A resposta da crise.

Eu costumo dizer, meio em tom de brincadeira, meio levando a sério, que boas respostas sempre começam com “depende”. Especialmente quando a pergunta tenta definir qual a melhor opção. Qual é o melhor carro? Qual é a melhor dieta? Qual é a melhor forma de ser feliz? Se alguém entende bastante de um assunto, é muito comum que não tenha uma resposta pronta que funcione para todos os casos. Então, qual a melhor forma de um governo lidar com a pandemia do coronavírus?

Depende.

Sim, essa ficou fácil de prever. Ao redor do mundo, já estamos vendo algum consenso sobre a resposta ideal do poder público nas quarentenas e distanciamento social, mas isso não significa exatamente que há um acordo claro sobre a melhor resposta à crise de saúde pública. Na verdade, a forma como boa parte do mundo lida com o coronavírus é mais resultado de falta de alternativas do que propriamente uma decisão consciente.

Através de modelos estatísticos, podemos calcular várias formas diferentes de lidar com uma doença contagiosa. E em todos esses modelos, existem muitas variáveis: quão rápido o vírus se espalha, quanto tempo uma pessoa pode ficar sem sintomas, quantas pessoas já estão com a doença, se aquele povo frequenta muito os mesmos lugares, a tendência das pessoas de ficarem próximas umas das outras, a capacidade do sistema de saúde de isolar e tratar os contaminados… a cada vez que você muda uma variável, o “ciclo de vida” da doença muda junto.

Algumas informações o governo já pode ter, outras dependem de um grande esforço para serem coletadas. Se a estratégia de contenção da doença começar rápido e o Estado tiver condições de isolar os primeiros doentes e manter sob vigilância aqueles entraram em contato com eles, a chance de resolver o problema logo é muito grande. Especialmente se o seu país tiver uma população pequena.

Mas a vida real tem muito pouco de ideal. A resposta ao coronavírus foi lenta no mundo todo. O cisne negro de 2020 foi a nossa incapacidade de levar a sério um vírus até ser tarde demais. Num misto de complacência e arrogância, a humanidade parece ter esquecido o poder do nosso mais formidável predador: as doenças. Especificamente aquelas que não atingem só pessoas muito pobres…

Eu digo isso para estabelecer a ideia de que tudo isso que ocorre no mundo atualmente é muito complicado de lidar. Sei que os governos têm responsabilidades em troca do poder que recebem, mas isso não influencia a realidade das coisas. Ainda são pessoas tomando decisões, e não ajuda em nada depender de mais muitas outras pessoas para aplicar essas decisões. São inúmeras possibilidades de ruído na comunicação e erros práticos no processo.

Pode parecer que é só uma escolha entre priorizar a vida dos mais frágeis ou priorizar a economia, mas é muito mais confuso do que isso. A própria existência da doença influencia o comportamento das pessoas, e por consequência, da economia e diversas outras instituições que definem o funcionamento da nossa sociedade. Não há uma escolha clara entre o que perder e o que salvar: se você focar na economia, o simples elemento psicológico de uma doença à solta por aí vai chacoalhar o funcionamento dela. Se você focar nas pessoas, os problemas econômicos vão causar um enfraquecimento considerável na capacidade de resposta do sistema de saúde. Essa escolha entre mercado e velhinhos é uma falsa dicotomia: você não vai conseguir salvar um dos dois.

Manter a economia parada não vai salvar todas as pessoas mais vulneráveis à doença, e matar todas as pessoas vulneráveis à doença vai acabar com a economia, mesmo que funcione normalmente. A segunda opção já foi mais eficiente no passado, em pandemias antigas, não tinha muito o que fazer mesmo: os grupos de risco morriam sem parar e não tinha como tratar. Nem era muito uma escolha. Mas hoje em dia a medicina avançou tanto que talvez seja a primeira vez na nossa história que estamos diante dessa possibilidade: se todo mundo conseguir focar na saúde, podemos salvar muita gente que com certeza morreria um século atrás.

E isso não é só uma questão prática, é psicológica também. A maioria de nós cresceu num mundo onde se luta muito contra doenças, onde nossos idosos passam meses em hospitais com gente trabalhando sem parar para tentar salvá-los. A pessoa que vivia a Gripe Espanhola em 1918 não tinha essa mentalidade: estavam mais acostumados com a ideia de que a doença ganhar era um fato da vida. Quem tem um pessoa querida acometida pelo coronavírus hoje em dia não pensa mais assim. Ela espera que a medicina vença a batalha.

É muito fácil se acostumar a uma situação melhor e começar a tratá-la como novo padrão. Esse é o mundo de 2020: praticamente todo mundo vai ao hospital com a expectativa de sair curado. Essa é mentalidade do povo que está lidando com essa pandemia, e os governantes têm que entender. Podemos até argumentar que a parte mais pobre da população tem menos confiança e esperança nessas horas, mas mesmo o pobre de hoje confia mais na medicina que o rico de um século atrás.

Não existe mais isso de deixar a doença seguir seu curso. O mundo que permitia essa decisão já não existe mais. E não podemos esquecer que o mundo inteiro se conversa pela internet. A informação flui entre pessoas, mesmo sob quarentena. Ninguém vai ficar quieto enquanto o governo toma sua decisão, então é essencial entender o que esse povo está pensando, porque não demora muito tempo para se formar consensos entre grandes grupos populacionais, independentes do discurso oficial de suas autoridades.

Se as ações tivessem sido feitas logo no começo da pandemia, talvez tivéssemos mais escolhas sobre como contornar a crise agora, mas não foram. E eu inclusive argumento que em países com pelo menos 20 milhões de habitantes, era basicamente impossível conter da forma mais eficiente. Tanto que mesmo nos países grandes onde se reconhece um bom trabalho até aqui são milhares de infectados e mortos.

A pandemia está estabelecida. Seus efeitos serão duradouros, na saúde e na economia. Não existem mais escolhas simples: vamos viver as consequências disso não importa se a escolha for manter ou terminar o isolamento. Toda a questão agora é achar o melhor equilíbrio. O isolamento tem a vantagem de proteger mais pessoas da doença e de dar um senso de propósito e “ilusão de controle” na população. Pouca gente nesse mundo está disposta a abrir mão da esperança que deposita na medicina. Se os governos acabarem com o isolamento obrigatório, podem apostar que muita gente vai continuar a quarentena, especialmente aqueles que tem mais dinheiro. E aí, boa sorte para a população mais pobre, que vai continuar sem o dinheiro dessa gente para girar a economia E ficar exposta ao vírus diante de um sistema de saúde em colapso.

No sentido oposto, se continuarmos muito fechados e com medo de gastar com algo que não seja álcool gel, papel higiênico e farinha de trigo (sério, todo mundo deve estar fazendo bolo em casa), pode ter certeza que a pressão sobre a população mais carente vai se tornar insustentável. As medidas assistencialistas são até mais importantes que as de estímulo no momento. Se não conseguirmos “subornar” essa parcela mais pobre da população a não ficar muito na rua (o que é muito complicado considerando a precariedade que elas são obrigadas a viver em casa), vamos começar a ver problemas como protestos violentos e saques aumentarem cada vez mais. Não dá para ignorar a economia, é claro.

Por isso, por mais que a tentação de bater nos políticos seja grande, é importante lembrar que NÃO existe fórmula mágica para lidar com essa pandemia, seja na saúde ou na economia. As duas coisas vão sofrer, e não tem mais como voltar à normalidade, não por um bom tempo. A humanidade aguentou doenças bem piores sem medicina moderna, vai escapar dessa, mas há um tempo para as coisas se equilibrarem. Quem quer que diga que tem uma saída rápida para isso está mentindo, mesmo que o tratamento experimental seja eficiente e a vacina surja em tempo recorde, ainda demora para essas medidas alcançarem a maioria.

O mais importante agora é entender que não vamos resolver isso de um dia para o outro e tentar segurar o ímpeto de quem quer que tente te convencer do contrário. A resposta, como sempre… depende.

Para dizer que cansou do tema mês passado, para dizer que é tudo mentira, ou mesmo para dizer que quer soluções, não realidade: somir@desfavor.com

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Comentários (5)

  • No momento em que digito, na minha rua tem pessoas caminhando, crianças andando de bicicleta… a real é que o povo é quem decide até quando vai essa quarentena.

  • Vão se fechar até 2021 quando tiver vacina? Tão soltando um monte de presidiário com essa desculpa de vírus chinês. Quem for morrer vai morrer mesmo. Vai sobrar o que? A maioria de bandidos soltos, os desempregados e a minoria que é a elite. Estão programando o inferno!

    • não está sendo noticiado, mas na minha cidade houve pelo menos 2 casos de suicídio de microempresários. além disso, imagina a explosão de saques a lojas que vai acontecer em breve… os pobres estavam ficando “ricos demais”, a elite precisava fazer algo pra atrapalhá-los.

  • Como sempre, a resposta para qualquer questão complexa – e a crise atual é complexa pra caralho – é sempre “depende”. Não sei como estão as coisas por aí, Sally, mas aqui onde eu vivo já tem algumas pessoas próximas dizendo que, no fim das contas, o diabo não é tão feio quanto pintam. Concedo que pode até não ser mesmo, mas agora o mais importante é ter em mente o seguinte: todo mundo já está cansado de saber que não vai ser fácil sair dessa, mas bate-boca em rede social, politicagem e gente que só se preocupa em salvar o seu pequeno mundinho não resolve absolutamente nada.

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