Nome impróprio.

Brasileiros tem a liberdade quase irrestrita de nomear seus filhos, o que na prática gera uma série de nomes vexatórios com os quais muita gente convive pela vida toda. Sally e Somir discordam sobre quais limites devem existir, os impopulares batizam a criança menos feia.

Tema de hoje: o governo deve regular o registro de nomes humilhantes?

SOMIR

Sim. Mesmo não gostando nem um pouco do precedente legal de um governo podendo interferir em algo tão específico assim, quando noções de bom senso tão básicas são violadas diariamente, a sociedade humana precisa se organizar. Na minha utopia, o Estado não existe porque as regras de convivência básica são tão óbvias para todos que nos autorregulamos. Mas na vida real, precisamos deixar bem claro que “não pode bater no coleguinha”, senão esse povo começa a se espancar na hora. Queria que não precisássemos disso, mas não dá para contar com bom senso.

Nosso pacto social presume coibir a violência para que todos tenhamos alguma chance de desenvolver nossos potenciais. Na natureza impera a lei do mais forte, que é imposta pela violência. Para a imensa maioria dos animais, não existe outra forma de se expressar: ou é ser o causador da violência, ou é ser o alvo dela. O ser humano pode agir de forma mais complexa, por isso dele se exige muito mais autocontrole, por isso tantas leis reduzindo as opções violentas de convívio entre nós. A qualidade de vida humana aumenta exponencialmente quando a violência é controlada. Violência no âmbito social humano é algo utilizado para oprimir o mais fraco e reduzir sua capacidade de competir por recursos e/ou status.

E é por isso que eu digo que dar um nome vexatório para seus filhos é uma forma de violência. O nome impacta diretamente na capacidade da pessoa de disputar os recursos limitados da nossa sociedade e reduz consideravelmente a liberdade de assumir posições de poder. Se violência no contexto social humano é oprimir, nomes ridículos são opressão. Claro que não é uma fórmula mágica: um nome comum não é garantia de sucesso e um nome bizarro não é certeza de fracasso, mas ambos geram tendências claras.

E quando pensamos nas regras impostas por um governo, pensamos em tendências. Não é proibido dirigir bêbado porque todo mundo que bebe e dirige bate o carro e mata pessoas, é proibido porque a tendência disso acontecer é muito maior nesse caso. Se há uma relação óbvia de causa e consequência negativa para a sociedade como um todo, a causa normalmente acaba reprimida por alguma lei. E sim, é um terreno arenoso quantas leis uma sociedade deve ter, no Brasil, por exemplo, existe uma tara de criar leis (que vão ser ignoradas) para qualquer bobagem, e eu sei que não é uma boa estratégia para organizar uma sociedade.

Porém, leis estúpidas tem um padrão: a fiscalização de sua aplicação normalmente é muito difícil ou existem buracos nela que acabam tapados por cada juiz de uma forma diferente. Uma lei que proíba nomes vexatórios não se enquadra nesse caso: para dar nomes (legais) para os filhos, o cidadão precisa necessariamente fazer um registro sob o poder do governo. Você pode forçar a aplicação da lei, porque ninguém consegue fazer essa ação sem passar pelos registros oficiais. Vai lá dar o nome da sua filha de “Margarina Vaselina da Silva” e ouça um não do governo. Quer chamar disso em casa? Divirta-se. Mas no documento e na vida social dela, a garota pode usar um nome muito mais normal.

E isso faz diferença. Precisamos ser bem honestos aqui: o nome bizarro é um atestado de pobreza e baixa instrução em casa. Não estamos falando de nomes raros, pouco populares na época ou estrangeiros, estamos falando de nomes bizarros formados por misturas de outros nomes próprios e palavras do dia a dia numa conjunção profana de sílabas. Quem faz isso normalmente é muito ignorante sobre o funcionamento da sociedade acima de sua camada social. Não enxergam problema algum em chamar o filho de Uóshito, talvez por achar que o Washington se escreve assim mesmo, talvez por não imaginar que todo mundo vai saber que essa criança veio da pobreza instantaneamente.

E isso é um problema sim. Gostaríamos de viver num mundo onde todo mundo tem chances iguais, mas o preconceito é poderoso: o Uóshito vai sofrer dez vezes mais que o Enzo Gabriel para mudar de classe social. Seu currículo vai ser ignorado por gente que vai presumir que ele não é muito estudado ou que pode ter amigos criminosos. Esses nomes colocam um estigma na pessoa, porque a incidência desse tipo de nome da classe média para cima é virtualmente nula. Na Noruega talvez você possa ter um nome ridículo e seguir em frente como se nada, mas no Brasil a desigualdade é tanta que qualquer problema extra que você criar para seus filhos o coloca numa desvantagem praticamente impossível de vencer.

E tem outra coisa: às vezes não é ignorância, às vezes é maldade mesmo. Pais e mães escrotos dão nomes ridículos para filhos como uma espécie de vingança contra as crianças (filho não desejado) ou o cônjuge (por uma série de motivos). Existem casos de gente que faz isso sabendo que está humilhando a criança sim. Essa criança já começou sua vida muito mal com um o os dois pais nesse grau de escrotidão, não merece tomar mais uma pancada com um nome que vai atrasá-la no desenvolvimento, merece?

Governos existem para controlar impulsos estúpidos e egoístas de seus cidadãos, especialmente os que geram uma forma de violência contra terceiros. Não está fora da alçada do poder público impedir que crianças sejam registradas com nomes claramente vexatórios. A linha que separa o nome incomum do bizarro pode ser meio borrada às vezes, mas isso pode ser contornado com uma lista de nomes aceitáveis imediatamente e um sistema legal para verificar a validade de um fora dessa lista. Se estiver fora da lista e for obviamente humilhante, pode ser barrado na hora. Se for incomum, pode ser modificado com pouca ou nenhuma burocracia a qualquer momento da vida (por um da lista permitida).

Só de travar a pessoa sem noção na hora, já aumentam as chances de evitar esse nomes. Sim, eu sei que a pessoa vai reclamar até não poder mais, mas brasileiro precisa de limite. Infelizmente.

Para dizer que Somir seria proibido (não deveria), para dizer que adora nome bizarro porque fica fácil fazer seleção de candidatos, ou mesmo para dizer que eu sou preconceituoso: somir@desfavor.com

SALLY

O Governo deve regular o registro de nomes humilhantes, proibindo que pais coloquem nomes estranhos nos seus filhos?

Não. Tem coisa muito mais importante e urgente para fazer no país, e, convenhamos, se a criança será criada por pais que acharam uma boa ideia chamá-los de Covidson ou Alquingelson, o nome será o menor dos problemas.

Um pai que escolhe um nome escrotíssimo para seu filho fará outras escolhas escrotíssimas, que irão humilhá-lo da mesma maneira, por total falta de discernimento. Não tem como o Estado tutelar a forma como os pais criam os filhos, as roupas, os cortes de cabelo, os vídeos, as fotos e tantas outras formas de humilhação à qual pais sem noção expõe os filhos. Melhor nem tentar.

Acho até que um nome escroto pode ser um balizador para uma futura atuação do Estado posteriormente, como mais um elemento para indicar que aquela pessoa não tem condições de criar um filho. Se um juiz recebe uma ação pedindo a destituição do poder familiar de pais que se alegam serem incapazes de cuidar da filha e o nome da filha é Madinusa (por causa do selo MADE IN USA), facilita demais o seu trabalho, pois deixa clara a falta de discernimento.

Além disso, em um país de símios com déficit de atenção, não adianta fazer lei se não há discernimento. Como já explicamos em um texto antigo, no Brasil já existe esse tipo de proteção legal e, ainda assim crianças foram registradas com nomes como Antonio Veado Prematuro ou Bucetildes. Em algum momento não apenas os pais, como também ao menos um funcionário de cartório achou estar dentro do limite do bom-senso registrar um bebê como Marciano Verdinho das Antenas Longas. A lei, sem discernimento, meus queridos, é letra morta.

Não adianta impedir o pai de registrar a filha como Primavera Verão Outono Inverno, chamá-la de Maria, e depois filmá-la dançando funk com um short atochado aos 8 anos de idade. Não adianta impedir o pai de registrar o filho Última Delícia do Casal Carvalho se depois vai espancar essa criança por ela ter feito xixi na cama. É aquilo que eu sempre critico: não adianta focar em detalhes, é preciso se preocupar em resolver o estrutural. Educa esse povo e não vai ser necessário proibir nome algum.

Vão educar o povo? Óbvio que não. Ainda assim, se for para intervir no poder que os pais têm, que seja para questões mais relevantes que um nome. Em um país onde o Poder Público não fiscaliza e pune pais que não vacinam ou pais que não matriculam os filhos no colégio, me parece um pouco de preciosismo gastar recursos para fiscalizar nome.

“Mas Sally, não só editar a lei e pronto?”. Não, meu anjo. No Brasil nunca é só editar a lei e pronto, como eu disse, a lei já existe e não é cumprida. O brasileiro é filho da puta, não basta fazer lei, Além de criar a lei, é preciso despender recursos para fiscalizar todos os cartórios do país e analisar todos os registros feitos diariamente e punir quem não respeitar a lei. Não acho certo perder tempo e dinheiro com isso quando metade da população não tem nem saneamento básico.

E tem mais: quando o filho da puta vai ao cartório anunciando que quer registrar a criança com o nome de Placenta Maricórnia da Letra Pi, mesmo que ele tenha a sorte de encontrar um funcionário decente, que perceba o ridículo do nome e isso lhe seja negado, o brasileiro médio vai ficar puto, vai reclamar, vai registrar a criança como Maria e só vai chama-la de Placenta Maricórnia da Letra Pi, um nome que para ele é muito belo e sonoro.

Vai colocar um fiscal do Estado para ir na casa do sujeito ver como ele está chamando a filha? Vai acreditar que toda criança tem documento de identidade para se defender e provar que não tem um nome escroto?

Não adianta, quando a falha é estrutural e grave, quando a coisa vem de uma espiral de danação profunda e secular, não há correção possível sem muito desgaste, muita despesa, muita fiscalização e muita mão de obra. Se é para fiscalizar, se aborrecer, abrir processo, gastar dinheiro, que seja por outras coisas mais urgentes que o nome. Garanto que a pessoa prefere se chamar Otavio Bundasseca ou Manoel Sovaco de Gambá mas poder caminhar, pois não foi vítima de paralisia infantil, pois recebeu a vacina. O nome é reversível, a paralisia não.

Eu sei que nós, que temos o básico, sentimos um impulso muito forte por proteger preciosismos como o nome. Eu sei que você se contorce só de pensar em um bebê chamando Nostradamus Brasileiro do Acre ou Simplício Simplório da Simplicidade Simples, mas, acredite, para quem não tem nada, para quem passa fome, para quem sofre agressão física, para quem sofre abuso sexual, para quem não tem acesso à saúde ou educação, um nome é o de menos.

Eu sei que traumatiza, mas nome é reversível, a própria pessoa pode pedir para mudar depois. Porém existem outras escrotidões que mães e pais fazem com os filhos que não são reversíveis e, a meu ver, são essas que o Estado tem que gastar tempo e dinheiro para tutelar.

Deixa o nome escroto lá, deixa inclusive como referência, para saber exatamente que tipo de pais aquelas pessoas são. Quando você se deparar com três irmãs chamadas Xérox, Fotocópia e Autenticada vai ser muito mais fácil ter a certeza de que é hora de ligar para o conselho tutelar.

Obs: Todos os nomes citados neste texto são reais. Se quiser conhecer mais atrocidades clique aqui.

Para fazer suas apostas sobre os nomes escrotos que surgirão dessa pandemia, para dizer que brasileiro médio nem poderia ter filho ou ainda para dizer que nem cachorro merece esses nomes: sally@desfavor.com

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Comentários (18)

  • Nossa, complicado, eu acho, o Estado tentar interferir dessa maneira nas pessoas, mas acredito que tenha que ter controle sim, até porque, pensando nos prós e contras a longo prazo, o mal que pode causar à criança, o desgaste psicológico no decorrer dos anos, o bullying, a humilhação etc etc, nossa… Melhor por logo um nome mais normal mesmo e não sofrer tanto.

  • Falando em nomes uma coisa que me incomoda é essa moda de batizar crianças pra homenagear avô, bisavô ou não sei lá das quantas. A criança tem que carregar nomes de velho como Francisco, Joaquim, Lourdes, Josefina, Benedito. Pô! Põe nome que nunca deixa de ser atual tipo Lucas, Mateus ou Beatriz e não façam a molecada já nascer com 70 anos!

    • E quando o avô/pai tem nome escroto, tipo 123 de Oliveira 4 e a pessoa repete com o filho? Porra, a pessoa carregou esse nome merda, ela sabe que é sofrido!

  • “para dizer que brasileiro médio nem poderia ter filho”

    Tentador um teste obrigatório!

    (Desculpem-me, é que eu havia pensado que já vi esse tema entre vocês…)

  • Fico com a Sally nessa. Para quem nem sequer tem onde cagar, possuir um nome escroto acaba sendo o de menos. Claro que a pessoa vai sofrer muito na vida por causa da estupidez dos pais ao batizá-la, mas quem nasce numa família ignorante capaz de dar esses nomes absurdos à própria prole, geralmente também já está condenada à pobreza, à rudeza e ao atraso em que a maioria do nosso populacho vive sem sequer se dar conta. Por fim, como a Sally, eu também não gostaria de ver o Estado se imiscuir na forma como os pais criam seus filhos, sem falar em como seria a fiscalização para fazer com quem uma eventual lei nesse sentido fosse cumprida. Ou, para usar as palavras dela: “Em um país onde o Poder Público não fiscaliza e pune pais que não vacinam ou pais que não matriculam os filhos no colégio, me parece um pouco de preciosismo gastar recursos para fiscalizar nome.”.

  • Na prática a gente sabe que as leis não funcionam neste país e reclamar de nomes bizarros é chover no molhado. Mas, teoricamente, ainda opto pelo ponto de vista do Somir. Acho covardia demais o filho pagar pelo mau gosto dos pais. E ,na hora de zuar, criança não perdoa. Tem maldade sobrando pra fazer bullying com os outros.

  • Minha mãe quis que meu irmão se chamasse Enrique, mas no cartório falaram que esse nome sem H ‘é um erro’. Mas Placenta tá tudo certo…

    • Pois é, é uma grande loteria discricionária. Acaba ficando nas mãos do Fulano do cartório. É por isso que não dá para regular algo tão subjetivo.

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    Dorotildes Magnésia dos Três Pulinhos

    Lá em Portugal tem lista de nomes próprios permitidos (e não se restringem a Maria, Manuel e Joaquim). Acho certo. É uma forma do Estado avisar: “Olhe, se você vier com violência pra cima dessa criança, vamos repassá-la para quem tiver mais noção!”

    É fácil de fiscalizar? Não, mas é preciso.

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    Beijamin Arrola

    #SomirTemRazao Se os pais não tem noção, a criança vai ser zoada na escola até virar adulto e poder trocar? Podendo evitar isso, evite!

  • Tenho um nome peculiar.
    Claro que não chega aos pés das aberrações que a Sally citou em seu texto mas que me gerou um grau de constragimento, principalmente na adolescência, pelo fato de meu pai querer ser o criador de um nome novo.
    Uma droga se chamar ________!

  • Se querem um consolo, isso não é exclusividade de brasileiros. Portugal tem uma lista de nomes autorizados pelo governo e isso não impediu que atrocidades tipo DJENYFER fossem liberadas. E também é um exemplo da vida real mostrando que leis pra nomes não fazem tanta diferença, Somir. Ainda mais quando idiotas bregas estão no poder.
    Essa é a lista de 2017, caso desejem um pouco de entretenimento. Djenyfer está na página 20.
    https://www.irn.mj.pt/sections/irn/a_registral/registos-centrais/docs-da-nacionalidade/vocabulos-admitidos-e/downloadFile/file/Lista_de_nomes_2017_11.pdf

    Também tem esse jogador de futebol holandês chamado Zépiqueno Redmond. Sim, o nome foi em homenagem ao famoso personagem do filme Cidade de Deus. Coitado do moleque quando se tornar mais famoso e ter um monte de brasileiro zueirinho floodando os comentários das redes sociais dele.
    https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/6850794/zepiqueno-jogador-da-base-do-feyenoord-tem-nome-em-homenagem-a-personagem-de-filme

    • Eu filtrei a lista por “Dje” e comecei a chorar…

      Mas eu tenho um contraponto: mau gosto é uma coisa, insanidade que vai atrapalhar muito a vida do filho é outra. A lista permite mau gosto, porque mau gosto é direito inalienável do ser humano, mas não deixa nome chulo ou mistureba ridícula.

      Letras aleatórias em nomes comuns são uma marca de breguice, mas provavelmente não causam um impacto na mobilidade social da criança.

      E a mãe do Zépiqueno tem que ser presa.

  • Tem que ter controle, sim. Gente burra não merece (tanta) liberdade.
    Aliás, é impressão minha ou vocês já fizeram uma discussão semelhante muitos anos atrás? Juro que me lembro. Não estou criticando, é bom retomar alguns temas de tempos em tempos, até porque vivemos num loop infinito. Exemplo: a foto do Moro rindo com o Aécio foi publicada por petistas em 2015 para criticar o (suposto) enviesamento político do juiz, mas esta semana a mesma foto foi publicada por bolsonaristas, inclusive um Bolsofilho, pelo mesmo motivo. Aff

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