Salto de fé.

No começo deste mês, a Coalizão Pelo Evangelho, grupo formado por várias igrejas evangélicas nacionais, lançou um manifesto criticando o endeusamento da ciência no Brasil durante a pandemia de Covid-19. O texto completo pode ser lido nesta notícia. Em resumo, é exatamente o que você esperava: pedindo mais fé e menos isolamento social, além, é claro, de criticar a mídia por dar tanta atenção a médicos, pesquisadores e informações em geral sobre a pandemia.

Não há nada de muito surpreendente: como as igrejas evangélicas dependem de movimento em suas sedes para angariar recursos, afinal, o grosso do dinheiro vem de gente que sequer tem acesso à internet, o isolamento social não os agrada. Sem presença física dos fiéis, os negócios vão mal. E como aparentemente no pacote básico de ter uma igreja evangélica vem uma dose cavalar de arrogância, acreditam que seus diplomas de teologia (quando presentes) os qualificam para tomar decisões de saúde pública.

É o mesmo discurso do Bolsonaro: ataca a imprensa, nega a ciência e quer todo mundo na rua de novo para girar a economia, morra quem morrer. Afinal, ao contrário dos cientistas, eles podem dizer que era a vontade de Deus e se livrar de toda a culpa. Te disseram para apertar o gatilho, mas a bala só saiu por desígnio divino… é impossível estar errado quando você tem esse tipo de mentalidade. Por isso, podem mandar suas ovelhas para o abate e deitar a cabeça no travesseiro de noite sem nenhuma preocupação.

Essa difusão de responsabilidade já se faz presente no discurso da maioria dos negadores da pandemia, que quando não usam o argumento da vontade divina explicitamente, dizem que doenças são fatos da vida e a maioria das pessoas vai contrair o coronavírus em algum momento. A lógica é a mesma: se você se convencer que somos absolutamente incapazes de deter o avanço da doença, não é errado exigir o fim das quarentenas e medidas de segurança. Se você advoga que outras pessoas corram um risco, alivia bastante a consciência acreditar que elas não tinham como se proteger mesmo.

E aí, você pode falar qualquer tipo de barbaridade sem ferir a sua crença interna de ser uma boa pessoa. Você é apenas um realista que adoraria que tivesse como proteger os outros, mas infelizmente sabe que não é possível. Carrega o fardo da sabedoria, pobre alma. Eu posso garantir que 99% das pessoas que são contra medidas de isolamento social tem essa imagem própria. Acreditam que são chamas no meio da escuridão, dizendo a verdade que os outros ignoram. Isso é da natureza humana, com exceção de psicopatas, a maioria de nós sempre tenta se justificar como uma boa pessoa quando faz algo de errado.

Muito por isso que a maioria das discussões entre pessoas com ideologias opostas não vai a lugar algum: com ambos se presumindo o lado do bem, seus adversários só podem ser vilões. As coisas horríveis que um ser humano consegue fazer com o outro costumam ter um verniz de propósito benéfico. Faz algo terrível, mas acredita piamente que é o herói daquela história. E na constante confusão da mente humana, não é nem um pouco difícil misturar desejos egoístas com propósitos altruístas. Você se convence do que o que é melhor para você é melhor para os outros, ou mesmo que não tinha outra escolha.

Por isso, não espere que negadores ou evangélicos em geral mudem de opinião: não custa nada para eles como grupo. Mesmo se começar morrer gente próxima a eles, vão dizer que não tinha como evitar, seja porque acreditam que o vírus é imparável ou porque é seu Deus matando as pessoas por algum plano maior. E mesmo alguns indivíduos que sintam na pele podem acabar não trocando de time: vão preferir sofrer calados a enfrentar as consequências de pensar diferente do grupo. Especialmente no caso dos religiosos, que em suas cabeças realmente acham que estão ameaçando sua alma eterna ao ir contra as palavras do pastor.

E ainda especialmente nesse caso da fé, o crime de lançar um manifesto obscurantista no meio de uma pandemia é perfeito demais para não ser feito. Cada barbaridade escrita ali é mil vezes pior dentro do ambiente seguro da igreja. Podem dizer que não precisa de máscara se tiver fé, podem dizer que só os impuros morrem, podem vender curas milagrosas… dentro da igreja, podem abusar da ignorância e do desespero das pessoas sem repercussões. E se por um acaso a insanidade vazar para fora das paredes do templo para a imprensa, já tinham se preparado para isso: pintam a grande mídia como satânica desde sempre e tem muitos aliados na esfera pública para evitar punições.

E na conjuntura atual, não é de se espantar um ataque direto à ciência. Não que seja novidade no discurso religioso rejeitar o conhecimento científico, mas especialmente em países como o Brasil, com um baixíssimo grau de instrução médio, não é como se tivesse sido muito válido até hoje incutir na cabeça dos fiéis a rejeição aos fatos científicos: a maioria do povo, quando sabe ler, não consegue entender o que leu. O grau de ignorância científica em países muito religiosos como o Brasil é imenso. Inclusive em classes sociais mais abastadas. Não faz parte da cultura tupiniquim se interessar por isso: sua opinião é tão válida quanto décadas de estudos por milhares de cientistas. “É tudo teoria mesmo…”.

Por isso não vemos tanta insanidade pseudocientífica por aqui como vemos, por exemplo, nos Estados Unidos. Por lá, a comunidade cristã gasta bilhões em museus do Criacionismo, lobbies para mudar currículos escolares e todo tipo de alternativa ao conhecimento científico estabelecido. Como por lá o risco de alguém encontrar informações que conflitem com sua fé é muito maior, a ação dos religiosos no sentido oposto é muito maior também. No Brasil, a religião não precisava antagonizar a ciência porque praticamente ninguém se importava com ciência.

Mas, diante da pandemia, algo ficou mais evidente no discurso da imprensa e de algumas autoridades: respeitar a ciência. Não acredito que esse povo todo achou importante valorizar o conhecimento da noite para o dia, e sim que era a posição oposta à do presidente e se tornou conveniente. É o relógio quebrado que está certo duas vezes por dia… seja como for, a quantidade de vezes que a palavra ciência apareceu em reportagens, análises e discursos políticos aumentou exponencialmente em questão de meses. E sempre numa luz positiva: precisamos respeitar a ciência, nossas decisões são baseadas em ciência, a ciência é a forma como vamos vencer essa crise, etc. Eu estava esperando o momento do contra-ataque religioso, e esse manifesto parece ser um dos primeiros tiros.

Lembrando: o que é dito em público é mil vezes mais palatável do que é dito dentro das igrejas. Os pastores devem estar fazendo a caveira dos médicos e pesquisadores quando tem a chance de falar com seus fiéis. Nem é muito meu objetivo neste texto entrar no argumento da existência de um ou mais deuses, mas historicamente temos uma sequência de divindades do desconhecido: seres mágicos que explicam o que o homem não consegue entender sozinho. Quanto mais uma pessoa sabe sobre o funcionamento da realidade ao seu redor, menor o espaço disponível para aceitar fundamentalismo. O sacerdote quer fiéis radicais: sem isso, deixa de ter o poder de controlar para no máximo influenciar.

Ter mais ciência na sua cabeça não significa necessariamente deixar de acreditar em um deus, mas significa ser menos suscetível a acreditar cegamente no que outros te dizem. Ciência não é inimiga da fé, mas é inimiga de quem a explora para ganhos pessoais. Sacerdotes religiosos que lidam com pessoas bem educadas em matéria científica não conseguem ter uma fração da influência que teriam com um completo ignorante. E como eu disse antes, não precisa presumir uma intenção claramente maligna nesses pastores para achar que eles estão incentivando ignorância, de alguma forma eles acreditam que estão fazendo o bem mantendo suas ovelhas sob controle.

Se muita gente fala de ciência, o poder das igrejas começa a ser contestado. Novamente, não estou falando de fé, e sim da estrutura da igreja como negócio. Apesar de falarem sobre endeusamento da ciência, na verdade o que está em jogo são as mecânicas estabelecidas da religião. Isolamento social também significa que muita gente vai ter que pensar, talvez pela primeira vez, que pode rezar de casa. Nos tempos do politeísmo até fazia sentido ir até certo lugar para entrar em contato com uma divindade, mas desde que o monoteísmo virou a norma, os deuses se tornaram realmente onipresentes. Aposto que muita gente nunca tinha pensado que do ponto de vista divino, não faz muita diferença estar de terno na igreja ou de pijama no quarto de casa.

A estratégia de dizer que estão endeusando a ciência é a estratégia de manter o monopólio da presença divina nas sedes das igrejas. O que fica nas entrelinhas é que se você não tiver um bom guia, sua fé vai para o lugar errado. A competição não é entre acreditar em deus ou não, é entre uma fé internalizada e uma indústria bilionária que cobra caro pela salvação. Se você abrir espaço para a ciência na sua cabeça, coloca em risco toda uma estrutura de poder pra lá de mundana.

Ninguém gosta da ideia de ser o vilão. As igrejas responsáveis pelo manifesto com certeza estão misturando o interesse financeiro da reabertura dos seus templos com uma expectativa honesta de estarem salvando almas da corrupção da ciência. O ser humano é um bicho muito complexo: nunca é só uma coisa na mente da pessoa. Se o religioso tem por princípio que seguir um conjunto de regras e rituais é a única forma de evitar ir para o inferno e sofrer eternamente, tem uma motivação verdadeiramente altruísta em tentar afastar todo mundo de caminhos diferentes. E se isso permite que ele compre um carrão com o dízimo oferecido por gente miserável, qual o problema? Entre passar aperto aqui na Terra e ser queimado e torturado pela eternidade, está mais do que justificado.

Só que como os cristãos mesmo dizem: de boas intenções o inferno está cheio. Na prática, o que fazem ao rejeitar a ciência e colocar seus interesses financeiros na frente da saúde pública é criminoso. Quer dizer, deveria ser criminoso, porque pela integração histórica entre poder e religião, se você se disser representante de uma fé popular no país, normalmente consegue escapar de qualquer consequência legal. Igrejas não sonegam impostos porque a lei diz que eles nem precisam pagar. Pastores e padres podem usar discurso de ódio ilegal para a maioria da população. Igrejas podem cometer estelionato vendendo curas milagrosas e no máximo recebem um tapa na mão. E se isso sempre foi um problema na humanidade, estamos vendo algo mais nefasto acontecendo no Brasil atualmente: os evangélicos estão se tornando uma máfia.

Estão cada vez mais infiltrados no poder público, já conseguiram até a presidência. Inúmeros vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, juízes de todas as instâncias… todos eleitos pela promessa de promover os valores cristãos, mas bem mais seletivos com o significado disso na hora de exercer os mandatos. Até porque quase todos os valores cristãos já fazem parte da Constituição. Aquele hippie da Judeia era doido por essas coisas de Direitos Humanos, sabe como é. E, meio complicado dizer que vai deixar um país que já é 96% cristão mais… cristão. Normal que as pessoas votem em quem acreditam partilhar dos mesmos valores, mas na prática não é como tivéssemos alguma falta de representatividade dessa religião na esfera pública brasileira.

Quer dizer, a não ser que você olhe para isso pelo ângulo de algumas igrejas específicas. Se nós estamos falando de interesses específicos de algumas pessoas alçadas às classe sociais mais elevadas pela criação de igrejas evangélicas de sucesso, aí sim faz sentido buscar mais representatividade “cristã”. Quanto maior a sua empresa, maior o interesse e a capacidade de influenciar o Estado. O que vemos hoje em dia são megacorporações disfarçadas de igrejas fazendo lobby para proteger seus negócios. Nada de novo no fronte: a igreja católica sempre foi muito eficiente em influenciar reis e presidentes. Mas nunca foi pela fé.

É pelo negócio. Com algumas pequenas mudanças de mentalidade da população média, a estrutura de captação de dinheiro das igrejas é impactada seriamente. O crescimento dos evangélicos tirou dinheiro e poder dos católicos. O deus de ambos é o mesmo, mas para onde vai o dízimo… a invasão evangélica no Brasil acontece muito mais pelas empresas que podem ser criadas com a dilapidação do monopólio católico do que propriamente pelas crenças da população. O modelo de negócios evangélico se provou mais eficiente.

E se não houver resistência séria contra o avanço dos interesses financeiros e projetos de poder disfarçados de defesa da fé dessas igrejas, podemos esperar um processo cada vez maior de resistência à ciência e obscurantismo em geral: Deus não tem medo da ciência (e vice-versa), mas quem cobra para falar com Ele se borra. Eu nunca pensei que fosse falar isso, mas nesse momento nem é a religião deles que me preocupa, e sim a forma como querem proteger suas empresas. Não existe avanço humano se as pessoas com poder dependem da ignorância do povo.

Manifestos como esse nada tem a ver com fé, e sim com dinheiro. Essa gente pode se enganar quanto quiser, mas não pode nos enganar junto: tem uma máfia se instalando no Brasil. E assim que eles tiverem a oportunidade, vão bater na sua porta e cobrar para que “nenhum acidente aconteça”. Donos de igrejas e políticos evangélicos estão nessa para tomar o poder para eles, não para seu deus. Eu sei que é virtualmente impossível no deserto intelectual que é o Brasil, mas eles deveriam ser tratados como uma quadrilha de estelionatários que podem se tornar muito mais perigosos.

Para manter o pobre coitado vestindo um terno surrado no sábado à noite em suas igrejas, essa gente vai fazer qualquer barbaridade para evitar o avanço da nossa sociedade. O evangélico médio é só uma pessoa qualquer, mas os donos de igrejas e os políticos comprados por eles são uma ameaça terrível a todos nós. E ainda são do pior tipo: tem a certeza que no fundo, estão fazendo uma coisa boa.

Para me chamar de alarmista, para dizer que eu tenho fé na ciência, ou mesmo para falar que entendeu o recado: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Nem precisava tanto, igreja nunca para. O prefeito pastor do RJ dá uma de Tranca Rua só pra comércio, mas faz vista grossa quando fazem culto cheio de aglomeração nas igrejas dele.

    • O Prefeito do Rio mandou instalar um tomógrafo comprado para um hospital público dentro de uma Igreja Universal. Tem como ser mais grotesco?

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    Wellington Alves

    Saibam que esse grupo não fala em nome de todas as igrejas evangélicas. Eu sequer tinha conhecimento desse manifesto.
    Minha igreja suspendeu os cultos desde o início e vem Mantendo o relacionamento on-line na medida do possível. Sequer existe a hipótese de anteciparmos O fim dessa quarentena para nos reunirmos.
    Infelizmente existem supostos pastores que visam simplesmente vantagens financeiras e queimam o filme das igrejas sérias. Acreditem, eles são uma minoria irrisória. Mas Fazem muito barulho e chamam mais a atenção.

    • Até por isso o cuidado de separar as coisas. O modelo protestante, especialmente o que se popularizou no Brasil, é focado em livre iniciativa. As franquias mais populares por aqui são relativamente novas, em comparação com o antigo protestantismo europeu e norte-americano, cada um faz o que quer e como estamos vendo, quem faz mais barulho tem vantagens em captação de fiéis e por consequência, arrecadação. É um ciclo vicioso.

      O mercado está moldando os líderes evangélicos brasileiros. O barulho não pode ser ignorado: tem gente transformando sua religião numa máfia. Essa gente reza para qualquer coisa que as ajude a conquistar poder e dinheiro. O Brasil precisa de um movimento protestante dentro do protestantismo contra essa corja, senão na hora que vocês menos perceberem, serão cúmplices das coisas menos cristãs imagináveis. Sapo na panela…

      Eu que estou de fora só posso apontar o desastre acontecendo e pensar como botar um freio nisso.

  • Sou team ciência, só pra esclarecer, mas não entendi uma coisa: a ciência não é justamente caracterizada pela sua possibilidade de ser questionada? O que impede um cara de jaleco se aproveitar da ignorância do cidadão médio e agir da mesma forma manipuladora/mentirosa que um cara de batina? (Em tese, ambos possuem suas respectivas éticas, mas sabemos que não é sempre aplicada na prática). Assim como a maioria das pessoas nunca leu direito uma bíblia, a maioria das pessoas também não costuma passar muito tempo lendo artigos científicos.

    • A ciência não é subjetiva como a fé. A ciência é transparente, requer publicação de estudos, experimentos, para que todos aqueles que entendem do assunto possam ter acesso e refutar, se for o caso. A ciência trabalha com provas. É isso que impede que uma pessoa qualquer fique refém de um médico: tem transparência, tem muita gente fiscalizando.

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