Imitação barata.

Em 2016, os americanos chocaram boa parte do mundo elegendo Donald Trump para a presidência do país. Para muitos, uma piada ambulante reconhecida apenas pelas suas aparições na TV e grande patrimônio. Com uma campanha agressiva e discurso conservador de resistência à imigração, cativou o número suficiente de eleitores para conseguir o cargo. Dois anos depois, os brasileiros elegeram um deputado famoso por aparições em programas de celebridades e tomar processos por injúria e difamação para o cargo maior do poder executivo nacional, cuja campanha agressiva foi baseada num discurso conservador de resistência à violência urbana. E quanto mais o tempo passa, mais fica clara a intenção do brasileiro de copiar o que o americano faz…

Talvez você não enxergue tão bem desse paralelo, e isso tem um motivo: Trump foi eleito dois anos antes de Bolsonaro. O presidente brasileiro vai fazendo as mesmas coisas que o americano, mas com esse atraso. O que Trump fazia em 2017, Bolsonaro repetia em 2019. O suficiente para não ser comicamente óbvio. Se você quer prever Bolsonaro, olhe para Trump dois anos antes.

Claro, guardadas as devidas proporções. Enquanto Trump lidera a maior economia e exército do mundo, Bolsonaro tem impacto bem mais limitado no cenário global. Mesmo que de tempos em tempos arranje confusão com outros líderes mundiais, acaba esquecido em questão de semanas, quase como um cão latindo dentro dos portões de uma casa pela qual você está passando na rua…

Há uma diferença considerável também no sistema político de cada um dos países. Trump é presidente num país com um sistema bipartidário muito bem estabelecido, e goza de proteção de quase metade do poder legislativo, um pouco mais entre os senadores, um pouco menos entre os deputados. Bolsonaro tem que lidar com uma política bem mais fragmentada, com uma infinidade de interesses conflitantes exigindo muitas concessões para gerar apoio daqueles que fazem e aplicam as leis do país.

Mas temos muitas semelhanças também: os dois lideram sob um sistema democrático que parecem não entender direito. O começo do governo de Trump foi pontuado por medidas autoritárias no limite do poder do Executivo que acabaram enfraquecidas ou mesmo bloqueadas pelos outros poderes. Bolsonaro também emitiu um festival de Medidas Provisórias que foram sendo derrubadas pelo Legislativo e pelo Judiciário. Ambos chegaram ao poder com a ilusão de poder ilimitado e rapidamente foram trazidos de volta à realidade pelo sistema.

E logo após essa fase, começaram a demonstrar sua irritação. Trump e Bolsonaro criaram problemas com o Oriente Médio ao declarar sua preferência pelos interesses de Israel, o suficiente para causar alguma comoção na mídia, mas não para quebrar relações com as grandes economias locais. Arranjaram problemas com líderes europeus, especialmente com o francês Macron, já que a alemã Merkel é mais esperta e nunca mordeu a isca. Nessa fase de “dar showzinho” para o mundo, vimos vários incidentes diplomáticos causados por declarações não só dos presidentes de Brasil e Estados Unidos, mas como de suas equipes. Nada definitivo, apenas provocações para causar vergonha nas suas populações.

E falando em equipes, os dois se caracterizam pela danças das cadeiras entre ministros, secretários e aliados em geral. Começaram seus governos montando equipes que chamavam de time dos sonhos, mas demitiram boa parte deles ainda no primeiro ano de governo. O problema, nos dois casos, foi causado pela distância entre o discurso que ajudou a ganhar a eleição e a postura necessária para manter seu poder: Trump foi jogando para escanteio aqueles que exageravam na xenofobia e corporativismo empresarial, pois rapidamente se tornavam focos de problemas de opinião pública e críticos de seu governo. Bolsonaro teve que cortar muita gente também, pois não podia cumprir toda a extensão de suas promessas de campanha para os aliados. Teve até que demitir um ministro que imitou um discurso do ministro da propaganda nazista!

Com isso, ambos precisaram consolidar o poder com figuras menos alinhadas com seus discursos originais, mas mais fiéis às suas lideranças. Então, apesar dos dois continuarem estufando o peito e bufando sobre seu imenso poder, na prática começaram a ser engolidos pelo sistema. A aventura da presidência não era mais tão divertida, e fora seus latidos eventuais contra lideranças externas, não conseguiam fazer muito mais do que rondar no quintal. O problema é que ficar pentelhando outros países não sustenta o ego de pessoas como Trump e Bolsonaro por muito tempo.

Aí começa a guerra contra a imprensa. Os dois batiam nos jornalistas desde o começo da campanha, Trump foi o responsável por colocar “Fake News” na boca do mundo desde os primeiros momentos de sua jornada rumo à Casa Branca. Bolsonaro aproveitou que a fundação estava lá, e já começou a sua focado nesse termo. Como o americano e o brasileiro não são conhecidos por posições politicamente corretas, e por vezes completamente insanas mesmo, fomentar a desconfiança da população na mídia de massa que insistia em bater neles tinha sua serventia.

A tática funciona nos dois países: americanos e brasileiros pegam quase todo mundo de surpresa ao eleger quem elegem, mesmo sob protesto constante de figuras públicas e celebridades em geral. O golpe na credibilidade da imprensa é poderoso. Os dois vão para as redes sociais passar sua mensagem sem filtros, especialmente para seus fãs. A grande sacada disso é passar a impressão que seja lá o que eles disserem, por dizerem diretamente para o público sem passar por filtros institucionais ou interpretação de jornalistas, é algo mais verdadeiro. O que tem sim seu fundo de verdade: não importa a asneira que Trump ou Bolsonaro disserem, podemos ter muita confiança que eles pensam assim mesmo. E como boa parte da população dos dois países não tem muita cultura, ganha muita atenção.

Bolsonaro está nessa fase. Trump já está mais pra frente no processo, pelos dois anos de vantagem. O tom do presidente brasileiro subiu de novo contra a imprensa, assim como Trump escolheu a CNN como inimiga, Bolsonaro escolheu a Globo. Se vamos continuar com o paralelo entre o presidente americano e o brasileiro, podemos esperar uma escalada considerável dessa briga nos próximos meses. Nos EUA, Trump começou a buscar apoio em suas bases e bater com muito mais força na imprensa, pois suas trapalhadas ganhavam ampla divulgação na mídia. Ele percebeu que se ficasse parado, a opinião pública começaria a se voltar contra ele.

Bolsonaro também. O problema é que essa tática de reforçar sua base de apoiadores não é a ideal. Trump percebeu isso no seu segundo ano de governo, quando as eleições para o Congresso tiraram a maioria do seu partido. Tivesse perdido o Senado também, já teria saído do poder. Enquanto Trump brincava no poder, a oposição começava a se reorganizar. Os democratas viram terra arrasada quando perderam executivo e legislativo, mas como Trump não conseguiu consolidar seu poder a tempo (muito por causa de sua personalidade bélica), o partido da oposição conseguiu mobilizar as bases e recuperar o poder numa área chave do sistema democrático.

Se estamos mesmo vivendo uma versão tosca da política americana com dois anos de atraso, as eleições deste ano (que muito provavelmente vão acontecer) podem ser o renascimento da oposição. Talvez não na figura do PT, mas em partidos de centro-esquerda como o PSDB. Com o colapso do PSL, o risco é ainda maior. O povo voltou a bater panelas em condomínios… Trump teve ao seu favor uma economia aquecida, Bolsonaro nem isso. Mais ou menos nessa época, Trump começou a ficar bem mais desequilibrado que o habitual, e a reação popular foi severa.

É nisso que temos que prestar atenção agora. O resultado dessa fase de insanidade rebelde de Trump terminou com um processo de impeachment. No caso americano, o controle do Senado fez com que não passasse de um embuste com fins eleitorais, mas no caso brasileiro não existe fidelidade. A grande questão a se analisar aqui é o quanto o presidente brasileiro vai conseguir radicalizar sua base de defensores antes da conta chegar. Estamos vendo claramente ele perder a cabeça durante a crise do Coronavírus (só não estamos falando do pronunciamento hoje porque achamos que a coisa vai ficar ainda pior nos próximos dias), isso vai influenciar sim uma boa parcela da população brasileira. Uma “revolta da vacina” versão 2020 deve estar no horizonte.

Até porque Bolsonaro olha para Trump para imitar tudo o que faz. Se o americano bate na China, ele ou seus filhos vão no embalo. Se Trump fala de não deixar a cura ser pior que a doença, Bolsonaro eleva ao cubo e diz que é gripezinha. Imitou até a postagem na rede social sobre o suposto tratamento. Bolsonaro percebe os padrões e está seguindo a cartilha do presidente americano, confiando que vai conseguir sobreviver ao governo da mesma forma.

A questão é que polarização foi o que salvou Trump de pagar o preço pelos erros estratégicos que cometeu. Talvez Bolsonaro consiga continuar imitando o americano. Seja como for, há turbulência política no nosso caminho, porque o brasileiro não resiste a imitar tudo o que está acontecendo nos EUA com alguns anos de atraso. O problema é que por aqui, é a versão de camelô: sem garantia e produzida com materiais muito mais baratos. Os americanos vão sobreviver ao Trump, os brasileiros correm muito mais risco com o produto falsificado…

Para dizer que já está se preparando para Huck 2022, para dizer que pior que está sempre fica, ou mesmo para dizer que quando o Dória é sinônimo de racionalidade, estamos todos fodidos: somir@desfavor.com

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Comentários (17)

  • Bolsonaro acha que é só ser sem noção por ser sem noção. Não percebe que o Trump parece fora da casinha, mas não dá ponto sem nó.

    • A cultura brasileira tem uma influência gigantesca da americana. A gente não aprende isso de verdade na escola pelo viés ideológico mais comum entre o pessoal de humanas, parecem ter medo de assumir derrota. Eu já acho que assumir o problema é o caminho para achar uma solução…

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        Mito dos Lacres

        Inclusive pesa bastante a influência do pensamento “progressista” yankee entre os hipsters da “esquerda universitária”.
        Ainda que esse pessoal encha a boca pra falar mal do “imperialismo” americano, no que diz respeito a questão dos LGBTs e do feminismo, o posicionamento de referência dessa turma está mais próximo a esquerda de background dos EUA do que da política presente nos países que eles apresentam como “mártires do imperialismo”.
        A falácia da “cultura do estupro” é irmã da falácia do “marxismo cultural” e foi gerada lá por aquelas bandas.

  • Sinceramente , eu não acreditava quando vcs falavam q esse governo iria dar uma merda fodastica, mas agora eu estou com medo real e nem vou conseguir sair daqui nem tão cedo com toda essa confusão . Desculpa não falar sobre o texto .

    • Se te serve de consolo, o Bolsonaro é tão inconstante que é capaz de amanhã já mudar o tom. Parece que faz por atenção.

  • Outra diferença, um deles é um empresário bem sucedido e seu jeito fanfarrão é método pensado. O outro é um caipira burro. [2]

    Depois de ontem, não imagino Bolsonaro nem sendo reeleito, quanto mais chegando à 2022. Acho que até o fim do ano ele cai.

    • Eu ainda não faria essa aposta. Existem mais caminhos para salvar o governo dele agora do que propriamente derrubar. Depende do grau de insanidade dele nos próximos dias…

  • Outra diferença, um deles é um empresário bem sucedido e seu jeito fanfarrão é método pensado. O outro é um caipira burro.

    Já pensaram em escrever sobre o federalismo? Acha que esta loucura atual pode abrir margem pra isso finalmente ser implementado corretamente neste país imundo?

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      Mito dos Lacres

      O Brasil é uma REPÚBLICA FEDERATIVA.
      E ainda bem, porque imagina a gente tendo de tolerar os descalabros do Bolsonaro sem lideranças subnacionais pra fazer contraponto a ele? Ia ser tenso demais.

    • Se fosse “implementado corretamente” aposto que se multiplicariam as reclamações sobre “burocracia”, pois implicaria no alargamento da competência normativa dos entes subnacionais. Ou seja, estabelecer-se-ia um aumento descomunal no número de leis a serem cumpridas, que é exatamente o objeto das reclamações atuais.

  • “Para dizer que já está se preparando para Huck 2022”. Nao duvidaria nem de Lula 2022, pra ser honesto.
    O sistema democrático desgraça minha cabeça, é sério, quem decide as eleições não quer saber de competência ou de histórico profissional, quem decide é a massa que faz dancinha na rua, vende o próprio voto, acredita em qualquer coisa que ouve, sofre de dissonância cognitiva e Síndrome de Estocolmo. Já pensaram no absurdo que seria levar um bando de analfabetos e adolescentes sem nenhuma especialização pra uma sala de cirurgia pra eles votarem no que o cirurgião deveria fazer, ou pra eles mesmos fazerem a cirurgia? Então.

    EU ODEIO GENTE BURRA

    • O problema de não ter democracia é que se a pessoa errada estiver no poder, é muito difícil tirar…

      E, conhecendo o Brasil, você acha que nossa chance de ter a pessoa certa é maior ou menor do que ter a pessoa errada?

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