Tempo perdido.

Eu tenho uma teoria: somos terríveis para compreender a noção de tempo. Especialmente quando falamos de grandes períodos como séculos, milênios e períodos imensos como os discutidos em geologia e astronomia. Acabamos confundindo nossa capacidade de entender os números com a capacidade de entender as escalas de tempo, e no final das contas, não são coisas parecidas.

Perto da imensa maioria das espécies animais vivas neste planeta, nossa vida média é bem longa. Uma pessoa que vive os 70 a 80 anos médios do ser humano moderno (em sociedades mais avançadas) passou mais tempo nesse planeta que quase toda outra forma de vida não vegetal. Mas mesmo assim, para o longuíssimo tempo de existência do universo, isso é estatisticamente irrelevante. Se o universo existe há 14 bilhões de anos, viver por 70 deles significa experimentar 0,00000005% desse tempo.

E isso impacta na percepção das coisas: nossa fatia de compreensão de escalas de tempo acaba tão limitada que os números nem parecem descrever algo relevante. Vai dizer que sentiu alguma coisa em especial ao ler o quanto 70 anos significa para a idade do universo? Empilhar zeros num número tem utilidade limitada para nos fazer compreender as coisas. Por mais que a matemática seja uma ferramenta espetacular para nos ajudar a fazer senso da realidade, ela ainda é só isso: uma ferramenta. Não mão de alguém habilidoso, faz muito, mas sozinha não passa de símbolos numa tela ou papel.

Mas estamos tão acostumados aos números que deixamos eles assumirem o controle quando saímos dos limites da real compreensão humana. Historicamente, o ser humano se limitava às estações do ano como sua base de compreensão do tempo. Era o período mais longo com aplicações realmente práticas que valia a pena compreender. E isso quando quase toda a espécie vivia em função de coleta de recursos e da agricultura. Em países com invernos rigorosos, era necessário se preparar para sobreviver. Em países tropicais, temporadas chuvosas podiam definir vida e morte do mesmo jeito.

E como somos descendentes dessa gente, a maioria de nós continuou com mais ou menos esse limite de real percepção temporal: uma média de 4 meses. Já perceberam como a mudança de um clima mais quente para um mais frio não pegam ninguém de surpresa, mas como até mesmo os pais de uma criança às vezes se assustam com quão rápido elas crescem? Blocos de tempo maiores que uma estação não estão tão bem codificados na nossa capacidade de compreensão da realidade.

E isso conta quando nos debruçamos sobre questões como passado e futuro. Você provavelmente nunca pensou no tamanho que um século tem, por exemplo. Na escala humana de tempo, acontece muita coisa. Mas muita coisa mesmo. Sociedades nascem e morrem, padrões de vida mudam completamente, comportamentos comuns se tornam crime, crimes se tornam comportamentos comuns… em 1920 uma mulher poderia se casar aos 11 anos de idade, mas não podia mostrar nada acima do joelho na praia. Apesar do exemplo, nem é o ponto falar sobre evolução em normas sociais, e sim em quanta coisa pode mudar em pouco mais de 0,00000007% da idade do universo.

Agora, considere que o ser humano moderno mais parecido conosco surgiu há mais ou menos uns 70.000 anos atrás. É considerado o limite onde um bebê humano do passado poderia ser criado por nós do presente e não chamar muita atenção na sociedade. Em tese, é o mesmo animal que somos agora, mas na prática… são 70.000 anos. Como é possível que não tenhamos evoluído antes? O que estava nos segurando?

Oras, nada muito diferente do que nos segura agora. Falta de recursos, teimosia, briga de gerações, misticismo, ignorância… é que 70.000 anos é um longo tempo. Muito longo. 1.000 vidas inteiras de um adulto humano moderno em sequência. Se em um século a sociedade parece mudar inteira, imagine só em 700! Em cada um deles, 100 anos de mudanças. Várias gerações chegando e partindo, atualizando o conhecimento das anteriores, lutando, vivendo e morrendo.

Os números nos enganam aqui. 700 séculos parecem algo fácil de compreender. O número até cabe na mente. Em alguns minutos você consegue partir do 1 e chegar nele. E isso gera a ilusão de que não é tanta coisa assim. Mas é só isso: uma ilusão. Eu já havia mencionado algo parecido em outro texto sobre as dimensões do universo: 90 bilhões de anos luz parecem tão longos quanto o tempo que demora para dizer o número, ir até o limite do universo é só um pensamento. Mas quando você precisa lidar com distâncias na prática, um quilômetro já dá trabalho o suficiente. Não é só porque conseguimos criar atalhos mentais para essas quantias gigantescas que elas não continuem sendo gigantescas.

E é nesse truque de mágica das grandezas que podemos fazer com números dentro da mente que reside muito do que nos engana sobre história, sociedade e tecnologia. Tudo deu muito trabalho para conquistar, tudo foi lento, sofrido, cheio de contratempos. Cada pequeno avanço da humanidade precisou de litros de suor e sangue para ser conquistado. Demorou… muito. Mais do que você consegue imaginar de verdade. O grau de complexidade da sociedade humana e sua tecnologia atual só existe porque bilhões de pessoas contribuíram para isso. Quase todas com atos minúsculos que a história é incapaz de registrar.

O Império Romano, a Democracia Grega e os reinos Medievais não aconteceram logo antes de você nascer. A humanidade quase acabou umas 10 vezes entre esses pontos e a sua chegada aqui. Corpos se deterioraram, construções foram retomadas pela natureza, ideias se perderam de vez com seus idealizadores. Cada egípcio do tempo dos Faraós viveu uma vida inteira dentro daquela realidade. Quase todos os seres humanos que já viveram nesse planeta não chegaram a perceber as mudanças no mundo, porque sua vida era pequena demais para notar algo.

Quando você estuda história de civilizações antigas, não costuma pensar em vidas, e sim em datas. Milhões de romanos só conheceram a era de César, por exemplo. Foi tudo o que coube na sua existência. Pulamos séculos entre um ponto notável e outro, mas entre eles, você poderia ter vivido uma vida inteira. Alguém viveu uma vida longa e saudável antes da Peste Negra. Alguém ganhou muito dinheiro com o comércio na Era do Bronze antes de seu colapso terrível. Um judeu deve ter morrido achando que aquele tal de Hitler não ia dar em nada e seus filhos e netos estavam bem encaminhados na vida.

O número de dias e estações entre o presente e início da história humana foge de qualquer limite prático onde conseguimos diferenciar as coisas com precisão. Existem problemas humanos que estamos tentando resolver há milênios, especialmente os de convivência.

Não existe sistema de governo perfeito. Não existe comportamento ideal num relacionamento. Não existe filosofia de vida correta. Não existe fórmula de sucesso. Num exemplo que talvez caiba melhor na nossa cabeça: a maior parte dos grandes problemas da humanidade é como se alguém chegasse pra você com um pote de azeitonas e dissesse que toda a população da China tentou abrir ele, um por um, e ninguém conseguiu. Você se sentiria confiante na missão? Claro, não custa nada tentar, mas você realmente vai achar que ninguém conseguiu pensar na sua estratégia? Que ninguém tentou quebrar o pote, que ninguém tentou aquecer a tampa, que ninguém tentou fazer muita força?

É mais ou menos como achar que tem a solução para problemas que existem há milênios no mundo. No mínimo a China inteira já tentou. Porque milênios são longos assim. Virtualmente tudo o que você pensa já foi tentado de alguma forma. Veja bem, não é um texto de desmotivação, temos exemplos históricos de gente que realmente pensou em algo que ninguém mais tinha pensado ou pelo menos conseguiu executar da forma certa, mas faz parte da compreensão da realidade entender a escala das coisas. Se ninguém abriu esse pote de azeitonas até hoje, não deve ser tão simples como você imagina.

E quando vamos além da era humana, pode esquecer a capacidade de compreender coisas como milhões e bilhões de anos. Sem brincadeira: se uma cópia da cidade de São Paulo aparecesse magicamente em um lugar aleatório do planeta há um bilhão de anos atrás, seria muito provável que não tivéssemos a menor ideia hoje em dia. Mesmo com toda tecnologia e curiosidade que temos atualmente. Alguns materiais são realmente duráveis, mas um bilhão de anos é tempo suficiente para mandar toda uma região para baixo das placas tectônicas e de volta inúmeras vezes. Um vulcão pode nascer e desaparecer nesse tempo. O mar pode acabar em cima dessa área, o local pode ser atingido por um meteoro gigante… o conhecimento do passado que temos agora é totalmente dependente das migalhas que o planeta nos permite encontrar.

Os dinossauros morreram há 65 milhões de anos, mais ou menos. Os continentes eram diferentes naquela época! A Lua era bem maior no céu. O planeta girava mais rápido. O mais próximo de um ser humano que tínhamos ali era menor que um rato. Praticamente nenhuma das espécies daquele tempo ainda existe. Essa é a escala de tempo da evolução natural: incontáveis mutações durante um tempo tão imenso que praticamente tudo pode ter acontecido. Uma ameba pode virar sim um ser humano. Mas o tempo necessário para isso não cabe na nossa cabeça. A natureza pode tentar trilhões de vezes, e errar em virtualmente todas sem comprometer o resultado final. Por essa mesma lógica, dá para prever que não tem nada escrito em pedra sobre o que consideramos humanidade ou mesmo vida. Mais um bilhão de anos e provavelmente seremos amebas, em comparação ou literalmente, vai saber…

Em tese, a entropia vai demorar uma quantidade de anos cujos zeros não caberiam nesse texto para impedir a existência de qualquer forma de vida, orgânica ou artificial. Se fôssemos comparar a vida da universo com uma vida humana, o ser humano existe tão no começo que nem deu tempo do universo chorar pela primeira vez depois de nascer. Se nossa civilização acabar, uma espécie inteligente que nasce um minuto depois na escala de tempo do universo não teria a menor chance de sequer saber que existimos um dia. Todos nossos vestígios desapareceriam em frações de segundo.

Este texto não é necessariamente para nos sentirmos pequenos, embora sejamos sim minúsculos, mas para dar uma perspectiva diferente sobre o passar do tempo. O tamanho da fatia dele que percebemos é uma maldição e uma bênção: você não vai ter sequer noção mesmo de quanto tempo a humanidade já existe e faz mais ou menos as mesmas coisas que fazemos hoje, mas em compensação vai poder viver até cansar e fazer muita coisa numa quantia insignificante de todo o tempo disponível. Não deixa de ser eficiente.

Para dizer que quer de volta os minutos que demorou para ler, para dizer que no passado que você não viveu que era bom, ou mesmo para dizer que é por isso que é preguiçoso: somir@desfavor.com

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Comments (13)

  • Eu achei este texto reconfortante. Não sei se era a intenção, mas achei. Pensar nessa dimensão de tempo faz com que problemas pareçam menores, mesmo que sejam do tamanho de uma pandemia e minha própria vida seja bem pequena em comparação. Se nossas vidas são tão pequenas, nossos problemas são menores ainda… e hoje em dia, talvez ainda possamos ver/perceber uma ou duas mudanças boas

    • Nesse tipo de tema, intenção nem conta muito… tempo é uma coisa neutra, fazemos o que podemos com ele.

      A insignificância na escala geral das coisas torna nossos problemas pequenos, mas olhando pelo lado positivo: cada coisa que a gente consegue fazer conta muito. Para um universo que demora bilhões de anos para fazer um planeta, a gente funciona na velocidade da luz!

  • Adorei o texto. Fui criada num lar cristão, logo, é de se imaginar que a gente cagava pra evolução e tudo mais. Eu anulava da minha cabeça as aulas de biologia na escola. Já mais velha e fora da igreja fui estudar por pura curiosidade e me peguei pensando no mesmo “Por que é tão difícil para os cristãos acreditarem que o ser humano passou por tantas mudanças físicas ?” que se você falar, eles riem loucamente…sim, muito por causa da forma como é explicado, como quando me diziam que eu vim diretamente do macaco, parece de fato algo absurdo. E além da explicação cagada, nos falta essa noção de tempo, o tempo que leva pra tais mudanças ocorrerem, já que a nossa vidinha é curta pra ver grandes mudanças. Deve ser mais fácil acreditar que Deus te criou todo equipado de vez.

    • Eu acho que compreender grandes escalas de tempo exige bastante da capacidade de abstração, e eu já li e ouvi de pessoas mais velhas que as pessoas pensavam de forma menos abstrata no passado. Claro, gênios da comunicação sempre existiram, mas o cidadão médio era mais… literal. Muito difícil conceber o que não se enxerga imediatamente.

      Curiosamente, a maior parte das “alternativas religiosas” às Teorias científicas são basicamente um movimento cético daqueles que tem mais fé do que capacidade de abstração.

      “Se eu não vejo, não existe. Menos Deus, aí existe sim.”

    • Melhor período para ponderar sobre o tempo é durante a quarentena, quando você acha que o tempo não passa e que sua pobre vida importantíssima está paralisada, mas no grande esquema das coisas, não vão nem te notar quando citarem a Peste Chinesa de 2020 nas lições de história em 2134….

      Falta-lhe perspectiva, amigo…

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