Daqui pra frente…

Lembra de todos os avisos que demos sobre os perigos do Coronavírus no Brasil? Lembra do quanto batemos na tecla que não tinha que ter carnaval? Lembra de como escolhemos deixar o blog maçante e repetitivo falando dia após dia sobre Covid-19, para tentar ao máximo conscientizar todos os que nos seguem?

Pois é. Esse trem já partiu. Agora estamos em uma nova etapa: como lidar com aquelas pessoas do nosso convívio que não nos escutaram e estão começando a enterrar entes queridos?

Estou escutando uma pá de merda desde que comecei a minha jornada para tentar alertar sobre o que me parecia ser verdadeiro a respeito do Coronavírus. Não é muito comum me ver levantando uma bandeira, na maior parte das vezes sou a favor do “se fode aí”. Mas, ao contrário de outras doenças, como HIV, o Covid-19 não mata apenas o idiota que se arrisca, e sim inocentes que estão à sua volta: pais, filhos, amigos, colegas de trabalho, etc. Justamente por isso abracei a causa e estou enchendo o saco das pessoas, por aqui e por outros meios, sobre a merda que estava por vir.

Obviamente, fui severamente desacreditada. Até aí, tudo bem, que bom que as pessoas têm opiniões próprias, ninguém é obrigado a aderir à opinião de ninguém. A questão que me traz ao questionamento de hoje passa pelo respeito: muita gente desacreditou debochando, me chamando de histérica, de burra, de lunática e de coisas piores. Em público inclusive. Sugeriram que eu estava sendo manipulada por um “governo de esquerda”, que eu estava “tendo prazer em causar pânico” e coisas ainda piores.

O mundo é redondo e dá voltas. Estou vendo, gradativamente, familiares e amigos dessas pessoas que foram agressivas em público adoecendo e morrendo. Já foi o pai de um, a mãe de outra. E aí eu pergunto, e é uma pergunta real e não retórica: como agir perante essas pessoas?

É óbvio que não devemos apontar para a pessoa e rir, tal qual Nelson, dos Simpsons. Esse mínimo de verniz social eu tenho. Mas, como dar condolências a uma pessoa à qual você avisou exaustivamente que poderia matar seu pai, quando ela de fato contaminou e matou seu pai? Finge que nunca disse nada? Aborda o assunto e lamenta que tenha acontecido? Simplesmente não dá condolências? Não tenho modos para saber como me portar. Alguém, por favor, me aconselha?

Criou-se um cheiro de merda forte em muitas relações interpessoais minhas por causa disso, que eu sinceramente não sei como dissipar. Óbvio que a culpa da morte dessas pessoas não é minha, mas deve ser inevitável que fique algum ressentimento de quem alertou: se ninguém tivesse falado nada, a pessoa que contaminou poderia ter maior paz de consciência e se consolar com o argumento de que ela não sabia e não poderia prever esse resultado.

A partir do momento que alguém mete o dedo na ferida e prevê esse resultado repetidas vezes, a pessoa perde esse refúgio. Sim, ela sabia. Sim, ela tinha ao menos uma pista de que essa era uma, em meio a outras possibilidade. Isso a responsabiliza de alguma forma pela morte de um ente querido e talvez seja algo imperdoável. Carregar essa dor/culpa para sempre é algo que muitos de nós podemos ter causado ou vir a causar nessas pessoas. Muito natural que passem a desgostar da gente em vez de fazer uma autocrítica.

Quando você tira da pessoa o escudo da negação, ela fica sem proteção e isso dói. Obviamente não foi feito por maldade, foi feito para tentar evitar uma tragédia. Uma vez instaurada a tragédia, a pessoa se vê obrigada a lidar com ela sem nenhuma proteção, o que eu imagino, deixe o processo muito mais doloroso. É possível levar adiante uma amizade depois disso?

E trago essa questão aqui pois sei que quem ainda lê o Desfavor comunga da minha opinião sobre Coronavírus (ou então é masoquista, pois faz mais de um mês que eu só marreto nessa tecla): tem que se proteger e proteger as pessoas que a gente goste, por mais que a gente ache que, de alguma forma, possa não ser tão grave, certeza ninguém tem, então, na dúvida, buscamos preservar a vida das pessoas amadas.

Na dúvida, vamos ser adultinhos e preparar nossa própria comida em vez de pedir delivery, uma vez que não sabemos quem preparou aquela comida nem em que condições. Na dúvida, vamos pedir compras em casa se for possível, pois sabemos que ir ao supermercado é se expor a um risco extra. Na dúvida, não vamos a salões de beleza, lojas no geral nem saímos à rua, a não ser que seja caso de incêndio ou para levar alguém ao hospital. Quem, na dúvida, fizer o contrário, se colocará em risco e colocando em risco as pessoas que os cercam. É muito simples e claro: se for possível, não tem que sair de casa.

Saídas eletivas (ou seja, aquelas que poderiam ter sido evitadas encontrando outra solução), são um risco. Hoje não acontece nada, amanhã não acontece nada, mas, pela lei da probabilidade, está cada vez mais perto o momento em que pode acontecer. O vírus não mata só idosos e pessoas com condições preexistentes. O vírus mutou e hoje é muito mais democrático. O vírus não morre com o calor. Descartem tudo que vocês leram nos nossos primeiros textos sobre o assunto, pois, como avisamos nos próprios textos, as condições de contágio e o dano causado podem mudar do dia para a noite.

E quando falo de saídas eletivas, me refiro a qualquer saída não essencial, sem a qual a pessoa não pode viver. Você pode viver com raiz do cabelo por fazer, com unha cagada ou sem determinado biscoito que gosta muito. Obviamente, para assegurar esse cuidado maior, todos estamos abrindo mão de algum grau de conforto, mas é isso o que tem que ser feito, para que depois não carreguemos o fardo da morte de uma pessoa querida, sem o escudo do “mas eu não sabia”.

Nós sabemos. Nós temos consciência. Usemos informação para o que ela serve: para nos beneficiar. “Mas Sally, a Globo mente”. Sim, meu anjo, mas não é só a Globo que está noticiando caos, colapso, corpos em frigoríficos, famílias tendo que enterrar seus entes queridos por falta de coveiro, familiares mortos em casa que não podem ser removidos por excesso de demanda, recusa em atendimento a hospitais, corpos se acumulando em corredor de hospital e em necrotério e tantas outras barbaridades. São todos os veículos de comunicação.

Todos mentem? Os médicos que dão depoimentos desesperados no Brasil mentem? Os infectologistas também? Os hospitais? A OMS? TODO MUNDO está mentindo? Francamente, quando para sustentar uma narrativa você precisa colocar defeito em TODO MUNDO, tem alguma coisa errada com você. É como aquelas pessoas encrenqueiras que brigam com todo mundo e dizem que todos a perseguem. Quando o erro está em todo mundo, é muito mais provável que ele esteja em você. Hora de cair na real. Não é possível que todo mundo esteja mentindo.

“Mas Sally, na minha cidade não tem nenhum caso”. Que bom, meu anjo. Vamos torcer muito para que continue assim, mas essa é uma exceção. A regra é que se trata de um vírus extremamente contagioso, que varreu o mundo inteiro. Afetou de forma devastadora cidades muito ricas e bem aparelhadas. Então, pela regra, vai chegar em você em algum momento. Vamos torcer pela exceção, mas, desculpa te informar, no geral, é a regra o que acontece.

Daqui pra frente, será necessário, além de pensar em cuidar de você e das pessoas que você gosta, também é preciso pensar em como abordar quem se fodeu. Acredito que você, assim como eu, também tentou alertar muitas pessoas. Dessas muitas pessoas, provavelmente uma parcela não te deu bola e ainda debochou, te escrotizou, te ridicularizou. Quando a pessoa criou esse clima bélico, como você vai se posicionar quando essa pessoa perder um ente querido? Novamente, não é pergunta retórica, eu não tenho a resposta. Estou pensando e evitando entrar em contato com aqueles que estão passando por isso.

O tempo da conscientização acabou. Quem nós conseguimos alcançar, que bom. Quem não, vai aprender quando uma pessoa próxima morrer. Sinto informar, mas aos olhos da ciência (a menos, é claro, que todos estejam mentindo), quem mora no Brasil terá ao menos um conhecido ou pessoa próxima morta pelo Covid-19. E essa vai ser a conscientização daqueles que não entenderam no amor. Infelizmente virá pela dor. Minha consciência está tranquila, fiz tudo que estava ao meu alcance para evitar.

Eu penduro minhas chuteiras. Não vou mais conscientizar ninguém. Se vierem com discurso de negação, apenas peço para não falar mais no assunto comigo, como de fato já fiz diversas vezes. Esse trem já partiu. A realidade já está batendo à porta, não preciso mais me esforçar, e nem adiantaria – quem não escuta a realidade não vai escutar minhas palavras.

Recomendo que façam o mesmo. Entreguem para o aprendizado da vida, os tempos de conscientização acabaram. Como eu disse, tem gente que só vai entender quando levar um choque de realidade e morrer uma pessoa querida.

Agora cabe a nós começar a refletir como lidar com isso. Como acolher essas pessoas (ou não). Como abordar uma tragédia que você anunciou sem parecer um arauto da desgraça, sem felipenetar o outro. Já pensei bastante e não tenho a resposta, por isso resolvi trazer a reflexão para os comentários, pois sempre surgem boas ideias em retorno. O tema é azedo e desagradável, mas é preciso conversar sobre ele.

Da mesma forma que não é didático chutar cachorro morto, também não é didático passar a mão na cabeça de quem merdou feio. Onde está esse meio termo para não escrotizar o colega, mas para ajudá-lo a entender o equívoco, de modo a que ele vire aprendizado e não se repita, de modo a evitar que mais pessoas morram por causa da negação alheia?

Já escutei de algumas pessoas que o melhor é “se afastar, pois não vale a pena uma amizade com uma pessoa burra”. Porém, não acredito que isso faça da pessoa uma “burra”. Todos nós, em algum momento, quando o calo aperta, caímos na armadilha da negação. É uma atitude pontual burra, apenas. Uma pessoa é muito mais do que uma atitude. Se fossemos virar as costas para todos os que erram, ninguém seria amigo de ninguém. Eu, inclusive, não teria amigos, pois erro o tempo todo.

Mas também não dá para fingir que nada aconteceu. Uma coisa muito grave aconteceu, pelo fato da pessoa ter teimado em achar que estava certa e, na dúvida, não ter tomado as precauções que deveria, não ter sacrificado parte do seu conforto, seus desejos e seu bem-estar para fazer o que tinha que ser feito. É egoísmo, é negação, é um erro muito cruel que tem que servir como aprendizado para que isso não se repita.

No mínimo, essas pessoas precisam entender o grande déficit que elas têm em calcular as consequências futuras dos seus atos. Seria muito bacana para a pessoa corrigir isso, pois assim ela tomaria menos no cu. Desarmar mecanismo de negação, desarmar mecanismos de autossabotagem ou qualquer outra armadilha que leve a pessoa a esses cálculos errados sobre a consequência dos seus atos pode mudar significativamente a vida de uma pessoa. Muitas vezes é isso que diferencia um profissional de sucesso de um desempregado, de um pai divorciado que vê o filho de vez em quando para uma família feliz ou até uma pessoa viva de uma pessoa morta.

Então, não é sobre tripudiar dos nossos amigos. É sobre colaborar, dentro das nossas possibilidades, para que essa vivência dolorosa se converta também em um aprendizado e deixe de ser apenas um trauma doloroso. Porém, a linha entre o tripudiar e ajudar no aprendizado é tênue demais para que uma pessoa sem paciência com eu a perceba ou sequer a respeite.

Deixo a pergunta no ar, responde nos comentários quem quiser: como se portar diante das pessoas que você alertou, mas que, ainda assim, te escrotizaram e negaram a realidade, entraram em clima de confronto com você e que agora enterram entes queridos?

Para dizer que tem que tripudiar sim e que isso faz parte do aprendizado pela dor, para dizer que não tem que dizer nada pois a vida ensina ou ainda para dizer que o mais seguro é enviar uma carta anônima: sally@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: , ,

Comentários (52)

  • A pessoa q vc descreve é de alguém insensato e prepotente. Isso tem concerto? Será q devemos bancar o terapeuta dessas pessoas? Acho que todo mundo aqui ja se enganou em namoros e relações por alguns anos na esperança que a pessoa melhore e mude.

  • Minha estratégia é não falar nada . Se a pessoa me contar sobre a perda dela aí sim uso frases de consolo, mas curtas e objetivas. Se ela ficar chateada com o meu silêncio ela q se foda pra lá e pronto.

    • Olá Sally,

      Sou da opinião de que você deve confortar essa pessoa como se o ente querido tivesse morrido de um acidente de carro. Parece um delírio galopante? parece. MAS: O que importa é o seu amigo (a) sentir-se acolhido, confortado. É um constrangimento pequeno diante da dor que essa pessoa está sentindo. Nunca sabemos o que pensaram de nós, ou nossas atitudes porém, se você alertou por bondade, carinho, e outros bons sentimentos por que não fazê-lo agora pra alguém que tá sofrendo de forma descomunal? Talvez seja o seu abraço especificamente que faça a diferença. Quem ama corrige, desagrada, tenta moldar o outro para melhor. No fundo nós todos sabemos disso. Abraço.

  • Acho que esse texto veio como um sinal pra mim.
    Eu, meu marido e meu filho de 2 anos moramos em uma cidade turística de SC que está com 90 casos confirmados e 30 ativos, a princípio tá susse, nossos pais moram em uma cidade pequena que tem apenas 2 casos (o que é bom mas ao mesmo tempo deixa os morados mais relaxados qto aos cuidados), a questão é que estamos morrendo de saudade deles e queríamos visitá -los no dia das mães. Estamos tendo todos os cuidados possíveis, eu e meu filho não saímos de casa, meu marido está trabalhando mas tendo contato com pouquíssimas pessoas e vai apenas ao mercado.
    Eu já tinha minhas dúvidas se deveria ir visitar nossos pais e depois desse texto tô achando que tenho que cair na real e aguentar mais um pouco a saudade, melhor saudade agora do que culpa depois.

    • Jana, você está certa, qualquer saudade hoje não é nada comparada a uma possível culpa. Estou a sem ver minha família desde março, está sendo muito difícil, mas tenho o privilégio de ficar em casa, já é motivo mais do que suficiente para agradecer e fazer nossa parte.

  • contei para a minha vizinha que o hospital está lotado, vários casos de corona vírus, mas como ela não recebeu a notícia por whatsapp, ela fez aquela cara de acho que vc está mentindo só para não me dar aula (eu dava aula de graça para ela na casa dela). Lamentei, mas não vou me expor. Sinto muito.
    minha cidade está escondendo o número real de contaminados, enquanto isso, as pessoas estão vivendo como se não houvesse amanhã;
    obs.: a cidade só tem um hospital que é público.

  • Negacionistas são o tipo que quero bem longe da minha vida. Assim que ouvi um amigo falando que era uma gripezinha e histeria cortei contato. Mas respondendo a pergunta, eu não tocaria no assunto nunca. A pessoa sabe sua culpa. Não é preciso dizer nada. Acredito que é até mais dolorido para ela ouvir alguém que a tinha alertado, é por o dedo na ferida.

  • Fosse comigo: deixaria quieto, não falaria nada e continuaria a amizade com a pessoa, num grau mais, digamos assim, “reservado”. Seeeeeee ela mencionar o assunto numa ocasião qualquer, eu só diria “pois é, fiquei sabendo. Foda, hein?” e ficaria por aí. Se não falar nada, então também não falaria nada. A vítima, se não for uma inconsciente completa (pra não dizer doente mental mesmo!), saberá que tudo poderia ter sido evitado se tivesse me ouvido e a coisa mais comum nessa hora (para pessoas “normais”) é sentir um misto de angústia e constrangimento. Ela sabe que errou e que você a avisou. Nada vai tirar essa culpa dela, causada por ela mesma. Viver com isso a partir de um triste desenlace ferra pra sempre a cabeça de qualquer um. É só largá-la lá (desculpe o cacófato), amargando sua cagada. Já será o suficiente.

      • Pensar no que o outro possivelmente vai pensar de ti, ou de tua atitude é complicado. Acho que tem que saber mediar também o quanto pesa essa avaliação do outro sobre ti. Se custa tanto à tua saúde mental e à tua paz de espírito, daí acho que tem que avaliar melhor.

        • É falso. É falso ser educada, prestar condolências e agir como se a pessoa não tivesse culpa. Vale a pena ser falsa?

          • Daí acho que não, porque essa falsidade, essa simulação pode doer em ti mesmo já que não condiz com o que tu é por dentro, então… Por mais que doa aos outros, melhor se manter íntegra e fiel a seus próprios valores.

  • Eu acho que a grande questão é: é importante manter esses relacionamentos?

    Se não, se a pessoa te magoou ou a possibilidade de ver a fuça dela novamente é bem remota, talvez haja espaço para “fingir que não ficou sabendo” e tocar a vida.
    Se sim ou se for alguém de contato mais constante, cabe analisar como foram as situações onde vc foi chamada de “histérica, de burra, de lunática e de coisas piores”. Foi de forma minimamente civilizada, numa conversa mais acalorada? Foi aos berros, com a pessoa tomando isso como se fosse uma ofensa? Se o relacionamento valer a pena, acho que caberia entrar em contato, mas de uma forma mais impessoal, tipo: “soube da sua perda e estou triste por você. Se precisar de mim é só entrar em contato, tá?”. Na melhor das hipóteses a resposta vai ser um “obrigado” seco, na pior, vai ouvir alguns desaforos. E aí eu sugiro ouvir, tentar não se ofender e não dar sequência. Pense que a sua parte foi feita.

    • Penso da mesma forma que M.
      Só evitaria me colocar à disposição. Estas pessoas precisarão de ajuda psicológica de um profissional. Qualquer envolvimento seu a partir daí, seja para ouvir ou responder, tem um risco grande de desastre considerando a situação ser tão delicada. “Sinto muito pelo que aconteceu, estou triste por você”. E só.

  • Eu tenderia a manter a sobriedade, mas sem mudar de posição. Afirmações genéricas ajudam. Anos participando de bancas me ajudaram muito nesse treinamento, de como dizer que e pessoa é um asno de forma elegante.

    • É difícil se conter e não chamar gente burra de burra… muito amor pelos acadêmicos que tem essa habilidade.

      • Sim. Além disso, quem me conhece sabe que por mais fina que eu tente ser, na minha cabeça está um grito de BURRO BURRO BURRO VOCÊ MATOU SEU PAI, SEU IDIOTA

    • Já participei de algumas bancas também como avaliador, e olha… Que tarefa difícil ter que mediar as palavras pra dizer “com jeitinho” que a pessoa é burra sendo elegante!

  • Sally, diante da enorme máquina de desinformação que atua no Brasil, eu tenderia a me solidarizar com um colega que perdeu mãe/pai porque foi negligente com a pandemia. Não chego ao ponto de vitimizar quem é capturado pela propaganda negacionista, em tempos de viralizaçao de fake news todos nós temos uma parcela de responsabilidade em checar à exaustao as noticias que nos chegam. O fato é que a campanha de desinformaçao é eficaz e pega muita gente. Sinto muito que você esteja passando por isso com pessoas próximas, faz muito sentido pensar que o outro vai lhe associar com a tragédia. Coloco-me no seu lugar e no lugar do parente de uma vítima e penso: enfrentar uma perda dessa dimensão é um mergulho num mar de dor. Seus colegas não devem estar em condição de processar muita coisa. Nao há muito a se dizer….nessas horas, uma mão no ombro basta.

  • Minha cidade acabou de ter a primeira morte suspeita, tivemos apenas 4 casos confirmados ainda. Essa morte não foi de um conhecido, mas dias antes dela, alguns dos meus amigos me chamaram para uma festinha e me colocaram em um grupo de rolês. Meu primeiro impulso foi dizer que nada os difere do Bolsonaro (é uma turma que vive militando contra) e discutir, mas resolvi apenas negar os convites e observar se sairiam mesmo. Eles tocaram no assunto da pandemia antes de mim e conseguimos conversar numa boa. A maioria desistiu de sair, e quem não desistiu ficou sem companhia e sem rolê. Não sei o que diria se algum deles insistisse e perdesse um ente querido, mas tenho notado que ser relativamente gentil funciona melhor do que esbravejar. Acho que apenas diria “meus pêsames” e me afastaria por um tempo. Espero não precisar descobrir.

  • Por que o vírus mata uns e outros nem sintomas tem? O problema é o vírus ou o sistema imunológico de cada um? Por que não é feito mais campanha sobre alimentação correta? Se enchem de fast food e doces e não querem adoecer! É válido ser limpo, na minha casa sempre teve álcool gel, mas obrigar quem precisa trabalhar a ficar sem renda é muito errado! 600 reais não dá pra nada!

  • Sally, eu acredito que optarei por não tocar no assunto. Normalmente a consciência da pessoa em negação já fode ela. Só emito alguma opinião se a pessoa vier com o papo de “ah se eu tivesse te escutado” provavelmente eu direi, somente que não foi a intenção dela prejudicar ninguém.

      • Sim, eu daria minhas condolências e me colocaria a disposição.
        Creio eu seria uma forma elegante e sincera, pois vc não estaria culpando ninguém e demonstraria a consideração que você tem pela pessoa.

        • Então… no meu caso, ou é elegante, ou é sincero, pois o que eu sinto DE VERDADE é que a pessoa foi uma tremenda egoísta burra filha da puta que matou o próprio pai.

  • É triste, mas infelizmente algumas pessoas só aprendem pela dor.
    Algo parecido já aconteceu comigo, ñ nesse caso do corona mas em outra situação que acabou mal. Eu tentei avisar a pessoa no início, insisti, conversei. É uma pessoa da família, que eu gosto. Mas a pessoa bateu o pé e fez do jeito dela. Sabe aquele tipo de gente que não aceita de forma alguma uma opinião que não seja a dela? Que fala que vc está jogando praga?
    Enfim, deu merda e a pessoa sofreu. Eu fui conversar, pra consolar mesmo, tentar fazer a pessoa entender o erro, e oq eu escutei? “Vc deve estar feliz né?” Eu fiquei em choque e não disse mais nada. Só falei que estaria à disposição para ajudar no futuro e deixei pra lá. Até hoje a postura da pessoa ñ mudou e eu ñ me meti mais.
    Mas ao menos eu estou em paz com a minha consciência. Só podemos mesmo controlar as nossas reações.

  • Nossa Sally, que pergunta difícil e tema complexo! Eu to tendendo a ir pro caminho de mandar ir se foder e cortar relações, viu? Sinceramente. É radical e dolorido, mas penso que seja necessário.

    • Caramba… Eu não imaginava que a Sally fosse propor um tema assim tão pedregoso… E sobre o qual eu penso de forma bastante semelhante à sua, Ge. Claro que não é nem um pouco agradável, mas eu também acho que uma atitude dessas, apesar dos pesares, seja mesmo necessária. Talvez a Sally até me ache muito rude pelo que vou dizer agora, mas creio ainda que ficaria implícito pra quem fez ouvidos moucos diante de seus conselhos que essa postura significa “detesto dizer ‘eu avisei’, mas EU AVISEI”.

    • É complexo(!) mesmo, porém concordo; inclusive acho que é o momento de ver se não dava pra ter cortado antes (preferencialmente antes de 2018) por causa de polarização burra…

    • Vou contar uma historinha aqui, já me expondo até demais no desfavor, pra justificar minha resposta anterior. Minha mãe, que mora em MG, sofreu um AVC recentemente. Daí eu, que morava no PR, tive que vir correndo pra ajudá-la, e ainda briguei feio com minha irmã que também mora no sul e tem muito mais condições financeiras de ajudar do que eu!

      Não foi grave (se bem que, considero que qualquer cardiopatia seja grave!), a parte cognitiva não foi afetada, mas a motora sim, em partes. Daí ela tem que fazer fisioterapia pra melhorar alguns movimentos da perna e eu tenho que acompanhá-la, além de vigiá-la. Isso fora outros problemas físicos tipo varizes e o fato de ela estar prestes a ter uma trombose a qualquer momento.

      E o médico já deu um monte de broncas nela, disse que não é pra fazer esforço, não andar longas distâncias – ainda mais de chinelinho, sem tênis adequado! -, não subir escada, não carregar peso etc etc… E quem disse que ela obedece? Teimosa que só!

      Ainda por cima é bolsominion e porca! Do tipo que não vejo ela usando álcool em gel com frequência, nem lavando a mão por mais de 20 segundos esfregando bem. E as vezes ainda inventa de querer sair na rua e SEM MASCARA! Quando confronto ela, ela simplesmente dá um jeito de negar a realidade, de dizer que o vírus não vai pegar ela, porque ela é “uma protegida de deus”, e que esse vírus “”é criação do mal, dos “reptilianos, de seres inferiores que estão querendo acabar com o planeta”, que existe uma “guerra espiritual acontecendo, mas que se a gente manter firme em deus vamos vencer”, entre outras asneiras do tipo. Me diz, se não é pra mandar ir se foder?

      E bem, digamos, do ano passado pra cá, minha vida foi só ladeira abaixo: perdi meu emprego, fiquei como autônomo e passei algumas dificuldades, tive que abandonar meu doutorado, e agora me vejo nessa situação em que tive que vir a contragosto pra um lugar pra fazer meu papel de “bom filho”, e tudo que ouço é que sou um fresco cheio de mimimi, filho ingrato etc; e daí agora estoura essa pandemia/isolamento e to literalmente preso nesse lugar!

      Ainda por cima, tive que abandonar pessoas que gosto lá no sul, abandonar o pouco que tinha, e ir pra um lugar que eu DETESTO COM TODAS AS FORÇAS, ter que conviver com uma pessoa desagradável que só me dá dor de cabeça, ter que lidar com o calor e secura do serradão de MG, enfim… Tem noção do que ando passando? Eu to me sentindo literalmente preso, e num teste de paciência nível hard, no limite do extremo!

      Não vejo a hora disso tudo passar, eu juntar uma grana e fugir desse lugar e, por mais que doa, deixar mamma se foder sozinha, porque não dá! Sinceramente, não dá! E olha que eu tentei, mas minha paciência e minhas forças já se esgotaram!

      • Pode ter certeza que daí vai sair muito aprendizado pra você.
        Eu suponho que você esteja passando o inferno na Terra, mas, nesse caso, tem data para acabar. Um hora acaba, uma hora você volta, e daí vive o resto da sua vida feliz e como quiser. MAS, se você não tivesse ido ajudar, provavelmente viveria o resto da sua vida em um inferno na Terra.

        Consciência tranquila, amigo, é uma coisa que não tem preço.

        • Obrigado, Sally <3
          Sabe? É claro que tem questões minhas também aí envolvidas, to lidando com elas na terapia online e tal, do jeito que posso. Mas o que mais me dói, tirando toda saudade lá do sul e de pessoas de lá, são esses dois pontos: o fato de não saber quando exatamente tudo isso vai acabar, se o pico da doença vai ser mesmo agora em maio e em junho melhora, se vamos entrar numa quarentena severa até dezembro e só ano que vem para as coisas andarem, enfim; e o fato de que to fazendo meu papel de bom filho, mas parece estar sendo em vão, sem resultado, já que ela não quer ser ajudada.

      • Ge, falo por experiência própria. No futuro, depois que sua mãe falecer (afinal, acontecerá um dia), você sentirá um alívio imenso por ter feito o que podia para ajudar, ao invés de virar as costas para quem não dá valor ao seu esforço. Como diz minha psicóloga, há filhos que retaliam os pais nesse momento, e não devemos julgá-los pois cada um sabe de seus motivos, mas o risco de caírem em um abismo emocional de arrependimento lá na frente é imenso.
        Eu passei por uma situação que não foi tão árdua quanto a sua, porém hoje tenho a certeza de ter sido a melhor escolha ter feito tudo que estava a meu alcance.
        Só acho que você tem que implicar mais sua irmã nisso para dividirem responsabilidades.
        (desculpa a intromissão, mas a minha situação foi recente e me identifiquei muito com alguns pontos)

        • Morgana, quer dizer então que estou fazendo o certo? Mesmo comendo o pão que o diabo amassou? Poxa, fazer sacrifícios na vida dói, viu?

          Tem outra questão aí no meio disso tudo que tá pegando também: poxa, quase 30 anos na cara, era pra eu ter meu carro, meu apê, minha vida, e de repente me vejo nessa situação que tenho que voltar a morar com mãe? Poxa, isso é meio que… humilhante! Regredir na vida!

          • Quem disse o que “era para ter/ser/fazer”?
            Crenças sociais. Observe como está a sociedade. Mesmo quem segue a fórmula casamento/casa/carro está extremamente infeliz, se entupindo de remedinhos ou com sérios problemas emocionais ou até mesmo doenças (depressão, síndrome do pânico e outras).

            Você não TEM QUE NADA.

            Você se encontra em uma situação transitória, motivo de força maior, onde está agindo de forma nobre: priorizando a vida da mulher que te colocou no mundo. Um filho que em meio a uma tragédia, em meio a uma pandemia, se sacrifica para ajudar a mãe é muito mais bem sucedido no meu conceito do que um sujeito com casa, com carro ou qualquer outro bem material.

          • Ge, pelo que você disse está fazendo acompanhamento psicológico online, certo? Por favor, continue, isso é muito importante.
            Peço licença para deixar o link de um vídeo recente de um psicólogo bacana que acompanho e, por coincidência, vi hoje. Se tiver interesse, assista. Eu me identifiquei em alguns aspectos e acho que você também pode se identificar. O final reforçou a visão que tenho de ter feito a escolha certa. O nome é “a fatura (emocional) atrasada”. Fique bem!

            https://youtu.be/AqfL0QOhdsA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: