É difícil ser um deus.

O título do texto é nome de um filme russo de ficção “científica” em preto e branco com três horas de duração praticamente incompreensível que eu não recomendaria para 99,9% das pessoas, mas que lida com a natureza humana de uma forma especialmente interessante para os dias que vivemos.

Vamos estabelecer melhor o filme: baseado num livro, conta a história de um futuro onde a humanidade já está explorando o espaço. Nesse tempo, encontram um planeta extremamente parecido com a Terra, inclusive na existência de seres humanos, mas com vários séculos de atraso em relação à tecnologia e organização social da Terra moderna. É um mundo ainda na Idade Média, mas com uma diferença essencial: por lá, a Renascença não aconteceu. Quer dizer, começou a acontecer, mas foi reprimida violentamente pela religião vigente.

Naquele mundo, as fogueiras de hereges venceram a ciência. Livros são banidos e alfabetização é punida com a pena de morte. Isso faz com que a Idade Média siga muito além que seguiu por aqui, até um grau de degeneração e estagnação terríveis. Um grupo de cientistas humanos é enviado para o planeta para viver entre o povo local e aprender sobre seus costumes. Mas sob uma diretiva clara: não-intervenção. Não podem ensinar nada que o povo já não saiba, não podem influenciar as estruturas de poder e não podem matar ninguém.

O livro e o filme seguem a história de Dom Rumata, um dos cientistas. Colocado na posição de nobreza, como boa parte dos outros terráqueos enviados para lá, depende de seu status para sobreviver a uma realidade tão brutalizada e insalubre. E é aqui que precisamos separar a ideia do livro e a execução do filme: a história original conta a dificuldade de Rumata de lidar com a política local sem tomar partidos, especialmente por causa das relações que forma com os locais. A história é uma análise sobre o ser humano sob a imensa pressão das circunstâncias.

Aqui eu normalmente sugeriria ver o filme antes para evitar spoilers, mas francamente, eu vi o filme duas vezes já e não dá para depreender quase nada pelo o que se passa na tela. “É difícil ser um deus” é um dos filmes mais incompreensíveis que eu já vi. Pelo o que eu já li, o livro tem uma estrutura mais tradicional de narrativa e entende-se que Rumata tem apreço pelos seus servos e até se apaixona por uma jovem local, tentando salvá-los de uma espécie de Inquisição e um grupo sedento por poder sem violar sua diretiva não-intervencionista.

Mas o filme faz outra escolha: a de te chocar e desorientar. O filme é uma obra de arte na questão dos cenários, criando uma cidadela medieval movimentada e incrivelmente detalhada. São milhares de figurantes em construções, decorações e figurinos de altíssima qualidade, muito realistas. A escolha de filmar tudo em preto e branco de alto contraste faz com que tudo pareça uma foto artística em movimento.

Só que ao mesmo tempo, é provavelmente o filme mais nojento já feito. As pessoas são, em sua imensa maioria, muito feias. Todos são porcos, constantemente cobertos em alguma excreção, a cidade vive sob constante chuva, deixando tudo um grande lamaçal. Galinhas, porcos e vacas andam por todos os cantos. Todos vivem muito grudados, sempre suados e se esfregando. Eu tenho certeza que se a Sally visse, morreria de colapso estético nos primeiros dez minutos. Num resumo simples: o filme é meio como o Sebastião Salgado fotografando uma fossa séptica aberta.

E se não bastasse isso, há o elemento humano: o povo local parece sofrer de um atraso mental significativo. Todos parecem muito estúpidos, sem noções mínimas de higiene e extremamente brutalizados. Uma gente que se aglomera e se toca o tempo todo, ao ponto de não existir nenhuma forma de etiqueta real na relação entre elas. Todos se batem, se empurram, cospem, gritam… e ninguém parece levar isso para o lado pessoal. Isso é especialmente comum na relação entre servos e mestres, Rumata sofre um assalto constante de atenção invasiva de seus escravos: estão constantemente enfiando pedaços de comida na sua cara, enfiando a mão em qualquer lugar que acham que precisa de cuidado… é quase como uma forma de afeição.

Muito por esses fatores, eu garanto que não é um filme que você vê para entender a história. O diretor decidiu que o roteiro ficaria escondido atrás de uma bagunça visual indecifrável: a câmera fica próxima da ação, sendo constantemente coberta por extras que olham descaradamente para ela. Galinhas são jogadas para todos os lados, elementos do cenário eclipsam a ação e só é possível entender os diálogos no meio da cacofonia por causa das legendas. São pouquíssimos os momentos de calma. Você tem algumas dicas do que está acontecendo, mas é um festival de personagens aparecendo e sumindo da história, coisas importantes acontecendo fora de cena e confusão generalizada em quase todos os frames do vídeo.

Como vocês podem imaginar, é o tipo do filme que divide opiniões: alguns acham uma obra de arte, outros acham um desperdício imenso de trabalho. O filme demorou 6 anos para ficar pronto, e às vezes vemos cenários espetaculares em sua complexidade sendo usados por apenas uma cena rápida. A escolha de explodir a narrativa em milhares de pedaços desconexos e a fotografia claustrofóbica desorientam e incomodam de verdade.

Eu detesto ficar em cima do muro, mas consigo enxergar méritos nas duas posições: ver esse filme é ver uma coisa que você nunca viu antes e provavelmente nunca vai ver depois. É único assim. Acho impossível não pensar sobre a condição humana e não sentir algo poderoso com o filme, mesmo que seja horror e repulsa. Não é uma banana colada na parede, é um trabalho imenso que pouquíssima gente no mundo teria condições de fazer. Cobre muito bem os aspectos que eu considero essenciais para tratar algo como uma obra de arte.

Mas, se a ideia era fazer um filme, temos problemas sérios: a ideia de te deixar confuso seria excelente se fosse uma ferramenta que o filme usa conscientemente durante a narrativa, mas fica cansativo depois de quase três horas de gente feia sorrindo em closes extremos. As poucas cenas em que a câmera permite se afastar da ação e te dar o contexto das coisas são as melhores coisas do filme. E isso é um fracasso se sua história é uma análise da condição humana através dos olhos de uma pessoa. A bagunça faz exatamente o contrário do que deveria ser feito no filme: desumaniza. Você não se importa mais se alguém vive ou morre, são apenas rostos colidindo com a câmera enquanto se lambuzam de excreções de vários animais.

Claro, pode-se argumentar que essa era a intenção: te dessensibilizar e fazer você se tornar um voyeur inescrupuloso, mas aí faltou entender o que é a história. Justamente o contrário. O título da história já sugere qual o grande conflito: a relação entre “níveis” diferentes de seres humanos. Rumata diz algumas vezes o nome do filme, porque no final das contas essa é sua grande realização: escolher entre controle e liberdade.

Já vou dar o spoiler principal do filme aqui porque o filme falha em te fazer perceber que é o momento mais importante: quando um exército estrangeiro invade a cidade para tomá-la dos fanáticos religiosos, matam a amante de Dom Rumata. Ele perde a cabeça e usa a tecnologia terráquea para matar praticamente todo mundo na cidade. Como nada é claro no filme, você nem percebe que ele se importava com a mulher… o filme falha terrivelmente em contar sua história. Depois que você entende, muita coisa se encaixa nas cenas, mas um filme não pode exigir que você tenha lido o livro antes, ou pelo menos tem que ter a educação de te avisar que é essencial.

Seja como for, é uma experiência. Não dá para criticar quem gostou ou quem não gostou do filme. Ou mesmo quem decidir que não tem interesse algum em procurá-lo. Não achei fácil em nenhum lugar, só por torrent mesmo. Eu baixei a versão de 20GB porque sou doente mental com qualidade de vídeo, mas tem versões de 3GB. Quem quiser, só pedir que eu coloco nos comentários o link para baixar.

E sendo uma experiência, dá o que o pensar: eu mencionei por cima, mas é impressionante como toda aquela gente horrível, sofredora e suja está quase sempre sorrindo. Em sociedades muito brutalizadas, é comum que as pessoas se acostumem com o horror da vida cotidiana e comecem a achar tudo natural. Sabe aquele sorriso idiota de quem não está entendendo nada, mas gostando de ver a bagunça? Todo mundo que não está imediatamente irritado no filme tem essa expressão. Em termos já inaceitáveis nos dias atuais, é como se o planeta fosse ocupado por retardados.

Imbecis que se divertem com qualquer coisa, especialmente com o sofrimento alheio. Mas, não é como se houvesse malícia verdadeira ali, só que é genuinamente divertido ver alguém apanhando, caindo ou mesmo sendo enforcado em praça pública. Gente que toma um tapa na cara, dá outro de volta e continua sorrindo. Sem mágoas, sem complicação, apenas vivendo exatamente o momento. Quando conhecemos Dom Rumata na história, ele já está há quase quarenta anos no planeta. Para ele, está normalizado enfiar a porrada em todo mundo, e isso funciona lindamente: aquele povo não trata violência como algo fora da normalidade. Ele pode quebrar o nariz de um soldado do lado do outro, e o outro vai rir. Ninguém parece realmente se importar com esse tipo de comportamento violento.

O que nos leva a outra característica definidora daquela população: a imprevisibilidade. A mesma pessoa que está sorrindo bovinamente para ele um segundo antes está tentando enfiar uma lança no seu pescoço no outro. Essa é outra característica comum de gente muito limitada: explodem sem nenhum aviso. Ou, fazem qualquer barbaridade sem pensar meia vez se estão seguindo ordens. Já escrevi outras vezes aqui que tenho medo real de gente burra justamente por causa disso: elas não dão sinal de nada, elas não pensam nas consequências, não podem ser previstas com segurança. Estão sorrindo para você e puxam uma faca como se nada, sem te odiar, sem pensar que podem ser presas ou que algo pode dar errado. Só fazem o que surge na cabeça a cada momento.

Uma das realizações mais sofridas de Dom Rumata na história – e isso o filme para um pouco sua insanidade para estabelecer – é que não importa o que ele faça, as pessoas não aprendem com isso naquela situação e vão fazer tudo de novo na próxima oportunidade. A ideia de não-intervenção é desnecessária num mundo de gente muito limitada: elas mal percebem o que está acontecendo normalmente. A Inquisição mata os Hereges (as pessoas que pensam um pouco mais), os Mercenários matam a Inquisição, os Hereges renascem e matam os Mercenários… todos muito entretidos com os pequenos poderes que tem, saqueando, estuprando e torturando quem é mais fraco com um sorriso no rosto. Quando Dom Rumata mata centenas de soldados, só adianta um processo que fatalmente aconteceria.

E por mais que a Idade Média não seja exatamente o que aprendemos que ela foi (o mundo é muito mais que a Europa), durante um tempo a humanidade ficou presa nesses círculos viciosos de ignorância e violência. Períodos como a Renascença são essenciais para mudar o paradigma do que significa ser humano. De novo: não foi essa mudança mágica toda de mentalidade como aprendemos na escola, mas foi um movimento na direção certa.

Talvez a lição mais aplicável da história seja justamente o título: se você tem que lidar com pessoas tão atrasadas ao ponto de você operar em outro nível de pensamento, não ache que isso torna sua vida mais simples. Quando o meio está nivelado por baixo, a sua gama de opções fica muito reduzida. Não adianta explicar as coisas no nível que você entende, tem que saber chafurdar na lama e ver o mundo pelos olhos de quem você provavelmente despreza. Porque são essas as pessoas que definem o tipo de mundo que você vai viver.

E pior, que poder é ilusão nessas situações. Rumata tinha o poder de matar quem quisesse e liberar a cidade sozinho. Mas no final das contas não fez diferença alguma se não conseguiu mudar o rumo do quadro geral. Poderia ser ele, um exército estrangeiro ou uma doença. No final da história percebemos que ninguém se importou com o que aconteceu.

Pode ser que seja essa a explicação para o diretor fazer o filme assim: assumiu que seus poderes divinos de criar aquela história de nada serviam para quem não escolhesse o trabalho de entender.

Para dizer que preferia ler sobre o vírus, para dizer que não pode deixar de perder, ou mesmo para dizer que 3 horas de filme preto e branco em russo é pior que 3 meses de quarentena: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

    • Eu achei que deveria ser uma minissérie de 10 episódios para contar a história do jeito que ele queria.

      Porque cansativo o filme já é na primeira cena se você não estiver no clima. Mas acho que o russo não tinha mais uma década para terminar.

  • “Cobre muito bem os aspectos que eu considero essenciais para tratar algo como uma obra de arte.”

    Quais são esses aspectos? O que faz de alguém um artista?

    • Qualquer discussão sobre o que configura arte em geral é infinitamente infrutífera.

      Por isso existem padrões pessoais, como eu defino na frase que você separou. Eu cobro do artista um esforço imenso, seja na produção da obra em si ou no desenvolvimento de um talento que torne sua produção única. Tem gente que aceita a banana colada com silvertape, tem gente que não. Eu faço parte do segundo grupo.

      Arte é sofrimento materializado.

      Qual é o seu padrão?

      • Também não vejo arte nas instalações contemporâneas. Para mim, arte é aquilo que reúne três elementos:

        a) intenção de uma produção estética; b) necessidade de habilidade ou treinamento para sua montagem/ execução; c) causar nas pessoas a vontade de parar para admirar a obra, seja por sua beleza, seja por seu caráter desconcertante.

        Se a tiazinha da limpeza confunde a suposta arte com lixo, talvez o mais correto seja dizer que o artista confundiu lixo com suposta arte.

      • “Qualquer discussão sobre o que configura arte em geral é infinitamente infrutífera.” Você tem razão – o que não torna menos divertida a curiosidade.

        Concordo com a sua ideia de que a arte é sofrimento materializado, nem que por sofrimento se entenda “inquietação”. A questão difícil talvez seja encontrar o ponto em que o sofrimento estimula o processo criativo, em vez de levar ao desespero ou à inação.

        Do artista eu tendo a querer que me faça sentir algo que talvez não seria possível na minha vida cotidiana, que traga alguma nova possibilidade de estar no mundo. E que, além de se esforçar na criação, como você comentou, também exija de mim algum esforço ao entrar em contato com a obra – só interpretar uma mensagem não tem graça.

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