre, dor nas costas, dor no peito, calafrios, fadiga, mal-estar e ritmo cardíaco acelerado.

Talvez um leigo não saiba identificar todos esses sintomas, então, uma dica que eu dou é que preste atenção na sua respiração. Muitas vezes a capacidade respiratória diminuí e a pessoa não percebe, pois é gradativo. Há quem sinta apenas um grande cansaço, sem perceber que isso se deve a uma capacidade respiratória menor. Cansou pelo simples fato de ir de um cômodo a outro da casa? É provável que exista um comprometimento respiratório.

Então, observe sua respiração. Se não estiver respirando direito, se estiver tossindo muito, se estiver excessivamente cansado ao desempenhar pequenas tarefas, investigue. Um exame clínico rápido e uma radiografia de pulmão bastam para confirmar ou descartar o diagnóstico de pneumonia.

Além da pneumonia, a pessoa também pode apresentar uma coisa chamada Síndrome de Angústia Respiratória (ou Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo), que é um quadro mais grave, onde o pulmão da pessoa se enche de líquido.

A Síndrome de Angústia Respiratória pode ser causada por diversos fatores associados ou não ao coronavírus, inclusive pela pneumonia, ou por outros como traumatismos, aspiração de agentes tóxicos e uso incorreto de opioides. É basicamente um acúmulo de líquido no pulmão que o impede de respirar de forma adequada e, portanto, de fornecer oxigênio para que o sangue. É algo muito desagradável, pois à medida que os pulmões se enchem de líquido a pessoa se afoga, mesmo estando fora da água.

Novamente, pode ser que em um primeiro momento a pessoa não identifique o que está acontecendo, sentindo apenas um desconforto muito grande. Não é todo mundo que consegue cogitar que seu pulmão esteja se enchendo de líquido. A evolução do quadro costuma ser rápida e pode levar à morte, ou a sequelas irreversíveis pela baixa oxigenação de órgãos importantes, como por exemplo, do cérebro.

Portanto, se há qualquer dificuldade respiratória, sensação de afogamento, dificuldade em encher por completo os pulmões com ar, cansaço ou algum sintoma que indique que o pulmão está perdendo sua capacidade respiratória, não perca tempo e procure atendimento médico. Não é brincadeira, há risco de danos irreversíveis não apenas ao pulmão, como a seus órgãos, sentidos e até cognição.

Um outro desdobramento perigosíssimo é a sepse. Como bem disse uma leitora do Desfavor uma vez, se as bactérias fossem soldados, a sepse seria um tanque de guerra. Sepse é uma reação inflamatória muito forte e muito grave que acontece no organismo como forma de combater o micro-organismo agressor. Não raro, resulta em morte. Por isso, todo cuidado é pouco. Uma das causas mais comuns de sepse é a infecção pulmonar, que é causada pelo coronavírus.

Os sintomas mais comuns de sepse são: febre alta ou hipotermia, calafrios, baixa produção de urina, respiração acelerada dificuldade para respirar, ritmo cardíaco acelerado, agitação e confusão mental. Mesmo se você pegar no começo, grandes chances de que seja tratado em uma unidade de terapia intensiva, de tão grave que é. Portanto, a diferença entre a vida e a morte pode acontecer em uma questão de horas. Não perca tempo, procure atendimento médico.

E não pense você que por ser grave é rara, infelizmente a sepse é bastante comum no Brasil. Cerca de 25% dos leitos de UTI atendem a pacientes com sepse. Não é “doença de idoso”, até crianças podem ter. Ninguém está livre, portanto, esteja atento. Se sentir um declínio muito grande e rápido do seu quadro clínico (capacidade respiratória, responsividade, consciência e capacidade para executar suas tarefas do dia a dia) corra para receber atendimento médico.

Um detalhe que nem todos percebem é que dificilmente o doente tem uma boa capacidade de autodiagnóstico. Geralmente as pessoas acham que estão mais doentes do que realmente estão ou menos doentes do que realmente estão. Por isso o ideal é ter um “curador”, uma pessoa da sua confiança que possa cuidar de você e observar de forma ponderada, determinando qual é o momento de procurar atendimento médico. Designe alguém de sua confiança e com emocional ponderado para ser a voz da razão caso você adoeça.

Se você é a pessoa que está cuidando do doente, use os seguintes critérios: 1) os sintomas são mais fortes do que os de uma gripe comum? Se sim, procure ajuda; 2) Há qualquer dificuldade ou alteração respiratória? Se sim, procure ajuda; 3) Há febre persistente que não cede? Se sim, procure ajuda. Não precisam estar os três requisitos presentes, basta um para que você obrigue a pessoa a receber atendimento médico.

Obviamente, estes são conselhos genéricos. Se qualquer dos sintomas ou da evolução da “gripe” parecer anormal ou grave, ainda que não das formas citadas acima, procure ajuda. Por mais que a campanha do Ministério da Saúde mande as pessoas ficarem em casa e só procurarem ajuda se estiverem em uma condição muito grave, a gente te sugere que você não espere até esse ponto, pois as chances de danos irreversíveis e até de morte são muitas.

A saúde pública não consegue dar conta de todo mundo e precisa ocultar isso na base da negligência, mas você não precisa pagar com a sua saúde por causa disso. Na dúvida, procure ajuda. Sabemos que o atendimento é deficiente no Brasil. Um dos grandes filtros de triagem para decidir o quanto vão levar um paciente a sério é perguntarem se você teve contato com pessoas de outros países onde há surto. Se você disser que não, provavelmente vão te mandar para casa, mesmo que você esteja infectado.

Então, se você realmente está se sentindo muito mal e acha que pode ter coronavírus, eu recomendo que diga que teve contato com um italiano ou um chinês. Você não sabe o nome, não tem acesso à pessoa, ela apenas estava presente em uma festa na qual você estava (vão querer rastrear a pessoa). Isso deve bastar para que o seu atendimento seja levado a série. Mentir não é legal, mas em um país onde vaza áudio dizendo que só é para internar “se estiver morrendo”, eu encaro isso como lutar pela própria vida.

É perfeitamente possível, atualmente, ser infectado pelo coronavírus sem estar em contato com estrangeiros, pois a doença já está no país. Entretanto, médicos só te levarão a sério se você disser que teve contato com um estrangeiro de um país onde há surto da doença. Não sinta culpa de mentir para salvar a própria vida ou a vida de alguém que você ama. Culpa você tem que sentir é se não fizer tudo que estava ao seu alcance para salvar a vida desta pessoa.

Para terminar, duvide de informações que cheguem a você por grupos de WhatsApp e demais fontes não confiáveis. Vitamina D não cura infecção coronavírus, vinagre não é uma forma eficiente de desinfetar as mãos, chás não previnem o contágio, remédios para HIV não curam infecção por coronavírus e tantas outras ignorâncias que vem sendo divulgadas. Não tem conspiração de indústria farmacêutica, não tem conspiração governamental, é apenas mais um de muitos casos de vírus que mutaram e estão perturbando o ser humano.

Por hora, a infecção por coronavírus não tem cura, o que deve ser feito e fortalecer o organismo e controlar seus sintomas para que o próprio corpo vença a batalha. Não apele para receitas caseiras (teve até igreja prometendo a cura pela reza!), não caia na tentação de achar que tem alguma informação privilegiada. Repouso, hidratação, boa alimentação e descanso. E se, mesmo assim, os sintomas piorarem, procure atendimento médico.

Para dizer que o lado bom é que já teve um caso na Argentina, para dizer que é tudo invenção da Rede Globo ou ainda para dizer que não quer nem imaginar como vai ser quando o inverno chegar: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Eu ouvi hoje no busão duas crentelhas falando perto de mim que esse vírus apareceu no lugar exato que o apocalipse da bíblia previu. Deu vontade de mandar para a puta que pariu.

  • Até o inverno, esse corona já deve ter desaparecido. E sobre ir trabalhar gripado, não é questão de ser símio, é que alguns médicos nem dão atestado pra uma simples gripe e se faltar toma demissão.

    • É questão de ser símio sim: coletiva. O patrão é um símio por exigir isso (é ruim pro empregado, é ruim para toda a empresa), o brasileiro é um símio por minar sua credibilidade cavando faltas o tempo todo e fazendo com que se liberar ficar em casa com gripe se corra o risco de passar meio mês em casa.

      Em lugares civilizados, onde ninguém nem cogita mentir para faltar ao trabalho, não há essa necessidade de atestado médico, pois não se precisa coibir uma mentira.

  • Pois é. Mesmo terrorismo que fazem para toda gripe nova que aparece. Morre quem tem baixa imunidade e quem não busca socorro, como também acontecia com Influenza A e B. Influenza C dá uma gripe mais fraquinha. Quem é jovem e saudável não vai morrer, mas pode ser responsável por infectar os mais vulneráveis. Portanto, nada de ser porco(a): bora lavar as mãos, usar álcool gel e não espirrar em cima dos outros.

    • O problema é que o brasileiro nunca teve consideração com grupos vulneráveis em matéria de saúde. Não fazem o básico que é se vacinar, imagina coisas mais complexas…

  • Um conhecido meu da academia me disse que se o epicentro desse surto mundial de Coronavírus fosse o Brasil em vez da China, haveria grandes possibilidades de que quase toda a população brasileira acabasse varrida do mapa muito antes que as nossas “otoridades” sequer percebessem que algo precisaria ser feito, quanto mais tomar alguma providência em caráter de urgência. O pior é que eu concordo com ele…

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