Verdade: o retorno.

Não é incomum que casais passem por uma fase chamada “dar um tempo”. Teoricamente, nesse meio tempo, não são mais um casal. E mais incomum ainda é terem um acordo sobre revelar com quem ficaram nesse período. Sally e Somir discutem a política da verdade nessas situações. Os impopulares reatam com suas opiniões.

Tema de hoje: um casal que reata após dar um tempo deve contar sobre ter ficado com outras pessoas mesmo se não houver um acordo de contar?

SOMIR

Não. Ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Essa é uma das bases do sistema jurídico de países democráticos, e uma das melhores ideias que o ser humano já teve. Uma pessoa tem o direito de se proteger, e não tem nada de errado em fazer isso. Ninguém “deve” falar sobre isso, salvo sob a condição de ter prometido contar, o que não é o caso que analisamos hoje.

Se você prometeu falar com quem ficou ou deixou de ficar durante um tempo na relação, é sua obrigação falar. Se ninguém prometeu nada, não há honra a ser mantida, e é apenas uma questão de sadismo ou masoquismo sair falando sobre suas aventuras durante a pausa do namoro ou casamento.

Muito embora eu concorde que mentiras fazem muito mal a qualquer relacionamento, omissão é um caso à parte: algumas informações são mais seguras quando mantidas sob sigilo. Da mesma forma que acho desnecessário ficar falando sobre o passado sexual com novos parceiros (a não ser que seja o fetiche de ambos), acho que não há nada de bom para a relação em contar a verdade sobre casos acontecidos durante um tempo nela. Não precisa mentir, basta não falar nada sobre o assunto.

Partimos de dois princípios aqui: o primeiro que o casal ia mal antes de dar esse tempo e o segundo que mesmo assim, decidiram se reunir depois de alguma deliberação pessoal. Isso significa que há uma rachadura muito recente nessa união que ainda não foi reabsorvida pelo desejo de ficar juntos. As coisas demoram um tempo, é muito possível sim que a relação fique ainda mais forte do que era antes, mas não vai ser imediato.

E como estamos presumindo que são duas pessoas que sentem ciúme (afinal, se não sentissem saberiam que podiam falar à vontade, inutilizando a discussão de hoje) como a maioria das pessoas sente, estamos adicionando pontos de fratura numa relação que não está no seu ponto mais forte. É certeza que a relação vai quebrar? Claro que não. Mas ajudou a evitar isso de alguma forma? Pois é.

Se você quer exclusividade total, não pede ou aceita tempo na relação. Se pediu ou topo, vai ter que achar uma forma de lidar com o que pode ter acontecido nesse meio tempo. O melhor meio termo entre não ser uma criançona que fica puta da vida por algo que permitiu acontecer e não ser um arrogante que acha que controla seus sentimentos até dar de cara com eles é justamente não ficar sabendo. Você aceita que a possibilidade existiu, mas escolhe não pensar mais nela, em prol dessa relação recuperada.

Então, por lógica simples, estendo essa melhor solução para ambos os lados. Se ninguém contar nada, a chance de não lidar com consequências negativas fica imensamente menor. Sally provavelmente vai tocar o terror em vocês dizendo que é quase certeza que um(a) terceiro(a) que entrou na jogada durante o tempo vai aparecer para infernizar a vida do casal, mas isso é um truque argumentativo: a gente sempre acha que o pior vai acontecer, e sempre parece mais plausível.

O que não é verdade. A chance é a mesma sempre, e caso você queira números ainda mais ao seu favor, basta não ficar frequentando os lugares onde encontrou esses casos, ou deixar claro para a pessoa, caso ela ainda demonstre interesse, que aquilo foi momentâneo. Ninguém é tão inesquecível assim, e a chance de achar malucos ou malucas que fiquem correndo atrás de você não é tão alta assim. Existe uma chance muito boa de ambos ficarem quietos e isso nunca voltar para assombrar o casal.

Por que não aproveitar essa chance? Se você contar, vai lidar com qualquer reação que vier da outra parte com certeza, o que pode ser chato na melhor das hipóteses ou uma baixaria sem fim na pior; se não contar, vai precisar somar a probabilidade de uma dessas pessoas voltar para encher a paciência do casal antes de sequer arriscar a reação negativa.

É um jogo de números, e eles estão a favor de quem não abre o bico. Se a chance da sua relação estragar ao saber de uma terceira pessoa envolvida durante o tempo é de 10%, e a chance de uma terceira pessoa vir se fazer presente depois do retorno é de 10% também, contar te dá 10% de chance de se ferrar, não contar te dá 1%. Porque uma coisa precisa acontecer antes da outra, oras!

Proteger a relação é fazer esse tipo de cálculo também, não dá para viver só de passionalidade e idealismo, pragmatismo faz parte de relações de sucesso há milênios. Não precisa ser robô, basta minimizar os riscos quando puder e pensar no objetivo maior: se vocês escolheram voltar, é porque acreditam que isso vai ser o melhor para suas vidas. O melhor que você faz é não atrapalhar suas chances…

Para dizer que sempre fala a verdade (o que é mentira), para dizer que mente sempre (o que é verdade), ou mesmo para dizer que dar tempo é coisa de corno: somir@desfavor.com

SALLY

Um casal resolve “dar um tempo” de comum acordo. Durante esse tempo, um deles se envolve com outras pessoas. O casal reata. Não havia nenhum combinado sobre falar ou não falar do período em que estavam separados. A pessoa deve contar que teve outros envolvimentos durante o período em que ficaram separados?

Complicado. É o tipo de coisa que não se pode perguntar, pois a mera pergunta já entrega o ocorrido: “Se eu tivesse me envolvido com alguém durante o período em que estamos separados, você gostaria de saber?”. Pronto, a pessoa já matou que aconteceu alguma coisa.

Então, tem que decidir no escuro, sem saber o que a pessoa preferiria. Eu acredito na maturidade e na estabilidade mental das pessoas que estão ao meu lado, pois passo um pente muito fino na hora de me relacionar com alguém. Se estou com uma pessoa é certo que ela tem maturidade emocional.

Uma pessoa madura lidaria com a situação da seguinte forma: estávamos separados, portanto, eventuais envolvimentos são coisas do passado, que não trarão problemas no presente. Só vale a pena se relacionar com pessoas que vivem no presente. Pessoas que vivem no passado ou no futuro, dando importância demais para estes tempos, são uma baita furada.

Então, eu contaria sim, sem qualquer detalhe, nem dar nomes, sem dizer nada além de que aconteceu algo com outras pessoas, para que meu parceiro saiba por mim, não por terceiros, por redes sociais ou até por fofoca das próprias pessoas. Se fosse necessário aprofundar a conversa para esclarecer algo, tudo bem, somos todos adultos que assumimos responsabilidades por nossas decisões. No momento em que decidimos dar um tempo, ambos sabíamos que existia o risco de envolvimento com terceiros.

Mas, é claro, para isso você deve ter certeza de que se relaciona com pessoas emocionalmente maduras (sim, elas existem), pois se você se relacionar com pessoas inseguras, loucas, descontroladas e instáveis esse tipo de revelação vai causar um grande drama no presente e no futuro. E aí eu deixo a pergunta: por qual motivo você se relacionaria com uma pessoa que não tem capacidade emocional de ser cientificada de uma verdade?

Você pode pensar que isso não diz respeito à pessoa. Pode ser, de fato o que você fez quando estava solteiro não é da conta de ninguém. Mas nunca sabemos quando uma coisa dessas volta para nos morder na bunda. Se eu tivesse a certeza absoluta de que a pessoa nunca saberia, não contaria. Mas essa certeza não existe e não tem coisa pior do que descobrir esse tipo de coisa pela boca de terceiro, por fotos nas redes sociais de terceiros.

É humilhante ser o último a saber. É humilhante eventualmente ser exposto à presença dessa pessoa sem ter total ciência da verdade. Então, na dúvida, eu falo a verdade. Se fosse comigo, se houvesse a chance de eu descobrir por terceiros (e hoje em dia, sempre há, as pessoas desaprenderam a respeitar privacidade e intimidade), eu preferiria saber pela boca do meu parceiro. Portanto, walk the talk: como é o que eu gostaria que fizessem comigo, é o que eu faria com meu parceiro.

“Ah mas pode causar tantos problemas que o relacionamento pode acabar”. Francamente, se a pessoa encrencar com o que eu fiz quando estava solteira (e solteira por concordância dele!), é melhor que acabe mesmo. Se for uma pessoa neurótica, mal resolvida, que não sabe lidar com as consequências de suas decisões, que isso venha à tona logo, assim eu não perco meu tempo com alguém que não é o que procuro. Sinto até gratidão pelas circunstâncias trazerem a tona esse descompensamento mental infantil, assim não invisto em uma relação que, para mim, não terá futuro.

“Ah, mas se eu falar, não vou poder mais conviver com a pessoa que fiquei”. Certo, o problema é a pessoa saber, não a sua consciência? Se você fica de boas mentindo e continuando a se encontrar com uma pessoa que até ontem era sua “amante”, ponha a mão na consciência e se pergunte como você se sentiria se fizessem isso com você. Se você acha que tá tudo bem, que passado é passado e que isso não pode ser impedimento para nada, não há problemas em contar. Se você ficaria puto se fizessem isso com você, simplesmente não faça, situação na qual também não haverá problema em contar.

Para que um relacionamento dê certo, o casal tem que conversar, ser sincero, expor o que tolera e o que não tolera. É preciso “criar” um “contrato” próprio, dialogando sobre os termos e condições de uso desse relacionamento. Ninguém tem bola de cristal, ninguém consegue adivinhar quais são as crenças e valores do outro. Se surge uma situação dúbia, a coisa madura a fazer é conversar sobre ela, em vez de decidir pelo outro, mentir ou omitir.

Não acredito em um relacionamento onde não exista esse diálogo verdadeiro, com ambos sendo extremamente sinceros. É construir algo com uma base frágil, que, mais cedo ou mais tarde, vai desmoronar. Então, se aconteceu algo importante que você acredita que pode abalar o relacionamento (caso contrário não haveria dúvida sobre contar ao parceiro), não decida sozinho. Você não tem esse direito. O outro tem o direito de saber e decidir se ainda quer ficar com você após o ocorrido.

E, acredite, é bom para você, qualquer que seja o resultado. Se a pessoa não quiser continuar, você se livrou de alguém incompatível com sua forma de pensar e, cá entre nós, bem inseguro e cheio de neuroses (tem que ser bem problemático para concordar em dar um tempo e depois ficar puto da pessoa ter ficado com outro). Se a pessoa levou numa boa, você pode continuar com o relacionamento sem peso na consciência ou sem medo de que essa informação volte, no futuro, para transtornar sua vida. Só há ganhos em falar a verdade, em ser sincero e em decidir questões relativas a um casal como um casal: com ambos cientes e opinando.

E se você está pensando que é impossível encontrar alguém que tenha maturidade emocional, bem, sinto dizer, mas o problema está em você, não no resto do mundo que é imaturo. Falem sempre a verdade, é um ótimo filtro: só fica perto de você quem realmente quer escutar a verdade, o resto vai embora.

Para dizer que o resto do mundo é problemático e você é vítima obrigada a mentir, para dizer que quem dá tempo é relógio ou ainda para dizer que você pode fazer mas o outro não: sally@desfavor.com

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