Dono por tabela.

Você começa a se relacionar com uma pessoa, a coisa avança o suficiente para vocês passarem bastante tempo juntos debaixo do mesmo teto. Essa pessoa tem um animal de estimação. Sally e Somir discutem o quão “seu” se torna esse animal. Os impopulares adotam o lado preferido.

Tema de hoje: você se torna corresponsável pelo animal de estimação do(a) seu(ua) parceiro(a)?

SOMIR

Não. Uma coisa não presume a outra. Eu escolhi me relacionar com a mulher, não com os bichos dela. Por mais que eu entenda que todo mundo tem sua bagagem e não dá para isolar a pessoa de tudo o que aconteceu com ela antes de vocês se relacionarem, não é o objeto do relacionamento amoroso adotar um animal de estimação. Exigir isso do parceiro é enfiar uma cláusula bizarra no contrato.

Não é o seu animal de estimação, não foi a escolha que você fez e não pode ser imposto. Sagrado direito da pessoa de ter seu bicho, mas é um salto lógico bizarro presumir que namorar uma mulher significa assumir seus animais de estimação. Estou usando o exemplo feminino por praticidade na escrita, mas vale igualmente para quem se relaciona com homens. Animais não contam no pacote básico de um namoro ou casamento.

E foco em animais. Por mais que em tese filhos também não sejam objeto do “contrato de namoro”, seres humanos merecem sua categoria à parte. Filhos entram no pacote da pessoa com quem você se relaciona, crianças exigem muito mais atenção e cuidado, e não é razoável querer que elas fiquem em segundo plano, ainda quando você está relacionando com a mãe, que via de regra passa a maior parte do tempo com eles. Não estou dizendo que você adota os filhos dela ao namorar com ela, mas gente é gente, bicho é bicho. Tem que aceitar que você sempre vai estar num grau menor de prioridade, e francamente, é sinal vermelho sobre uma mulher se ela te der mais importância que os filhos. Se quiser que ela tenha mais tempo pra você, é bem importante ser útil e ajudar com as crianças quando possível.

E se não quiser, direito seu também. Na média, mulheres tendem a mencionar que tem filhos nos primeiros estágios de qualquer relacionamento. Você decide se topa ou não porque é bem óbvio que isso vai definir a relação entre vocês. Se quiser ignorar os filhos dela, provavelmente não vai durar muito. E isso toda pessoa com um mínimo de bom senso já deveria saber. Se você não quer lidar com crianças, não se relacione com alguém que tem filhos.

Agora, quando a coisa vai para o campo dos animais de estimação, a lógica muda. Por mais que pessoas se apeguem muito aos seus bichos, ninguém em sã consciência presume que vai lidar com um grau de responsabilidade parecido com o de um filho porque está namorando uma mulher que tem um gato ou um cachorro. Repetindo: bicho é bicho. Você simplesmente não espera que vá adotar um animal de estimação por tabela! Até porque uma pessoa só normalmente dá conta de cuidar de qualquer animal comum que as pessoas costumam ter em casa. Não estamos falando de uma mulher que tem um tigre no quintal, no máximo um cachorro grande. Se você quer um animal de estimação, fica claro que você se compromete a lidar sozinho com ele enquanto ele viver.

A pessoa já cuidava do bicho antes. O bicho não é o motivo pelo qual você começou esse relacionamento, e com certeza não é o motivo pelo qual você vai mantê-lo. Não é uma pessoa. É uma posse da outra pessoa que ela preza bastante, mas considerar mais do que isso é cruzar a linha da sanidade. É o bicho dela, ela que cuide.

Vejam bem, não estou dizendo que vou ter raiva do animal ou maltratá-lo intencionalmente: é só um bicho. Mesmo os mais irritantes só são assim por causa da criação. Não é culpa do animal. Eu posso ter uma postura menos passional em relação a animais de estimação, mas considero sinal de psicopatia fazer mal para um. Não estou dizendo para bater, para prender em lugar apertado ou mesmo deixar de alimentar: se você percebe o animal sofrendo, é humano dar atenção. Nem estou dizendo que é para ter uma “relação formal”, pode e deve dar carinho para o bicho (de acordo com seu grau de compreensão de afeto, é claro).

O problema da discussão levantada aqui é a questão da responsabilidade: uma coisa é cuidar do bicho quando você pode, outra é ser responsável pelo bem estar dele. Quem se responsabiliza assume um compromisso: não pode se esquecer dele, tem que fazer a manutenção da sujeira que ele faz, tem que entender que especialmente no caso de cachorros, companhia e exercícios são fundamentais… quando você assume a responsabilidade pelo bicho, isso vira sua obrigação. Nada contra sair para passear com o cachorro dela quando você está de bobeira em casa, mas tudo contra ouvir que “não cuidou do bicho” quando ela se ocupou de outra coisa.

O ser humano se acostuma rapidamente com qualquer situação confortável: em questão de semanas ela esquece que o animal foi escolha exclusiva dela e começa a te pentelhar para cuidar dele como se você tivesse trazido o bicho para casa. Se você não botar o limite logo, cai nessa armadilha. Ajudo com um sorriso no rosto, mas não me obrigo a nada. Se eu esquecer que o bicho existe porque estou preocupado com outra coisa, não é problema meu. Não vou sair do meu caminho para fazer mal para ele, mas não se força suas escolhas para cima dos outros dessa forma.

Quem adota bicho tem que saber que é problema seu até o bicho morrer. É meio como começar a namorar uma mulher e exigir que ela comece a pagar as parcelas do seu carro! Ela pode até usar o carro às vezes, mas não foi escolha dela comprar… se é injusto botar uma dívida sua nas costas da outra pessoa, é injusto colocar seu animal de estimação sob a responsabilidade de outra pessoa.

E eu garanto que não estou sendo radical: se você acha um apartamento bacana para o casal e não pode se mudar por causa do animal de estimação dela, é escrotice obrigá-la a se desfazer do bicho por isso, por exemplo. Mas isso não quer dizer que você não fez uma grande concessão: não era uma quebra de contrato do relacionamento não considerar o animal no futuro do casal. Você não namora com o bicho, você namora com a pessoa. Não é sua obrigação, você não pode ser culpado por não cuidar do animal, você não pode ser forçado a pensar nele com o mesmo grau de importância que a pessoa com a qual você quer se relacionar. Bicho é bicho.

Se quiser se responsabilizar, que seja escolha sua, não uma imposição bizarra da outra parte. Se o bicho estiver sofrendo, a culpa é única e exclusiva de quem o adotou para começo de conversa. Nunca é responsabilidade de quem quis se relacionar com o ser humano. Bom senso, por favor.

Para dizer que eu sou insensível, para dizer que é “mãe de bicho” e discordar de mim, ou mesmo para dizer que é só dar um veneninho e tudo se resolve rapidamente: somir@desfavor.com

SALLY

Se você ama seu parceiro, faz parte do pacote também se fazer responsável pelo animal de estimação dele?

Siiiiiiiiim. É um devaneio de quem nunca coabitou achar que dá para fazer essa divisão e não se responsabilizar pelo filho, pelo pet ou por qualquer ser vivo que seu parceiro leve para debaixo do mesmo teto que você. Fato, vai acontecer, em algum momento a pessoa vai precisar de um apoio seu. Você é obrigado a dar? Não, mas a pergunta não é essa. Você deveria dar. Se não quer participar da rotina de um ser vivo pelo qual seu parceiro é responsável, não se envolva com essa pessoa.

Assumir um relacionamento de verdade é assumir uma parceria de vida. Não me refiro a corpos que se esfregam, me refiro a construir algo profundo, significativo e sólido. Para isso, é preciso abraçar vários aspectos do parceiro: se ele tem uma profissão com horários difíceis, o ideal é que se compreenda e apoie. Se ele tem dificuldades em alguns aspectos, o ideal é que se ajude a trabalhá-los. E se ele tem um encargo monumental, que é cuidar de outro ser vivo, o ideal é que você divida essa tarefa com ele.

Por um motivo muito simples: o que é importante para ele também tem que ser importante para você, caso contrário, cedo ou tarde, haverá um conflito de interesses insustentável. Se a pessoa não for muito filha da puta, o pet do parceiro passa a ser importante para ela também, nem que seja para ver o outro feliz. Portanto, ao construir qualquer relação é uma burrice deixar o pet de fora, pois, no mínimo, o outro vai ficar frustrado. Vai ficar faltando uma parte importante da vida da pessoa e, mais cedo ou mais tarde, isso vai pesar. Não gosta de pet? Não se relacione com quem tem pet.

Um grupo que vive em uma casa (mesmo que seja só esporadicamente, por exemplo, aos finais de semana), se torna uma unidade familiar. Não tem dessa de “ah, mas não é meu, é seu”. É uma unidade familiar. Não se segrega uma unidade familiar. Se o pet está ali, ele está inserido na unidade familiar. Se ele tiver alguma necessidade que seu parceiro eventualmente não possa suprir, você deve sim se responsabilizar, para dar uma ajuda. Coisa mais feia dizer “sinto muito, não é meu” e não prestar a assistência necessária.

Ninguém é obrigado a estar com ninguém. A partir do momento em que você aceita se relacionar com alguém que tem um vínculo forte com um animal de estimação, você está ciente de que interagir com ele vai fazer parte da dinâmica da relação. Animais são dependentes, precisam de cuidados e atenção de humanos, portanto, fatalmente, em algum momento ele vai demandar sua atenção também.

Você tem seus amigos, sua família, seus colegas… tudo que aquele animal tem é seu parceiro. Ele depende do seu parceiro para viver, para ter social, para ter carinho. Se em algum momento pontual seu parceiro não puder prover isso, não seja mesquinho e faça você.

Relacionamento é dividir. Dividir as coisas boas e as responsabilidades também. É mesquinho esse papo de “o cachorro é seu, eu não vou passear com ele”. Uma pessoa que se comporta assim não está no relacionamento com a mentalidade que deveria estar, com a generosidade que deveria estar. Para ficar em um relacionamento dando tão pouco, sinceramente, nem entra.

Não estou dizendo que a pessoa tenha que se portar como se dona do bicho fosse (apesar de eu me portar assim). Dar um suporte, dar uma ajuda, se fazer responsável pelo animal de alguma forma quando é necessário é o mínimo que se espera, é só cobrir uma falta quando seu parceiro não der conta. Se uma amiga minha me pede para que eu quebre um galho e cuide do seu animal, ou dê comida ou preste qualquer outra assistência eu não vou me opor, por qual motivo não faria pelo meu parceiro?

É uma ajuda. Se recusar a ajudar o outro quando ele precisa é bem escroto. Já ajudou um amigo a fazer uma mudança? Custa muito menos colocar uma tigela de comida no chão. É pouco e vai significar muito para a pessoa que está com você. Pessoas vem em pacotes, quando nos relacionamos com elas ganhamos de brinde seu entorno: família, filhos, amigos e também pets.

Repito: ninguém é obrigado a se relacionar com ninguém. Não gosta de cachorros? Tá tudo bem. Não se relacione com quem tem um cachorro, pois a pessoa certamente ama o cachorro que tem e será muito doloroso para ela segregá-lo. Tem milhões de pessoas no mundo que não tem cachorros. O que não pode é escolher se relacionar com quem tem cachorro e querer que a pessoa exclua o animal do convívio social, ainda que parcialmente.

Animais não são descartáveis. Quando você tira um filhote da sua mãe, você se faz responsável por ele. Você passa a ser tudo que ele tem. Não dá para pedir que uma pessoa abandone um ser totalmente dependente dele para passar tempo com você, pessoa adultinha que sabe se cuidar sozinha. E nem me refiro a abandono definitivo, me refiro à pessoa ir passar um final de semana na sua casa e não poder levar o cachorro.

É sacanagem. Vai causar sofrimento ao pet e ao dono do pet. Não precisa botar roupinha e chamar de “meu filho”, só não se negue a ajudar esporadicamente e saiba que esse animal pertence ao núcleo familiar, não pode ser deixado de fora por você não querer se fazer responsável por ele. Aceitem as pessoas por inteiro, com tudo que elas trazem, caso contrário vão se frustrar, gerar conflitos e mágoas.

Você não vai virar dono do bicho. Você não vai ficar responsável por tudo do bicho. Você apenas será acionado para ajudar quando for necessário. Estamos falando em TAMBÉM se fazer responsável pelo animal e não em ser o responsável exclusivo pelo animal.

Não cabe a você dizer o que deve ser importante na vida do outro. Se o pet é importante na vida do outro, cabe a você respeitar e tratar como algo importante também. Coisa mais triste um parceiro que menospreza o que é importante para o outro… Um parceiro deve apoiar, ajudar e respeitar o que o outro prioriza.

Feio e mesquinho se negar a participar da vida do pet do outro e se negar a que o pet participe da sua vida.

Para dizer que não está disposto, para dizer que quem pariu Mateus que o embale ou ainda para dizer que melhor pet do que filhos: sally@desfavor.com

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