Brasil médio.

Às vezes a gente esquece, mas o Brasil é um país rico. Segundo o FMI, o nono país com o maior PIB do mundo até 2018. Numa competição entre 193 países (reconhecidos pela ONU), essa é uma posição de grande destaque. Mas nem só de PIB vive uma nação, tanto que na hora de analisar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), despenca para a 73ª posição. Tem algo de muito errado aí, mas… será que é o que a gente imagina?

A terra descoberta pelos portugueses no longínquo século XV continha e ainda contém uma das maiores riquezas naturais do planeta. Água e minerais abundantes, fauna e flora imensas, muita terra fértil… e virtualmente nenhum problema sério com desastres naturais. O Brasil tem poucos paralelos no mundo nessa questão de “riqueza inerente” providenciada pela natureza. E isso não é papo ufanista de livro de história: quanto mais você estuda sobre o resto do mundo, mais percebe que essa combinação de riqueza e estabilidade naturais é muito rara.

Nessa região do mundo, o frio não é um problema. Uma parte considerável da África e do Sudoeste Asiático podem dizer o mesmo com seus climas tropicais e florestas gigantescas. Mas o Brasil é uma mãe em comparação: não só não temos predadores gigantes como a África, como não temos vulcões e terremotos como na Ásia. Não fica muito mais fácil do que isso para o ser humano no resto do planeta.

E aqui começamos a analisar alguns dos mitos que cercam o desenvolvimento do país: a situação era tão boa que o Brasil cresceu em 500 anos o que boa parte do mundo demorou milênios para conseguir. O país tirou sim muita vantagem da sua condição privilegiada, e para a média mundial, teve um dos processos de descolonização mais tranquilos já registrados. Em comparação com outras regiões de colonização, foi também um dos que escapou mais cedo. Pode parecer história antiga agora, mas boa parte das colônias do mundo só foi se liberar depois da Segunda Guerra Mundial.

Nunca sofremos consequências severas por causa de guerras, sejam elas internas ou externas. Esse povo nunca passou por uma fome generalizada, nunca ficou isolado do resto do mundo, nunca ficou sem espaço para crescer… as condições no Brasil em mais de 500 anos são de uma paz, prosperidade e estabilidade incomparáveis historicamente. Essa costuma ser a introdução de textos sobre a índole do brasileiro, sobre como somos corruptos, preguiçosos… mas dessa vez eu quero sugerir outra forma de enxergar as coisas: o Brasil é o filho do meio do mundo.

Sabe aquela criança que não passou os perrengues do primeiro filho e não é mimada como o caçula? Chegamos muito tarde para aprender o que é sofrer por não saber como fazer o que fazer e chegamos muito cedo para nos beneficiar da experiência e tolerância daqueles que já sabiam. 500 anos é pouco para os países que desenvolveram a humanidade moderna, mas é muito para já estar fazendo parte dela.

Na prática, isso quer dizer que as coisas já estão bem estruturadas por aqui. Quem precisa marcar uma consulta no SUS pode duvidar, mas para a média global, esse país já está com tudo no lugar. Já existe uma democracia moderna que arrecada e gasta trilhões de dólares, já existem instituições básicas estabelecidas, somos surpreendentemente educados e saudáveis para a média global. 73º lugar no IDH não é motivo de orgulho, mas não se esqueçam que isso é acima da média considerando 193 países.

O Brasil é um país acima da média. Coloque isso na sua cabeça. Se você tivesse que trocar de lugar com uma pessoa aleatória no mundo, tem mais chances de acabar num lugar pior do que num melhor. Com menos direitos básicos e menos acesso às facilidades da vida moderna do que você tem… aqui. Não estou dizendo aqui que você não tem direito de reclamar, tem direito e dever. Mas até para isso é importante saber sua posição no mundo. Nem tudo é questão de “o Brasil não tem vontade de melhorar”.

Algumas das questões que nos assolam são meio que inevitáveis, ou pelo menos passaram da data limite de serem corrigidas: a principal é essa “mediocridade” tupiniquim. O Brasil é desenvolvido demais para pensar como emergente e subdesenvolvido demais para pensar como país rico. A verdade é que de uma certa forma, estamos meio que sozinhos nessa posição. A Índia só precisa olhar para a China para saber o que fazer, a China observou por décadas a União Soviética para saber o que não fazer. O Brasil… vai olhar para quem? O último país gigante que teve que sair dessa mediocridade para se tornar desenvolvido foram os Estados Unidos, mas isso aconteceu há tanto tempo atrás que as lições não são mais relevantes no século XXI. O mundo é tão diferente agora que não dá mais tempo de copiar.

Acabamos então numa armadilha econômica e social: o Brasil tem a sexta maior força de trabalho do mundo, mas não é barato produzir aqui. Temos legislação de país desenvolvido e séculos de costume com um padrão de vida muito alto em comparação com indianos e chineses, por exemplo. O Custo Brasil não é só sacanagem do governo, é o preço que pagamos por termos um país muito rico há séculos. Muito desigual, mas rico do mesmo jeito. Nossa Constituição e leis em geral são uma espécie de “melhores momentos” de diversas escolas de pensamento europeias. Temos direitos e um Estado que em tese quer garantir todos eles.

E aí que as coisas começam a ficar complicadas: o Brasil está com um pé em cada realidade. O Brasil não sabe o que fazer com o mundo, e o mundo não sabe o que fazer com o Brasil: um mercado consumidor gigantesco que não é confiável para investir e um povo relativamente capaz que não vale a pena contratar. O filho do meio sofre por não ter identidade. A cada ciclo eleitoral, alguém enche a boca para dizer que sabe o que fazer para melhorarmos, mas na hora de aplicar a ideia dão com os burros n’água. Argumento até que a ditadura caiu porque no final das contas ficou presa na mesma armadilha que os presidentes democráticos anteriores e posteriores: depois de algum tempo, todo mundo percebe que não sabe o que fazer com esse país. Não existe um plano de ação testado e aprovado para o Brasil.

Por incrível que pareça, o país mais próximo do Brasil é a Rússia. Tire a neve e as bombas atômicas e estamos vivendo basicamente a mesma realidade: presos nesse lamaçal de país médio que parece rico quando vende seus recursos naturais, mas que parece pobre quando olhamos para a vida de seus cidadãos médios. Ambos os países já passaram pela fase de industrialização e tiraram quase toda população da miséria absoluta, ficando com uma enorme massa de pobres que praticamente não passam mais fome há algumas gerações, mas que não tem recursos para sair do lugar. Sem contar a liderança corrupta e muitas vezes inepta.

Mas aí entra a questão do passado: a Rússia é um país muito antigo e cheio de cicatrizes de horrores passados com os quais o Brasil sequer sonhou. Os russos conseguem tomar remédios bem mais amargos que os brasileiros. Se eles acharem um caminho, existe um risco considerável dele não ser palatável para nosso povo. Seja como for, na data que escrevo este texto, os russos também parecem não saber o que fazer. O brilhante plano de brigar com a Arábia Saudita na questão do petróleo vai custar caro para Putin e cia.

Voltamos à estaca zero então. Por mais que alguns países do sudoeste asiático como as Filipinas e a Indonésia sejam basicamente o Brasil de olho mais puxado estejam em crescimento atualmente, eles não estão fazendo nada muito diferente do que já fizemos há algumas décadas, com algumas influências dos modelos chinês e indiano. A África do Sul tem tantas peculiaridades por causa do seu modelo de colonização e políticas assustadoramente recentes como a do Apartheid que fica difícil traçar um paralelo real.

Na melhor das hipóteses, olhamos para nossos vizinhos para saber o que fazer. O problema é que com exceção do Chile (muito diferente do Brasil por causa da geografia) o resto do continente parece olhar de volta para a gente em busca de uma solução. Nem os nossos arrogantes vizinhos argentinos parecem ter uma resposta para essa armadilha da mediocridade. Se tinham, perderam faz tempo, muito tempo.

O desafio brasileiro de sair da estagnação é um trabalho solitário. É descobrir uma fórmula de sucesso sem poder colar do colega na carteira ao lado. Mas, o problema da mediocridade é que ela não é afeita a criar as mentes necessárias para isso: não sofremos o suficiente e não estamos tranquilos o suficiente. Parece uma espécie de maldição dos índios que aqui residiam há muito mais que 500 anos: vocês vão ter essa terra, mas não vão saber o que fazer com ela também.

O que não quer dizer que este país nunca vai sair desse buraco, mas quer dizer sim que não vai ser fácil e não vai ser rápido. O Brasil é um país que ficou no meio do caminho numa era onde as soluções rápidas para crescimento não estão mais disponíveis. Colonização moderna custa muito caro, e não temos bilhões de pessoas para tirar da pobreza absoluta. Quem te vender uma solução rápida está mentindo.

O problema do Brasil não é ser o pior país. Por incrível que pareça…

Para dizer que agora está motivado para ficar em casa, para dizer que alguma teoria do século XIX resolve tudo, ou mesmo para dizer que achou o texto mais ou menos: somir@desfavor.com

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Comments (17)

  • tenho um ponto de vista em que o Brasil se aproxima da Tailândia.
    aqui futebol, lá muay thai (e rinha de galo)
    aqui família bolsonaro, lá família real (sério, é surreal lá, o cara basicamente OFICIALIZOU o cargo de amante)
    aqui paisagens absurdamente lindas, lá idem
    aqui São Paulo, lá Bangkok
    pib agrícola aqui, pib agrícola lá
    1,5% do pib pro exército aqui, 1,5% do pib pro exército lá também

    a principal diferença é o tratamento legal que eles dão para as drogas e pequenos desvios de conduta, que lá não é feito de forma passiva, lá o sistema é bruto.

  • A impressão que tenho de modo geral é que a ideia de “não adianta a gente se esforçar pois não muda nada” está tão enraizada no brasileiro que só não passar fome e garantir a cerveja no fim de semana está bom. Muitos dos meu alunos adolescentes já me falaram que não sabem o que querem fazer ou mesmo que não tem sonho nenhum só precisam trabalhar, é triste demais.

  • Vc tá sabendo dessas combinações de pegar bilhões do governo federal e destinar aos estados pra serem gastos à vontade, sem licitação e sem precisar pagar depois? Vem aí o Covidão (lava jato do coronga) mas aí vão prender e depois o Gilmar purgante solta as merdas de novo. Com 2 meses de economia parada, viu o aumento do desemprego? Mesmo assim ainda acha que tem jeito?

    • No Brasil, tudo tem corrupção. E muita gente vai discordar: no resto do mundo também. Tem gente embolsando dinheiro na Suécia, tem gente embolsando dinheiro no Japão… menos, é claro, mas da corrupção a humanidade não escapa.

      Jeito tem, salvo alguma catástrofe que evite a continuidade da humanidade, o Brasil vai chegar no nível de qualidade de vida da Noruega atual algum dia. A Noruega vai estar muito na frente quando esse dia chegar, mas se os dados de qualidade de vida que estamos vendo nas últimas décadas estiverem corretos, os países pobres e médios conseguem fazer as coisas muito mais rápido hoje do que os países já desenvolvidos fizeram no seu tempo.

      Tem jeito sim. Mas demora.

  • Recentemente, tem uma turminha aí tentando fazer o Brasil copiar a China… e nas piores coisas. Vai ver é essa condição de “estagnado no meio” que acaba nos salvando de um autoritarismo severo, pelo menos por enquanto (mas não sou muito de pensar “tem mais é que sofrer pra aprender”). O Brasil médio é direitista demais pra ser de esquerda, e esquerdista demais pra ser de direita.

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    tiago somir fan account

    Mas aos poucos vamos subindo. Uma população extremamente fodida, deseducada e miserável não é vantajoso nem pros governantes, até os ditadores mais barra pesada da África já estão percebendo isso.

    PS.: De longe, a melhor coluna deste site. E de perto também.

    • Todo mundo está subindo. Talvez eu já tenha falado disso, mas a globalização tem um efeito perigoso: faz todo mundo ver o quintal do vizinho. É como se a expectativa do ser humano médio subisse muito mais rápido que a capacidade de sua sociedade permitir essa melhora.

      Não que seja algo só negativo: exigir mais ajuda a evoluir mais, mas pode ter um ponto de desequilíbrio aí responsável pela epidemia de doenças como a depressão…

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