Isolamento social.

Há uma grande confusão de terminologia quando se fala do grau de isolamento social praticado durante a pandemia: isolamento vertical isolamento horizontal, quarentena, lockdown e outros, que confundem a cabeçadas pessoas. Cada um chama de um jeito e o que vemos é um grande mal-entendido. Vamos tentar esclarecer de uma vez por todas quem é quem? Desfavor Explica: isolamento social.

Quando surge um vírus altamente contagioso, capaz de matar e para o qual não se tem cura, vacina ou tratamento, a única forma de lidar com o problema é isolar as pessoas umas das outras, para tentar reduzir o ritmo de contágio desse vírus. É o que está acontecendo como o coronavírus.

O objetivo do isolamento social não é necessariamente que você nunca pegue o vírus, e sim fazer com que a população pegue o vírus de forma mais lenta, para que todos os contaminados possam ter um tratamento digno. Ao reduzir o ritmo do contágio, se aumentam as chances de que os infectados tenham à sua disposição um sistema de saúde e recebam os cuidados adequados, reduzindo o número de mortes.

Para que uma sociedade funcione minimamente, existe um grupo de pessoas que não pode ficar em casa. São os chamados “serviços essenciais”. Se você quer que chegue comida na sua mesa, água na sua torneira, que seu lixo seja recolhido e que você tenha tratamento médico à sua disposição (apenas para citar alguns exemplos), então algumas pessoas terão que sair às ruas para trabalhar, apesar da pandemia.

Essas pessoas que terão que sair às ruas para trabalhar, estarão mais expostas ao vírus, portanto, é de se esperar que se contagiem com mais facilidade. Essas pessoas que forem contagiadas ao exercer seu trabalho, para que você e eu tenhamos comida na mesa e água na torneira, precisarão de hospitais, médicos, leitos de UTI e talvez respiradores.

Então, para assegurar que essas pessoas que estão arriscando a vida e saindo de casa para nos atender tenham um tratamento adequado, nós temos que ficar em casa. Os hospitais, leitos de UTI e respiradores devem ser, por ética, para quem não podia ficar em casa e teve que arriscar sua vida.

Se pessoas que podem ficar em casa decidem sair de casa pois “prezam por sua liberdade”, “estão de saco cheio” ou qualquer outro motivo não imperioso, muita gente adoece ao mesmo tempo e os hospitais não dão conta de tratar todo mundo. Isso faz com que a pessoa que sai de casa para trabalhar na área de saúde e, quem sabe, salvar a sua vida, acabe morrendo sem socorro, sofrendo, como um animal.

Além disso, a transmissão de vírus se dá de forma exponencial, ou seja, aumentam com tanta velocidade que não há sistema de saúde no mundo, nem mesmo nos países mais evoluídos, que consiga atender a todas as pessoas que vão adoecer ao mesmo tempo se ninguém se privar de ir à rua. Não é sobre o que você quer, o que você acha justo ou o que você tem vontade. É matemático: se todo mundo sair, todo mundo se contamina ao mesmo tempo e ninguém conseguirá receber o socorro necessário para sobreviver.

Por isso, para evitar que muita gente fique doente ao mesmo tempo, causando um colapso no sistema de saúde, se faz o isolamento social. Quanto menos gente sai, menos gente adoece ao mesmo tempo e maiores são as chances de identificar e cuidar de quem adoecer com toda a atenção necessária, o que aumenta as chances de que essas pessoas sobrevivam.

Existem diferentes graus de “pessoas ficando em casa”. Eles variam conforme o tamanho do problema. O tratamento dado deve ser mais rígido se, por exemplo, já há um sistema de saúde colapsando, ou seja, sem conseguir atender a todos aqueles que precisam dele. Eu sinceramente desisto de chamar cada grau de isolamento por um nome, pois está uma bagunça, cada lugar chama como quer, descaracterizando completamente o conceito de cada tipo de isolamento.

Portanto, saiba que pouco importa o nome que que sua cidade, estado ou país está dando: quarentena, lockdown, isolamento social… O que importa é o que efetivamente está sendo feito para assegurar que as pessoas cumpram o isolamento social. Quais são as regras e como elas estão sendo impostas. É isso que determina se o Estado está cuidando bem de você ou só fazendo figuração.

Vamos falar um pouco dos isolamentos mais comuns, para que vocês entendam o piso e o teto. Mas, lembrem-se, o nome que se escolhe dar não importa, o que importa é o grau de restrições impostas e como isso será fiscalizado e punido.

No grau mais leve, que é comumente chamado de “distanciamento social”, as pessoas se recolhem por vontade própria. É uma iniciativa voluntária, movida pela consciência ou pelo medo. Mesmo sem estarem doentes, as pessoas evitam sair para não aumentar o problema da sociedade onde vivem ou pelo simples fato de terem medo de se contaminar. Poucos países praticaram, por conta própria, um distanciamento voluntário.

Um exemplo aconteceu na Antártida, pesquisadores que estavam isolados em uma base passaram a não ter contato com pesquisadores externos, que vez por outra visitavam a base. Por escolha deles, tudo está sendo de forma remota, online, pois eles sabem que se forem infectados pelo coronavírus em um continente que não tem hospital, a coisa pode ficar feia. Então, eles escolheram se isolar. Também pode ser o caso de algumas tribos indígenas que estão fugindo apavoradas para o meio do mato e se recusam a ter contato com qualquer pessoa, por medo de morrer.

Um degrau acima, temos a modalidade onde alguém te pede para ficar em casa: o governo, médicos, ou até seus filhos, que fazem um escândalo se você sair. Nesta modalidade apenas se recomenda o isolamento social. É pedido gentilmente às pessoas que evitem sair de forma desnecessária e que não causem aglomerações. O que se espera é que as pessoas saiam menos e não se reúnam, isso é, não fiquem todas juntas em um único lugar. Salvo engano, isso foi praticado pela Suécia, onde o governo sugeriu, mas não impôs. Nesta modalidade, não costuma haver fiscalização ou punição, é deixado a critério da consciência de cada um. É mais ou menos como uma campanha que te pede para usar camisinha: espera-se que você use, mas ninguém vai lá conferir.

Dentro desse gentil pedido para ficar em casa, no Brasil, o Ministério da Saúde classifica o distanciamento ou isolamento social em dois tipos: o Ampliado e o Seletivo. No Seletivo (vulgo gambiarra) apenas determinados grupos de risco, mais vulneráveis ao vírus, devem ficar em casa, enquanto o resto das pessoas pode sair. No Ampliado, todo mundo deve evitar sair.

Vimos muitas discussões sobre essas duas possibilidades no Brasil. Muita gente dizendo que se idoso é grupo de risco, então basta que os idosos fiquem em casa e pronto, eles estão protegidos, não sendo necessário paralisar a economia. Porém, ao analisar um pouco melhor a questão, percebemos que não é tão simples.

O distanciamento ou isolamento Seletivo (também chamado Isolamento Vertical) se provou ineficiente para combater o Coronavírus, por diversos motivos. É uma gambiarra. É uma medida que não tem precedentes ou embasamento científico e não foi adotada por nenhum outro país nem recomendada por qualquer organismo internacional. Na verdade, não caberia nem a discutir, pois não é uma proposta científica, é um achismo que nunca foi testado em lugar algum. Mas, precisa ser discutida, pois ainda tem gente que acha que pode funcionar.

No Brasil os idosos (e outros grupos vulneráveis) dificilmente vivem sozinhos. Costumam viver com os filhos e/ou netos, ou ao menos receber um suporte deles para algumas atividades que não conseguem mais realizar. Como pessoas podem estar sem sintomas e ainda assim serem portadoras da doença e contagiar aqueles que convivem com elas, se torna praticamente impossível proteger esse grupo de risco se as pessoas que o cercam tiverem que sair regularmente. É necessário que todos façam um isolamento rigoroso.

Na prática, você não faz um isolamento rigoroso se dá uma passadinha na casa dos seus pais, você está colocando a vida deles em risco. Não adianta usar máscara, face shield, luva, roupa de mergulho ou o traje do Batman, você está colocando a vida dessas pessoas em risco. O vírus, entre outras formas, se transmite pelo ar. Então, se você respira e os idosos respiram, sinto te dizer, não tem como fugir do risco de contágio. Isolamento rigoroso é sair apenas para assegurar sua sobrevivência: comida e/ou remédios.

É algo que o brasileiro parece não entender. Esse desejo infantil de não ficar sem ver as pessoas de jeito nenhum está provocando muitas mortes. Quer muito ver a pessoa? Vá morar com ela e não saia de casa. É a única forma segura. Levar criança na portaria para avó para dar um tchauzinho de longe, almoço rápido em família, visitar a pessoa ficando na varanda… Tudo um risco. Gente, estamos vivendo uma tragédia. Tragédias não são bonitas, não são divertidas de passar e geram muitas restrições. Conforme-se.

Então, o distanciamento/isolamento seletivo (ou isolamento vertical) não funciona, não é indicado e ajuda a disseminar o vírus. Quem acha que está se protegendo e protegendo o outro agindo assim se engana, muito pelo contrário, está colocando a vida das outras pessoas em risco.

Um plus: no Brasil, o coronavírus está hospitalizando e matando democraticamente. Tem gente jovem morrendo, tem criança morrendo, tem adolescente morrendo. Então, esse papo de só morrer idoso valia para o vírus quando ele surgiu, hoje, muitas mutações depois, todo mundo está em risco. Além disso, surgiram novos grupos vulneráveis que foram sendo descobertos pelo caminho, como por exemplo, pessoas acima do peso (quanto mais gorda maior o risco, e, entre todos os riscos, a gordura é o mais letal) e fumantes.

Basicamente, ninguém está a salvo. Se for olhar de pertinho, todos nós podemos ser encaixados em algum grupo de risco e devemos ficar em casa. Glicose elevada, sobrepeso, fumo, pressão alta, asma… De perto ninguém é 100% saudável. Sem contar que a cada dia descobrimos uma nova forma de ataque do vírus ao organismo. Estamos lidando com o desconhecido, não tem outro jeito além de ficar em casa. O que nos leva ao isolamento amplo.

O isolamento amplo (também chamado Isolamento Horizontal) tem embasamento científico, já foi adotado em outras pandemias e tem estudos científicos que comprovam sua eficácia. Nele, todo mundo que pode ficar em casa deve ficar em casa, independente de idade, condição preexistente ou qualquer outro fator. Quanto mais gente ficar em casa, menos mortes o lugar terá por coronavírus.

E nessas horas sempre vem alguém com discurso de que brasileiro não pode ficar em casa, pois morre de fome, etc, etc. Se não pode, pois bem, que pena, terá que sair para trabalhar e se colocar em risco. Mas, que fique claro, um governo que “luta” pelo seu “direito” a sair de casa e trabalhar é um governo canalha. Um governo decente ampara essas pessoas e lhes dá condições para que fiquem em casa pelo tempo que seja necessário para preservar não apenas a vida das pessoas, mas o sistema de saúde do país.

Nessas horas sempre vem também alguém dizendo que isso é utopia, que não é viável e me perguntar se eu vivo em Nárnia. Eu já estive dentro da máquina estatal por quase uma década e afirmo com toda a segurança: dinheiro há. O que não tem é vontade política de gastar esse dinheiro com o povo, em vez disso preferem comprar material hospitalar superfaturado e embolar uma pequena fortuna. Em tese, um isolamento horizontal decente seria com a população toda em casa e só vai pra rua quem presta serviços essenciais.

Mandando uma real aqui, que não dá para falar no mundo lá fora: Estou um pouco cansada de escutar a história triste de que as pessoas precisam sair para trabalhar. O que aconteceu em São Paulo nesta semana desmascara esse conto vitimista: foi decretado um grande feriado, assim as pessoas não sairiam para trabalhar e o isolamento aumentaria. O resultado? O isolamento em dia útil e em dia com feriado foi praticamente o mesmo. Desculpa, mas o grosso de pessoas que saem, saem para bundear na rua. E isso vai ter um preço.

Pois bem, passemos para mais um degrau de severidade. Se no isolamento se pede que as pessoas não saiam, o próximo passo é praticar atos para desencorajar que as pessoas saiam. Chamada por muitos de “quarentena”, nesse novo degrau vemos uma medida imposta por autoridades (federal, estadual ou municipal) onde, além de pedir que as pessoas não saiam, se fecha qualquer estabelecimento que não seja essencial, para desencorajar as pessoas a saírem. Costumam chamar de “quarentena” pois, normalmente, essas medidas duram por 40 dias.

Nesta modalidade a autoridade governamental diz quais são os serviços essenciais e os estabelecimentos que não forem considerados essenciais podem ser fiscalizados e receberem punição caso continuem funcionando. O cidadão também pode fiscalizar e denunciar, o que fato acontece em países civilizados, onde as pessoas sabem que 1) se você denunciar providências serão tomadas e 2) quanto menos coisa funcionando, mais rápido se contém o vírus e mais rápido se retorna para uma rotina mais “normal”. Com tudo fechado, a tendência é que as pessoas saiam menos.

Quando nem isso dá certo, existe um degrau a mais para subir. O Estado começa a usar a força contra o cidadão para fazer valer as regras que ditou. Muita gente chama isso de lockdown. Ou seja, além dos estabelecimentos, a pessoa comum também pode ser fiscalizada e punida se não respeitar as regras. Esse sistema não é bem visto pela interferência estatal que provoca na vida de todos, por isso costuma ser usado como última cartada, para aquelas situações onde o sistema de saúde está prestes a colapsar. Confesso que não é agradável, mas mais desagradável é morrer sem conseguir respirar.

É o que, em direito, chamamos “escolha trágica”. Uma situação tão ruim que algo terá que ser sacrificado. Isso acontece em situações pontuais, como, por exemplo, no caso do médico que tem que escolher se salva a vida da mãe ou do bebê em uma gravidez de risco. Esse médico não responde por homicídio ou aborto se matar o bebê. O mesmo vale para um médico que precisa amputar a perna de um paciente para salvar sua vida, por uma infecção que se espalha. Ele não responde por crime de lesão corporal.

Nesta modalidade, as autoridades estão autorizadas a sacrificar o direito de ir e vir das pessoas para preservar o direito à vida. Apesar do Presidente de vocês dizer que liberdade é mais importante que vida, um cadáver livre nada pode fazer. Então, as autoridades tem permissão para intervir e punir quem vai e vem fora das regras: desfazer aglomerações, tirar das ruas quem não está no grupo autorizado para sair, fechar/impedir comércios ou serviços que não sejam consideradas essenciais ou interromper qualquer atividade que esteja em desacordo com o permitido, usando a força, se necessário.

Muito se critica esta modalidade, mas eu acho é pouco. Se alguém põe em risco a vida das pessoas que eu amo, eu defendo até que se dê chicotada e surra de vara, como a polícia indiana faz. Não é a sociedade que eu sonhei viver, mas prefiro isso a deixar a vida das pessoas que eu amo nas mãos de ignorantes, inconsequentes e egoístas.

Quando se chega a esse grau de invasão na vida do cidadão, o recomendável é que seja uma intervenção precisa, certeira, eficaz, para que dure o menor tempo possível. Por isso, as restrições nesta modalidade são enormes. Normalmente se permite sair de casa uma vez por semana (e apenas uma pessoa da casa) para ir a supermercado ou farmácia (todo o resto estará fechado) que esteja nas proximidades da residência da pessoa (onde eu moro sou presa se me distanciar mais de cinco quarteirões da minha casa). Muitas vezes as pessoas têm tempo contado para sair e voltar (ex: só pode se ausentar por uma hora). Em muitos lugares as pessoas precisam baixar um app para sair de casa e, através do GPS do celular são monitoradas.

Há policiamento massivo nas ruas e você pode ser parado e perguntado onde vai. Os policiais podem te acompanhar onde você vai, para se certificarem que de fato você vai ali. É preciso sair com um comprovante de residência em mãos para mostrar que você está respeitando a distância estipulada (no meu caso, cinco quarteirões) e, se os policiais assim o desejarem, podem te acompanhar durante toda a saída, para verificar o que você vai comprar e se de fato vai voltar para casa. Em caso de descumprimento, é possível aplicar multa, prisão e/ou apreensão do veículo.

E olha que essa nem é a maior restrição possível. Em Wuhan, na China, onde teoricamente o vírus surgiu, tiveram um dos “lockdowns” mais restritivos da história. Em determinado ponto as pessoas não podiam sair de casa para nada, a menos que fosse necessário levá-las a um hospital para salvar suas vidas. Pediram comida e remédios pela internet, ou, se não pudessem, pelo telefone. Era todo mundo trancado em casa de verdade. China não costuma ter muita tolerância com quem desobedece ao que o governo ordena fazer.

Então, pouco importa o nome que seu governante vai dar para a medida tomada, com as informações deste texto você saberá exatamente quão diligente ele está sendo. É muito comum que, de acordo com a conveniência, para não alarmar ou chatear a população não se usem palavras assustadoras ou, muito pelo contrário, se usem palavras fortes para parecer que estão tomando medidas drásticas quando na verdade estão fazendo muito pouco.

Aqui onde eu moro não se pode usar a palavra lockdown. Não fazemos lockdown, fazemos uma “quarentena restrita”. Saia do raio de cinco quarteirões e seja preso. Saiam duas pessoas juntas e seja preso. Saia de carro sem ser prestador de serviço essencial e seja preso, tenha o carro apreendido e leiloado. Mas não é lockdown, ok? É quarentena restrita.

Em compensação, no Rio de Janeiro foi decretado lockdown em diversos bairros e você via baile funk acontecendo, bar lotado, boate funcionando, pessoas lotando a praia. Assim como apenas se matricular em uma academia não te emagrece, apenas decretar lockdown não te protege do coronavírus. Dizer que está em lockdown não significa absolutamente nada.

O nome que se dá à medida é puro marketing. Cada país usa (ou até cria!) o nome que entende ser mais adequado para cada situação. Na real, o que conta são as medidas tomadas: o grau de restrições e como isso é fiscalizado para assegurar seu cumprimento. Não adianta, por exemplo, encher a boca para dizer que está em lockdown e decretar quase tudo como serviço essencial (igreja, salão de beleza, academia…), pois muita gente vai continuar saindo.

Dependendo do país, pode ser que medidas mais brandas já gerem o distanciamento social necessários para reduzir o ritmo dos contágios. Isso varia conforme o grau de consciência de cada povo. O mínimo que se espera de isolamento social eficiente é de, pelo menos 70% das pessoas em casa. Alguns países conseguiram isso com um simples pedido do governo, sem qualquer fiscalização ou punição. Já o Brasil decretou lockdown em muitos lugares e está amargando um isolamento de pouco mais de 50%, ou seja, não será suficiente.

Isso quer dizer que o Brasil está matando a saúde e a economia ao mesmo tempo, por não saber colocar em prática medidas que países bem menos preparados como Índia, Vietnã e até a África estão tirando de letra. Quanto mais demorar a fechar direito (ou seja, pelo menos 70%), mais tempo terão que ficar isolados depois, pois o número de casos aumentará e será necessário mais isolamento e mais tempo de isolamento.

No momento, o Brasil está no escuro: não se sabe ao certo o número de casos nem o número de mortes. Se sabe que o número de casos provavelmente é entre 5 a 7 vezes maior do que o divulgado. Façam as contas. Sobre o número de mortes, olha, eu prefiro não aprofundar, pois não sei como está a cabeça de quem está lendo.

Muito superficialmente, se sabe que o número de mortos está muito subestimado, não apenas na rede pública, mas também na particular, pois morto por covid não recebe seguro. Ninguém morre de coronavírus em hospital particular. Se quiser saber mais sobre mortos e projeções de mortes, dá um pulinho no canal do Átila Iamarino no Youtube, uma das poucas fontes confiáveis, se quiser saber mais.

Também se sabe que está ocorrendo a interiorização do vírus, por causa de gente apavorada fugindo para o interior e disseminando o vírus por lá, o que significa uma grande tragédia, pois cidades do interior não tem leitos de UTI suficientes para lidar com uma pandemia. Quando o número de casos explodir no interior, os hospitais das capitais estarão lotados (muitos já estão) e as pessoas vão ficar sem atendimento.

Então, a situação é bem mais grave do que se imagina. Não sabemos o quanto, mas é mais grave. Se houvesse um governo sério, o país todo entrava em lockdown e só saía em 2021, mas como não há, veremos pipocar ao longo da semana medidas com nomes pitorescos, que as pessoas não saberão dizer o grau de proteção que oferecem. Não duvido que apareça uma “quarentena diferenciada”, uma “quarentena inteligente” ou “quarentena samba-Fuleco”. No Rio de Janeiro chegaram a decretar “lockdown parcial”, tudo é possível.

Leia o decreto que vai impor a medida e observe três pontos: 1) quais estabelecimentos e serviços fecham; 2) quais as sanções que o poder público pode aplicar a empresas e pessoas e 3) como será feita a fiscalização para que as normas sejam cumpridas. Se esses três requisitos não forem muito severos e restritivos, lamento informar, vocês ainda estão perdendo tempo e a “quarentena” de verdade ainda não começou.

Estou de longe, mas saibam que estou torcendo muito, muito mesmo pelo Brasil. Que tudo desabe o quanto antes, para que vocês possam construir algo melhor no lugar.

Para dizer que acha que vão decretar uma “quarentena fest”, para dizer que eu não devo torcer pelo Brasil e sim desejar que o país se ferre pois merece ou ainda para dizer que já não se importa mais: sally@desfavor.com

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Comentários (19)

  • Oi Sally,

    De vez em quando eu passo aqui no desfavor e gostaria de parabenizá-la por permitir que não só que todos surtemos juntos, como surtemos de maneiras contrárias – o que vi ao longo do tempo – sem muita frescura. Gostaria muito de ter podido fazer como você e estar em um local minimamente civilizado. É isto, por hora. :)

    • Obrigada, Laura. A gente joga pro mundo, o resto é com o leitor. É curioso perceber como as pessoas reagem ao desfavor, isso fala muito sobre o que há dentro delas. Há quem usufrua e tente tirar o melhor do que tentamos dar e há quem foque nos defeitos e se deixe inundar pelo lado negativo, pois é isso que a pessoa tem dentro dela.

      Você é uma pessoa feliz, que usa o blog como pessoas felizes o fazem: absorve aquilo que acha bom. Isso depõe mais a favor de você do que do desfavor.

      Se te serve de consolo, tudo vai desabar no Brasil, o que significa que em breve vocês terão algo novo e provavelmente muito melhor.

  • Aqui, quando tivemos alarme falso de dois casos, todo mundo ficou quietinho em casa durante quase um mês. Inventaram de reabrir logo quando os primeiros casos reais chegaram, depois entramos em transmissão comunitária por causa de um único babaca que fez seus funcionários trabalharem sem EPIs e acabou contaminado junto com metade da equipe, além de fazer a prefeitura perder o rastreio do vírus. No finalzinho de abril, tínhamos tido 5 casos leves e zerado o número de suspeitos. Agora estamos em transmissão comunitária, tivemos mais de 60 casos e uma pessoa já morreu. Ainda assim, grandes empresários (que não vão falir se pararem agora), adolescentes babacas e pessoas inconsequentes continuam achando um absurdo ficar em casa, ou achando que o conceito de aglomeração só vale em lugares fechados e que ir andar em bando no mato não vai contaminar ninguém. Se em março achava que seríamos poupados do pior pela reação da minha cidade às fake news, essa ilusão caiu por terra agora. Nunca entenderei um povo que se isolou quase um mês sem reclamar por causa de notícias falsas, mas passou a espernear e furar a quarentena quando entrou em transmissão comunitária e teve o primeiro óbito. Perdi as esperanças de retomar a vida normal antes de ter a vacina.

  • Quarenta no Brasil é ridículo. Eu nunca tinha visto uma Cracolandia, vi no programa do Sikera e fiquei chocado! Um formigueiro humano, praticamente uma cidade de venda de drogas onde todo mundo sabe e polícia não entra. Se abrir loja pra mercadoria na hora vem polícia multar, mas droga pode! Se sair sem respirar gás carbônico toma multa, mas na Cidade do Crack pode! Aqui é caso perdido. Não tem isso que vc falou de reconstruir não! Sem chance!

  • Eu to pagando pra ver o governo ter lá culhões pra decretar um lockdown pesado pra valer! Infelizmente, ao que parece, não vai acontecer. Mas se acontecer o tal do BR vai chiar horrores!

  • Pará decretou lockdown e comemorou que o indice de isolamento ficou em 50%.
    São Paulo inventou N coisas diferentes e não consegue fazer o isolamento passar de 50%; não decretam lockdown por medinho de o povo não cumprir e geral sair desmoralizado, o Doria prefere manter a pose do que dar munição pra usarem na próxima campanha.
    Eu to quase parando de ter dó dos mortos, quando vejo que as pessoas são idiotas e egoistas, mas tem gente que se precaveu e morreu do mesmo jeito…
    Esses dias vi umas fotos de pessoa entubada com a barriga pra baixo, que cena desoladora, assustadora. O ser humano fica totalmente impotente, jogado numa cama de hospital, inconsciente, cagando em fralda! Deviam mostrar isso na tv, imagina no programa da Ana Maria Braga, Fátima Bernardes, Katia Fonseca e outras old fashion influencers. Tem que assustar esse fds pra ver se param de macaquear na rua.
    Sally, fica a sugestão pra um desfavor explica: metodos de entubacão. Ou seria intubacão? Não sei.

  • Pior que agora estão falando da possibilidade de uma “geração perdida” de jovens que não vão conseguir achar um lugar no mercado de trabalho quando isso acabar (acabar?), pra quem acha que ficar trancado olhando pras paredes é ruim, tempos mais dificeis nos aguardam.

    • Vai depender do perfil da pessoa: se for alguém acomodado naquele esquema antigo, linear, de exercer uma única função com horário de trabalho e delegação de tarefas vai passar fome mesmo. Mas se for uma pessoa criativa, adaptável, flexível, inovadora, acredito que tenha um mar de opotunidades.

      • Também pode haver uma precarização, as pessoas vão ter que aceitar qualquer trabalho pesado de baixo salário pra ter algum dinheiro. Muitos vão regredir socialmente.

      • Se for “alguém acomodado naquele esquema antigo, linear, de exercer uma única função com horário de trabalho e delegação de tarefas vai passar fome mesmo”. Ou seja, terá de se humilhar perante o patronato escravocrata e superexplorador e se submeter a um permanente regime de sobreaviso com jornada exaustiva e ganhando uma miséria.

        • O século XXI é um ser completamente diferente do século XIX. Analisar nosso mercado de trabalho com um viés marxista é meio como analisar a revolução industrial com ideais feudalistas… por mais influentes que tenham sido, ideologias caducam. O socialismo atual deveria estar muito mais focado em renda básica universal e a aceitação da mecanização do que com estruturas de poder de burguês e oprimido.

    • Já vi gente falar que se dane se escola não vai mais voltar, perda de tempo estudar se pra ser entregador de delivery que é a “profissão essencial” não precisa diploma.
      Já ouvi também falar um negócio de Renda Básica Universal, mas isso só funcionaria em outros países, porque aqui até o Auxílio Emergencial não sai do “em análise”!

  • A segurança do Brasil é tão boa que eu fui deportada aos 16 anos por quebrar o braço de um moleque da escola numa briga, voltei dois anos depois em 2016 e não deu nada. Nem quando eu fui tirar meus documentos BR no mesmo ano.

    (contexto: mãe BR, pai thai, vim pro Brasil com minha mãe aos 13 anos, mas considerando seriamente voltar pra casa do meu pai quando a Tailândia se reabrir pra voos internacionais…)

      • É sério, não ganharia nada mentindo num blog anônimo.
        Agora imagina se fosse com uma pessoa com corona, com armas ou algo parecido. O Brasil tem fronteiras muito grandes e não muito bem vigiadas…

    • Não dá nem pra culpar a grandeza do território por essa frouxidão. EUA, Rússia e China são maiores e possuem fronteiras bem fechadas. O brasileiro tem preguiça crônica mesmo.

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