Planejamento de pânico.

A melhor defesa contra o caos é o planejamento. Não é possível controlar todas as variáveis, mas não há nada de errado em buscar os melhores resultados diante de uma crise. O texto de hoje fala sobre possíveis cenários trágicos decorrentes da pandemia do Coronavírus, mas não é meu objetivo aqui ser alarmista, pelo contrário, eu realmente acredito que ter noção desses elementos pode ajudar a acalmar os ânimos.

Não existe lugar pior para se estar do que no meio de um desastre sem a menor noção do que está acontecendo. Somos todos humanos, e por isso, dotados de um instinto de sobrevivência que privilegia reações poderosas diante do perigo. Pânico não é coisa exclusiva de gente burra ou desequilibrada, é um reflexo natural do corpo e da mente diante do medo e da confusão. Seja você um cientista premiado ou um monge budista, ainda tem que lidar com a mesma lógica interna de autopreservação que todo mundo. Ser humano que reage rápido e se protege passa os genes para frente.

Mas, quando a crise já foi prevista e analisada, ativamos vários atalhos mentais que nos permitem no mínimo atrasar a tomada do pânico. De um ponto de vista evolutivo, ter um plano inteligente ou bons instintos gera mais ou menos o mesmo senso de proteção. E como o pânico está sempre lá como última linha de defesa, planejar-se para a crise não toma espaço algum da mente nem diminui seu potencial de sobrevivência.

Infelizmente, não quer dizer que o planejamento vai ser correto ou mesmo que a crise vá ser “educada” o suficiente para obedecer os parâmetros que você definiu. Ou, pior ainda, caso a crise seja grave o suficiente para desfazer a estrutura social da qual dependemos, as chances de qualquer planejamento funcionar tendem a ser nulas. Você pode comprar um carro com mais airbags para aumentar suas chances de sobrevivência num acidente, desde que esse acidente não seja entrar embaixo de um caminhão tanque enquanto ele explode.

O que está acontecendo conta, e conta muito. Não existe planejamento válido para todos os desastres ao mesmo tempo. E alguns são grandes o suficiente para desfazer quaisquer planos da escala que uma pessoa ou uma família é capaz de colocar em prática. Ou, em termos mais atuais, se você está estocando comida e papel higiênico por causa do Coronavírus, você não só está analisando a situação muito mal como também está diminuindo as próprias chances de sucesso. Competição é uma péssima estratégia para uma crise de saúde pública. Não é planejamento, é pânico com mais etapas…

Vamos analisar alguns cenários do desenvolvimento da crise do Coronavírus para explicar melhor o meu argumento:

Cenário 1: progressão lógica.

É cedo para definir as verdadeiras consequências da pandemia, mas não para dar um palpite educado sobre o pior que pode acontecer. No cenário mais desolador, algo em torno de 10% da população com mais de 70 anos de idade do mundo todo vai morrer. Considerando a expectativa de vida média do ser humano, não é como fôssemos quebrar a lógica da sociedade. É triste para quem perde pessoas queridas, como sempre é, mas não há quase nenhuma dificuldade em continuar o funcionamento habitual da vida no planeta. Mas as pessoas não estão paradas, com um esforço cada vez mais global para conter a transmissão e tecnologia de tratamento e prevenção através de vacinas, é possível que os números finais sejam bem menos graves do que esse pior dos cenários.

Não há motivo para acreditar que o vírus vá sofrer uma mutação que torne sua letalidade um risco para a continuidade da espécie, afinal, não foi isso que aconteceu com suas versões anteriores ou mesmo parentes como a gripe comum. Vírus preferem mudar para reduzir letalidade, afinal, mortos não oferecem suporte para eles e são péssimos para a reprodução da espécie.

O maior problema do Coronavírus atualmente é a nossa capacidade de lidar com a demanda médica de muitos infectados ao mesmo tempo. E não há motivos para crer que isso vá deixar de ser a questão mais séria. Do ponto de vista econômico, os esforços de isolamento causam dificuldades para diversos setores e talvez resultem em problemas de abastecimento, mas precisamos entender a imensa diferença entre dificuldade de encontrar um produto e um colapso no sistema de distribuição de alimentos, por exemplo. Como vimos na greve de caminhoneiros em 2018, mesmo que exista um esforço deliberado para desabastecer a sociedade por semanas, não é como se fôssemos entrar em um processo de fome coletiva.

Oferta e demanda ditam a lógica do funcionamento do mercado. Fique desabastecido por tempo suficiente e começa valer a pena até mesmo enfrentar o exército para vender alimentos e necessidades básicas para a população. Mesmo se o governo enlouquecer com um processo de quarentena, é extremamente complicado cortar o acesso do cidadão médio aos itens que deseja comprar. 2020 é uma realidade muito diferente de outras crises de desabastecimento que causaram fomes coletivas.

A falta de dinheiro circulando na economia não é de se fazer pouco, mas há de se considerar que a humanidade vai se segurar enquanto puder. Ninguém vai aceitar virar mendigo por causa de uma doença que mata prioritariamente idosos e pessoas com comorbidades. Vai demorar para recuperar a economia, mas nada grave o suficiente para impedir o funcionamento da sociedade.

A forma mais eficiente de lidar com essa situação é manter um grau básico de confiança na sociedade. Não estou dizendo que é para confiar em políticos, e sim que ainda vivemos num mundo onde as pessoas querem continuar trabalhando e consumindo. Atitudes de pânico como acumular bens de consumo, alimentos ou mesmo retirar o dinheiro do banco não só fazem pouca diferença para sua vida, mas também criam os problemas para os quais você tenta se preparar… você se arrisca a passar fome se estocar alimentos. Você se arrisca a ficar miserável se abandonar a economia do seu país. Pânico tem dessas, muitas vezes ele é o problema.

Cenário 2: desastre oportunista.

Muito embora o Coronavírus não seja motivo para histeria mesmo, curiosamente ele funciona para a sociedade tal qual funciona no corpo infectado: enfraquece o suficiente para tornar outros problemas mais prováveis. Um mundo com fronteiras fechadas e grande desconfiança entre povos é terreno fértil para guerras e golpes, por exemplo.

Dependendo do grau de incômodo causado pela pandemia e o tempo que ela estiver presente no nosso dia a dia, não é impossível que os ânimos acabem exaltados, seja entre autoridades, seja entre o povo. Nada sugere que tenhamos alguma grande guerra ou golpe no Brasil ou no resto do mundo, mas as coisas podem mudar rapidamente. A pandemia pode nos colocar num caminho conservador ou reformista, tudo depende de para onde soprarem os ventos da insatisfação com a situação vigente.

Caso isso aconteça, não é como se estivéssemos diante de uma grande novidade. Sim, seria o problema com o ônus de um vírus correndo solto pela humanidade, mas entre o Coronavírus e ações militares violentas, fica claro o que deve ser priorizado. Se você tinha algum plano para lidar com uma guerra de grandes proporções ou ficar sob controle de um Estado totalitário, ele continua valendo, com exceção de uma dificuldade maior de viajar para outros países. Se por um acaso não estiverem te perseguindo, fica a dica: é mais seguro ficar na sua, de qualquer forma.

Outra possibilidade de “comorbidade social” com a pandemia é um desastre natural que reduza nossa capacidade de produção, especialmente a de alimentos. Mas podemos considerar que mesmo com fronteiras fechadas e quarentenas, o mundo ainda tenha capacidade suficiente para redirecionar seus estoques de alimentos para ajudar áreas com dificuldade de abastecimento. Se as colheitas começarem a falhar na China, tenha certeza que não vão faltar agricultores brasileiros, americanos e europeus para dar conta da demanda. E vice-versa: o Brasil é uma bagunça, mas tem de onde tirar dinheiro para evitar um desastre humanitário estilo África se precisar muito. Uma das maiores raivas de ser brasileiro é saber que somos uma das maiores economias do mundo e mesmo assim viver nessa precariedade.

Agora, caso o problema de produção de alimentos seja global e não existam excedentes para evitar um desastre total, estoque tudo o que você puder, e esteja pronto para defender tudo isso com quantas armas tiver. Eu só argumento que esse tipo de problema fazia mais sentido em séculos anteriores, e se tudo der errado com o clima, daqui a alguns.

Grandes problemas estruturais como falha generalizada na internet, produção de energia ou abastecimento de água são muito difíceis, mesmo com todas as dificuldades da pandemia. Essas estruturas são muito grandes e resistentes, e acreditem ou não, não precisam de tanta gente assim para continuar funcionando. Essas coisas só caem em caso de guerra total, o que é cada vez mais raro no mundo.

Na prática, mesmo que alguma coisa surja para criar problemas ao mesmo tempo que o Coronavírus, a doença não é grave o suficiente para tornar as coisas tão mais difíceis do que o habitual. O perigo pode ser um pouco maior por causa da bagunça que o isolamento cria, mas o resultado tende a ser basicamente o mesmo.

Cenário 3: progressão terrível.

Sinto muito dizer isso para os mais assustados, mas salvo algum evento cósmico de proporções inimagináveis como o Sol explodir, um meteoro gigante atingir a superfície, um monstruoso raio de radiação gama apontado perfeitamente na nossa direção ou um buraco negro atravessando o sistema solar, não há muito o que não possamos resistir mantendo a humanidade mais ou menos no mesmo estágio evolutivo dos dias atuais.

Se o Coronavírus mudar para se tornar terrivelmente mortal, vamos ter mais ou menos o mesmo caso do Ebola: mata pessoas muito rápido e não consegue sustentar transmissão por tempo suficiente. Doenças terríveis já assolaram a humanidade em tempos onde medicina era basicamente espetar a pessoa e rezar para dar certo… e o progresso não parou. A forma como lidamos com essa pandemia é prova que as coisas avançaram muito desde a última, a Gripe Espanhola. Com as medidas atuais de segurança, tenho certeza que ela não teria matado uma fração das pessoas que matou.

E mesmo que o Coronavírus se torne 10 vezes pior que a Gripe Espanhola, temos gente suficiente no mundo para segurar a pancada. O ser humano é uma praga pra lá de resistente. Você pode perecer, mas a humanidade continua. E mesmo que uma guerra mundial aconteça ao mesmo tempo, ainda sobram seres humanos para continuar quase que do mesmo ponto que paramos. A Gripe Espanhola aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, provavelmente a guerra mais horrível e sangrenta de todos os tempos (pior até que a Segunda). 50 anos depois, estávamos vendo um homem pisar na Lua ao vivo pela TV ao redor do planeta.

Muita gente me chama de otimista maluco, mas eu mantenho: é só analisar os fatos. Eu tenho plena confiança que estamos próximos de uma era onde não será mais possível acabar com a humanidade. Ache você nossa espécie algo digno de ser salvo ou não. Quando conseguirmos viver em outros lugares do Sistema Solar metade dos perigos desaparece, e quando estivermos com colônias em outras estrelas, acabou o perigo de fim da espécie. Mas cá estou eu indo para o futuro… o ponto do presente é que seja o desastre que acontecer, o desejo de autopreservação é compartilhado. Você não vai se salvar sozinho, você não vai perecer sozinho.

Tudo o que acontecer daqui pra frente, seja o absurdamente mais provável Cenário 1, ou os outros, não vai ser seu pânico que vai te salvar, e sim o trabalho conjunto da humanidade. E se você não estiver disposto a essa cooperação, tudo bem, o mundo vai aprender a viver sem você.

Bom, depois de tudo isso, posso finalmente dizer o verdadeiro motivo deste texto sem sentir que não providenciei contexto o suficiente: você que comprou todo o álcool gel da farmácia que eu fui hoje é uma vergonha para a humanidade. Filho da puta…

Para dizer que cooperação é coisa de comunista, para dizer que é tudo frescura e você “talkei”, ou mesmo para dizer que na cabeça do pobre de espírito, a farinha sempre é pouca: somir@desfavor.com

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Comentários (10)

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    Geraldo Renato da Silva

    Infelizmente, nenhum planejamento resiste ao brasileiro médio: nesta pandemia, a pessoa deveria, minimamente, pensar no outro. Sujeito vai às compras, enche o carrinho com papel higiênico (como se a fosse cagar até morrer!), paga álcool gel a R$ 30,00, usa máscara sem precisar, vai encher a cara com os amigos no boteco lotado mais próximo ou vai dar um mergulho na praia.
    E nosso presidente ainda dá uma aula de como não usar a máscara…

    • O mesmo sistema de valor virtual que já usamos atualmente. Energia é algo que vai se tornar absurdamente barato com um “enxame de Dyson” ou mesmo usinas de fusão nuclear. Seja uma moeda que gera valor dentro da simulação, seja um sistema de honra e/ou punição, o ser humano não vai ter dificuldade de inventar valor para a missão de gerenciar essas máquinas.

  • Então… com todo mundo trancado em casa e vários eventos esportivos e musicais cancelados, daqui a alguns meses acontece um baby boom e terá início a próxima geração: os CORONIALS.

  • Tá, mas vai nos atualizando pra saber em que nivel estamos, pq pelo noticiário não dá pra saber, eles estão sempre em nivel apocalipse!

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    Chineque de goiaba

    Finalmente vejo vantagem em morar num cu do mundo sulista tão esquecido e sem porra nenhuma pra fazer que não atrai turistas nem novos moradores, basicamente todo mundo é bisneto dos colonos que se estabeleceram no século 19…

    Se bem que em caso de fim de mundo eu faria questão de ir pra capital dar um beijo de língua num coronado pra morrer e não viver os Jogos Vorazes. Deus me livre!

    • Então provavelmente ainda tem a vantagem de ter plantações por perto.

      Quando for repopular o mundo, diga para seus filhos que os livros do Harry Potter são a Bíblia, pelo menos.

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